Cultura

Cantora Djuena Tikuna lançará o primeiro CD e quer índios na plateia do Teatro Amazonas

Manaus, AM 06/07/2017 - A cantora Djuena Tikuna lançou campanha de financiamento coletivo pela internet para produzir um show no Teatro Amazonas. (Foto Alberto César Araújo/Amazônia Real)
07/07/2017 23:37

 A artista faz um financiamento coletivo na internet pedindo doações para pagar o transporte dos indígenas de 30 etnias diferentes (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

 

Djuena Tikuna é a primeira cantora e compositora indígena da Amazônia que desponta no cenário nacional cantando na língua do seu povo autodenominado Magüta. Ela já se apresentou em diversos shows em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Recentemente, participou da campanha musical “Demarcação Já”, ao lado de estrelas da MPB como Chico César, Gilberto Gil, Maria Betânia e Ney Matogrosso. 

Djuena Tikuna, cujo nome significa “a onça que pula no rio”, nasceu na Terra Indigena Tikuna Umariaçu, município de Tabatinga, no Amazonas, região do Alto Rio Solimões, na fronteira entre o Brasil, Colômbia e Peru. Ela é autora de mais de 20 composições. As letras falam da resistência cultural, da identidade indígena, dos rituais e das ameaças aos direitos indígenas. “É preciso fazer frente a essas ameaças. Por que, quem poderá lutar por nós, se não formos nós mesmos?”, diz.

Mãe de dois filhos: Thiago Dematükü Tikuna, 12, e Totchimaücü Janatã Tikuna, 2; e prestes a se formar em jornalismo, ela vai lançar o seu primeiro CD em um show no centenário Teatro Amazonas, no dia 23 de agosto, em Manaus. O espetáculo terá direção da própria Djuena em parceria com o diretor de teatro Nonato Tavares, da Companhia Vitória Régia. No palco, a artista será acompanhada do marido, o músico Diego Janatã, além de diversos convidados, entre eles, a cantora Marlui Miranda.

Na plateia, Djuena Tikuna quer ter a presença de ao menos 250 parentes, que são indígenas de 30 etnias diferentes, entre eles, Sateré-Mawé, Kokama, Apurinã, Baré, Mura, Waimiri Atroari de, Kokama, Karapano e Tikuna. Para custear o transporte deles até o Teatro Amazonas, a artista está fazendo um crowdfunding, o financiamento coletivo no site da internet, pedindo doações de R$ 20,00 a R$ 3.000,00 para arcar com as despesas de aluguel de vans e ônibus. Em troca do apoio, os doadores receberão recompensas como partituras das músicas indígenas escritas por Djuena, um CD autografado, ingressos para o show, fotos em alta resolução, entre outras. “Quero trazê-los para celebrar essa conquista que não é só minha.” Leia abaixo a entrevista exclusiva concedida por Djuena Tikuna à Amazônia Real.

A cantora Djuena Tikuna lançou campanha de financiamento coletivo pela internet para produzir um show no Teatro Amazonas. (Foto Alberto César Araújo/Amazônia Real)

A cantora Djuena Tikuna lançou campanha de financiamento coletivo pela internet para produzir um show no Teatro Amazonas. (Foto Alberto César Araújo/Amazônia Real)

 

Amazônia Real – Quando você começou a compor e a cantar?

Djuena Tikuna – Comecei a cantar cedo, ouvindo as cantorias da minha mãe. Ela é cantora do tradicional grupo Wotchimaücü, minha maior influência na música. Mas compor profissionalmente foi aos 19 anos, quando comecei a cantar em grupo com meus irmãos, em princípio nos eventos da comunidade, em seguida na extinta feira Puka’ar, que acontecia na Praça da Saudade no centro de Manaus. Mas o povo Magüta, que é a autodenominação do povo Tikuna, gosta de cantar, canta muito, o tempo todo. Tem cantoria para fazer tudo. Botar roça, pescar, botar criança pra dormir, cantoria de ritual, nosso canto é sagrado: Wiyae utü’û!

 

Amazônia Real – Os seus pais lhe apoiaram como artista?

Djuena – Meus pais sempre me apoiaram. Acho que música para o indígena é diferente. Não é uma escolha ou um caminho que se segue. Ela já nasce com a gente.  

 

Amazônia Real – Por que sua família deixou a aldeia para morar em Manaus? O que esse deslocamento provocou em sua vida?

Djuena – Manaus é a metrópole amazônica do mundo. Os Tikuna tinham que estar aqui também. A realidade da minha família é semelhante a de vários povos indígenas em situação urbana. No geral, os parentes vêm para capital atrás de melhores condições de vida, atendimento na saúde e educação. Hoje acredito que qualidade de vida está na aldeia, nas barrancas do Solimões, nos lagos do Eware (lugar sagrado do povo Tikuna). No fundo, fico um pouco magoada com esse deslocamento, que só me afastou da minha cultura enquanto criança. Mas hoje, na cidade, os Tikuna provam que é possível manter a cultura, e já realizam o Worecü, que é o Ritual da Moça Nova, nossa maior manifestação de identidade. É claro que, mesmo aqui, precisamos da Terra. Nosso território nos fortalece culturalmente.

 

Amazônia RealNo início de sua carreira suas músicas tinham letras e postura politizadas? Como foi esse processo de engajamento e defesa dos direitos indígenas?

DjuenaMinhas letras sempre foram politizadas. Não são panfletárias, mas sempre falei da resistência cultural, de mantermos nossa identidade, nosso compromisso pela aldeia, a importância do nosso ritual, os ensinamentos do nosso povo. Talvez eu tenha tornado o meu discurso mais politizado com o passar do tempo, e a cantoria forjou isso. A gente vai amadurecendo e entende que a questão indígena é mais do que a arte pela arte. 

A cantora indígena Djuena Tikuna em show em São Paulo (Foto: Diego Janatã/Divulgação)

A cantora indígena Djuena Tikuna em show em São Paulo (Foto: Diego Janatã/Divulgação)

 

Amazônia Real – Quais os movimentos sociais e artísticos que você participa atualmente?

Djuena Estou sempre disponível para contribuir com as atividades do movimento indígena. Mas estou aberta sempre para o diálogo com outros movimentos. Aqui em Manaus tem uma galera muito boa discutindo e promovendo cultura, como o Coletivo Difusão e a Companhia Vitória Régia, por exemplo.

 

Amazônia Real – Suas canções, as letras são cantadas na língua Tikuna, como o público interage? Como você traduz as letras?

DjuenaAs pessoas falam que sentem uma sensação boa quando ouvem a nossa música. Talvez o mais importante que entender, é sentir. Eu não traduzo as letras. Eu penso, sinto e escrevo em Tikuna.

 

Amazônia Real – E no meio artístico do Amazonas como você foi recebida pelos “não indígenas”?

Djuena – Eu não sei como definir isso, ainda estou construindo essa relação. Mas a maioria com quem tenho me relacionado me trata muito bem, de igual. São as mesmas dificuldades para todos. Tenho feito boas amizades. Os artistas, em especial, são bem mais sensíveis e antenados com a causa indígena, ou deveriam ser.

 

Amazônia Real – Com quase dez anos de carreira artística, como é divulgar a causa dos povos indígenas fora da Amazônia?

DjuenaPor onde a gente tem passado o público tem aceitado bastante. As pessoas gostam da sonoridade dos instrumentos orgânicos que fazemos. Valorizam muito as coisas da Amazônia, mas é importante valorizar as pessoas também. A gente vai quebrando com os paradigmas do exótico, do bom selvagem. Índio não quer apito, índio quer é a demarcação de suas terras, o respeito ao seu modo de vida, a sua cultura, uma educação diferenciada e de qualidade.

 

Amazônia Real – Como avalia este movimento de protagonismo indígena na música brasileira com o surgimento de bandas como Brô MC´s, dos Guarani Kaiowá? 

Djuena – Eu acho muito importante e necessário. Os Brô cantaram no mesmo evento que a gente, ano passado em Brasília, no Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena. Nós somos só a ponta do cipó, tem muito artista indígena que um dia vai vir por aí cantando, tocando, declamando, emocionando, mostrando os cocares da nossa diversidade artística. Não sei se vai agradar a indústria cultural, espero que não. Mas é preciso dar voz a esse protagonismo. Inciativas louváveis estão sendo criadas por nós indígenas, como o caso do Estúdio de Gravação de Músicas Indígenas, proposto pelo meu parente Denilson Baniwa (integrante da Rádio Yandê, mantido apenas por indígenas). Está rolando inclusive uma campanha na internet para apoiar o projeto.

 

Amazônia Real – Como é sua relação com o áudio visual? Você está se formando em jornalismo, tem a intenção e projetos para trabalhar com a Comunicação?

Djuena – Estou concluindo agora a faculdade de jornalismo. Depois do lançamento do CD, vou para o Alto Solimões gravar um documentário sobre os Cantos Tikuna para o meu trabalho de conclusão de curso. Estou trabalhando em alguns roteiros para desenvolver um canal de reportagens com as lideranças culturais indígenas em todo país. Essa ideia vai sair do papel em breve. 

 

 

Amazônia Real – Em 2017 você participou da produção musical “Demarcação Já”. Como foi gravar ao lado de estrelas da MPB como Ney Mato Grosso, Chico César, Maria Betânia e Gil Gilberto?

Djuena – O trabalho todo foi muito importante. Especialmente pela causa que é urgente. Fiquei feliz em saber que essas pessoas influentes apoiam a causa indígena. Eu cantei com a Marlui Miranda e o Diego Janatã (músico e marido de Djuena) fez a percussão e as flautas. Fizemos boas parcerias, inclusive com o produtor musical Apolo9 que gostou muito do nosso trabalho. Estou trabalhando na tradução para o Tikuna do poema “Agora” do Arnaldo Antunes, cantado pela Maria Betânia e de “Sangue Latino”, do Ney Matogrosso. Vou filmar e mandar pra eles e vou convidá-los para apoiarem a minha campanha de financiamento coletivo.

 

Amazônia Real – Em uma de suas composições você canta “somos os filhos dessa terra. A floresta é nossa. Nós somos a floresta.” Fica difícil defender os direitos indígenas diante da morosidade das demarcações e das ameaças que surgem do próprio Congresso Nacional?

Djuena – É preciso fazer frente a essas ameaças. Porque, quem poderá lutar por nós, se não formos nós mesmos? O movimento indígena está atuante e ligado nessas violações de direitos que a bancada BBB (do Boi, da Bala e da Bíblia) vai promovendo contra nós no congresso. A APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) está à frente dessa resistência, e caminhamos juntos. Espero que minha cantoria possa fazer parte da trilha sonora da luta dos meus parentes.

 

Amazônia Real – Qual é a sua opinião sobre políticos como Michel Temer, presidente do Brasil, e senador Romero Jucá, que comanda a bancada ruralista no Congresso?

Djuena – Acho que o tempo desses tiranos já foi. Temer é um golpista, e toda essa corja do agronegócio não representa o povo, muito menos os povos indígenas. Meu voto é de Sonia Guajajara para presidente em 2018.

 

Amazônia Real – Como surgiu a ideia de fazer o show no Teatro Amazonas?

Djuena – Por se tratar de um local histórico, um importante marco cultural do nosso Estado. Como também é majestosa a cultura dos povos indígenas e nossa história de resistência cultural. É um palco a altura dos artistas indígenas que são a base esquecida da cultura amazonense.

 

Amazônia Real – O que significa cantar no palco centenário?

Djuena – Já cantei algumas vezes, meia dúzia talvez. Mas sempre como convidada, uma participação especial. Dessa vez não. Vai ser um evento indígena e não é só meu, mas de todos os parentes, pois todos fazem parte dessa conquista. O lançamento do meu CD é só uma desculpa para fazer uma celebração um ritual de união entre os povos. Poder oferecer o palco do Teatro Amazonas, esse patrimônio cultural do país, é um presente que dou para aquela “indiazinha” que veio do Alto Solimões para Manaus há mais de 20 anos e não tinha nem sapato para descer do barco. Chegando na escola foi hostilizada pela professora por não saber falar português, e que hoje, cantando na língua dos seus ancestrais, se faz ouvir em todo canto.

 

 

Amazônia Real – No financiamento coletivo você pede dinheiro para trazer o maior número possível de indígenas para o seu show no Teatro Amazonas, em Manaus. Por que?

Djuena – Quero trazê-los para celebrar essa conquista que não é só minha, quero comemorar com meus parentes esse momento especial. Meu canto não me pertence, vem do tempo dos ancestrais, minha voz é só um caminho que deixo para os que virão. Eu canto por eles, pra eles, com eles.

 

Amazônia Real – Quem são os indígenas convidados?

Djuena – Quero trazer representantes de todas as comunidades de Manaus e de cidades próximas da capital. Estou seguindo hoje (07/07), para aldeia Jabuti, do povo Mura, no Careiro da Várzea (AM) para fazer o convite. Também quero ir convidar os Waimiri Atroari.  Já convidei os Sateré Mawé, da comunidade Sahu Apé, que vão apresentar o Ritual da Tucandeira. Os Dessano e Tukano vão apresentar o Dabakuri. Os Tikuna vão fazer o Worecü: Ritual da Moça Nova. Também convidei alguns parentes de outras partes da Amazônia, como meu parente Akari Waura, do Xingu. Queria muito trazer a Cintia Guajajara. Também estou articulando a vinda da Sonia Guajajara, do Davi Yanomami e do Raoni Kayapó, mas sei que é mais complicado. Preciso de parceiros para sonhar isso comigo. Por isso é importante essa campanha de financiamento coletivo que estou fazendo.

 

Amazônia Real – Onde Djuena quer chegar com sua música em defesa dos povos da floresta?

Djuena – Quero chegar no Eware, no lugar sagrado onde o povo Magüta foi pescado por Yo’i.

 

Conheça a música MAIYUGÜ WÜIGUÜ (SOMOS PARENTES)

Composição: Djuena Tikuna

 

RÜ WÜITUMÜ I DUÜῧGÜ RÜ WÜIWANAἶ

Todos os povos se unirão

RÜ WÜITUMÜ I MAIYUGÜ RÜ WÜIWANAἶ

Todos os índios se unirão

NGEMACA I TOMAGÜ AÜRIMANI TA TAEẼGÜ

E nós estamos felizes por essa união

AÜRIMANI TA TAEẼGÜ I NHAMA I NGUNEἶGU

Muita felicidade agora

PA TCHAUENEEGÜ,PATCHAUEYAGÜ

Meu irmão, minha irmã

NGIᾶ WÜI TA I NGUTAKEEGÜ

Vamos nos unir para juntos lutarmos

HEI,HEI,HEI,HEI,HEI,HEI, ÊÊÊÊÊ

RÜ YIGÜMEEGU TI YAUATCHIGÜ PA TCHAUENEEGÜ

Vamos segurar as mãos juntos irmãos

RÜ YIGÜMEEGU TI YAUATCHIGÜ PA TCHAUEYAGÜ

Vamos segurar as mãos juntas irmãs

NACA I TA DAUGÜ I NGEMA TORÜ PORAÜ

Vamos nos unir para juntos lutarmos

NACA I TA DAUGÜ I NGEMA TORÜ PORAGÜ

Juntos vamos lutar por essa união

 

 

O que é?

Show de Djuena Tikuna no Teatro Amazonas

Direção: Djuena Nonato Tavares, da Cia Vitória Régia.

Convidados: Marlui Miranda, Mestre Eliberto Barroncas e Anton Carballo

Dia: 23 de agosto, às 20h

Local: Teatro Amazonas

 

Apoie o financiamento doando aqui

Contatos: djuenatikuna@gmail.com

(92) 99475-8861 / 99517-1313

A cantora Djuena Tikuna lançou campanha de financiamento coletivo pela internet para produzir um show no Teatro Amazonas (Foto Alberto César Araújo/Amazônia Real)

A cantora Djuena Tikuna lançou campanha de financiamento coletivo pela internet para produzir um show no Teatro Amazonas (Foto Alberto César Araújo/Amazônia Real)

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