A Amazônia segundo Lúcio Flávio Pinto

Chacinas de Belém: o papel da polícia

19/06/2017 17:45

Quatro chacinas aconteceram em Belém do Pará neste ano, com 46 mortes. A última foi no dia 6, com cinco mortos e 14 feridos. Uma semana depois, sem qualquer pista concreta, ao menos que tivesse tornado pública, a polícia estaria trabalhando com duas hipóteses: desentendimento pessoal ou briga entre traficantes de drogas.

Contra essa linha de investigação foi posta em questão quando o portal do jornal O Estado do Tapajós, de Santarém, divulgou a existência de um vídeo com 2 minutos e 34 segundos de duração, revelado que as execuções foram bem planejadas e contaram com a cobertura de seguranças, bloqueio da rua e deslocamento de viaturas da PM que deveriam estar de prontidão naquele bairro da periferia de Belém.

Segundo o editor do jornal, Miguel Oliveira, que teve acesso ao documento, “no vídeo, um carro preto encosta no meio-fio, dele descem três homens encapuzados já abrindo fogo contra pessoas que se encontravam sentadas ao redor de mesas colocadas sobre a calçada. Os disparos se sucedem, pessoas tombam, outras correm e se atiram no chão. Neste momento, dois homens a pé, vindos do outro lado da rua, se aproximam do veículo, montando retaguarda. Os disparos continuam”.

Relata ainda a reportagem que, na sequência, “chega um segundo carro que provavelmente foi usado no bloqueio da rua. Atiradores, homens vestindo roupa preta e encapuzados, ocultando os rostos, talvez por serem conhecidos na área, embarcam em seu porta-malas. Os seguranças continuam rondando o local. Um terceiro veículo se aproxima. Após 2 minutos e 15 segundos do início das execuções, os veículos deixam o local em arrancada. Os seguranças desaparecem do alcance da câmera que filmou a matança”.

A fonte que exibiu para a reportagem do jornal as imagens da matança, sob condição de anonimato, acrescentou outra informação explosiva: “As duas viaturas da PM que deveriam estar estacionadas às proximidades daquela área deixaram seus locais de estacionamento minutos antes das execuções. Segundo a fonte, a Policia Civil já dispõe das informações do GPS das viaturas para comprovar a movimentação dos veículos naquela noite”.

Informou ainda a fonte que “já foram mapeadas a atuação de, pelo menos, três grupos de extermínio formados por policiais militares que atuam na grande Belém, com divisão de área de ação e motivação para execuções de suspeitos de cometerem crimes ou em retaliação à morte de PMs, em confronto ou não”.

A fonte assegurou o empenho do governo para “acabar com essas execuções promovidas por agentes do estado, sob pena que nós mesmos sejamos os próximos alvos”. Para o jornalista, a declaração revela “a tensão que reina entre os membros da cúpula da segurança pública do estado do Pará”.

A reportagem garante que a polícia civil “não tem mais dúvidas que a matança do dia 6 de junho, no bairro da Condor, em Belém, foi executada por policiais militares, mas as investigações ainda não encontram respaldo do comando da PM, que reluta em admitir que as mortes de cinco pessoas e ferimentos em outras tenham sido executadas por integrantes da tropa”.

Depois de ver as imagens, o governador Simão Jatene teria recomendado ao comandante da Polícia Militar, coronel Hilton Benigno de Souza, “que dê uma resposta rápida à sociedade sob pena do estado perder o comando sobre a tropa, se efetivamente a autoria da chacina tiver a participação de policiais militares”.

O vídeo desautoriza as duas hipóteses informalmente apresentadas pela secretaria de segurança para a nova matança. A primeira, de desentendimento pessoal, é inverossímil, ainda que não de todo impossível. A segunda, atribuindo a autoria a traficantes, se tornou um lugar comum. Não só em Belém: em quase todo Brasil. Sem dúvida, tem um componente de verdade inquestionável. Mas a ser inteiramente verdadeira, faz do Brasil o maior consumidor de drogas do mundo. Ou, pelo menos, onde mais é mais forte a presença da droga. É o posta restante da delinquência, um costado suficientemente largo para carregar todos os tipos de crimes.

As características da matança do dia 6 chegam a ser desconcertantes. Foi uma ação planejada. Quem a concebeu ou dela participou sabia que aquele determinado grupo de amigos se reuniria naquele bar específico, no bairro da Condor, para assistir pela televisão o jogo do Paissandu. Esse era o alvo. O principal – ou único – seria Ricardo Botelho, mestre de bateria de uma escola de samba da capital paraense, o Rancho Não Posso Me Amofiná.

Ele era a mais notória das pessoas assassinadas, o que fortalece essa interpretação. Mas por que matar e ferir tanta gente? As testemunhas dizem que foram muitos os tiros (80, num cálculo aleatório), saídos de diferentes tipos de armas (metralhadora, escopeta e revólver, em outra informação anônima). A logística da operação foi profissional: pelo menos oito homens em três carros, um dos quais foi até o bar, enquanto os outros bloqueavam o acesso ao local. Todos os homens vestindo roupa preta e encapuzados, ocultando os rostos, talvez por serem conhecidos na área, e calçando coturnos.

Se o propósito era o de matar o sambista, os atacantes não se sentiram satisfeitos em apenas matá-lo e aos seus acompanhantes. Testemunhas dizem ter ouvido a ordem de matar todos que ali se encontravam. Alguns escaparam se fingindo de mortos. Outros conseguiram fugir correndo. A artilharia passou a ser indiscriminada. Durou o tempo que os assassinos consideraram ser suficiente para garantir a fuga.

Tudo tão bem planejado que, uma semana depois, a polícia nada tinha a oferecer à assustada população de Belém do Pará um desempenho minimamente proporcional à gravidade do crime, com vítimas em número equivalente ao do último atentado terrorista em Londres, que se tornou o fator principal de eventual surpresa na eleição de hoje na Inglaterra e será o tema dominante na agenda dos próximos dias dos britânicos.

No Pará, o terror é cotidiano, não identificado e não aparece no horizonte dos paraenses, que caminham insensíveis e insensatos para um futuro terrível.

 

A fotografia  que ilustra esse artigo é de uma operação policial em Belém (Foto: MídiaNinja)

 

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Leia mais aqui. Veja outros artigos do autor.

Notícias relacionadas

Deixe seu comentário

Leitores e leitoras, seus comentários são importantes para o debate livre e democrático sobre os temas publicados na agência Amazônia Real. Comunicamos, contudo, que as opiniões são de responsabilidade de vocês. Há moderação e não serão aprovados comentários com links externos ao site, ofensas pessoais, preconceituosas e racistas. Agradecemos.

Translate »