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Como o Brasil seria visto sem a Amazônia?

População indígena que vive no entorno da BR 319 (Foto: Nelson Luiz Wendel)
08/03/2017 22:52

O papel que a Amazônia desempenha, isoladamente e de forma difusa, na política externa brasileira em fóruns ambientais globais é mais importante do que se poderia pensar em um primeiro momento. E isso tem uma razão de ser. De acordo com os dados sistematizados pelo professor e pesquisador da Universidade Estadual de Campinas Thomas Lewinsohn, o Brasil possui cerca de 13,1% de toda biodiversidade do mundo.          

Por esse motivo, o Brasil se apresenta como o G-1 da biodiversidade em fóruns multilaterais como nas Conferências das Partes (COP), órgão supremo decisório no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica. Essa sigla faz referência ao G-8, o grupo que reúne os países mais ricos do mundo. Ao valorizar dessa forma a posição que ocupa, o país tem mais acesso recursos oriundos da cooperação internacional e de doações voltadas para iniciativas de conservação da biodiversidade.

Da mesma forma, as políticas públicas implementadas internamente são objeto de interesse de todos os principais atores institucionais e sociais preocupados com a questão ambiental.

A tabela abaixo mostra a diferença do tamanho das florestas tropicais por país. Esses números dão uma dimensão da importância das florestas brasileiras e em particular da amazônica, em comparação com a de outros países.

tabela 1 coluna potiara

 

A segunda grande floresta tropical brasileira, a Mata Atlântica, possui 7,0% de seu território original remanescente. Sendo que uma parte relevante está protegida pelo seu difícil acesso, como em regiões montanhosas no estado do Rio de Janeiro. Esse processo de desmatamento continua. O argumento de que a perda das áreas com cobertura original de florestas está correlacionada com a expansão econômica já deixou de ser válido há tempos. Isso de fato ocorreu no continente europeu por exemplo, que chegou a ter em algumas regiões menos de 5,0% de sua cobertura vegetal original. Mas desde os anos 1990, se viu um crescimento de 10% ao ano. O que fez com atualmente cerca de 30% de seu território seja de florestado, com espécies nativas. Ou seja, houveram iniciativas importantes para reverter a realidade anterior.

Mas o que ocorreu com a Mata Atlântica não é um fato único. No universo complexo dos países com florestas tropicais, que possuem diferentes dinâmicas econômicas e sociais, temos alguns que são inclusive conhecidos como párias ambientais. Dentre eles a Indonésia e a Malásia, que estão substituindo suas matas originais por plantações de dendê a uma velocidade preocupante. O que nos permite discutir sobre como o Brasil seria visto sem a Amazônia.

O caso é que vemos um problema sistêmico no Brasil com relação às questões ambientais, que não se coaduna com a posição que ocupa diante de outros países. O Cerrado, por exemplo, é a savana mais biodiversa do mundo, ficando à frente das africanas que são as mais conhecidas. Hoje, apenas cerca de 34% do Cerrado ainda está conservado. Muitas dessas áreas são fragmentos isolados e há poucas unidades de conservação. Mas o indicador mais preocupante é o ritmo de sua derrubada, que já chegou a 2% ao ano, para o plantio de soja em regime de monocultivo. E o financiamento pela carteira para a agricultura do governo federal é um dos principais instrumentos para a conversão desse bioma.

tabela 2 coluna potiara

Nesse contexto, temos uma situação em que o Brasil se assemelha, infelizmente, com países considerados vilões ambientais. E a Amazônia, dada sua dimensão, acaba servindo como um biombo que esconde a rapidez da degradação ambiental de outras regiões brasileiras. E em realidade, caso a Amazônia fosse um país, ela seria o G-1 da biodiversidade.

A questão não é de regionalismo. Mas sim de lembrar mais uma vez que os principais e mais brutais vetores de transformação da Amazônia são oriundos de estados ao sul de Mato Grosso e de Goiás. E isso é fruto de uma tradição de políticas públicas deliberadas. E não há nas instituições que produzem essas políticas profissionais sérios oriundos da região, ou que adotem de forma condizente a perspectiva das pessoas locais informadas, que constituem sua opinião pública legítima. Ao contrário, e isso é uma punição coletiva, são os/as venais, que representam na região os principais vetores do desmatamento, que são aqueles celebrados pelo Brasil.

 

A fotografia que ilustra esse artigo é de autoria de Nelson Luiz Wendel. 

 

Carlos Potiara Castro é jornalista e cientista político, doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professor do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da Universidade de Brasília (UnB).

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