Cultura

Como podemos perceber os valores das culturas indígenas contemporâneas?

Povos indígenas do rio negro. (Foto: Ray Baniwa/Foirn)
28/09/2016 14:27

JUSTINO SARMENTO REZENDE

Ao dizer culturas indígenas contemporâneas eu não estou criando uma ruptura com as histórias do passado, mas propondo entender como cada povo vive as culturas nos tempos atuais fundamentando-se nos conhecimentos construídos no passado.

Quais são os conhecimentos que fundamentam suas vidas?

São os benzimentos de prevenção e de curas. São as crenças nas forças protetoras e destrutivas das divindades. São diversos modos de conduzir suas vidas de acordo com as exigências de cada momento da vida: jejuns e dietas alimentares antes, durante e pós-cerimoniais; após o nascimento de uma nova pessoa. Respeito pelos diversos ciclos da vida humana até a morte. Valorização de narrativas de histórias sagradas (Mitos), do surgimento da humanidade, realizam festas com ritos e cerimoniais, danças e cantos relacionados com os ciclos de festas, que seguem os ciclos da vida humana e da natureza. Valorizam a organização social construída por seus avós.

 

Como interagem os valores das culturas indígenas com os valores da cultura cristã?

A região do rio Negro é habitada por diversos povos, por isso, possuem modos próprios de construir a vida, modos próprios de manejo do mundo, das florestas, rios, igarapés e outros seres vivos. Também entre os povos chegou o cristianismo cristão católico e protestantismo (hoje mais conhecido como “evangélico”).

Há encontro de teologias indígenas e teologias cristãs, filosofias indígenas e cristãs. O encontro das “gias” e “fias” contribuem para a construção das vidas indígenas com novas perspectivas, novas esperanças, novas crenças, etc.

A convivência entre cristãos católicos e evangélicos nem sempre é pacífica, geram conflitos entre as pessoas de um mesmo povo indígena. Sem dúvida uma quer ser mais “certa” do que a outra. Há pouco respeito pela diferença cultural e religiosa. Nas últimas décadas há uma “invasão” de igrejas evangélicas nas cidades do rio Negro. Muitos que eram católicos passam para as igrejas evangélicas de diferentes denominações. Também são novas realidades que mexem com nossas culturas indígenas e as pessoas fazem suas escolhas.

 

Os povos indígenas atuais vivem os valores de sua educação “tradicional”?

Utilizo o conceito “tradicional” para contrapor à educação mais recente com outros valores, outros conhecimentos e outras práticas culturais.

Eu vejo que as famílias vivem com profundidade o amor à família, ao esposo, esposa e aos filhos. Claro, que há casos de separação, com tendência de aumentar influenciadas por novos problemas, como exagero de bebidas alcoólicas. Existem outras motivações e compreensões sobre o sentido do casamento que os leva à separação dos primeiros casamentos.

Valorizam a vida comunitária que envolve a realização de trabalhos familiares e comunitários. Reconhecimento e valorização pelas lideranças tradicionais e novas que organizam o funcionamento da vida comunitária, entre o cotidiano, eventos, encontros, assembleias e festas. Essas realidades exigem capacidade de articulação das forças humanas. As pessoas dão grande valor para as visitas aos parentes e à comunidades. Nessa dinâmica aparece a solidariedade das pessoas, hospitalidade e festividade na acolhida e despedida.

 

A fotografia que ilustra este artigo é de Ray Baniwa/FOIRN. 

 

Leia os artigos anteriores a da série:

Povos Indígenas Contemporâneos do Rio Negro, no Amazonas

Como os povos indígenas do rio Negro constroem suas culturas?

Justino Sarmento Rezende é indígena do povo Ʉtãpinopona-Tuyuka, nascido na aldeia Onça-Igarapé, distrito de Pari-Cachoeira, município de São Gabriel da Cachoeira (AM). É padre com formação em Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília; Bacharelado em Teologia pela Faculdade Teológica Nossa Senhora da Assunção (SP) e Mestrado em Educação pela Universidade Católica Dom Bosco (MS). Entre as atividades que atua, estão a de professor da Secretaria de Educação do Amazonas e colaborador de Licenciatura Indígena Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável.

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