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Crônica de gente pouco importante V: Leocádia Brandão Antony

21/04/2015 11:13

PATRICIA SAMPAIO

Quase não dá para enxergar a moça que insistiu em tomar conta da crônica de hoje.  Estava tentando escrever sobre outra pessoa, mas ela não me deixou em paz, se imiscuindo nos menores espaços da documentação, insistindo em se tornar protagonista. Na última vez que apareceu, eu me rendi.

1846. Devia ser um dia maravilhoso em Manaus, típico daqueles que justificavam o entusiasmo dos viajantes e naturalistas em seus relatos. Visitantes estrangeiros deslumbrados e anfitriões satisfeitos são nossos personagens. Estavam todos na cachoeira do Tarumã aproveitando o frescor das águas e o sossego dos arrabaldes da modesta vila perdida na mata. De repente, do relato, brota uma cena inacreditável: uma mulher se ergueu das águas do igarapé e saiu caminhando em direção à margem. O vestido que usava aderia ao corpo molhado, os cabelos longos se estenderiam por um momento sobre as águas para, no instante seguinte, cobrirem todo o corpo até os pés como se fossem um manto. Era quase a visão do nascimento de Vênus, alguém diria. Foi exatamente assim que o entomologista americano William H. Edwards descreveu Leocádia saindo o igarapé: uma Vênus do Novo Mundo.

Leocádia não era, exatamente, o que poderíamos chamar de “gente pouco importante”. Nem em sonho. Era de família abastada para os padrões locais, tinha nome e sobrenome, casa na fazenda e na cidade, escravos e outros que tais que sinalizavam distinção, poder e privilégio. Como costumava acontecer com moças de boa família, casou-se com um dos mais importantes negociantes da cidade, o italiano Henrique Antony. Teve filhos e pródiga descendência. Era rica e “bem-nascida”, mas nem mesmo tal condição foi capaz de impedir seu desaparecimento dos registros.

Existe uma produção historiográfica importante sobre a vida das mulheres no Brasil Imperial. Via regra, as pesquisas confirmam algumas imagens a respeito de seu lugar subordinado vencidas pela força do patriarcado. Mulheres encerradas no espaço doméstico, impedidas de exercer atividades na cena pública, de ter acesso à educação e por aí afora. Por outro lado, nunca é demais notar que sujeitos históricos concretos não costumam se amoldar a padrões previamente formatados. Ou seja, em todos os lugares, e para além do peso das restrições, muitas foram aquelas que encontraram outros caminhos para driblar proibições e reinventar suas formas de viver. Um bom exemplo são as mulheres escravizadas que, vivendo ao ganho, se empoderaram ao ponto de poder pagar sua alforria e, às vezes, até mesmo de seus companheiros. Foi assim que fez Joaquina na Manaus do século XIX.  Em outros lugares, mulheres assumiram a tarefa de reconstruir suas vidas em condições extremas: foi o caso das mulheres paraenses que arregaçaram as mangas no pós-Cabanagem e trataram de retomar o controle de suas propriedades, de suas vidas e de seus destinos, como revelou a bela tese de Eliana Ramos Ferreira.

O que há mais para dizer sobre Leocádia?  Alguns fragmentos apenas. Era filha de Lina e Antônio Brandão. Descobri que falava várias línguas com fluência, tinha viajado para os Estados Unidos, era bonita, amável, culta, bem informada e, por conta disso, era capaz de manter excelente conversação com os muitos viajantes e naturalistas estrangeiros que recebia em sua casa em Manaus com inusual familiaridade. Edwards, como já vimos, privava de tal modo da intimidade doméstica que chegou a ser convidado para apadrinhar o menino que nasceu durante sua estada em Manaus.

Não consegui descobrir quando ela morreu, mas sei que em 1869, Henrique já estava viúvo. Quando Agnello Bittencourt fez o verbete sobre Antony para seu Dicionário Amazonense de Biografias (1973) colheu informações com seus descendentes, porém não há ali uma única menção a Leocádia. Nem mesmo seu nome foi citado na extensa nota biográfica do marido famoso e foi aí que entendi de uma vez sua insistência em reclamar espaço para dar o ar de sua graça por aqui. Tenho a impressão que Léo (acho que ela já me permite a intimidade) queria nos dizer que existiram outras possibilidades de ser e estar no mundo a despeito das injunções de seu tempo, que a condição feminina pode ultrapassar/atravessar dimensões de classe e que o silêncio que se criou sobre sua passagem por esta cidade não foi feito para durar para sempre. Satisfação em conhecê-la, moça.

Patricia Sampaio é professora da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pesquisadora do CNPq. Fez doutorado pela Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ). Suas áreas de pesquisa são história indígena e do indigenismo no Brasil e da escravidão africana na Amazônia. Neste espaço, Patrícia Sampaio publica uma série de histórias consideradas pouco convencionais. A proposta é recuperar a vida de personagens anônimos, pessoas comuns que, aparentemente, nada fizeram de excepcional; apenas existiram.

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Comentários

  1. ERIVONALDO NUNES DE OLIVEIRA disse:

    Adorei a ideia desse espaço! Tomei conhecimento, hoje, numa conversa rápida com a própria pesquisadora, a professora Patrícia Sampaio, quando estava tratando de sua participação num debate que acontecerá, aqui na escola onde trabalho. A meninada do ensino médio, está lendo e discutindo sobre a presença de negros em Manaus. Achei o espaço legal, porque, a natureza dos textos são bem acessíveis à educação básica. São de rápidas leituras e isso facilita, o trabalho do professor, no incentivo à leitura de textos acadêmicos! Vou continuar a exploração desse espaço e espalhar a boa notícia, aqui na escola. Meus parabéns! Abraços.

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