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Cupim na Minha História

16/11/2015 16:26

FÁTIMA GUEDES

 

O que a ignorância chama de transtorno, a biodiversidade chama de equilíbrio. Por conta da herança colonial amalgamada em nossa limitada compreensão do mundo, consideramos os cupins “pragas destruidoras” e consequentemente adotamos uma postura radical em relação à espécie; no entanto, são fortes símbolos de resistência, perseverança e teimosia.

Diferente do que mais tarde viria acontecer, lancei-me ao combate daquelas “pragas destruidoras”.

Tudo começou numa manhã em que o dia anunciava chuva, após intenso verão. O céu escuro, o ar seco e parado provocavam a inquietação de pássaros e insetos variados que transformaram o nosso Cóio das Utopias num refúgio de sobrevivência. Aquele espaço suburbano de Parintins, fora seriamente castigado pela ação depredadora da pecuária.

Em meio à movimentação sobre a folhagem envelhecida uma comunidade de cupins, verdadeiro exército biótico, marchava como se decidida em garantir a conservação da espécie e, ao mesmo tempo, reconstruir o solo compactado. Impulsivamente, ou melhor, no exercício pleno da ignorância que anula a racionalidade sobre a importância dos epígenos no processo de decomposição orgânica e de mineralização de solos violentados, recorri ao inseticida e parti para o ataque criminoso: “Cupim, não”!

Diante da insensibilidade, centenas de pequenas vidas contorciam-se asfixiadas sobre o solo. Certamente, o impacto desta ação retardaria por muito mais tempo o processo de decomposição, realizado de forma gratuita, natural e equilibrada por aqueles minúsculos reconstrutores da vida.

A satisfação pela façanha durou o tempo em que, arrumando pastas, encontrei informativos sobre Sistemas Agroflorestais –  EMBRAPA/AM, fornecidos pela Bióloga, Elisa Wandelli – além de sua singular capacidade de transformar os mais elaborados conceitos técnicos em prática é uma militante incansável pela causa. É inegável que a contribuição da Pesquisadora produziu um efeito inverso sobre meus limitados e perversos conceitos biológicos: a razão acordou, chicoteando impiedosamente tamanha insensatez.

Em realidade, as informações adquiridas sobre educação ambiental passam despercebidas diante do acúmulo perverso inculcado em nossa educação bancária. Nesse sentido, a ética de mercado, a partir de seus instrumentos persuasivos, impõe em nossas relações com o mundo a fragmentação ou a ruptura dessa cadeia solidária que mantêm os seres vivos em comunhão permanente com o equilíbrio e com a sustentabilidade das diferentes formas de vida.

Há de se considerar ainda que, nesse processo de sensibilização, é fundamental compreender a importância da Ciência a serviço da reinvenção da Vida, da História, segundo as necessidades culturais dos povos e das sociedades.

Por tudo isso, cupins, assim como outras espécies, precisam ocupar o centro das discussões conservacionistas; é possível que a Ciência desenvolva pesquisas sobre métodos naturais para impedir que esses pequenos colaboradores reocupem espaços que lhes foram tomados.

 

Nota

Educação bancária – Conceito do Educador Paulo Freire em referência ao ensino/aprendizagem com base na inculcação e acúmulo de informações desnecessárias ao desenvolvimento do educando.

 

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). É também fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã e Militante da Marcha Mundial das Mulheres.

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