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04/07/2016 20:46

FÁTIMA GUEDES

 

Oi, de casa!

A peculiar caraterística das populações tradicionais centrava-se no cuidar da vida a partir de relações harmoniosas com a natureza. A única possibilidade de cura e de cuidado repousava no uso de substâncias de origem vegetal e em terapias relacionadas ao universo místico daqueles povos. Com base na observação e na necessidade de sobrevivência, interagiam com os pares, com o mundo e construíram os pilares da ciência oficial da saúde que se tem.

À imposição da modernização científica as antigas fórmulas e terapias cederam lugar a drogas laboratoriais e procedimentos cirúrgicos. O modelo em ascensão assume força hegemônica, silenciando saberes e práticas popular/tradicionais construídas de forma natural.

Em reforço ao argumento, a Enfermeira Sanitarista/AM, Margarida Campos, aponta o racionalismo científico, o divisor de águas da ciência em oficial e popular. A primeira, laureada pelo academicismo, tornou-se arrogante a ponto de negar o conhecimento das populações marginalizadas, uma vez que estas não têm diploma de doutor. No entanto, o diploma de doutor é recente; a ciência do povo existe há milhares de anos, logo, é tirania permitir sua extinção pelo preconceito perverso que produz a divisão em ricos e pobres. E adverte de forma instigante: O preconceito é a pior pobreza e a ciência do povo é riquíssima em conhecimento e sabedoria; é urgente que a sociedade assuma o compromisso de luta incessante pela revitalização do saber popular.

A provocação oportuniza o debate. Comprovadamente, o avanço das doenças com impactos destrutivos, paralelo às limitações do modelo biomédico clamam pela revitalização do acervo terapêutico ancestral focado na prevenção e promoção.

O modelo biomédico ou racionalismo científico nasce a partir da Revolução Francesa (1789). Ditam-se ali, os paradigmas da modernidade com influência decisiva sobre a medicina científica cujo perfil, Fritjof Capra, em Ponto de Mutação, tece considerações: O corpo humano é considerado uma máquina que pode ser analisada em suas peças; a doença é vista como um mau funcionamento dos mecanismos biológicos, que são estudados do ponto de vista da biologia celular e molecular e das leis da física. O papel dos profissionais da saúde é intervir física ou quimicamente para consertar o defeito no funcionamento do mecanismo enguiçado.

Em confronto ao modelo, somado à necessidade da prevenção e promoção da vida, o poeta Manoel de Barros descontrói o paradigma cientificista divinizando o mistério, a experiência natural: A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá, mas não pode medir seus encantos. A ciência pode calcular quantos cavalos de força existem nos encantos de um sabiá. Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare. Os sabiás divinam”.

 

Bem-Viver = Sumak Kawsay

Considere-se prevenção e promoção na perspectiva da ancestral sapiência. Por esse olhar cuidadoso e interativo, prevenção e promoção dialogam intimamente com referenciais de bem-viver em contraposição ao bem-estar salvacionista.

O referencial em pauta origina-se dos falares quíchua, idioma tradicional dos Andes. Bem-viver significa Sumak = plenitude; Kawsay = viver. A expressão é usada como referência ao modelo de desenvolvimento que se intenta aplicar no Equador em longo prazo e implica um conjunto organizado, sustentável e dinâmico dos sistemas econômicos, políticos, socioculturais e ambientais. O modelo rompe com postulados do desenvolvimento capitalista. Efetivamente, na constituição do Equador, (2008), “reconhece-se o direito da população viver num ambiente são e ecologicamente equilibrado, que assegure a sustentabilidade e o bom-viver, sumak kawsay”.

Em oposição ao bem-viver, a economia de mercado busca a salvação das empresas baseada na lucratividade – o bem-estar. O conceito é herança da crise sistêmica de 1929, quando o Estado intervém na economia de forma a resguardar a aplicação dos recursos econômicos e, sobretudo da mão-de-obra. Em tese, o bem-estar assegurava aos países ricos criação de empregos, subsídios a certas atividades, programas sociais, políticas de distribuição de renda para toda a população no intuito de elevar o poder de compra e consumo, estimulando a alta produtividade, através de gastos públicos.

Para estimular a produção e a alta lucratividade a Terra torna-se fonte por excelência de exploração e consumo. Os recursos naturais são transformados em megainvestimentos – barragens, exploração mineral e monoculturas com impactos destrutivos, às vezes, irreversíveis ao meio ambiente, aos seres vivos indistintamente e a modos sustentáveis de vida comunitária.

A tal modelo contrapõe-se radicalmente o bem-viver. Fundamenta-se na reciprocidade, partilha e destino fraternal dos bens da terra; na convivência harmoniosa com outros seres e profundo respeito pela Terra. E vem se recriando em comunidades tradicionais, ganhando amplitude entre ambientalistas e movimentos sociais do mundo.

O alcance, ou melhor, a possível construção constitui-se urgente desafio à sociedade humana, a começar pela reinvenção de paradigmas de desenvolvimento aliados aos conhecimentos tradicionais e suas formas de relacionamento entre os pares, povos, culturas, e com a natureza.  Lançamo-nos em busca de vestígios.

 

Nete do São Francisco

Dona Maria Matins, a Nete do São Francisco (Foto: Floriano Lins)

Dona Maria Matins, a Nete do São Francisco (Foto: Floriano Lins)

A procura por atenção e cuidados emergenciais nas Unidades Básicas e/ou Centros de Saúde, em Parintins/AM, intensifica-se assustadoramente. Comumente, as respostas são as naturais desumanidades: falências dos serviços e indiferença de profissionais no trato com pacientes. Em algum raro momento, quando o recurso da farmácia básica chega ao destino, atenuam-se os efeitos dos males fisiológicos com Paracetamol, Dipirona, Diazepan, Rivotril e similares. Os profissionais da saúde, assim programados, intervêm quimicamente sobre o defeito no funcionamento do mecanismo enguiçado.

Em meio à arbitrária conjuntura, descobrimos a Curadora Popular, Maria Martins de Souza, 50 anos, moradora da Rua Nova, 1032, Bairro São Francisco, Parintins/AM. O abraço acolhedor e o constante sorriso contrastavam com as condições socioeconômicas da família.

É a Nete do São Francisco (referência ao Bairro). Considera-se Curadora Popular desde os sete anos de idade. Das práticas de cuidados tradicionais desenvolvidas no interior do Amazonas, entende de tudo um pouco: “Sou parteira, benzo quebranto, conserto osso dismintido, faço puxações, preparo garrafadas e outros preparados…”

A mais recente experiência revelou-se no tratamento do marido, Pedro Batalha, 60 anos: “O Pedrinho teve AVC. Ficou totalmente paralisado, sem andar, sem falar, sem ver… Fiquei angustiada. Daí, corri com ele pro hospital. Lá, internaram ele… Deram alta com dois dias, do mesmo jeito. O médico disse que o AVC era assim mesmo e que talvez ele não voltasse mais ao normal. Trouxe de volta pra casa e mantive o Analapil da pressão passado pelo médico. Daí, consultei meus Guias. Diariamente, passei a dar pra ele chá da casca de castanha-do-pará com folha de jalapa. Também friccionava ele com erva cidreira e gotas de gergelim. Isso por dois meses. Fui observando tava reagindo devagarinho. Já mexia o corpo, começou a dizer alguma coisa, a enxergar… Tô nesse tratamento há um ano e oito meses. Suspendi o primeiro chá. Agora toma chá da casca do alho com beldroega pela manhã. É muito bom pra pressão alta”.

Dona Nete do São Francisco e suas ervas medicinais (Foto: Floriano Lins)

Dona Nete do São Francisco e suas ervas medicinais (Foto: Floriano Lins)

E continuou: “Também faço puxação nele com uma pomada feita com tutano de gado, gema de ovo, banha de jacaré, andiroba, copaíba e óleo de cumaru. Puxo todo o corpo dele: dos pés até a cabeça. Fecho os olhos, me concentro em N. Senhora dos Remédios e ela vai me guiando”.

Descobriu-se Curadora aos sete anos. “Desde lá, um menino vem nos sonhos. Na primeira vez, ele me disse: Levanta, abre teus olhos que tu vai ser salvadora de vidas. Mas não disse como. Depois de adulta, me reencontrei. Não posso falar… Coisas sagradas e pessoais. Depois daquele sonho, minha primeira experiência foi puxar o joelho de um tio, Raimundo Martins, jogador de bola. Ele se machucou e pedi pra ajudar ele. O que tinha era óleo de cozinha. Me concentrei e fiz o trabalho. Voltou para o campo, espalhou a notícia e daí, começou a procura”.

O diálogo com Aquela Curadora nos oportunizou repensar conceitos, valores, modos de ser e viver… A paz e a alegria por Ela irradiadas independem de titularidade acadêmica, de acúmulo de bens, de conta bancária… Nete, Pedrinho e quatro adolescentes vivem o dia-a-dia num perene desafio às múltiplas adversidades… Acreditam e defendem que a superação dos obstáculos para a conquista do bem-viver depende da semeadura construída no canteiro familiar, na mútua solidariedade, enfim, no cultivo de valores e princípios herdados da amorosidade de seus antepassados.

 

Mãos Centenárias

Maria Nascimento da Silva, a Dona Maria Mãos. (Foto: Floriano Lins)

Maria Nascimento da Silva, a Dona Maria , tratando a escritora Fátima Guedes. (Foto: Floriano Lins)

Forjando brechas que comprovem vestígios de Bem-Viver, lá estava Dona Maria Nascimento da Silva, 100 anos, parteira, pegadora de ossos, puxadeira, e Sêo Cremo Garcia Nunes, o Xara, 82 anos, auxiliar de Dona Maria nas práticas de cuidados. Moram na Rua Armando Prado, 2942, em Parintins/AM. Sêo Xara auxiliara nas respostas, quando o entendimento de Dona Maria se embaraçava, em consequência da surdez.

Apenas com dificuldades visuais, auditivas e limitações no andar, Dona Maria encontra-se perfeitamente lúcida e ativa. No toque das mãos sobre luxações, hematomas e dores musculares, a Centenária Cuidadora revitaliza a magia das ancestrais curandeiras de quem absorveu a sabedoria: “Tudo que sei, aprendi com minha avó. De lá pra cá, venho ajudando as mulheres no parto e as pessoas que têm dores pelo corpo. Só uso remédio caseiro feito das minhas plantas”.

Comenta sobre a própria saúde: “As doenças que me aprecem já são da idade. Às vezes, uma dorzinha de cabeça, fraqueza nas pernas, mas eu não me entrego. Cuido das minhas coisas, faço minha comida, lavo minha roupa, cuido das plantas… E ainda faço puxação quando me procuram. O Xara me ajuda. Parto não faço mais, a vista e as mãos não ajudam”.

De onde vem toda essa vitalidade, essa teimosia? “Nasci no interior e me criei por lá. A gente comia o que plantava. Galinha, peixe e caça era com fartura. Doença era a coisa mais difícil… E quando nós adoecia, minha mãe e minha avó cuidavam de nós com as plantas, com os chás, com os banhos, com as rezas e nós gozava Saúde. Acho que cheguei a essa idade porque minha raiz é das boa. (ri)”

Em decorrência das limitações auditivas, Sêo Xara contribui no diálogo. São casados há 62 anos. “Nesse tempo todo, tô sempre com ela, aprendendo as coisas que ela sabe de cura e ajudando ela. Ela me orienta como fazer os tratamentos, os remédios e me diz aquilo que é bom. Mas é muito teimosa. Nunca quer ajuda”.

A empatia construída durante o diálogo revelou antigas práticas de cuidados, eficazmente comprovadas e, portanto, merecedoras de referência – ventosas, vomitórios e lavagens ou cristel – muito comuns entre as populações tradicionais. Eram práticas utilizadas com frequência não apenas por pajés e curadores, mas por comunitários cujo domínio restabelecia a saúde e o equilíbrio de pacientes.

“Quando alguém se empachava usava a ventosa ou a lavagem, é o mesmo que cristel… Acho que hoje, se alguém com empachação ou intestino preso pedir esse tratamento num Posto de Saúde vão até rir da cara da gente… A ventosa já virou defunta. Os novos já não sabem nem o que é. Antigamente, os velhos faziam esse tratamento com o chá de folha amarela do mamoeiro, de eucalipto ou de pião branco… Colocava esse chá, assim, um litro, num depósito de alumínio, de esmalte pendurado na parede. Tinha uma borrachinha fina que colocavam devagarinho no ânus do doente deitado de lado… O líquido descia bem devagar… Quando terminava o líquido, começavam as cólicas. O doente aguentava um pouco aquele preparado no intestino e descarregava tudo. O alívio era na hora. Tudo o que não prestava vinha pra fora…”.

Esclarece dona Maria: “A lavagem ou cristel limpa todo o intestino. Também faziam ela com o chá da folha de algodão, capim santo, ou cidreira. O vomitório era pra limpar estômago sujo. A pessoa que estava com dor no estômago, com azedume na boca, tomava devagarinho um litro de chá até vir tudo pra fora. Era um alívio total. Naquele tempo, não se gastava dinheiro com farmácia. Todo o tratamento era com as ervas da terra. Hoje, proíbem nós de fazer esses remédios, mas os hospitais não dão conta das doenças. Não têm nem remédios pra dar? E aí?…”

Um rasgo de luar no infinito trazia o primeiro bocejo da Anciã Cuidadora… O gesto anunciava a hora de respeitar seus limites e encerrar o diálogo. Aprofundamentos sobre ventosas, vomitórios e lavagens/cristel ficam para outro momento e em outras fontes. Dona Maria já é memória.

Tem algo a dizer para a Saúde de Parintins? Mais um bocejo e sem rodeios: “Tenho medo de hospital… Sei de muitas histórias ruins… Mas, médico é médico. Sou apenas uma velha analfabeta que faz puxação”.

 

Uma Singular Pesquisadora

Dona Terezinha atendendo um paciente. (Foto: Floriano Lins)

Dona Terezinha atendendo um paciente. (Foto: Floriano Lins)

Uma placa rústica identificando habilidades terapêuticas nos leva a Terezinha Silva de Souza, 54 anos, paraense de Terra Santa. Mora na Rua Armando Prado, 2959, em Parintins/AM onde reside há 50 anos. Já na apresentação, demonstra um amplo domínio sobre fórmulas naturais, massagens, mãe do corpo e sobre nossa maior motivação sobre esse trabalho – a ventosa. Considera-se Pesquisadora de plantas medicinais e Estudiosa dos funcionamentos do corpo…

A princípio, Terezinha relata suas primeiras experiências com as práticas naturais de cuidados: “Descobri o dom com 14 anos. Uma moça passou mal. Passei a mão na cabeça dela e comecei massagear os pulsos, o peito. Aos poucos, foi voltando os sentidos e logo estava bem. Um padre que observava me falou: – você tem dons espirituais, dom da cura… Embora não entendesse direito os sinais, um chamado interior me perseguia. Até que fraturei a perna num acidente e fui pra cadeira de roda. Fui condenada a não mais andar. Aí, comecei a me concentrar naquele “chamado”… Fui orientada a me massagear com uma pomada à base de pimenta malagueta e outros ingredientes… Segredo meu… Daí, fui desenvolvendo minha percepção para os problemas do corpo. Tenho visões, premonições sobre jeitos de cuidar, de curar e preparar remédios”.

A espontaneidade da Pesquisadora oportunizou avançarmos em seu universo místico, em atenção a informações sobre ventosas. Com simplicidade e domínio das questões explica detalhadamente.

“Aplicamos a ventosa para tirar do corpo gases acumulados. Entre a região lombar e a barriga aparece uma doença que só se tira com a ventosa. Essa região do corpo fica parecida com bobó de boi. Ela surge de problemas de gastrite, hemorragia e também de problemas nervosos… A ventosa, qualquer pessoa pode aplicar. Só precisa conhecer o problema. Era muito usada no antigo Egito e na China. Acho que chegou até nós porque curava mesmo”.

Sobre vomitórios, estendeu-se um pouco mais que Dona Maria.

“Limpa totalmente o estômago. Elimina todos os resíduos que estão causando mal. É um excelente tratamento para quem tem problemas de azia e enxaqueca. As pessoas se alimentam mal e as doenças vão entrando pela boca se ajuntando no estômago que é a segunda porta pras doenças. Vomitório cura, mas a pessoa tem que se alimentar direito”.

E explica como o modo de preparo.

“São três litros de um chá feito com folhas de pião branco, eca, sete sangrias, mucuracaá, meio dente de alho e uma pitada de sal. Vai se tomando devagarinho até o estômago enjoar. Aí vem tudo pra fora. Depois, se toma um caldo da caridade ou um chá feito da casca do pião branco. O caldo da caridade e o chá fortalecem e recuperam o estômago”.

Aquele acervo original ignorado pelo cientificismo nos instigava absorver mais, até como resgate de memória. Lavagem ou Cristel são domínios de Terezinha.

“O vomitório limpa o estômago e a lavagem, o intestino. A lavagem é usada em infecção intestinal e também na prisão de ventre”.

As ervas usadas no vomitório pela Pesquisadora são as mesmas apontadas por Dona Maria.

Os vazios da Atenção Básica provocam Terezinha a ir além. É muito procurada por pacientes de várias categorias sociais. Recentemente, desenvolveu um estimulante à paralisia provocada por AVC: “Banho quente feito com capim navalhão, tiririca e cipó de fogo. Essas plantas deixam na água um ardume leve. Isso vai formigando os músculos, desperta o sangue até o doente sentir o corpo”.

Entre uma informação e outra, tecera sutil referência sobre Mãe do Corpo: “Mora na região lombar interna. Fica abaixo do umbigo. Quando o corpo enfraquece, contrai e bate como um coração. É palpitação. É um músculo que liga nosso corpo ao de nossa mãe quando estamos no útero. Remédio de farmácia não resolve. O tratamento se faz com massagem circular com a mão fechada”.

Por que, Mãe do corpo?

“É a protetora do organismo de todas as emoções ruins… Quando a gente desobedece e começa fazer coisa errada, por exemplo, come mal, trabalha muito, se preocupa com tudo… Tudo isso aborrece a Mãe do Corpo e ela dá o castigo”.

Hora da trégua… Antes, porém, um último recado: “O povo precisa se conscientizar e valorizar as práticas naturais de saúde deixadas por nossos velhos. Falar hoje de ventosa, vomitório e lavagem vira gozação, mas era assim no tempo dos antigos. E a gente não morria de doença; morria porque já tinha vivido o que era pra viver”.

Em relação à Mãe Terra, evoca a natural espiritualidade dos seres que divinam. “A Terra pra mim é gente. Temos um vínculo. Uma faz parte da outra. Dependemos dela. Dela viemos e pra ela voltaremos”.

 

Dizer mais o quê?…

Nete do São Francisco, As Mãos Centenárias de Dona Maria e a Singular Pesquisadora são discretos pontos de luz teimoseando apontar direções de bem-viver. O caminho de volta fora traçado na milenar ancestralidade dos xamãs, pajés, sacacas, das curiosas parteiras, dos guias espirituais em eterna harmonia com os elementos da vida – o solo, a água, o ar, o fogo…

Do exposto, fica o desafio: rodas dialógicas sobre a importância das sagradas memórias na reinvenção da sadia qualidade de vida em outro projeto de desenvolvimento que reconheça e respeite diversidades culturais e outras formas de cuidar da vida. Há muito a se investigar…

A sabedoria ancestral clama indignada contra o silêncio morno da exclusão e da morte cultural. Ai, de vós! …

Sêo Xara e Dona Maria são casados há 62 anos. (Foto: Floriano Lins)

Sêo Xara e Dona Maria são casados há 62 anos. (Foto: Floriano Lins)

 

 

Notas

Empachar / Empachação – Acúmulo de gases no aparelho digestivo.

Quebranto – Mau olhado.

Osso dismintido – Osso deslocado

PuxaçõesO mesmo que massagem.

Ventosa – É mencionada nos escritos de Hipócrates e praticada pelo povo Grego, no século IV a.C. Supostamente chegara às populações tradicionais da Amazônia, via oralidade e por eficácia do método.

Mãe do Corpo – Hipoteticamente, a “mãe do corpo” alude ao “chi”, (Taoísmo) ponto localizado cerca de cinco ou seis centímetros abaixo do umbigo, chamada “tan tien”. Os alquimistas taoístas achavam que essa área representava, de forma metafórica, o forno onde os metais eram fundidos. Assim, de modo semelhante, nossa energia interna é acesa quando nos harmonizamos com o “elixir interno”. (Taoísmo no dia a dia – C. Alexander Simpkins e Annellen Simpkins)

 

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). É também fundadora da Associação de Mulheres de Parintins e da Articulação Parintins Cidadã.

 

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