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Decantando imagens

Loja de eletrônicos na Zona Franca de Manaus.
02/07/2015 17:39

Maurren Bisilliat vai compartilhar suas fotografias, livro e filme na Festa Literária de Paraty (Flip), que homenageia Mário de Andrade.

 

 

 

 

ALBERTO CÉSAR ARAÚJO

 

Vi e li na mesma manhã há uns 23 anos dois livros seminais para mim, “Amazônia”, de Claudia Andujar e George Love, e “Sertão, Luz e Trevas, releitura do clássico de Euclides da Cunha (1866 – 1909), de Maureen Bisilliat. São dois volumes tipos tijolos que estão na biblioteca do ICHL (Instituto de Ciências Humanas e Letras) da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), em Manaus.

O primeiro é de 1978 e potencializou meu desejo de viajar e de viajar nas imagens com paisagens como nunca tinha visto e a fotografia aérea literalmente brilhante de Love e os detalhes delicados de Claudia.

O segundo é de 1983 e me despertou para a ligação entre a fotografia e a literatura. Associação que Maureen fez também com João Cabral na sua “versão” do poema “Cão Sem Plumas”, e que gerou um belíssimo e outro foto-livro clássico. Suas imagens, volta e meia inspiradas nas obras de grandes escritores brasileiros, como Mário de Andrade, Guimarães Rosa e Jorge Amado, Euclides da Cunha entre outros, são um mergulho nas profundezas de realidades para criação de outras em uma narrativa marcada pelos grandes contrastes do preto e branco ou da saturação das cores.

Do sertão às cidades, passando pelo litoral ou se embrenhando nas matas, Maureen não faz da viagem uma simples aventura. Em uma, em especial, nos faz perder o fôlego, tamanha profusão de imagens e nos resta embarcar com ela para o Amazonas para só depois deixar os pulmões se encherem, respirar calmamente e deixar a mente livre para interpretações das imagens.

Esta jornada será mais uma vez compartilhada agora durante a Festa Literária de Paraty (Flip) de 2015, que começou ontem (1º de julho), no Rio de Janeiro, e tem como autor homenageado Mário de Andrade. Maurren Bisilliat faz uma palestra, que acontece nesta quinta-feira (02) na Casa IMS, do Instituto Moreira Salles. Também faz uma exposição (que vai até o dia 05 de julho), resultado da viagem que empreendeu em 1985 e que originou no livro “Decantando as Águas”. A mostra foi exposta em um outro formato na XVII Bienal de São Paulo há 30 anos. O trabalho refaz parte da expedição que Mário de Andrade fez do Amazonas até o Peru, em 1927. Esta exposição também foi reeditada em outro formato para a XXV Bienal, em 2012.

Será exibido durante a Flip também o filme dirigido por Maureen e Lúcio Kodato (câmera), que registra momentos das cinco semanas passadas num barco. Na exposição, haverá fotogramas do filme, trechos de um diário mantido por ela – cujos originais se perderam depois – e, também, extratos do livro de Mário de Andrade.

Maureen Bisilliat

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“Decantando as Águas”, tem um tempo particular, mais lento, próprio para a reflexão, como se as imagens precisassem descansar para serem assimiladas. Aceitas. Não busca o entendimento fácil, mas os caminhos complexos e sinuosos dos rios, cheio de cultura, gente com suas Idiossincrasias. Paisagisticamente, busca reverências é claro na obra de Mário, pois a proposta é uma releitura, mas em outra narrativa, que mesmo com os avanços tecnológicos de 1985 pra cá, não deixa a obra ficar datada. Se renova a cada formatação. Talvez este seja o maior mérito de Maureen, o de saber se recriar.

Sobre esta exposição a fotógrafa fez um relato em 2012 da viagem, cujo diário foi perdido:

“Tudo isso tomando forma… pensei: e por que não navegaríamos, nós também, por trilhas enveredadas por Mário em 1927? Assim, com a ajuda generosa de Dorian Taterka, Lúcio Kodato-san, cinematógrafo artesão à maneira dos antigos, e eu empreendemos uma viagem bastante complexa – pois os rios Amazonas e Solimões, tendo a largura do mar, exigiriam a contratação de um barco que, aproximando-se das beiradas, nos introduzisse às populações ribeirinhas, acenando de longe, compondo um registro andante, uma vista fluvial de um mundo de águas. Assim foi que, a bordo do Lima Gonçalves IV e aos cuidados de uma pequena tripulação comandada por Mestre Jacumim – saci seguro, expertise na pilotagem – fomos levados pelos igarapés, igapós e imensidões aquáticas do Amazonas/Solimões”. Leia na íntegra o texto aqui.

Nascida na Inglaterra e naturalizada brasileira, Maureen foi fotojornalista contratada da Editora Abril, realizou para revistas como Realidade e Quatro Rodas ensaios que ficaram célebres, entre eles “A batucada dos bambas”, sobre o samba tradicional carioca, e “Caranguejeiras”, retratando mulheres catadoras de caranguejos na aldeia paraibana de Livramento. Paralelamente, dava prosseguimento a suas “equivalências fotográficas” com a literatura, que entre os anos 1960 e 1990 publicaria numa série de livros importantes. Além de Guimarães Rosa e Jorge Amado, travou diálogos com as obras de Euclides da Cunha, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Adélia Prado e Mário de Andrade, este a inspiração para o ensaio que expôs numa sala especial da XVIII Bienal de São Paulo, em 1985, baseado no livro “O Turista Aprendiz”.

Editora incansável de sua própria obra, Maureen lançou ainda dois volumes notáveis sobre o Parque Nacional do Xingu, ambos chamados “Xingu”, com os subtítulos “Detalhes de uma cultura” (1978) e “Território tribal” (1979). Também sobre a região, que visitou diversas vezes, codirigiu com Lúcio Kodato o documentário de longa-metragem “Xingu/terra”. A paixão pelo vídeo passou a absorvê-la cada vez mais a partir dos anos 1980, mas, nos anos 1990, Maureen ainda publicou livros com ensaios fotográficos de viagens à África, ao Líbano e ao Japão.

Em vídeo realizado por Laura Liuzzi, a fotógrafa, nascida na Inglaterra e naturalizada brasileira, recorda a viagem e comenta a exposição. Link para vídeo no youtube:

De quando o livro (Decantado as Águas) foi publicado em 2012, Maurren transcreve um trecho de uma carta que fez durante a viagem para seu neto Nicolas e que é muito revelador sobre sua sensibilidade poderia servir muito bem como uma mensagem para as futuras gerações:

“Queridíssimo pequeno Ni:

Eu vou te contar algumas coisas das 1.000 coisas que estou vendo nesta viagem pelo grande rio-mãe Amazonas.                                      As estrelas estão altas no céu e o sol entrou na terra deixando nuvens que parecem ilhas acima da gente. Estamos viajando num pequeno barco corajoso que o tempo inteiro faz put-put-put-put-put-put-put-put-put-put, com sua pequena força a vencer a enorme correnteza das águas deste enorme rio que ás vezes parece mar? Dando para braços e dedos de rios chamados igarapés. Cercados de verde onde estamos; vez ou outra vem uma pequena aldeia com algumas casas em cima de paus que se chamam pilotis e que sustêm as casas fora das águas do rio. Nestas casas sempre tem cachorros e os cachorros olham pro rio vendo os barcos passar ou pulam eles também na água…”.

Leia a íntegra o texto aqui.

A entrevista com Maureen Bisilliat, direto de Paraty, vai ao ar pela  Rádio Batuta do IMS dia 02/07 às 19 horas (Brasília). 

 

 

Alberto César Araújo é editor e repórter fotográfico desde 1991. Seu trabalho enfoca a vida nos rios e as questões dos impactos ambientais, entre elas, o desmatamento na Amazônia. Trabalhou em jornais de Manaus, entre eles, A Crítica, Jornal do Norte, Correio Amazonense, Diário do Amazonas e Em Tempo. Tem trabalhos publicados na mídia nacional e internacional, incluindo O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, National Geographic Brasil, New York Times, Newsweek, The Independent.. Na Amazônia, documentou projetos socioambientais de várias organizações como o WWF e Greenpeace Brasil. Entre os prêmios que ganhou estão o Esso de Fotografia (2001), Dom Helder Câmara (2000), Sebrae (2004), FAPEAM (2011), HSBC (2012), Leica Fotografe (2012) e Carolina Hidalgo Vivar no POY LATAM (2013). Em 1999, o poeta Thiago de Mello em entrevista ao jornal A Crítica descreveu Alberto César como o “artista da luz”. 

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