Cultura

Djuena Tikuna emociona e faz história no palco do Teatro Amazonas

24/08/2017 22:22

A cantora e compositora Djuena Tikuna, 32 anos, permitiu na noite de quarta-feira (23) que homens, mulheres e crianças indígenas e não-indígenas vivenciassem uma experiência inédita no ambiente elitizado do centenário Teatro Amazonas, em Manaus. Tanto na plateia quanto nas frisas, ambas lotadas por um público de 823 pessoas (a capacidade é de 685 lugares e os camarotes das autoridades foram liberados), o espaço foi da diversidade de etnias, línguas, vestes, danças, maracás, chocalhos e pinturas nos rostos dos indígenas. Eles foram os convidados especiais do espetáculo “Tchautchiüãne” (“Minha Aldeia” em português), nome do primeiro CD da artista.

O show começou por volta das 18h30 no jardim do teatro com as apresentações dos grupos de danças indígenas Parque das Tribos, da zona oeste de Manaus, e Yoi, formado por pacientes da Casa de Saúde do Índio (Casai). Turistas, jornalistas, fotógrafos, estudantes da Universidade Federal do Amazonas e alunos da escola da comunidade Parque das Tribos disputavam espaço para registrar com suas lentes e celulares as danças dos povos tradicionais.

Dança indígena no jardim do teatro marcou marcou o evento (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

No entorno o teatro, o público em uma fila quilométrica aguardava ansioso a entrada na casa de show, que foi construída no Ciclo da Borracha no século 19 e já recebeu festivais de óperas e de jazz. Um dia o teatro emocionou o tenor Luciano Pavarotti (1935-2007), que nunca fez um show no lugar,  durante um passeio turístico na Amazônia em 1995.

Às 20h foi a vez de Djuena ser a protagonista da produção do show e condução do roteiro do espetáculo no Teatro Amazonas. Ela apresentou cada um dos grupos de dança convidados para o lançamento do CD. Também recebeu os índios Sateré-Mawé, da comunidade Sahuapé, em Iranduba (AM), que dançaram o ritual da “Tucandeira” (cerimônia de iniciação dos jovens), e depois o grupo Kariçú, formado por índios das etnias Tukano e Dessana, do Alto Rio Negro, do noroeste do Amazonas.

O grupo Tikuna Wotchimãücü, da comunidade de mesmo nome de Tabatinga (AM), foi chamado ao palco por Djuena com a voz  embargada e emocionada. Foi no grupo que ela começou sua carreira artística aos 19 anos.  

Dança da “Moça Nova” no ritual do Wotchimãücü (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

O Wotchimãücü fez duas apresentações no palco. A primeira, com cerca de 40 pessoas, entre crianças e adultos, reproduziu o ritual da “Moça Nova”, o mais importante da etnia, onde não faltaram os personagens tradicionais mascarados e de forte simbologia. A segunda contou com menos pessoas e foi embalada pela música “Ngetchãütümãü”.

O CD “Tchautchiüãne” tem 12 faixas, incluindo o Hino Nacional, interpretado na língua Tikuna por Djuena. Foi com essa interpretação que a artista Djuena abriu sua apresentação acompanhada de crianças da comunidade Wotchimãücü e do imitador de pássaros Cleudilon de Souza Silveira. Conhecido como Passarinho, ele assovia os cantos de 37 diferentes espécies da fauna amazônica, entre elas o bacurau, o sabiá-laranjeira e o tucano.

Show de Djuena Tikuna e convidados “Tchautchiüãne” (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Com um vestido longo em tecido de algodão cru e pintado com as cores vermelho (do urucum) e preto (jenipapo) dos adereços Tikuna, descalça, rosto pintado identificando seu clã (onça), Djuena fez uma apresentação de aproximadamente uma hora, acompanhada da mesma banda que participou da gravação de seu disco. O conjunto é formado pelos músicos Poramecú Tikuna (maracá e voz), Anderson Tikuna (violão), Antón Carballo (violino), Agenor Vasconcelos (contrabaixo) e Diego Janatã (percussão e flautas), que assinou com a produção. Ela dividiu a direção do show com o artista Nonato Tavares, da Companhia Vitória Régia. 

Entre canções recentes e algumas já bastante conhecidas por quem acompanha sua carreira e apresentações, Djuena exortou a plateia a acompanhá-la, mesmo a maioria não compreendendo tikuna (uma língua isolada e única, ou seja, não pertence a nenhum tronco linguístico), o que não impediu que a plateia cantasse junto as letras. Estava na plateia um convidado especial da cantora, o letrista Carlos Rennó, autor da música protesto “Demarcação já”.   

Na canção “Ewaré”, Djuena se apresentou ao lado de sua prima, a cantora Yra Tikuna, que também desenvolve carreira musical em Manaus. “Ewaré” é uma música tradicional da oralidade tikuna adaptada por outra compositora e cantora da etnia, Claudia Tikuna. O CD, aliás, traz três faixas de autoria de Claudia. As demais são de autoria de Djuena.

Outro momento marcante foi a interpretação de “Maraká´Anandé”, música tradicional do povo Ka´apor (que vive no Maranhão) e que recebeu uma adaptação de Djuena. Foi com esta canção que Djuena encerrou o espetáculo, acompanhada de todos os indígenas que a precederam no palco, de seus músicos e da etnomusicóloca e cantora Marlui Miranda, referência e pioneira em música indígena no Brasil.

Marlui Miranda foi convidada especial do show de Djuena Tikuna. Ela cantou uma de suas canções mais belas e comoventes, “Araruna”, que fez parte do disco “Vozes da Floresta”, de 1996, inspirada na música tradicional dos índios Parakanã (Pará). 

Djuena se emocionou ao cantar a canção “A anciã vive em mim a sua juventude”, dedicada à sua avó já falecida, de nome Awai Nhurerna [em português Marilza], cuja expressão foi mostrada em vídeos exibidos ao fundo do palco, como cenário, enquanto ela cantava.

“A mensagem do meu trabalho, o canto, a música, a dança representam a luta de todas as comunidades indígenas. Hoje a floresta está triste, os rios estão secando, os pássaros não cantam mais, o céu chove sangue e as borboletas voam para longe. Nós precisamos lutar pela nossa terra, pelo nosso território e aí através do que eu faço estou junto com eles”, disse Djuena Tikuna, ao final do show.

 

Lideranças foram homenageadas

Djuena e Nara Baré, liderança da Coiab (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

O espetáculo “Tchautchiüãne” não foi apenas musical. Teve também o momento político, com espaço dado a lideranças do movimento indígena, que subiram ao palco.

Nara Baré, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), descreveu o teatro como “um círculo” representativo de uma “grande maloca”. “A nossa cultura é onde colocamos nossas histórias. Queremos mostrar que este país é indígena, que nós estamos aqui. Que esse país nos enxergue, que nos respeite”, disse Nara Baré.

Outra liderança indígena, Tury Sateré-Mawé, comentou o momento como “uma noite histórica”. “Esse local [teatro] foi construído em cima de uma aldeia indígena. Manaus é uma terra de índio. Vamos mostrar a nossa cara e dizer que a gente existe, que existe índio na cidade ou na floresta”, disse Tury, presidente da Coordenação  dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime).

A representante do Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (Foreia), Clarice Tukano, falou da importância da cultura e da educação na resistência dos povos indígenas. “Essa é também uma resistência cultural”, afirmou.

Houve também momentos de protestos, como todos da plateia e do palco gritando “Demarcação Já” e “Fora, Temer”.

O estudante indígena Benisson Machado, 34 anos, da etnia Tukano, assistiu pela primeira vez a um show no Teatro Amazonas. Ele disse que o espetáculo foi muito bom porque contou com a presença de outros grupos indígenas.

“Isso mostrou o fortalecimento e a união da cultura dos povos indígenas”, disse. Para Benisson, o momento mais marcante foi o agradecimento que Djuena fez à sua família e ao grupo tikuna Wotchimãücü. “Ela disse que o grupo inspirou ela a cantar. Para mim, foi lindo ela não esquecer as raízes”. Leia mais aqui.

 

Tradição musical indígena

A cantora Marlui Miranda e Djuena no show inédito (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Show “Tchautchiüãne” no centenário Teatro Amazonas (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Para a cantora e pesquisadora da música indígena Marlui Miranda, a apresentação com Djuena no palco do Teatro Amazonas foi um momento de mostrar que chegou a hora do artista indígena fazer sua própria música e ocupar os espaços das artes nas cidades.

“A Djuena dá continuidade a uma tradição musical, e começa a ganhar projeção. Não é que a música da Djuena está a serviço de um ritmo popular. Ela se apropria de sua própria cultura, mas quem é o sujeito dessa cultura é a música indígena”, disse Marlui Miranda.

  

Vejam mais imagens na galeria abaixo:

Show de Djuena Tikuna no Teatro Amazonas

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Manaus, AM - 23/08/2017 - Show de Djuena Tikuna e convidados no lançmento do seu primeiro CD "Tchautchiüãne" em um show no centenário Teatro Amazonas, pela primeira vez em sua história recebe em seu palco indígenas como protagonistas, O espetáculo tem direção da própria Djuena em parceria com o diretor de teatro Nonato Tavares, da Companhia Vitória Régia. No palco, a artista é acompanhada do marido, o músico Diego Janatã, além de diversos convidados, entre eles, a cantora Marlui Miranda. (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

 

 

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*O CD “Tchautchiüãne” está à venda no Centro de Medicina Indígena da Amazônia, que fica na rua Bernardo Ramos, 97, Centro, Manaus. Mais informações pelo telefone 55 xx 92 99475-8861.

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