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Estiagem em Roraima e Cheia no Acre – o efeito no Amazonas

27/04/2015 19:20

MARCO OLIVEIRA 

Para quem sai de Manaus, Amazonas, em direção a Boa Vista, Roraima, e segue pela rodovia BR 174 é possível observar ao longo das pontes o baixo nível das águas dos rios e igarapés. Na altura do km 200, entrada da terra indígena Waimiri-Atroari, os igarapés afogados pelo reservatório da usina hidroelétrica de Balbina, expõem de modo contundente o paliteiro de troncos secos, cinzas, formados pelas árvores mortas em pé pela inundação do lago de Balbina. Agora com as águas baixas revelam a amplitude da floresta original afetada. No limite dos dois estados o rio Alalaú destaca a floresta preservada com suas margens altas de cor creme e o espelho de suas águas entremeado por blocos rochosos arredondados.

À medida que se avança para norte os rios Jauaperi, Barauana e Branco correm em fina lamina de água delineada por praias arenosas, corredeiras e cachoeiras.  No horizonte o céu avermelhado pela fumaça das queimadas forma um cenário típico de um final de verão na Amazônia. Não tivesse sido este verão o produto de uma das mais severas estiagens já ocorridas em Roraima.

O rio Branco, em Boa Vista, chegou a atingir no dia 21 de fevereiro deste ano a cota de cinco centímetros acima do zero da régua, recorde para a vazante deste rio. A estiagem não provocou apenas a diminuição nas vazões dos rios e igarapés, mas rebaixou o nível dos lagos do lavrado, de açudes, cisternas e das águas subterrâneas. O abastecimento público de água foi afetado em algumas cidades e houve impacto econômico ao setor agropecuário.

Enquanto isso, do outro lado da Amazônia, o rio Acre, afluente do Purus, ultrapassava a maior cheia de sua história.  As cidades de Brasiléia, Xapuri, Rio Branco e Boca do Acre foram as mais afetadas. Em Rio Branco o rio atingiu a cota máxima de 18,41m no dia 04 de março. As perdas materiais, agravos em saúde, impactos econômicos e sociais atingiram milhares de pessoas.

A cheia virou atração turística em Rio Branco, Acre (Foto: MidiaNinja)

A cheia virou atração turística em Rio Branco, Acre (Foto: MidiaNinja)

 

Foram eventos hidrológicos extremos de natureza distinta (cheia e vazante), que ocorreram ao mesmo tempo, na mesma bacia hidrográfica, mas em distantes espaços geográficos, respectivamente, nas bordas sudoeste e norte da Amazônia.

A ocorrência sincrônica de um evento de cheia e outro de vazante na Bacia Amazônica é reflexo de um regime de chuvas que se distribui em espaços e tempos diferentes, sobre uma região de tamanho continental, com comprimento de mais de três mil quilômetros ao longo da linha do Equador, entre a Cordilheira dos Andes a oeste e o Oceano Atlântico a leste, e largura superior a dois mil quilômetros, do hemisfério sul ao hemisfério norte.

As chuvas começam a cair na região sudoeste da Amazônia, nos meses de dezembro a fevereiro, influenciada pela circulação de massas de ar frio oriundas da Antártida, que organizam a nebulosidade ao longo de um corredor noroeste- sudeste do continente sul americano. Também conhecida como Zona de Convergência do Atlântico Sul. Nos meses seguintes o regime de chuvas é influenciado pelas massas de ar úmido originadas da evaporação das águas do oceano Atlântico tropical que adentram o continente ao longo da linha do Equador, empurradas de leste para oeste pelos ventos alísios. Este sistema climático é denominado de Zona de Convergência Intertropical.

A conjunção destes sistemas climáticos (ZCAS e ZCIT) com a barreira orográfica da Cordilheira dos Andes, que funciona como um anteparo para captura e ou redirecionamento das massas de ar úmido que transitam sobre a floresta amazônica, é que distribuem as chuvas na região e até para fora dela, chegando ao centro oeste e sudeste do Brasil. O resultado é que as chuvas na Bacia Amazônica migram de sul para norte. Em consequência os primeiros rios a encherem são aqueles que nascem no hemisfério sul, na margem direita dos rios Solimões e Amazonas, como o Purus e Madeira.  Posteriormente os afluentes da margem esquerda, que vem do hemisfério norte, como o Negro e Branco, finalizam o período de cheia apenas nos meses de julho a agosto.

Assim na Amazônia a ocorrência simultânea de cheia e vazante, ou de inverno chuvoso no sul e verão seco no Norte, é o normal. O surpreendente é que neste ano ambos os eventos tenham sido extremos.

Neste cenário o Amazonas vive a expectativa de mais um ano de cheia grande, o rio Solimões vem escoando volumes de água ao redor dos 116 mil metros cúbicos por segundo, similares ao ano de 2012 quando ocorreu a cheia máxima. Mas em Manaus o rio Negro tem apresentado uma diferença de cota de cerca de 1 metro a menos quando comparado ao mesmo período da cheia máxima de 2012 e vazão três vezes inferior.

Talvez seja no balanço dos extremos de cheia, acima da média para os rios do hemisfério sul, e de vazante, recorde para os rios do hemisfério norte, é que se definirá a cheia de 2015. E o rio Negro em Manaus, no centro da Bacia Amazônica, como um fiel da balança, poderá contar a história de uma grande cheia, sob a influência do rio Solimões, ou de uma cheia pouco acima da média devido às condições de estiagem na bacia do rio Negro.

 

Marco Oliveira é geólogo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e mestre em Geociências pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nascido em Andradina (SP), mora e trabalha na Amazônia desde 1997. Desenvolveu projetos nas áreas de prospecção mineral, risco geológico e hidrologia. No Amazonas, é superintendente regional do Serviço Geológico do Brasil (sigla para CPRM), órgão responsável pela divulgação dos alertas das cheias e secas na Amazônia Ocidental.(marco.oliveira@cprm.gov.br)

 

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