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Fêmeas Memórias: Algemas silenciadas

31/10/2016 18:47

 

FÁTIMA GUEDES

 

Quem aprendeu sorrir e cantar na dor sabe cozinhar as palavras pacientemente na boca e soltá-las como lâminas de fogo, na direção e momento exatos. [Conceição Evaristo – Escritora e ensaísta]

 

É impossível se aquietar, quando pedaços de nós se degeneram esquecidos nos vazios institucionais do Estado Democrático de Direito…  São espelhos cuja refração cobra de nós intervenção. Da inquietude, nascem estas páginas, reafirmação do compromisso feminista contra agravos que interferem direta e indiretamente no direito à liberdade e, consequentemente, na conquista de um desenvolvimento compatível à dignidade humana. No calor da intenção, inspiramo-nos no documentário de autoria da Anistia Internacional, Por trás do Silêncio – abordagem com mulheres de comunidades brasileiras socialmente excluídas.

Em paralelo, o teçume clama aos Princípios Fundamentais constantes na Constituição Federal e Direitos Humanos: respeito à dignidade da pessoa humana; construção de uma sociedade livre, justa e solidária; erradicação da pobreza, da marginalização e das desigualdades sociais; promoção do bem comum, sem preconceitos e discriminações de qualquer natureza…

Por essa via de construção, necessariamente, paradigmas preconcebidos arbitrariamente silenciarão em favor da pedagogia da escuta e acolhimento a mulheres violentadas, com históricos delituosos e passagem pelo presídio público de Parintins, no Amazonas. É pretensão também reunir os diálogos e, num futuro próximo, utilizá-los no aprofundamento do debate sobre a natureza dos delitos femininos e, ao mesmo tempo, no desafio à reumanização e/ou ‘ressocialização’ de categorias condenadas a exclusões e silenciamentos.

Em derradeiro, o diálogo – sociedade e o invisível histórico das personagens – atende aos compromissos por uma Parintins dialógica, acessível aos Direitos Humanos e à promoção do bem comum. É o tempo das possibilidades…

 

Arcabouços Patriarcais

Nas periferias e beiradões subvive a maioria da população excluída em seus direitos fundamentais ao mesmo tempo condenada a situações perversas. Dificilmente falam por si. O direito à escuta geralmente lhes é negado. Sob a lógica deste Estado Dominante condena-se o/a delitante com base no ato infracional flagranteado, silenciando-se causas, influências e motivações. O que se conhece sobre a vida e histórias das/os personagens encontra-se em livros de ocorrências policiais ou é trazido a público rotineiramente, via cruéis noticiários:

 

  1. Violência doméstica, no Canecão. O marido e sua esposa saíram pra curtir no sábado a vitória do Brasil. Dançaram, dançaram… O detalhe é que quando ela disse que já queria ir embora, ele não queria que ela fosse, queria dar mais uma dançada… Queria ouvir a música do Pablo… O marido agrediu a mulher com socos e pontapés… 2. Denunciante vem recebendo ameaça junto com sua filha: Olha, tu vai amanhecer com a tua boca cheia de formiga… A denunciante está nervosa… 3. Pai agride filha malcriada. Uma menor de 15 anos fora agredida por seu pai. Na delegacia, o pai falou que a cunhantã só quer balada, balada… E ainda ameaçou levar o coroa no Conselho Tutelar. Ele disse que no final de semana a cunhantã se veste de sainha curtinha e se manda pra balada e só chega de manhãzinha antes da missa.

 

A outros agravos somam-se ausência de perspectivas e o extremo cansaço na longa espera pelo pão da Justiça, da Igualdade e Liberdade, sem fuzis e cassetetes.

Uma vez consolidada a desesperança e a morte de possibilidades humanizantes, tais categorias forjam estratégias transgressoras: rebelam-se arbitrariamente à ordem estabelecida e, dependendo de brechas descuidadas, num primeiro momento, satisfazem necessidades emergenciais – alimentação, vestuário, transporte (bicicletas)… Com o agravamento das condições de sobrevivência paralelo a sedutoras ofertas mercadológicas (inatingíveis), a maratona delituosa vislumbra “bens” maiores, oportunizando-se, assim, a “profissionalização” de latrocínios e de outras barbáries.  

Do exposto, comprovam-se contradições profundas entre as determinações expressas no Art.50 da Constituição Federal e o real concreto (1) de grupos excluídos em seus direitos mais elementares. Na sequência, categorias humanas em situação de pobreza material, analfabetismo, enfim, vulnerabilidade social ocupam os primeiros lugares nas estatísticas policiais.

Não muito distante, preconcebia-se tal realidade quase exclusividade do gênero masculino; na recente conjuntura, porém, é notória e crescente a presença feminina em históricos delituosos.  Semelhantemente aos homens, as mulheres compartilham dos mesmos dramas, de degradantes condições prisionais e dos rigores da Lei.

Na conflitante relação mulheres / modelo patriarcal é importante elucidar aspectos históricos, questões subjacentes. O modelo concebe as mulheres subproduto da evolução da família e da sociedade privada. No artigo Mulheres: A Revolução Mais Longa, de Juliet Mitchell, tradução de Rodolfo Konder, August Bebel, discípulo de Engels, traça a visão programática desta opressão: Desde o início dos tempos, a opressão foi o destino comum da mulher e do operário. […] A mulher foi o primeiro ser humano que provou da escravidão, tendo sido um escravo antes de existir a escravidão.

Eduardo Galeano, em Memórias do Fogo, traz materialidades deste processo: Durante 20.000 anos, aproximadamente, as mulheres sentavam na proa da canoas e os homens na popa. As mulheres caçavam e pescavam. Saíam das aldeias e voltavam quando podiam ou queriam; os homens montavam as choças, preparavam a comida, mantinham acesas as fogueiras contra o frio, cuidavam dos filhos e curtiam as peles para servirem de abrigo. Assim era a vida dos nativos na Terra do Fogo.        Um dia, chegaram os invasores, armados de cruzes e espadas, falando de um deus todo poderoso que criou o homem a sua imagem e semelhança, e dava aos homens poderes para dominar a terra e tudo o que tivesse sobre ela.

A partir daí, os homens começaram a matar as mulheres… Somente as meninas recém-nascidas se salvaram. Enquanto elas cresciam, os assassinos lhes diziam e repetiam que servir aos homens era seu destino. Elas acreditaram. Também acreditaram suas filhas e as filhas de suas filhas.

Em Marcas de Batom: Como o Movimento feminista evoluiu no Brasil e no Mundo, Frei Betto aponta paradigmas de opressão sobre a mulher através dos tempos: No Renascimento, bispos e teólogos defenderam que a mulher é “naturalmente” inferior ao homem, destinada a obedecer-lhe. Por isso, não podia exercer funções de poder, como o sacerdócio. Questionado se o escravo liberto poderia ser sacerdote, São Tomás de Aquino, meu confrade, respondeu que sim, pois o escravo é “socialmente inferior”, enquanto a mulher é “naturalmente inferior”.

Pitágoras, o filósofo grego, fortalece a misógina tribuna e presenteia o patriarcado com infeliz herança: Há um princípio bom que criou a luz, a ordem e o homem e um princípio mal que criou o caos, as trevas e a mulher.

A propósito do acervo milenar de opressão sobre as mulheres é pertinente investigar a base motivadora dos rompimentos às regras da servidão, do ‘bom comportamento’, da ‘virtude feminina’, do conjunto de influências e tendências a práticas delituosas.  E, na perspectiva de destrinchar zelosamente o imbricado arcabouço mulher/patriarcado, exponho desabafos de delitantes, condenadas não apenas de Justiça, mas de perversas condições socioeconômicas, na busca incessante por sobrevivência digna ou não. 

Resguardando-lhes a identidade, as protagonistas deste ensaio elegem pseudônimos conforme se reconhecem no processo de reconstrução e/ou reinvenção da nova mulher.

 

Pedra Lapidada

lapidando

Diamante é natural de Monte Dourado (Pará), 40 anos, solteira, mãe de três mulheres e um homem. Vive em Parintins/AM, há 19 anos, impondo-se a desafios por superação e autoafirmação. Sem reservas, compartilha suas memórias oferecendo-as como nutrientes provocadores ao debate libertário.

Define-se Diamante.

“Por tudo o que me aconteceu, por tudo o que sofri, fui lapidada pela vida, transformando-me num Diamante. Minha vida tem sido um processo contínuo de lapidações. Quarenta anos é tempo suficiente para uma matéria bruta se transformar em peça refinada e atraente”, afirma.

Todo o processo de ‘lapidação’ a que Diamante sofrera começou na infância. Nesse retorno ao passado, não esconde sentimentos de mágoas, até insuperáveis, dado ao conjunto de circunstâncias adversas pautadas em sua trajetória: “Minha infância foi muito sofrida. Considero-me órfã. Ainda bebê, fui abandonada por meus pais e entregue a avó materna cujas limitações a impediu me oferecer o necessário para um bom desenvolvimento. Meu pai saiu de casa atrás de emprego e não mais voltou. Meses depois, minha mãe também se mandou, deixando eu e meu irmão para trás. Da mãe, apenas ouvi a voz no telefone uma única vez, isso faz dois anos. Cresci praticamente sozinha. A falta dessa base afetiva me trouxe dificuldades na escola, nos relacionamentos… A escola onde eu morava ficava distante; minha avó não podia me levar e trazer. Aí, fui morar com uma tia que me dava porrada diariamente porque eu não dava conta dos trabalhos. Era muita coisa!… Chegou a quebrar minha cabeça. Minha avó me trouxe de volta. Quando fiz 12 anos, meu pai reaparece pra me levar com ele. Minha avó relutou, mas meus tios a convenceram. Lá fui eu chorando. Era um estranho. Mas, como dependia dos outros, não tive escolha. O que mais me entristecia era depender de pessoas que não me deram amor, proteção, segurança… Só violência, aliciamentos, estupros… Cresci sem amar ninguém, sem referencial paterno e materno. Geralmente, órfãos tem referências: um tio, uma tia… Não tive isso…”.

Reprimindo soluços Diamante relata o trágico convívio com o pai:

“Meu pai me levou pro Amapá. No fundo do meu coração, alimentava sonhos de felicidade acreditando que agora estaria protegida. Tinha um pai que cuidaria de mim… Só engano! Lá, entrei pra escola. Tinha muita dificuldade. Era a maior da turma, uma estranha no meio das crianças… Foi muito difícil. Aí, veio revolta e um monte de sentimentos ruins… Dos treze pros quatorze anos, meu pai começou me violentar sexualmente. Entrei em pânico. Minha vida desmoronou de vez… Sentia nojo dele e não tinha saídas… Falei pra madrasta. Ela, porém, era submissa a ele, contou-lhe tudo e fui severamente castigada”.

Apesar da aparente superação, Diamante reproduz no brilho turvo do olhar os impactos do asqueroso abuso somados à impotência da vítima totalmente refém do abusador: “Terrível tudo aquilo. Queria sumir, morrer… Pra completar, ele cortou meus contatos com minha avó e parentes, no Pará. Não tinha telefone, nenhum acesso. Fugi de casa várias vezes, mas ele me trazia de volta. Ele me transformou no seu instrumento sexual. Aos 14 anos engravidei dele. Tentei me matar. Ele reagiu indiferente como um psicopata. Ele era a vítima e eu a dissimulada. A vizinhança falava mal de mim, me chamava de sonsa porque eu não saía de casa, não tinha namorado, ele me levava e buscava na escola… Ele ficava na dele. Ameaçou-me para não contar quem era o pai. As pessoas tinham que pensar que eu era vulgar, cunhantã assanhada. Na verdade, eu era bestinha, menina de interior, tinha medo até de falar”.

No posto de militante feminista, é impossível manter neutralidade… A cada desabafo, entre mim e Diamante consolidam-se cumplicidades por emancipação, autonomia e o compromisso de alcançar outras cujos dramas se assemelham. Num breve silêncio, franzira a testa… Por fim, compartilha as sequelas de uma gravidez indesejada: “Odiei aquela gravidez. O trabalho de parto durou três dias… Terrível!… Era uma menina. Olhava pra ela com revolta. Era tudo o que não queria pra mim, naquele momento. Total rejeição. Cuidava e amamentava porque era obrigada. Aquilo não tinha nada a ver comigo. Entrei em depressão. Ele percebeu que eu tinha pirado e começou a cuidar dela. Minha revolta reprimida se manifestou. Dizia pra mim mesma: Esta vida não é minha. Esta filha não é minha. Eu não fiz. Daqui pra frente, vou viver o que eu quero… Aí, ia pra rua, fugia… Apanhava toda vez que saía. Hoje, minha filha está com 24 anos. Aos 22, conheceu sua história. De início, ficou impactada. Silenciou por um tempo, depois me agradeceu por tê-la criado, protegido, livrando-a daquele monstro”.

Diamante tem muito ainda a dizer. Em sua fêmea trajetória traz recortes importantes que se oferecem como nutrientes singulares ao debate feminista: “Aos 17 anos, em plena piração, me apaixonei por um jovem e engravidei (segunda filha). Foi a primeira vez que amei um homem, que tive vontade de dar pra ele. Meu pai me enxotou de casa porque ‘o tinha traído’. Queria que eu tivesse filhos, mas só dele. (Quando me lembro disso!…) Na época, não tinha defensoria, conselho tutelar, nada. Sem ter para onde ir, barrigudona, sentei numa calçada próxima dali. Já era noite. Os pensamentos a mil. O autor daquela gravidez não assumiu. A família o convenceu de que a criança podia não ser dele, já que eu não sabia quem era o pai da primeira. Nessas circunstâncias, conheci Jão* que se comoveu com minha história e se mostrou meu defensor… O acolhimento daquele estranho me atraiu. Ninguém até então me tinha demonstrado proteção. Era tudo que eu queria. Nós, mulheres, queremos ser amadas, cuidadas… É nossa natureza… Nós gostamos disso, e eu sentia falta… Até então, na minha cabeça, ninguém se importava comigo. Os homens que se aproximavam de mim eram pra me aliciar. Até meus tios… Ainda na casa de minha avó, acordo no meio da noite, com um tio colocando a mão dentro da minha calcinha. Até os 15 anos, fazia xixi na rede… (Posteriormente, quando vim pra Parintins e fui presa, a Justiça me obrigou fazer um tratamento psicológico. A Psicóloga me falou que quando o xixi noturno ultrapassa a adolescência é trauma. A mesma coisa aconteceu com a filha do abuso. Mijou na cama até os 17…)”.

A empatia do diálogo supera as horas disponíveis à construção desta narrativa. Adentramos pela noite. Diamante sente necessidade de escuta… “Pra tirar minha filha de meu pai, tive que fugir de madrugada com ela. Tinha pavor que se aproveitasse dela como fez comigo. Estava entre a cruz e a espada. Se ficar aqui, meu pai vai me obrigar a ser puta dele; se for com o Jão, não sei… Não o amava, mas foi quem se chegou e mostrou bondade. Nada tinha a perder, além de tudo, sem nada e ainda grávida de outro homem. Perguntei a ele sobre o interesse por mim: ‘gostei de você. É bonita, atraente e só precisa de alguém que lhe proteja’. Era tudo o que eu queria ouvir”.

Os sonhos cultivados nos vazios de afeto, com o correr do tempo, transformam-se em pesadelos… Promessas de proteção e cuidados anunciadas por Jão assumem caráter de opressão e tirania. E despeja:

Jão era camelô e me convidou pra ir com ele para Autazes, cidade dele. Aceitei, desde que levasse minha filha, já com 2 anos. Fugimos de madrugada. Nova vida. Os primeiros anos foram bons. Jão me cuidou. Quando nasceu o terceiro filho (o primeiro dele), as coisas foram mudando, vieram as dificuldades… Dedicação, amor foram sumindo… Vivia nervoso e apreensivo. Com a queda das vendas, viu-se em apuros… Começou a vender drogas escondido de mim. Era um grande movimento de pessoas em nossa casa – crianças, jovens, adultos, mulheres… Por ele ser uma pessoa comunicativa, muito conhecido e a cidade pequena, no início, achava normal aquela movimentação. Depois, fui estranhando e descobri que estava envolvido com droga. Outro impacto. Nunca o vi nem fumando. Aí, se transformou. Ficou grosseiro… Tudo mudou pra pior. Começou a me estuprar. Consumia droga, me acordava no meio da noite e me forçava a fazer sexo… Se eu não cedesse era pior, apanhava. Dependia totalmente dele. Não deixava eu estudar. Segundo ele, ‘mulher que estuda bota chifre no marido; lugar de mulher é em casa cuidando das crianças’. Alegava que não me faltava nada… Se eu o enfrentasse, apanhava. E sem opção me recolhia. A venda da droga disparou. No início, eu não tinha contato. Ele nos superprotegia. Tudo era com ele… Isso foi bom. Minha vida era cuidar da casa e dos filhos. Fui me conformando: não faltando nada em casa, tava bom.. Depois de um tempo, a polícia já estava de olho nele. Aí, decidiu vir pra Parintins, quase fugido. Fretou um barco só pra nós com toda a mudança. Havia prometido que aqui viveríamos uma nova história. Que nada! Ai, foi quando abri meus olhos pro perigo. Nisso, ele começou a me envolver e me fez levar um pacote em Maués. Meu coração a ponto de explodir. Depois, a polícia invadiu nossa casa e levou ele preso, só ele. Aí dei um basta. As crianças eram minha preocupação. Aí, parei mesmo. Disse a ele que faria qualquer outro trabalho, menos vender droga. Ele pirou. Jogou na minha cara que passou a vender droga para me dar uma vida melhor e tudo o que eu gostava. Apesar de morrer de medo dele, resolvi lutar por mim e pelas crianças. Fui ao presídio e rompi com a relação. Lá, na cadeia, ele gritava que eu era puta do meu pai. Saí de lá determinada”.

O processo de lapidação não se encerrava ali. Diamante não imaginava o que ainda estava por vir. “Já com 21 anos e quatro filhos arrisquei um novo começo. Arranjei um namorado. Nesse meio, sem que eu soubesse, Jão saiu para o semiaberto e nos flagrou. Foi aquele drama! Queria a família de volta e estava disposto a tirar do caminho quem atrapalhasse. Eu era ‘a mulher dele e nunca deixaria de ser; preferia me ver morta, mas não seria de outro homem’. Mulher ingênua e carente se emprenha fácil pelos ouvidos. Paguei por isso… Jão me obriga trazer o rapaz em casa, jurando que só queria conversar. Acreditei. Fui atrás do rapaz que aceitou pensando que era pra uma noite de amor… Jão o trancou no quarto, espancou-o e o estuprou na minha frente. Disse que homem nenhum comia a mulher dele… No dia seguinte, o rapaz fez a denúncia e fui presa por cumplicidade. Tive minha parcela de culpa, por obedecer a um maníaco. Fomos presos. Fiquei 10 dias numa sela, sozinha; morria de medo de ser violentada pelos policiais, mas sempre respeitaram…”.

As amarguras, até então, experienciadas por Diamante apontavam horizontes, embora tênues. Parece que o divisor de águas já se desenhava provocador… “Decidi deixar, de vez, o Jão. Ele exigiu a partilha da casa. Sem conhecer meus direitos, obedeci: vendi por dois mil reais e dividi com ele. Tudo o que eu queria era me livrar dele e acabar com o sofrimento. Aí, pensei: com mil reais só dá pra comprar uma casinha bem simples, sem segurança. As minhas filhas correriam riscos de abusos quando estivesse no trabalho. Sempre pensei na segurança delas… Aí, comprei um lanche, um triciclo e levava todas comigo pro trabalho. Fui morar de aluguel e moro até hoje. Pessoas até ofereceram emprego pra mais velha; não aceitei; morria de medo que estuprassem minhas filhas. Nunca vi bondade nos machos. Quando se aproximam da gente não é pelo que somos, mas pela nossa aparência, principalmente se temos um corpo que chama atenção. Só querem nosso corpo. São verdadeiros predadores. Pra eles somos mercadorias: chegam, observam os detalhes e, se satisfaz ao instinto, vão logo passando a mão… Mas, sim, segui adiante. Criei meus filhos no lanche. Foi muito bom, mas não deu pra suprir as despesas deles e da casa”.

As sucessivas violências com desfechos traumáticos provocam carências profundas na existência de Diamante. A busca por compensações amorosas persistem: “Depois disso, ainda tive dois envolvimentos; o primeiro, nuvem passageira; O outro, mais problemas. Pensava que homens de estudo eram diferentes, mais sensíveis, honestos… Nada. Com a convivência foi se revelando. E o pior, eu sabia que não era pra mim, mas a dependência não me deixava cair fora. Ficava com ódio de mim por isso. Lembro que, por várias vezes, lá estava na porta dele me humilhando… ‘Não me importo que fiques com outras, mas não me deixa…’ Tinha medo da solidão… Medo de ficar velha, sozinha… (Coisa ridícula!!!) Ao mesmo tempo em que eu odiava os homens, queria ser amada por eles. Era uma grande carência… Por isso, meus relacionamentos eram um atrás do outro”.

Desiludida de tudo e de todos, em depressão, baixa estima, Diamante se recolhe no isolamento entre monólogos insondáveis… Refugia-se nos caminhos na espiritualidade.

“Sonhava com a libertação, com paz interior. Não perdoava minha vida e a cumplicidade no abuso àquele rapaz. Um lado de mim era podre e o outro tentava sobreviver. Era um grande vazio… Nessa confusão toda, Rhanna*, minha adolescente, me provoca a uma aproximação com Deus. Pensava que primeiro tinha que melhorar. Achava que a igreja era lugar só de gente santa. Descobri o inverso. Lá não tem santo nenhum. Tem gente sincera tentando melhorar e também gente sacana. Aí me desafiei: ‘não sou mais uma menininha. Sou uma mulher e mãe. Não posso viver nesse fica-fica de homem, preciso ser exemplo pras minhas filhas…’ A palavra de Deus diz que nosso corpo é sagrado, não ‘comida’ pros homens. Estava entre a cruz e a espada… Nesse diálogo, Jesus entrou na minha vida. Minha Rhanna participava de um grupo de jovens da igreja e a acompanhei numa celebração. Sentia-me destruída. Ela sentou ao meu lado, segurou minhas mãos, orou por mim… As músicas tocaram meu coração, chorei o culto inteiro. Rhanna me abraçou. Ali era meu encontro com Deus e o reencontro com a Diamante. Saí dali aliviada, leve… Dormi e acordei diferente. Não fiquei frequentando a igreja… Sempre fui muito arredia, desconfiada com estranhos… O medo de ficar só foi se esvaindo… Estou vivendo, me amando… Descobri que agente vive sozinha e bem. Aí me dediquei a estudar a Bíblia, em casa; não enfurnada na igreja. Descobri que as mulheres tinham que se amar, que se valorizar. A submissão pregada pelas lideranças e pastores não é a mesma que Bíblia prega… Na Bíblia, os homens tem que amar suas mulheres como Cristo amou a igreja, não do jeito que eles querem, nos submetendo a eles. Descobri que o sexo é um vício: satisfaz momentaneamente e logo vem o vazio… O nosso Deus não quer isso… Cristo deu a vida pela Igreja: alimentava a multidão quando estava faminta; deu a mão à prostituta… Jesus prega o amor. Aí, segui esse lado. A pedra bruta, aos poucos, vai se transformando.

Esgotadas todas as reservas de ilusões amorosas, o processo de ‘lapidação’ alcança outras dimensões… Diamante desperta para a necessidade da escola, da superação dos vazios existenciais via conhecimentos. “A necessidade de conhecimentos começou me perseguir. Não só da Bíblia, mas sobre mulheres, ciência, tudo… Não parei mais. ‘Conheceis a verdade e ela vos libertará’. Voltei a estudar aos 30 anos. Passei a entender e me compadecer de outras mulheres… Pensei: ‘só com conhecimento posso ajudá-las’. Montei um grupo de mulheres em casa. Aí veio a briga com a Igreja, o que não entendo… Os pastores não aceitam nossa autonomia… Ignoro. Sou submissa apenas à palavra divina que me aponta a libertação e a felicidade… Vivo num reencontro constante… Ainda não estou completa… Todo dia me pergunto sobre quem eu sou…”.

Da possibilidade de uma nova relação… “Não corro atrás, mas não perdi a esperança de encontrar um bom parceiro, temente a Deus… Maturidade traz seletividade. Acredito que há homens de bom caráter. Poucos, mas existem”.

Na reconstrução da nova mulher, Diamante se esquiva quando é questionada sobre a mãe que a abandonou. São conflitos ainda não superados totalmente. De um lado, as sequelas emocionais da filha abandonada; do outro, a mãe/mulher de cujo passado nada sabe…

“Por muito tempo condenei minha mãe. Nunca fiz esforço pra conhecê-la; não representa nada pra mim. Apesar de tudo o que enfrentei e de todas as dificuldades, eu cuidei de minhas filhas, zelei por elas; hoje estão encaminhadas… A proteção que dei a elas minha mãe poderia me ter dado. Porém, até aqui, não me sinto em condições de condená-la ou defendê-la; não tenho elementos para isso. O tempo trará os justos esclarecimentos”.

É impossível concluir a pauta sem o último brado o que, certamente, ecoará sobre silêncios e silenciamentos institucionais; sobre vereditos dissociados do real-concreto de personagens historicamente estigmatizadas; por fim, sobre aquelas e aqueles cujo envolvimento com ideais de Liberdade, Autonomia, Igualdade, Justiça, Solidariedade e Paz darão o devido encaminhamento:

“Provoco as mulheres se libertarem das algemas, das cadeias interiores, das dependências… Renasçam todos os dias… Nunca desistam de construir suas histórias, de fazer seus sonhos se cumprirem… Se respeitem mais, se valorizem mais… Não permitam a qualquer um entrar em suas vidas e destruí-las. É sabedoria tirar lições das coisas ruins. Tudo é experiência…”.

 

Dizer o quê?…

Fotos: Floriano Lins

Fotos: Floriano Lins

O exercício do Acolhimento e Escuta é nosso único direito/dever, se não temos alternativas concretas às vítimas da barbárie patriarcal. As sequelas aparentemente ‘superadas’ são cicatrizes, memórias cristalizadas qual fantasmas a persegui-las, vez por outra. Quando se lhes tocam as cicatrizes, respingos de sabor amargo recaem, principalmente, sobre familiares, amigos/as, pessoas mais próximas, nomeadas cúmplices indiretas… São mecanismos de autodefesa e ao mesmo tempo autoafirmação.

Durante os relatos, em relação à proteção, Diamante pouco se refere ao filho; diferentemente, quando se reporta às filhas…  Nessa perspectiva, o debate se amplia à desconstrução de paradigmas relativos à ‘fragilidade’ das mulheres.

No processo de ‘reencontro’, Diamante aponta espiritualidade e conhecimento os caminhos da conquista de sua libertação e autonomia. No entanto, posiciona-se criticamente à submissão imposta às mulheres por lideranças religiosas: “sou submissa apenas à palavra divina”. Vale refletir: a espiritualidade tem sido uma válvula muito perseguida pelas mulheres vitimizadas… Suporte ou estopim?

Considerando-se imbricações socioculturais e ao mesmo tempo zelo investigativo, Karl Marx, insiste na racionalização sobre as circunstâncias – humanos/natureza: “O reflexo religioso do mundo real somente pode desaparecer quando as circunstâncias cotidianas, da vida prática, representarem para os humanos relações transparentes e racionais entre si e com a natureza”. (O Capital – vol. 1)

O debate, portanto, está posto.

 

*Nomes fictícios

 

Notas

(1) O artigo “Algemas silenciadas” abre a série de textos que a autora Fátima Guedes começa a publicar como parte do Projeto – Fêmeas Memórias: Trajetórias de Mulheres Violentadas sexualmente, presas da Justiça e ex-presidiárias no município de Parintins, no Amazonas.  

(2) Em Manuscritos Econômico-Filosóficos, Sobre O Método da Economia Política: “O último método é manifestamente o método cientificamente exato. O concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso”. MARX, Karl (p. 116).

 

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). Foi fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã e Militante da Marcha Mundial das Mulheres.  

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Comentários

  1. Joelma Maia disse:

    As mulheres lutam por dias melhores, pois as mesmas trazem sequelas da escravidão de anos a fio. Liberdade é respeito são códigos de honra para uma talvez possível igualdade.

  2. Sílvia Grijó disse:

    Cara amiga, educadora, militante das causas sociais que mais nos inquietam – a violência contra as mulheres – causas mais do que justas de se lutar a favor. Li toda a matéria, formidável, impressionante e sobretudo, emocionante, afinal são pedaços de nós sendo deteriorados, apodrecidos e na maioria das vezes adormecidos, sem vez nem voz… O teu trabalho é simplesmente formidável, possibilitando vir à tona os prós e os contra da verdadeira história que “mancha” o espaço social feminino… Parabéns pela coragem e determinação de fazer esse projeto acontecer. Abraço Grande.

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