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Fêmeas Memórias – Mensageira de Silêncios

Orquídea Coio (Foto: Floriano Lins)
23/03/2017 20:29

Sinto que sou um bosque, que há rios dentro de mim, montanhas, ar fresco ralinho e parece-me que vou espirrar flores e que, se abro a boca, provocarei um furacão com todo o vento que tenho contido nos pulmões. Gioconda Belli – Poeta Nicaraguense

                     

 Flores são fêmeas singulares e atrevidas… Desafiam circunstâncias adversas: climas, solos, tempo, ambientes e se fazem existir discretamente com singeleza, ternura e poesia… Não raro, pântanos também florescem com singularidade. Ali, brotam espécies originalmente raras… O Lótus magestifica aquele reino…  Orquídeas, as Cataleyas, somam-se a Ele… Florescem anônimas e silenciosas nos igapós, nas matas virgens… Abrigam-se nos braços cuidadosos de galhos discretos onde o silêncio lhes bastam. Em sua tímida fragilidade camuflam mistérios ao mesmo tempo em que se resguardam de incessantes ameaças… No entanto, são acessíveis a quem alcança a sonorização de seus segredos, de sua natureza ameaçada.  

A Cataleya que ilustra o V Capítulo de Fêmeas Memórias é a mais pura extensão de rudes e singulares florescências… Insurge-se de nossos pântanos sociais com autenticidade e singeleza anunciando verdades que não se vê ou nos recusamos aceitar. O codinome inspira-se na produção cinematográfica de Olivier Megaton, A Colombiana sob interpretação da atriz Zoe SaldanhaCataleya. Aos nove anos, testemunha ao violento assassinato dos pais, em Bogotá, Colômbia. Após jurar vingança, vai para os Estados Unidos viver com o tio Emilio (Cliff Curtis), um narcotraficante. Quinze anos depois, Cataleya trabalha para o tio como assassina profissional. Contudo, ela continua determinada em levar adiante a sua promessa de vingança, mesmo sabendo que isso signifique perder tudo o que conquistou. Em natureza e espécie, Cataleya pertence a um gênero de orquídeas grandes, atraentes, muito popular e amplamente disponível no comércio.

 

Breve Memória

Foto: Floriano Lins

Foto: Floriano Lins

No ano de 1970, nossa Cataleya brotava em um anônimo canteiro de Manaus/AM, rua 7 de Setembro, próximo à penitenciária. Mudou-se com a família para Parintins ainda criança; atualmente reside na área de ocupação – Castanhal, anexa ao Bairro União. Possui formação técnica em Enfermagem oferecida pelo CETAM em parceria com o Colégio Batista de Parintins. Hoje, aos 39 anos, abriga memórias conflitantes e sem reservas confidencia-nos gemidos amordaçados. Vive a condição de presidiária do regime semiaberto e mantém uma união estável com um cidadão colombiano, ex-presidiário. Da primeira relação, gerou três filhos – 1 homem e 2 mulheres.

Nossa conversa fora regada por pausados Silêncios e discretas lágrimas… Plenamente acessível, Cataleya reconstruíra memórias cedendo-nos direito de compartilhar com leitoras e leitoras, independentemente de percepções ideológicas, sua conflitante jornada histórica paralela à luta por sobrevivência, autoafirmação e reinvenção… Afinal, espelha-se nas Orquídeas que sobrevivem discretamente em vestígios de igapós e florestas maculadas:

Quando assisti ao filme, inspirei-me naquela personagem – a Cataleya: era uma menina de aparência frágil que, depois de testemunhar a violência sofrida por seus pais, se transforma numa mulher corajosa e destemida. Essa menina, enfrenta caminhos tortuosos até eliminar o último assassino que destruíra sua infância e seus pais. Essa história me deu muita força para enfrentar as coisas ruins que destroem nossas vidas. Cataleya é também o nome de uma flor que nasce meio escondida, mas fala muita coisa pra quem sabe escutar… (pausa e lágrimas) Confesso que antes da minha prisão, nunca tinha me envolvido com coisas ilícitas… Nunca tinha sido presa… Tanto é que, dentre as companheiras lá do presídio, era a única que não tive uma vida sofrida igual a delas; por isso, elas se admiravam de me ver ali dentro. E tudo começou quando me envolvi com esse que, hoje, é meu marido. Ele não é daqui; é colombiano; era trabalhador do tráfico e acabei indo presa numa escuta telefônica, quando ele usou meu telefone. Minha história tem uma ligação muito forte com o enredo do filme. Cataleya enfrenta os monstros, quando se sente violentada. Acho ela igual a mim. Quem me conhece do meio gosta de mim por eu ser assim. Não tenho nenhum vício e não meço consequências quando vejo injustiça perto de mim. O pessoal da cadeia sabe: mexeu com meus filhos, minha família, meus amigos e inocentes, mexeu comigo. Viro bicho. Lá na cadeia, ajudei muita gente… Ali, é uma irmandade. Eu apartava as brigas; não gostava que maltratassem ninguém, principalmente jovens.

Sou a única filha mulher da família e sempre tive tudo o que precisava. A gente passava bem… Não tivemos histórico de necessidades… Meu envolvimento com esse mundo já foi através do amor…  

Nossa família é pequena: no todo, somos quatro irmãos; dois por parte de pai e mãe; um só da minha mãe e outro do pai. Meus pais trabalhavam e me proporcionavam o necessário. Vim pra Parintins com 12 anos de idade, quando comecei a estudar. Eu tinha problema de asma e sempre que vinha, nas férias, eu melhorava; acho que era o clima e também a minha avó me cuidava com remédio de ervas. Foi então que minha mãe resolveu mudar definitivamente pra cá. Meu pai trabalhava na Texaco, deixou o emprego e acompanhou ela. Até ali, eram muito unidos. Ele era bem mais velho que minha mãe e tratava muito bem dela. Nunca vi briga deles… Fui ver depois de grande… Aí, minha mãe passou no concurso do Estado, pegou as contas da Prefeitura e foi trabalhar na Vila do Mocambo. Nesse período, ela conheceu o atual marido e se separou do meu pai. Como disse, minha vida foi boa; meu erro foi ter me envolvido com amizades que me influenciaram pra coisas ruins… Pago o preço.

Durante o tempo que minha mãe foi contratada pela Prefeitura, trabalhou 16 anos na delegacia como administrativa. Era ela que entregava as intimações e por ser muito ativa, e o efetivo da delegacia ser pouco, fazia de tudo. Até prendia as pessoas. Eu dizia que ela fazia funções que não era da competência dela. Juro que não gostava do que ela fazia… Por tudo isso, nossa vida se tornou difícil, a gente não via mais ela… Desse trabalho que ela fez, até fiquei com medo de apanhar quando fui presa… Ela mandou prender muita gente e os que estão naquele lugar sabiam. Hoje, meu irmão também está lá, preso por furto. Agora, ela é funcionária do Estado e trabalha na Vila do Mocambo.

No início da primeira gestão do prefeito Bi Garcia, minha mãe fundou no Bairro Itaúna, os Agentes Comunitários. A família tem tudo isso documentado. Os agentes Comunitários funcionavam como uma segurança pública no Bairro e eram convocados para monitorar as festas.

Hoje, minha convivência com ela é boa. Quando ela se separou do meu pai, eu fiquei muito revoltada. Ele é uma excelente pessoa; todo mundo sabe: não bebe, não fuma, parou de beber há quase 50 anos; só vivia pra família… Aí eu me revoltei… Com o tempo, as coisas vão se ajeitando e vamos superando. Hoje, dou apoio a ela, quando precisa… Ofereço carona pra resolver suas necessidades… Coisas assim.”

 

Sequelas da Paixão

Comprovadamente, dependências afetivas são elementos motivadores para o envolvimento de mulheres em históricos delituosos. Além de outros testemunhos já revelados neste teçume de memórias, Cataleya reafirma o custo da paixão:

Namorei muito desde a adolescência, mas era coisa passageira… Só tive dois maridos na vida. O atual aprendi amar com o tempo. Era meu vizinho na ocupação do Bairro União.  Tudo começou com uma fofoca da mulher dele. Ela foi no trabalho do meu marido dizer que eu tinha um caso com o marido dela e que ele me dava dinheiro… Essas coisas… Eu juro que não tinha nada a ver. Na época, meu marido bebia muito e não queria me ajudar. O vizinho acompanhava tudo. Lá na ocupação, se a gente deixar as coisas levam tudo e, pra não roubarem nossos materiais, a gente revezava: eu cuidava do terreno dele e ele cuidava do meu. Nisso, ele pediu o número do meu telefone e a gente se comunicava… O casamento dele já havia acabado; o meu, cada dia pior. Meu marido não assumia a família, só vivia porre, aí, eu e o vizinho fomos ficando e estamos até hoje.   

Até então, eu não conhecia o mercado da droga. Nem sabia pra onde ia isso. Eu trabalhava no Posto “Mãe Palmira”, como Técnica de Enfermagem, contratada pela Prefeitura. Nesse tempo, me separei do primeiro marido e fiquei com esse, o atual. Ele é colombiano, mas a família mora em Tabatinga e Letícia. Morei lá, 8 meses. A gente passou mais de um ano namorando. Já quase dois anos com ele, fomos presos juntos, flagrados em escuta telefônica. Meu marido vendia droga, embora não seja viciado. Justamente por isso, pegou dois anos de prisão porque ele viciava os outros; quer dizer, ele fazia mal pros outros. Hoje, entendo. Ele usava muito o meu telefone e eu fui presa como cúmplice. Por mais que eu não vendesse droga, eu sabia que ele vendia e não dizia nada. Enfim, era a nossa sobrevivência. O único trabalho que ele tinha e o que ganhava dava pra gente viver. Faz dois anos que ele saiu da cadeia. Era bastante conhecido, já trabalhava há mais de dez anos vendendo droga… Os patrões dele eram invisíveis… Apareciam uma vez e sumiam.

A propósito do encaminhamento, Cataleya descreve a dinâmica do mercado da droga em Parintins:  

O lucro da droga dava pra gente viver. Os financiadores abasteciam e entregavam o quilo da pasta básica por R$ 3.000,00 (três mil reais) e era vendido rapidinho. Em Parintins, tem muito consumidor… As pessoas nem imaginam!… A frente da nossa casa era cheia de carrão, motonas… Vichi!!! Gente graúda daqui de Parintins. Só ia gente da alta lá em casa: homens, mulheres, jovens… Gente pobre ia muito pouco. Só ia em casa gente que tinha dinheiro – comerciantes, professores, políticos, gente da saúde… Os graúdos… Quando eu fui presa, o pessoal da minha rua não imaginava que ali funcionava um comércio de droga, porque era só gente da alta sociedade de Parintins que frequentava. As pessoas pensam que os maiores consumidores são os pobres… Eles consomem sim, mas é o pessoal que tem dinheiro quem mais consome.

 

Custo de Vida

Nos vários depoimentos já registrados em Fêmeas Memórias, os custos de vida pago pelos trabalhadores do tráfico de drogas são sempre os mesmos: presídio e marginalização. A vontade de recomeçar vida nova, com dignidade, expressada nas diversas falas é comum a todas e a todos:

Nunca mais quero essa vida pra mim; foi a pior época da minha vida… Não aguento cadeia. Tenho filhos e eles precisam de mim. No tempo que eu estava lá, meu filho era filho adolescente… Aí, ficou solto na vida… Ia para as festas e meu pai não conseguia controlar. Saía, voltava de manhã. Eu sofria muito. As meninas, não, eram calmas e obedeciam. Num desses momentos que não gosto de lembrar, jurei pra mim mesma: ‘nunca mais quero voltar para aquele lugar…’. Além dos prejuízos com própria vida, com a saúde, tenho meus filhos, já tenho neto… Preciso passar bons exemplos. Agora, sofrimento de cadeia como tortura, assédio, essas coisas, nunca passei. As mulheres me protegiam. Até mesmo por causa da minha profissão de Técnica de Enfermagem… Eu ajudava elas. Agora, quero dizer, muitas mulheres ali padecem… É um assunto triste que não se pode esconder, até mesmo para a Justiça tomar providências… Mas, não quero falar sobre isso, desculpe… Meu sofrimento ali era por causa dos meus filhos… Eles sentiram muito o que aconteceu; ficaram revoltados. Nesse tempo, meu filho se envolveu com coisas erradas; achou no direito de me dizer na cara: ‘- se você fez, eu também posso fazer’. Ai, comecei a conversar com ele numa boa contando tudo o que se passa ali dentro… Reconheci que fiz coisa errada; que a vida de presídio não era nada boa pra ninguém… Com o tempo, ele foi entendendo e melhorando… Meu irmão também está lá na cadeia por uma falta grave, por roubo, e está operado… Como já era marcado, não teve saída…

Quem está fora da cadeia acredita que lá dentro tem um sistema de ajuda. No meu tempo, havia curso de cabelo, manicure, maquiagem em parceria com o SENAC… Mas, de antemão, dizem que elas vão se ressocializar, se reconstruir, não existe; é pura ilusão… É só aquilo e nada mais. Dizem que cadeia endireita; endireita não. Às vezes, a pessoa sai até pior… No meu caso, antes eu não conhecia o submundo; a turma das drogas. Agora, eu conheço…. Muitos e muitas continuam. Vão e voltam… As pessoas saem de lá, procuram trabalho aqui fora e não tem alternativa. Outros voltam porque lá ainda tem comida e um lugar pra se encostar, mas a maioria é por falta de oportunidade digna: têm fome, necessidades, não tem trabalho e precisam sobreviver, aí voltam a trabalhar no tráfico… É o que tem pros marginalizados e excluídos enganarem a fome.

Sobre assédios dentro do presídio, Cataleya esclarece:

Depende muito… Não só da mulher presa como daquela que acha que é livre porque está fora das grades… Mulher está sempre algemada, controlada – dentro ou fora de cadeia. É a nossa realidade. Só dá confiança pra cantada se quiser. Lá, tem muitas presas bonitas… Você sabe, a senhora viu… Às vezes, os presos se apaixonam: entram solteiros e até saem casados. Os encontros acontecem nos finais de semana, nos domingos… A ‘íntima’ sempre está ocupada nesses dias. Durante a semana não. As casadas ficam com seus maridos.  Às vezes, quando os namorados ou as namoradas conseguem a liberdade, ainda continuam se visitando… Depois, vão sumindo. A vida aqui fora é outra, né?

 

Filhas das Filhas…

Em sua Obra, Terra do Fogo, Eduardo Galeano denuncia os prejuízos do patriarcado sobre a vida das mulheres cuja lógica acreditaram e continuam acreditando “as filhas das filhas…” A reprodução das mazelas é milenar e se verifica nas variadas influências e acúmulos de nossa bagagem existencial. Se dotados de criticidade e autodiscernimento, filtramos os elementos dissonantes substituindo-os por valores e princípios éticos compatíveis a um desenvolvimento saudável e harmonioso; do contrário, a reprodução dos vícios dá-se em cadeia, e até mesmo de forma imperceptível; é naturalizada por seus reprodutores e receptores. Sobre a questão, Cataleya tece considerações:

Eu e meu irmão não gostávamos do trabalho da mamãe; até acho que tudo isso afetou nosso comportamento na vida. Lembro que ela chegava em casa acompanhada dos policiais trazendo os presos. E, por não ter um outro local, a gente via ela e os policiais maltratando os presos… Aquelas coisas desumanas… A gente sofria… Nós não gostava de ver aquilo. Acho que a maioria dos meus envolvimentos estavam fora do padrão aceito, até mesmo por revolta… Pra minha mãe, todo mundo era bandido, principalmente, se a pessoa era pobre, humilde, tatuada… E ela não era rica. Meu primeiro marido é gari, era metido em galera e é todo tatuado… Depois que a gente se envolveu, que tivemos nossos filhos, aí ele foi mudando; hoje, é outra pessoa. Sobre o preconceito dela com as pessoas tatuadas, eu dizia pra ela que tatuagem não tem nada a ver com bandidagem… Assim como o terno e a gravata não fazem cidadãos de bem, a tatuagem não faz bandidos. Meu irmão é tatuador e tatua divinamente bem. Ele é artista… Antes de ser preso trabalhava com escultura em cimento; também pinta, abre letra…. Assim como eu, viu muita coisa ruim lá em casa… Sei lá, coisas que martelam nossa cabeça até hoje… Hoje, ele vive uma vida conturbada, se envolveu com coisas ruins. Lá atrás, começou a vender droga. Foi preso, depois a mulher. Ele vive essa vida… É uma pessoa boa, mas como também é consumidor, ele surta quando consome. Vai pra rua, bebe… Agora ele só é consumidor. É daquele tipo que não se cala e criou antipatia pelos policiais que também marcam ele. Ele estava na domiciliar porque está operado. Aí, ele estava na esquina de casa, quando o carro da polícia passou, os policiais viram ele e o levaram. Os PMs marcam os presos na cadeia. Isso é fato, todo mundo sabe, principalmente se os policiais têm antipatia… Aí, perseguem até as últimas consequências… É o real que acontece. A gente sabe que existe isso lá.   E como meu irmão já é marcado, levaram ele preso de novo e está até hoje. Também quero dizer, se na educação lá de casa nós tivesse orientação melhor, nós não tinha se envolvido com certas coisas. A minha mãe era daquelas que só queria bater. Qualquer coisa errada que a gente fazia, já viu, era porrada mesmo. Devido ela ter aquele trabalho na delegacia, ela batia muito na gente; não sabia conversar… E olha que a gente vivia no bairro Itaguatinga, que até hoje é chamado área vermelha, e nunca me envolvi com droga, nem bebida não tinha nenhum vício… Vim beber depois, já bem adulta. Mas ela não sabia conversar. Ao contrário do meu pai. Tanto é que quando engravidei pela primeira vez, com 20 anos, falei pro meu pai. Não tive coragem de falar pra ela.  A gente tinha até medo de falar as coisas pra ela. Acho que ela nem se tocava do mal que fazia pra nossa vida. Talvez, foi criada também assim; não tenho o direito de culpar ela.

 

Caça de Oportunidades

Tentativas de sobrevivência digna são os maiores desafios entre aqueles e aquelas que experimentam ou experimentaram o rótulo de ex-presidiário/a. É o testemunho de Cataleya:

Minha prisão aconteceu durante a gestão do ex-prefeito de Parintins, Alexandre da Carbrás. Assim que saí do presídio, voltei ao trabalho como voluntária por mais de um ano, na esperança de ser recontratada. Era Coordenadora do Posto de Saúde, a Dona Ruth Helena. Ela fez de tudo para me reintegrar; usou vários argumentos, falou de minha competência, mas não conseguiu, apesar de todo esforço e sentimento humano… Reconheço tudo isso… Ela foi tão boa e humana comigo que não me deu justa causa. Em nenhum momento, disse que eu estava presa… É como se eu tivesse abandonado o trabalho. Tanto é que, lá na cadeia, quase ninguém sabia…. 

 

Da mão pra boca

O direito ao pão, educação, saúde, moradia, segurança, trabalho, renda e etc., anunciados na Constituição Federal, Artigo 50, mantém-se silenciado nos calabouços estruturais do Estado Democrático de Direito, quando a atenção se volta aos desvalidos da história. Cataleya compartilha essa realidade…

Sobrevivo do Bolsa família, minha mãe e meu pai também me ajudam com um ranchinho. Meu marido faz bico: pinta, constrói casa, é eletricista… Todo serviço ele faz. Meu filho também me ajuda, quando pode. É ajudante de prestamista.  O que me preocupa mesmo é uma bebezinha que eu ganhei. A mulher do meu filho está presa e tem uma bebê que não é dele; quem cuidava era a mãe dela. Recentemente, a mãe foi visitar a filha no presídio e trouxe a bebê, que acabou ficando com a gente. Sabe, né, uma criança é diferente de nós adulto. Precisa de todo um cuidado. Quando está com fome, não quer saber se tem ou não… Quer naquela hora. Além dos gastos com frauda… Essas coisas.

Recentemente, estou correndo atrás do meu trabalho. Já falei com o enfermeiro Josimar Marinho, com as enfermeiras com quem trabalhei… Deixei meu currículo e estou esperando. Corro atrás… Me viro desse jeito. E assim, a gente vai sobrevivendo como pode: é da mão pra boca. Meu outro irmão está tentando um trabalho pro meu filho que também trabalhou com um candidato a vereador e a gente está esperando… Trabalhar com droga, porém, nunca mais… Meu marido passou dois anos e quatro meses naquele lugar, viu coisas terríveis ali, adoeceu muito… Quis até se matar. Dizem que homem não chora, mas quando eu ia lá, ele chorava muito. Não aguentava mais aquele lugar.

Tem uma outra coisa também, a gente, ex-presidiário, tem muita dificuldade de encontrar trabalho. Ninguém confia em nós. Já somos marcados. A população que tem tudo o que quer, que tem salário e emprego olha pra nós com medo, desconfiança… Daí, temos que nos rebolar pra tentar sobreviver dignamente. Hoje, topo qualquer trabalho que seja honesto… Faxina, cozinha… Tudo o que desejo, nesse momento da minha vida é arrumar um trabalho decente, reorganizar minha vida; estou estudando técnica em nutrição pelo SENAC… Todos os dias, bato nas portas me oferecendo para trabalhar…

 

A quem está a Caminho

As duras experiências adquiridas no mercado ilícito dirigem o olhar de Cataleya para mulheres e jovens movidos por ilusões:

Mulheres e Jovens têm que aprender a se valorizar. Pensar muito mais com a razão… Digo para minhas filhas que o estudo é a nossa arma de libertação nessa vida. Se antes eu tivesse a cabeça que tenho hoje, primeiro tinha estudado, arranjado um emprego bom… Construído uma casa boa. Aliás, a casa que eu tenho, fui eu que consegui; foi luta minha. Eu que me virei pra fazer. Sempre me virei. Meu marido era gari, ganhava bem, mas bebia muito… O esteio lá de casa era eu. Não sou de esperar por marido. Sempre me virei pra sobreviver. A mulher tem que se valorizar. Falo pros meus filhos: sou o espelho de vocês. Não vão engravidar cedo; com filho, é mais difícil estudar… Tudo tem um tempo… Repito: se eu tivesse essa orientação, acho que minha vida era outra…

Com lágrimas dispersas e soluços abafados, Cataleya pausa nosso diálogo… Com ela fica a certeza de nossa cumplicidade militante… Forjar brechas é o próximo desafio.

 

Por falar em Silêncios

Negando-se escutas e acolhimentos a desvalidos históricos, certamente Cataleyas refugiar-se-ão nas sombras de seus igapós existenciais… Fragilizadas e desprotegidas arriscam-se cotidianamente derrubar trincheiras de exclusões e de negação de direitos… São sussurros ignorados nas hostilidades legalistas, quando na dura tentativa de sobrevivência e de reconstrução da própria vida; é o que lhes sobra. As indeléveis cicatrizes – selos subjacentes daquele existir – são as únicas referências de visibilidade social. A estas rústicas flores cuja beleza fenece nos áridos espaços da desumana estrutura patriarcal, nosso colo solidário… No momento, é o que temos.

Notas:

Igapós – Mata alagada peculiar da Amazônia;

CETAM – Centro de Educação Tecnológica do Amazonas

SENACServiço Nacional Aprendizagem Comercial

 

Leia os outros artigos da série: 

Fêmeas Memórias – Algemas silenciadas

Fêmeas Memórias – Álquia Esquenta o Debate 

Fêmeas Memórias – Utopias de uma Borboleta

 

 

Os artigos de autoria de Fátima Guedes fazem parte do Projeto – Fêmeas Memórias: Trajetórias de Mulheres Violentadas sexualmente, presas da Justiça e ex-presidiárias no município de Parintins, no Amazonas.

 

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). Foi fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã e Militante da Marcha Mundial das Mulheres. 

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Comentários

  1. Joelma Maia disse:

    É assim a vida das mulheres, uma prisão imposta diariamente, mas somos guerreiras e quebraremos todas as amarras, pois a chave está em nossas mãos. Texto magnífico e que nos leva a reflexão daqueles que vem cair nas prisões dá vida.

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