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Fêmeas Memórias – Sob o voo da Águia

24/07/2017 16:19

“Felicidade independe de inúmeras circunstâncias para inaugurar recomeços. E eu sou    uma mulher de muitos inícios. Então, se nublo, floresço… Porque é o que eu faço de mais bonito”, de Priscila Rôde – escritora baiana (Ilustração a partir de fotografia de Andres Gonzáles para campanha  da MIRA)

 

Nascer mulher num sistema político dominado por dogmas patriarcais exige um alto custo. Comprova-se o argumento nos vários depoimentos registrados neste teçume de memórias; juros são maiores ainda se a mesma mulher reúne em sua historicidade os já anunciados/denunciados estigmas da discriminação – analfabetismo, pobreza, herança étnico racial.

Em busca de um símbolo que dialogue com sua fêmea humanidade maculada e, ao mesmo tempo, que caracterize o auto processo de superação, a Personagem em destaque elege a Águia como identidade. Segundo argumentos da entrevistada, Primeiro pela força desta ave; depois pela teimosa esperança e coragem com que enfrenta os obstáculos e, quando atinge os 40 anos, escolhe entre morrer ou sofrer por cinco meses no cume de uma montanha até que se reconstrua e viva por mais 30 anos.  

Os relatos trazidos por Águia somam-se a tantos outros silenciados e mesmo ignorados. A cada confidência compartilhada; a cada troca de interesses e afetos é impossível manter-se indiferente… Em diálogos com Alberto Manuel Quintana, vem o esclarecimento: “Questiona-se se é possível compreender uma concepção de mundo sem dele participar, de alguma forma, mesmo que essa participação seja temporária e incompleta, pois somente ao assumir o papel do outro é que se poderá atingir o sentido de suas ações”. Ademais, o “outro” é a outra; mulheres, pedaços multifacetados de minha existencialidade nesse conflitante desafio pra se fazer existir. Enquanto ouço, interajo com seus medos, segredos, traumas… Novos aprendizados sobre a vida, sobre as mulheres delineiam-me; aos poucos, o sectarismo se recolhe em favor do partejamento de uma nova vida. Na sequência, resta-me reafirmar compromisso e afetamento mútuo.

 

Infância maculada

No entendimento de Matriarcas da Nação Xukuru (PE), somos sementes em forma humana… O mundo é a terra onde somos colocados. Os jeitos de cuidar, as condições oferecidas ao canteiro e ao solo são os determinantes para um sadio ou não desenvolvimento.  Até aqui, observam-se aspectos similares nos depoimentos anteriores contidos nestas Fêmeas Memórias. A vigente estrutura político classista delimita os padrões da opressão e toda forma de violência a categorias em situação de vulnerabilidade:

Nasci em Manaus, aos 22/10/1989. Sou a quarta filha. Lembro bem pouco do tempo em que vivi com meus pais antes da separação deles, mas, o que lembro são coisas boas. Nunca vi meu pai e minha mãe brigarem; não sei até hoje o motivo da separação. Ambos falaram que não deu mais certo e resolveram se separar. Daí, mudamos para Parintins. Meu pai vendeu a casa de Manaus e comprou outra em Parintins. Logo de início, eu e duas irmãs ficamos com meu pai; meu irmão mais velho e a mais criança ficaram com minha mãe. Ela foi morar em um interior próximo de Parintins com meus irmãos. Moramos com meu pai por dois anos. Com seis anos comecei estudar. Nossa vida era normal, tinha uma madrasta que cuidava de nós como se fôssemos filhos dela. Até hoje tenho contato e um grande carinho por ela, apesar de não viver mais com meu pai. O tempo passou, eu passei de ano e fui estudar em outra escola, Padre Jorge Frezzini. Nesse ano, minha mãe foi buscar eu e minhas irmãs pra morar com ela; meu pai não queria; daí decidiram resolver na justiça e a guarda dos cinco filhos foi dada pra minha mãe; ela esperou que o ano letivo terminasse para nos levar.

Nesse tempo, ela já vivia com outro homem (meu padrasto), e passamos a morar com eles na Vila do Caburi. Passei a estudar em outra escola onde conheci novos colegas, novos professores, enfim era uma escola boa com pessoas legais. Em casa, porém, já não era tão legal: estudávamos a tarde, mas acordávamos às cinco da manhã, porque meu padrasto não permitia que dormíssemos mais; então mandava minha mãe acordar todos. Nesse decorrer, vi e vivi muita coisa que, com certeza, ninguém gostaria. Vi muitas vezes, ele bater na minha mãe, gritar com ela; vi ele jogar a comida fora para que nós não comêssemos; vi ele acordar minha mãe com baldes de água sobre ela. Meu irmão mais velho, hoje, com trinta e dois anos, ficou pouco tempo ali e foi morar com minha vó materna. Eu e minhas outras irmãs ficamos com a minha mãe; éramos então quatro mulheres: minha mãe e mais uma bebê que ela já estava esperando.  Vi ele muitas vezes agarrar nas partes da minha irmã mais criança. Ele colocava uma moeda dentro da calcinha dela e dizia: “- O saco dessa loirinha tá dando dinheiro…”. E assim, agarrava em suas partes. Cresci vendo essas coisas. Ele metia medo em nós, até na minha mãe. Tudo era motivo de raiva e tudo ele descontava nela; ele não deixava ela sair de casa pra nada; até nas reuniões de escola ele não deixava ela ir. Isso não era a única coisa: quando chegávamos da escola ele dizia pra minha mãe que nos mandasse varrer o quintal e capinar (o quintal era muito grande, media vinte por oitenta); mandava nós lavar roupa e muitas outras coisas; não queria que ficássemos paradas enquanto estivesse em casa. Fazia minha mãe bater em nós várias vezes, isso quase todos os dias, por nada. Às vezes, quando chegávamos da escola ele dizia que estávamos com curumim que era pra ela nos dar uma surra pra aprendermos respeitar ele. Os anos iam passando e as coisas cada vez piores. Minha mãe já não conversava com nós; era uma mulher sofrida; ele tudo fez pra mãe e filhas não confiarem uma na outra.

 

Requintes de crueldades 

Vem a adolescência… Águia experimenta requintes de crueldade…

E assim o tempo passava. Minha mãe teve ainda cinco filhos com ele. Quando íamos para a escola sempre havia alguém pra nos vigiar a mando dele. Uma vez, minha irmã mais velha chegou da escola chorando; enquanto ela conversava com um colega, no intervalo, um menino de outra sala passou e a ameaçou falar pro padrasto dela que ela estava namorando na escola. A cada novo dia sentia mais medo de tudo o que acontecia. Caburi era uma Vila pequena e vi que muitos ali também tinham medo dele; era uma pessoa má; até se um animal entrasse no quintal ele matava. Lembro que ele atirou num porco e num cavalo que fugiram da cerca próximo dali. O dono dos animais foi buscar e não falou absolutamente nada. Numa certa noite, eu já com doze anos de idade, dormia, quando acordei com ele me chamando, batendo no lado da rede. Perguntei o que queria; ele disse pra eu levantar e ir com ele. Perguntei aonde. Ele disse pra eu calar e ir, ele queria me perguntar uma coisa. Segurou meu braço e disse pra eu ir calada. Ele sempre dormiu na cozinha separado de todos, até da minha mãe. Quando cheguei lá, ele mandou que eu sentasse na beira da rede dele; falei que não. Ele então levantou, pegou uma faca de mesa e mandou eu tirar a roupa e deitar junto dele. Mandou eu parar de chorar e disse que se não obedecesse, ele ia enfiar aquela faca em mim. Então, eu segurando minha roupa disse pra ele que eu ia chamar a mamãe e falar tudo pra ela. Ele disse que se eu fizesse isso ele matava ela e eu. Aí, ele tirou minha roupa e me puxou pelos braços e abusou de mim, o tempo todo com aquela faca e com a mão na minha boca. Depois mandou que eu fosse me lavar pois estava sangrando; mandou que eu me vestisse e entrasse de volta. E repetiu que se eu falasse pra mamãe ou outra pessoa que ele me matava e depois matava minha mãe. Isso foi se repetindo quase todos os dias. Eu não sabia o que fazer. O medo tomava conta de mim e, ali no interior, não se falava em abuso; as leis que existiam não chegavam lá. Pela primeira vez, pensei em me matar. Pensava de todas as maneiras e não via saída; não tinha coragem de falar pra ninguém. Já com treze, quase quatorze anos, minha irmã mais velha disse pra mamãe que estava namorando e ia levar o rapaz em casa. Meu padrasto ordenou a minha mãe que era pra namorarem no quintal, próximo à cozinha. Ela obedeceu. O horário e os dias ele também ordenava.               Ele sempre dava um jeito pra que ninguém de casa namorasse; chegou a bater no namorado das minhas duas irmãs mais velhas. Assim, os rapazes terminavam o namoro e não voltavam mais. E dizia que não queria nenhum macho na casa dele. Pensei que nunca ia namorar e sair daquela casa, ao mesmo tempo pensava em completar dezoito anos e ir morar com meu pai. Ainda com treze anos, fugi de casa com um colega que ia fugir com a namorada. Pegamos uma estrada e fomos embora. A noite chegou e andamos por mais umas três ou quatro horas. Resolvemos parar em uma casa e quando amanhecesse continuávamos andando. Foi aí que ouvimos barulho de moto; entramos na casa e ficamos calados escondidos. Eram policiais e entraram fácil; estavam atrás de mim a mando do meu padrasto. Comecei a chorar; eles mandaram que eu subisse na moto e fosse com eles; os outros foram com um outro policial andando. Nesse dia, pensei que ele fosse matar eu e minha mãe. Quando cheguei em casa, estranhei a reação dele. Mandou que eu entrasse e fosse dormir. Minha mãe perguntou por que eu tinha feito aquilo, mas eu só conseguia chorar. Todos dormiram e eu fiquei deitada de olhos fechados; sabia que alguma coisa ele ia fazer. Por volta das três da madrugada, ouvi ele chamando minha mãe. Disse pra ela pegar a tesoura e cortar meu cabelo enquanto eu dormia. Ela se negou; ele a empurrou e mandou que obedecesse. Acordaram minhas irmãs e mandaram que me segurassem. Ele ficou olhando com uma corda na mão; levantei e comecei a chorar pedindo pra não fazer aquilo comigo. Ele obrigou minha irmã amarrar minhas mãos. Consegui me soltar. Ele segurou meus braços para trás e forçou minha mãe cortar meu cabelo. No dia seguinte, ele me mandou comprar pão. Depois, me obrigou ir pra escola. Fui daquele jeito. Minha irmã foi comigo chorando muito. Passei muita vergonha; todos riam de mim; eu só chorava. Uma de minhas professoras me perguntou por que minha mãe tinha feito aquilo comigo; eu falei que tinha fugido, por isso ela tinha cortado meu cabelo. Ela perguntou por que eu tinha fugido; respondi que não gostava do meu padrasto e que eu queria morar com meu pai. Ela disse que entendia que era difícil pra mim aceitar, mas eu tinha que entender que, naquele momento, o marido da minha mãe era outro homem e que eu deveria respeitar ele. Os tempos se passaram e ele continuava a abusar de mim. Um dia, quando vinha da escola, ele me viu conversando com um menino no caminho. Quando cheguei em casa, minha mãe varria o quintal; pedi a bênção e entrei; em seguida, ele chegou com uma sacola na mão e me chamou. Quando me aproximei ele tirou um revólver da sacola e falou pra mim que uma daquelas balas era pra minha cabeça e a outra pra cabeça do filha da puta que vinha comigo da escola. Depois guardou o revolver na gaveta. Daí, ele passou a abusar de mim com o revólver, não mais com a faca. Passou alguns meses, ele levou a arma e começou a usar de novo a faca e uma chave de fenda.

 Assim fomos crescendo, minhas irmãs levavam no máximo três meses com seus namorados: ele mandava vigiar nós na escola, nas festas, na igreja e nos trabalhos da escola quando saíamos de casa. O menino que comecei a gostar, logo se distanciou por medo dele. Um dia, quando uma de minhas irmãs tomava banho, ouvimos o grito dela pro banheiro. Era ele brechando ela. Minha mãe correu e perguntou o que estava acontecendo. Ela falou pra mamãe e ele disse que tinha confundido ela com minha mãe; minha irmã chamou ele de mentiroso e ele mandou que ela parasse de chorar, pois os vizinhos iam pensar que ela era doída, assim como eu. No dia em que cortaram meu cabelo, disse pra minha mãe que ele abusava de mim; ele disse pra minha mãe procurar um médico porque eu estava ficando maluca. E minha mãe acreditou nele.

 Passados alguns dias, a minha irmã de 17 anos, disse que ia sair de casa. Minha mãe alegou que ela era menor de idade. O namorado dela foi em casa e queria permissão de minha mãe; ela não deixou, mas ela foi do mesmo jeito. Hoje, é casada com ele e tem três filhos. Nesse tempo, eu já estava com dezesseis anos. Chorei muito, pois não tinha mais minha irmã perto de mim; a cada dia, ficava mais sozinha. No ano seguinte, outra minha irmã também saiu de casa; aí pensei em me matar mais uma vez. Escrevi uma carta falando tudo pra minha mãe. Mais uma vez não tive coragem e muitas vezes pensei que nunca ia sair dali. Chegava a me perguntar se quando eu tivesse meus trinta e cinco, quarenta anos se eu ainda ia estar ali, naquela vida. Quem sabe até lá, Deus teria me levado. Ou ele teria morrido… Passavam muitas coisas na minha cabeça; eu era uma menina diferente de minhas irmãs, nunca usava maquiagem, batom… Era calada, sempre sozinha e algumas vezes cheguei a me vestir como menino, achava que assim talvez ele parasse de abusar de mim.

 

Voos funestos

 O fator idade nem sempre é determinante no processo de maturação e liberdade humana. O caso de Águia configura-se entre tantos outros de igual teor, principalmente quando o personagem histórico é mulher em cuja bagagem existencial carrega os fardos da discriminação (analfabetismo, pobreza, herança étnico racial) já citados.

Quando fiz dezoito anos, no dia seguinte, peguei minhas roupas e fui embora pra Parintins procurar meu pai. Só minha madrasta estava em casa, mas pediu pra eu ficar lá. Meu pai chegou e perguntou o que eu fazia ali, faltando aula e sozinha. Disse que tinha ido morar com ele. Aceitou, mas recomendou que eu deveria voltar pra terminar o ano letivo; só faltava um mês. Disse que pra casa da mamãe não queria voltar. Ele perguntou o porquê. Disse que não gostava do marido dela, só isso. Talvez não acreditasse em mim, assim como minha mãe. Meu pai, então, falou com minha tia pra eu ficar com ela até o final das aulas. Voltei e só saía de casa pra escola; tinha medo que fizesse alguma coisa comigo.  Pensava muito na minha mãe e nos meus irmãos; lembrava de como ele era com os filhos dele; em nós, ele mandava a mamãe bater, mas nos filhos dele com a mamãe, meus irmão, ele mesmo batia; não entendia o porquê… Talvez queria que a gente se revoltasse com a mamãe…. Ele batia tão feio nos filhos dele que, uma vez, deixou minha irmã de 4 anos dormindo de barriga pra baixo por muitos dias com a costa inchada e marcada de cinto; outra vez, bateu no outro filho, de 9 anos, com uma correia, até deixá-lo caído no chão. Foi quando o vizinho viu, se meteu e ele parou. Minha irmã também apanhava até se mijar. Outra vez, dormimos no quintal: uns pelo chão e os menores na rede que minha mãe tinha conseguido pegar. Isso tudo porque ele queria botar fogo na casa com todos dormindo. Ficou com raiva porque meu irmão menor puxou a tomada do ventilador que caiu e quebrou a proteção da frente. Lembrava de tudo que eles poderiam estar passando, mas não tinha coragem de voltar.

 Quando as aulas terminaram, voltei pra Parintins com meu pai. Aí, minha mãe foi até a casa do meu pai me pedir pra voltar. Chorei muito e disse não. Acredito que ela foi lá a mando dele. Aí, foi embora. Certo dia, levei um susto e fiquei muito com medo: uma moto parou em frente da casa do meu pai e buzinou. Minha madrasta foi atender: era o maldito querendo falar comigo. Eu me recusei atender, mas ela me convenceu pra eu despachar ele dali e dizer que meu pai não gostava dele e que estava quase chegando do trabalho; isso era por volta de umas seis horas da tarde. Atendi. Disse que era pra eu ir ver o que ele tinha feito com minha mãe por ter desobedecido suas ordens. Já chorando, perguntei o que ele tinha feito. Nessa hora, passaram muitas coisas ruins na minha cabeça… Até que tivesse matado minha mãe e também quisesse me matar, como prometia. Me pressionou subir na moto, pois “- já estava sem paciência…”. Pedi pelo amor de Deus que dissesse onde minha mãe estava. Ele disse: “- Sobe que tu vai ver onde tua mãe está e o que tu fez”. Chorando, subi na moto. Chegando na Praça dos Bois, ele riu e falou pra eu largar de ser besta; minha mãe estava com meus irmãos no Caburi e nem lembrava de mim. De lá, ele seguiu pro motel Chamego, ali próximo da Praça. Mandou eu entrar. Tentei correr, mas ele me segurou pelo braço, me arrastou pra dentro e me obrigou tirar a roupa. Eu me encolhi no canto do quarto chorando. Violentamente, tirou minha roupa dizendo pra eu me conformar, pois nunca ia me livrar dele. Ai, novamente abusou de mim… Disse que eu ia voltar pra casa de um jeito ou de outro. Saiu dali e mandou que eu fosse embora. Voltei pra casa do meu pai andando. Cheguei lá, meu pai já estava e me perguntou por onde eu andava… Respondi que estava na casa do meu tio que morava próximo dali. Pediu que avisasse quando fosse sair, embora fosse maior de idade, morava com ele. Perguntou por que eu estava chorando. Disfarcei. Ele insistiu: “- Por que seus olhos estão inchados?”. Respondi que estava com saudades da minha mãe. Entrei no quarto e não sabia mais o que pensar e fazer da minha vida.

 

Pecados do medo

Ilustração a partir de fotografia de Floriano Lins (Parintins)

Ilustração a partir de fotografia de Floriano Lins (Parintins)

As sequelas deixadas por violências sexuais constituem-se marcas indestrutíveis. Vítimas de tais crueldades geralmente se recolhem em estados depressivos, desenvolvem sentimentos de auto rejeição, repulsa ao sexo e, não raro recorrem ao suicídio. Águia desabafa… 

Então pensei: só tinha um jeito, me matar. As coisas ficavam piores a cada dia. Naquele mês, minha menstruação não veio, aí me desesperei ainda mais. Não tive coragem de dizer pra ninguém, mas aquele maldito homem voltou na casa do meu pai e disse que eu não tinha saída e que minha mãe ia me levar de volta. Respondi que não voltava pra lá. O tempo passou e a barriga já aparecia. Nesse período, pensava o que podia fazer e dizer pra minha mãe e pro meu pai. Dei socos várias vezes em mim mesma, na minha barriga… Não aceitava aquela criança dentro de mim. Lá, um dia, minha mãe me procurou dizendo que já sabia da gravidez; que alguém tinha falado pro marido dela. Ele inventou pra minha mãe que eu havia falado pra alguém que o pai da criança era um rapaz por nome Fábio de Souza e Souza que eu tinha conhecido no carnaval, em Parintins; que ele tinha ido embora e que não quis a criança, por isso ela tinha ido me buscar pra cuidar de mim… Esse Fábio nunca existiu. O maldito já tinha planejado tudo. Passados alguns dias, ela falou pro meu pai da gravidez e ele me repreendeu por ter escondido. Nesse caso, o melhor era eu ir com a mamãe, pois ele não poderia me cuidar; trabalhava o dia todo e só voltava à noite. Lá fui de volta.

Ele tinha proibido lá em casa me fazerem perguntas a respeito da gravidez. Até que um dia, a dor da alma saiu pelos meus olhos, pela minha boca e falei tudo pra mamãe. Era incrível o comportamento dela (até hoje não entendo ou finjo não entender): ela nunca me perguntava nada sobre a gravidez… De volta a Vila do Caburi, não tinha coragem de sair na rua; parecia que todos me apontavam. E ele continuou abusando de mim, mesmo eu grávida. Ele dizia que eu tinha que me conformar, pois minha vida era aquela e não ia mudar. Homem nenhum ia me querer ou se interessar por mim e, quando eu passasse na rua, as pessoas iriam cuspir com nojo de mim; que eu só serviria pra ficar no fundo de uma cadeia alimpando pau de preso. Ouvia isso todos os dias. O tempo passou e perguntava a Deus por que acontecia aquilo comigo… Por que Ele tinha me esquecido… O que eu tinha feito pra estar passando por aquilo… Chorava muito. Já no oitavo mês, numa madrugada, ele ainda abusou de mim… No dia seguinte, senti muitas dores. Falei pra minha mãe que era melhor eu voltar pra Parintins, temia acontecer coisa pior. No outro dia, ela me mandou e fiquei na casa da minha irmã, aquela que ele havia olhado no banheiro. Minha irmã me acolheu, orientando-me para dizer pra ela, caso as dores continuassem. Ali, tive um pouco de paz. O bebê nasceu; era uma menina. O nojo que tinha da gravidez foi passando. Aquele pequeno ser não tinha culpa, assim como eu. Depois, pedi perdão de Deus e prometi cuidar bem dela. Daria a ela atenção de mãe, a atenção que não tive; ouviria tudo que me falasse.

Sai do hospital e voltei pra casa da minha irmã. Dez dias depois, minha mãe foi me buscar. A partir desse dia, passei por coisas terríveis que até hoje me pergunto como sobrevivi; como pude suportar tanta coisa ruim… Com doze dias de parto, o bandido começou a abusar de mim novamente. Sentia dores horríveis e passei mais de dois meses sangrando. Uma noite, enquanto dormia, me assustei com ele batendo na rede. Passei muito mal. Aí, ele foi chamar minha mãe, dizendo que ele tinha ouvido eu chamar e foi ver. Minha mãe disse que era hemorragia e me levou pro Posto. Lá, me aplicaram um medicamento e voltei pra casa. Quando minha filha completou um ano, ele começou a pegar ela no colo, agradar e, de vez em quando, pegava nas partes dela…  Pensei: “- Ele vai fazer a mesma coisa com ela, só que eu não vou deixar”. Cheguei a dizer pra minha mãe que não queria ele com minha filha no colo; ela me respondeu pra eu parar com aquelas coisas, porque era ele quem criava ela… Um dia, quando ele pegou ela no colo e começou a tocar as partes dela, eu tirei ela dele e disse: “- Nunca mais toque na minha filha ou eu te mato”. Minha mãe correu pra ver o que estava acontecendo. Abri o jogo, mas ele convenceu minha mãe de que eu estava com pensamentos ruins sobre ele. Que isso deixava ele muito triste: “- Logo ela que eu tenho como filha…”. Como sempre, levei uma bronca da minha mãe. Naquela mesma madrugada, ele foi até minha rede e me ameaçou matar eu e minha filha, se eu continuasse com aquelas cenas. Ameacei fugir pra sempre com minha filha. Ele falou que era inútil fugir dele. Comecei a chorar, mandei ele ir embora. Abracei minha filha e repeti várias vezes; “- Ele nunca fará mal a você, enquanto eu estiver por perto”.

O tempo passava e eu naquela situação. Quando minha filha tinha cinco pros seis anos, o maldito se separou de minha mãe; até fiquei surpresa. Ele alegou que minha mãe tinha outro. Na verdade, minha mãe tinha mudado; já não era mais tão obediente como ele mesmo dizia. Também os filhos dele começaram a se revoltar com ele. Nesse dia, fiquei muito feliz. Pensei que era o fim de tudo aquilo, mas não. Ele ia em casa todos os dias, sempre fazendo ameaças. Usava a desculpa de levar comida pros filhos dele. Um dia, ele mandou que alguém fosse com ele levar umas sacolas lá pra casa. Minha mãe me apontou. Falei que estava ocupada, mas ela me obrigou. Ele então levantou um pouco a camisa e mostrou uma arma e me mandou subir na moto. Fui tentando escapulir devagar e ele então perguntou se eu estava duvidando.  Com a arma na mão, me forçou ir, dizendo pra fazer de conta que nada estava acontecendo. Me levou pra casa da mãe dele onde ele estava morando e, mais uma vez, abusou de mim. A arma era sua aliada pra me ameaçar e abusar de mim. Sempre que via ele chegar, me escondia, mas minha mãe me obrigava atender. Cheguei a reclamar: “- Por que você não manda os filhos dele ir com ele?…”. Não adiantava. Nenhum obedecia a ela; e eu, como tinha medo, ia. Um dia, perguntei pra vizinha se ela era feliz. Ela respondeu que sim. Aí, ela quis saber o porquê da pergunta. Falei que tinha dúvidas sobre felicidade pra mim. Ela me indagou, mas fiquei calada e mudei de assunto. Outra vez, minha filha já tinha seis anos. Uma colega minha que sempre me visitava, me disse que o primo dela tinha chegado de viagem, queria me conhecer e conversar comigo. Disse não. Ela insistiu, “- É só uma conversa…”. Eu me neguei, porque a voz daquele tarado maldito parecia não parar de gritar na minha mente me ameaçando. Ela ignorou meu medo, “- Vou trazer ele sim; você querendo ou não. Ele não vai tirar teu pedaço”. Aí, o rapaz foi em casa falar comigo. O maldito soube. Naquela noite, depois que minha filha dormiu, ele foi no quarto, segurou minha nuca e com uma chave de fenda na mão me perguntou sobre o rapaz. Disse que não tinha nada. Puxando minha cabeça para trás, violentamente, me ameaçou: “- Se tu não falar a verdade, eu acabo contigo com esta chave, depois acabo com a menina e com aquele filho da puta”. Chorei muito e implorei piedade. Foram momentos de aflição e medo. Não sabia mais o que fazer. Também pensava: “- Como poderei viver com alguém um dia, se o medo das ameaças são maiores que eu?”. Convenci o rapaz a voltar pra Manaus, e quando as aulas da minha filha terminassem eu iria. Ele respondeu que voltaria de qualquer jeito. Viajou e eu fiquei ali com meus medos e sofrimento. Após a partida do rapaz, um dia, ao anoitecer, eu e minha filha estávamos em casa assistindo TV na cozinha; minha mãe e meus irmãos estavam numa quermesse, ali próximo. De repente, ouvi uma moto chegando. Era ele me chamando, pois sabia que estava em casa sozinha. Fui até a frente de casa, quando me ordenou pegar minha filha e acompanhá-lo à casa da mãe dele. Me neguei, dizendo que minha filha estava dormindo. Gritou comigo dizendo que se eu não obedecesse as ordens dele, iria até a quermesse acabar com a vida da minha mãe e voltava pra acabar comigo e com minha filha. Desabei em prantos, pedindo piedade. Ele se impôs dizendo que só me daria mais uma chance pra pensar bem antes de morrer. Saiu, dizendo voltar em meia hora. Nisso, uma vizinha ia passando e pedi pra chamar minha mãe. Voltei pra cozinha, peguei a faca coloquei em meu peito; estava decidida me matar. Aí, olhei pra minha filha e faltou coragem. Ela me olhou e perguntou o que eu ia cortar com aquela faca. Disfarcei, abraçando-a. Ela me pediu pra eu parar: “- Mãe, eu estou contigo”.  Era uma inocente que desconhecia qualquer maldade. Fui até a sala, me ajoelhei e pedi que Deus me mostrasse uma saída; já não aguentava mais… Saí dali decidida a falar, de uma vez por todas, com todas as letras, tudo pra minha mãe. Quando minha mãe retornou, chamei ela e contei toda a minha história. Ela chorou muito se sentindo culpada por ter se envolvido com um homem daquele, e jurou que nunca mais “aquele desgraçado” ia se aproximar de mim. No dia seguinte, ela viajou pra Parintins e eu fiquei escondida 3 dias na casa da minha irmã. Fugi da comunidade, duas horas da madrugada, num rabeta, que um primo meu ajudou pagar a passagem. Minha mãe reuniu a família e contou tudo o que vinha acontecendo comigo. Aí, minhas irmãs criaram coragem e resolver contar também o que ele havia tentado com elas. Nisso, minha mãe queria ligar para o rapaz e falar tudo. Pedi que não fizesse isso. Tinha vergonha e mesmo não adiantaria, ele nunca ficaria com uma mulher como eu… Daí, ele passou a frequentar nossa casa. Aos poucos, fomos se conhecendo. Os dias se passaram e falei pra ele sobre minhas dúvidas em relação aos homens… Também não escondia o medo daquele abusador de mulheres indefesas. Esse maldito ficava marcando território e perguntava de meus irmãos quem frequentava a casa. Quanto ao rapaz, fomos ficando, embora sem eu conseguir esconder meu medo. Um mês depois ele voltou para Manaus, prometendo voltar, mas não acreditei. Chorei na despedida, lembrando dos dias bons que passei com ele, apesar dos meus traumas interiores. Não acreditava que ainda voltasse. No tempo em que ele ficou no Caburi, ouvi muitas ameaças: fofocas corriam na comunidade. Aquele maldito abusador continuava me ameaçando: “- Se eu descobrir alguma coisa, esse cara será mais um, depois de ti e da tua filha. Te atreve!!!”. Lá, um belo dia, (belo mesmo!) chega minha colega acompanhada pelo rapaz. Nem acreditava que ainda voltasse. Daí, começamos a namorar pra valer. Mas ele sempre desconfiado dos meus medos e por que só eu tinha de atender sempre aquele homem quando ia em casa: “- Por que é só você? Por que não vai sua mãe ou os filhos dele?”. O namoro se firmou entre as desconfianças do rapaz e as ameaças do maldito. Meus irmãos me viam chorar e até bagunçavam comigo. Nunca imaginavam a dor que escondia na alma… Até então ninguém suspeitava da tirania do maldito padrasto. Lembro que, aos 13 anos de idade, cheguei a falar pra minha mãe: “Mamãe, o sêo Hitler fode comigo…”. Infelizmente, ninguém acreditou em mim. Ele sempre conseguia reverter a história em favor dele.

 

Quebra de silêncios

Após anos de silêncios e disfarces, Águia encontra brechas de escuta e acolhimento na Delegacia Especializada em Crimes contra Mulheres, Crianças, Adolescentes e Idosos, de Parintins. Apesar das precariedades do órgão no atendimento às vítimas de violência doméstica, o Serviço Social fez a diferença…

 

Chegando a Parintins, abastecida de força e apoio da minha família, fui à Delegacia Especializada em Crimes contra Mulheres, Crianças, Adolescentes e Idosos fazer a denúncia, eu e minhas duas irmãs que também foram falar o que ele fez com elas. Alguns da minha família me olhavam de maneira diferente, outros cochichavam… Me sentia muito sozinha e desprezada; alguns chegaram a me pedir que não fosse a delegacia denunciar, pois aquele homem era pai dos meus irmãos. Falei que a vida inteira me calei pensado em todos e por medo de que ele fizesse com eles o que prometia: “- Nesse momento, só quero que vocês entendam minha decisão”. E fui… Passei com a assistente social, a Sra. Gioconda Belle, mas, naquele dia, não consegui falar tanto; ela então me encaminhou para psicóloga, Sra. Minerva. Fiz várias consultas e tive ajuda e apoio também da minha avó. Ali, fui ouvida com bastante respeito… Aquelas duas mulheres foram as pontes pra ajudar chegar ao outro lado da vida que eu precisava para me libertar. Foram as “parteiras” que me ajudaram encontrar nova vida; o céu onde eu pudesse abrir minhas asas, voar bem alto e alcançar as coisas mais bonitas que alguém sonha encontrar… Na oportunidade, minha mãe aproveitou e declarou que jamais imaginara que eu pudesse ser vítima de tamanho abuso, dentro da casa dela, e com o homem a quem ela servia: “- Eu era igual uma escrava dele. Cansei de apanhar e ouvir ameaças; nem conseguia ver o que acontecia com minhas filhas. Sinto muita culpa dentro de mim, mas vou ajudar minha filha no que for possível pra ela sair dessa. Eu também, com tudo o que passei nas mãos dele, comecei a ver melhor as coisas e não mais me deixar levar por papo de homem. Ele tinha muito ciúme das minhas filhas. Era extremamente violento e conseguia fazer minha cabeça, de tal forma que eu batia nas meninas por influência dele”.

 

Reinvenção no voo

A natureza espiritual da Ave em referência – símbolo de teimosia, esperança e coragem – inspira nossa Personagem a optar por reconstruir-se com autonomia e dignidade…  

Em meio a este doloroso “trabalho de parto”, meu namorado me ligou e me perguntou o porquê de ter escondido dele este fato, uma vez que ele se mostrou confiável. Falei sobre meus medos e traumas. Nisso, ele e meu irmão mais velho pensaram logo em fazer justiça com as próprias mãos, mas minha cunhada conversou com eles e os acalmou. Meu namorado ligava todos os dias, três vezes, para saber como eu estava e sempre se preocupado com minha filha; ajudava de todas as maneiras que podia. Pediu que assim que eu resolvesse as coisas que fosse para Manaus que ele esperava por mim, e que não importava o que havia acontecido. Depois de tudo resolvido, viajei para Manaus com minha irmã. Conversamos, mas eu ainda não conseguia falar tudo; chorava muito. Ele então pediu que eu só tocasse no assunto, quando eu estivesse preparada. Nesse primeiro momento, não tive coragem de ficar com ele. Voltei pra Parintins e ele prometeu que ficaria me esperando. Fiquei em Parintins quatro meses tentando resolver as coisas. Nesse decorrer de tempo, tínhamos contato telefônico todos os dias. Quando já me senti segura, fui viver com ele. Não foi fácil, mas aos poucos ele me fez ver e pensar que nem todos os homens eram iguais àquele tirano. Fiz ainda muitas consultas com psicóloga e ele sempre buscava maneiras de eu esquecer o passado. Hoje estamos juntos definitivamente. No início de nossa relação, não foi fácil; sexo entre nós demorou pra acontecer; até aquele momento da minha vida, sexo pra mim era só violência… Mais ou menos, um ano depois, ele me fez sentir confiança… Teve momentos em que falei e falo até hoje: gestos e às vezes brincadeiras no meio da relação que me fazem lembrar as torturas por que passei.  Daí, passamos a conversar a respeito das cicatrizes que marcam minha sexualidade… Ele me respeita muito e juntos tentamos melhorar nossa relação íntima sem que as torturas do passado se façam presentes. No início sentia medo e muita vergonha… Hoje, temos uma vida tranquila, mas, vez por outra, tenho pesadelos. Ele me acorda sempre que choro, enquanto durmo. Hoje trabalho e, pela primeira vez, tive minha carteira assinada; os planos de vida são os melhores. Daqui algum tempo, uma faculdade, cursos e, se possível, um negócio próprio. Meu marido nunca toca no passado ou me faz qualquer tipo de pergunta a respeito do assunto; mas se coloca à disposição para me ouvir quando me sentir à vontade para falar. Minha filha nunca fez nenhuma pergunta e sempre converso com ela, orientando para a vida. Ela e meu marido sempre se deram bem e se tratam como pai e filha. Tenho muito cuidado com ela: todos os dias pergunto a ela se está tudo bem… Às vezes, tenho um pouco de medo pelo fato dela não ser sua filha biológica, e presto muita atenção no comportamento de ambos; não que desconfie dele, mas pelos traumas que carrego. Estarei sempre atenta nele e em qualquer outra pessoa que tenha amizade em casa. Por fim, até hoje, estou aguardando pela justiça dos homens… Só tenho uma certeza: a Justiça de Deus tarda, mas não falhará.

 

Entre protos e colos

A palavra da Assistente Social, Gioconda Belle, é um testemunho inconteste das revelações de Águia. Com propriedade, denuncia a precarização dos serviços de atendimento a mulheres vítimas de violências e, ao mesmo tempo, vai além dos protos institucionais: oferece colos de escuta e acolhimento.

Quando Águia chegou no Serviço Social da Delegacia estava completamente assustada, transtornada emocionalmente. Enquanto profissional, dei a maior atenção ao caso. Após contar sua história – da infância até a idade adulta – fiquei penalizada. E teve a infância, a adolescência e parte da vida adulta roubada. No meu entendimento, ela foi sequestrada dentro da própria casa; no seio de sua família. Infelizmente, ninguém percebia as violências por que passava; nem a própria mãe, uma vez que esta também vivia sob violência doméstica. De imediato, encaminhei-a para a psicóloga. Águia precisava se fortalecer emocionalmente para encarar o que viria. Nos inquéritos de violência doméstica há consequências pra vítima, pra família… Então, fiz o que estava ao meu alcance para ajudá-la: encaminhei-a para iniciar os procedimentos cabíveis, junto a Delegacia Especializada; o inquérito policial foi encaminhado pra Justiça. Acredito que ela ainda não foi chamada para nenhuma audiência   – as chamadas audiências de instrução – por conta da morosidade da Justiça. Isso é complicado. O número de registros de violência doméstica em Parintins é altíssimo. Já deveria ter uma vara especializada em violência doméstica; mas não tem. Após os encaminhamentos dos inquéritos para o Fórum de Justiça, faz-se o sorteio nos cartórios, entre os juízes, para se definir quem responderá pela questão. Acredito que o agressor ainda não foi chamado, por essa morosidade e por falta de uma vara especializada. Lamento muito. Essa situação já era para ter sido resolvida e o algoz deveria estar pagando pelos crimes. Neste caso há vários crimes intercruzados: cárcere privado, estupro, tortura, constrangimentos e outros que imputam contra ele. Porém, no Brasil, infelizmente os casos de violência doméstica são tratados como algo menor. Não sei dizer se Águia já foi chamada para as primeiras audiências. A partir do momento em que o inquérito é encaminhado pra Justiça, a delegacia não tem como acompanhar. Provavelmente, ela ainda não tenha sido ouvida nem pra primeira audiência com o MP, por conta desses motivos; talvez nem tenha recebido as medidas protetivas… É a precarização da Justiça no Brasil. E a tendência, infelizmente, é piorar e fragilizar ainda mais esses serviços. De tudo, o que me deixa feliz é saber que Águia está se superando, refazendo a própria vida longe de Parintins. Isso me alegra muito. Este caso me chamou muito a atenção, considerando o que essa moça viveu: o sequestro da dignidade desde a infância até parte da idade adulta. Gostaria que todas as mulheres que passam por situação semelhante, tivessem vontade firme de se libertar, mas, para isso, é preciso coragem, considerando-se que a violência doméstica envolve vários fatores e Águia consegui quebrar os grilhões e alçar seu voo em direção a uma vida digna. É uma vitória.

 

Segue a Vida

A Utopia aponta ao horizonte… É caminhada contínua e árdua… Águia leva no voo, embora acanhado, a certeza de que não está sozinha… Outras espalhadas pelo mundo (certamente milhares) guardam em seus arquivos subjetivos experiências similares… Bem-aventuradas aquelas que rompem o medo, o silêncio e se reinventam em Águias e em outros símbolos de luta e resistência por libertação. Estamos juntas…

 

Notas:

Águia – A águia é forte simbologia de culturas antigas. Na região do mediterrâneo cultivava-se o mito da recriação da espécie. Quando esta observava sinais de envelhecimento em seu corpo, fraqueza nos olhos penetrantes e flacidez das garras decidia renovar-se totalmente. A fênix egípcia fazia o mesmo:  aceitava morrer para rejuvenescer-se. Assim, voava cada vez mais alto até alcançar o sol. Suas penas se incendiavam e ela toda ardia em chamas. Ao atingir o extremo, lançava-se qual flecha nas águas frias do lago. Ocorria a grande transformação. A velha águia reconquistava penas novas, garras afiadas, olhos penetrantes e o vigor da juventude.

Alberto Manuel Quintana – Autor da obra A Ciência da Benzedeira: mau-olhado, simpatias e uma pitada de psicanálise. Bauru, SP: Edusc, p. 18, 1999.

Caburi – Agrovila do Município de Parintins.

Rabeta – Canoa de madeira movida por motor acoplado na parte traseira; propícia a viagens entre cidade e comunidades rurais.

Praça dos Bois – Área próxima ao bumbódromo; espaço de concentração de alegorias durante o festival folclórico de Parintins.

Hitler – Nome fictício para o abusador.

Gioconda Belle – Nome fictício para a Assistente Social, in memoriam, à Poetisa Revolucionária Nicaraguense.

Minerva – Nome fictício à Psicóloga, in memoriam, à Feminista Guatemalteca assassinada a mando do general Trujillo.

 

Leia os outros artigos da série: 

Fêmeas Memórias – Algemas silenciadas

Fêmeas Memórias – Álquia Esquenta o Debate 

Fêmeas Memórias – Utopias de uma Borboleta

Fêmeas Memórias – Esperança Aprisionada

Fêmeas Memórias – Mensageira de Silêncios

 

 

Os artigos de autoria de Fátima Guedes fazem parte do Projeto – Fêmeas Memórias: Trajetórias de Mulheres Violentadas sexualmente, presas da Justiça e ex-presidiárias no município de Parintins, no Amazonas.

 

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). É também militante da Marcha Mundial das Mulheres e fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã e da Teia de Educação Socioambiental e Interação em Agrofloresta (TEIA).

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