Povos Indígenas

“Foi um linchamento e a intenção era nos matar”, diz índio Gamela atacado no Maranhão

Índio Gamela, Francisco Jansen Mendonça da Luz, 42 anos ferido em ataque em Povoado das Bahias (MA)/Foto: Ana Mendes/CIMI
01/05/2017 22:22

Ao menos 13 índios ficaram feridos no conflito onde fazendeiros atiraram e deceparam as mãos de uma pessoa em Povoado das Bahias (Acima, o índio Francisco Mendonça Jansen da Luz, ferido em ataque. Foto: Ana Mendes/CIMI)

 

“Estávamos nos organizando para recuar, quando os atacantes entraram por um portãozinho que dá acesso a casa [da fazenda] e foi tiro, pau, pedra e facão. Eram mais de 200 pessoas nos atacando. Ficamos cinco feridos de facão e arma de fogo. Um teve as duas mãos decepadas. Outros levaram tiro, corte de perna, tentativa de arrancar a perna. Eu levei um tiro no lado esquerdo da cabeça. Outro levou chumbo no rosto. Outras pessoas levaram paulada, então o número de feridos é maior. Esse ataque teve caráter de linchamento. A intenção era nos matar”, relatou em entrevista exclusiva à agência Amazônia Real o indígena Inaldo Kum´tum Akroá Gamela, 43, uma das lideranças do povo Gamela atacadas por volta de 17h deste domingo (30) por fazendeiros e pistoleiros em uma área de retomada do território tradicional em Povoado das Bahias, no município de Viana, no Maranhão.

Na madrugada desta segunda-feira (01), Inaldo Kum´tum Akroá Gamela teve alta médica do Hospital Socorrão 2, em São Luís. Na unidade permanecem internados quatro índios feridos e em estado grave: Aldely de Jesus Ribeiro, que teve as mãos decepadas e os joelhos cortados, José André Ribeiro (irmão de Aldely), José Ribamar Mendes e Francisco Jansen da Luz.

Segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), organização ligada à Igreja Católica, o número de feridos chega a 13 pessoas. As Polícias Militar e Civil investigam o caso, mas não há pistas dos autores dos crimes. 

Inaldo Kum´tum Akroá Gamela criticou a tentativa do governo do Maranhão de divulgar informação de que Aldely de Jesus Ribeiro não sofreu tentativa de ter suas mãos decepadas. Para o governo, ele sofreu fraturas nas mãos.

“Ontem mesmo (30) soubemos que o Aldely tinha tido as mãos decepadas. Agora, o governo do Maranhão afirma que foi fratura, quer discutir o conceito do massacre. Houve um espancamento. Ele não sofreu isso [mãos decepadas] com uma queda, mas com um ato violento. Ele estava com as mãos grudadas apenas na pele”, afirmou.

Na noite desta segunda-feira (01), a Amazônia Real apurou a respeito do estado de saúde dos quatro pacientes internados. Segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), Aldely de Jesus Ribeiro teve várias lesões de arma branca por todo o corpo e sofreu politrauma. Ele está usando fixadores nos punhos para que não perca as mãos. A tíbia está lesionada.

José Ribamar Mendes está em situação estável, mas também usa fixadores nos punhos, pois houve tentativa de decepar suas mãos. 

Francisco Jansen da Luz está com uma bala alojada no crânio e deverá passar por cirurgia. José André Ribeiro tem uma bala alojada no lado direito do pulmão e está internado na enfermaria. 

 

Ataque premeditado

Indígena Gamela sendo atendido por medico após ataque (Foto: Ana Mendes?CIMI)

Indígena Gamela sendo atendido por medico após ataque (Foto: Ana Mendes/CIMI)

Em nota, o CIMI informou que o ataque em Povoado das Bahias estava sendo preparado desde o início da tarde de domingo numa área chamada Santeiro. O CIMI diz que convocação para o ataque estava sendo articulada pelas redes sociais e foi incentivada pelo deputado federal Aluísio Guimarães Mendes Filho (PTN), em entrevista dada a uma rádio local. 

Conforme Inaldo Kum´tum Akroá Gamela, um grupo de cerca de 120 pessoas (entre homens, mulheres e crianças) chegou na manhã deste domingo (30) como parte do processo de retomada do território tradicional devido à demora da Funai em iniciar o procedimento demarcatório das terras. No entanto, o grupo decidiu se retirar no mesmo dia ao perceber o grande número de pessoas que chegaram no local para atacá-los.

“Esta fazenda onde estávamos fica dentro de nosso território tradicional. Há alguns anos ela foi comprada por um advogado filho de um empresário que cria gado. Quando chegamos, havia um caseiro e a mulher dele. No início, ficaram temerosos, mas se ela falar a verdade, vai dizer que não fizemos nada contra eles. Mas depois, decidimos sair porque vimos que um grupo grande estava chegando enfurecido. Avaliamos que não teríamos condições de resistir. Quando eles chegaram, estávamos cantando e fazendo nosso ritual, debaixo de chuva”, disse Inaldo Gamela à Amazônia Real.

Ele conta que o ataque foi feroz e que os agressores visaram principalmente os que eram considerados lideranças do grupo.

“Quando recebi o tiro, caí uma, duas, três vezes. Fiquei tonto. Um parente conseguiu me segurar e me ajudar a chegar no mato. Mas quando vi que um dos nossos estava sendo agredido, o que teve as mãos decepadas, fui ajudar. Ele estava sendo linchado. Foi quando o agressor gritou para outra pessoa ‘é esse aí, vamos pegar!’. Ele viu que eu estava sangrando muito e tentou me matar a pauladas. Eu tinha um facão e a capa dele é um cano PVC. Segurei o pau usado pelo agressor várias vezes com esse cano, que quebrou”, relatou a liderança.

Segundo Inaldo Kum´tum Akroá Gamela, o território tradicional da etnia foi alvo de grilagem na década de 70 e vendido a vários fazendeiros da região com conivência de cartórios dos municípios de Viana e Matinha nos anos seguintes.

“Desde os anos 70 nosso território tem sido invado e grilado por fazendeiros que têm criação de búfalo, bode, gado. Já aconteceram outros embates. Justiça, polícia e políticos são todos contra nós em favor da grilagem. O resultado é que ficamos praticamente morando na beira da estrada”, afirma a liderança.

Inaldo disse que, na década de 90, algumas famílias Gamela se organizaram para retomar o território das propriedades dos fazendeiros, sem sucesso. Somente em 2015 é que eles decidiram recomeçar a retomada.

“Nossos lugares sagrados foram invadidos por fazendeiros e colocados pasto para gado neles. Não temos acesso aos recursos naturais para fazer os artesanatos, as cestarias. Há um processo aberto na Funai que está parado. Já fomos várias vezes lá e nos disseram que se encontrássemos profissionais para fazer o relatório antropológico adiantaria o processo. Apresentamos dois nomes de antropólogos, mas nada foi feito até agora”, disse Inaldo Kum´tum Akroá Gamela.

Além do processo na Funai, há uma ação civil pública do Ministério Público Federal que tramita na Justiça Federal de São Luís pedindo que o órgão indigenista crie um grupo de trabalho para identificação e demarcação de terras do povo Gamela.

“No momento, estamos trabalhando na confecção de mapas para identificar lugares sagrados, os parentescos, as áreas onde a gente pega coco, peixe. Não estamos construindo esses lugares. Esses lugares já existem. Eles são nossos”, afirma Inaldo Kum´tum Akroá Gamela.

 

Violência aumenta, diz CPT

Indígenas Gamela da aldeia Cajueiro Piraí, localizada em território retomado em 2015 (Foto: Ana Mendes/CIMI)

Indígenas Gamela da aldeia Cajueiro Piraí, localizada em território retomado em 2015 (Foto: Ana Mendes/CIMI)

Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT) é preocupante o alto índice de violência contra os povos e comunidade tradicionais do Maranhão. Atualmente, há cerca de 360 conflitos no campo no estado, destes, somente em 2016 foram registradas 196 ocorrências de violência contra os povos do campo. “Treze pessoas foram assassinadas e 72 estão ameaçadas de morte”, diz a nota CPT no estado do Maranhão.

O Ministério da Justiça divulgou nota em seu site informando que vai “averiguar o conflito agrário no povoado de Bahias, no Maranhão”. Segundo a nota, por determinação do ministro Osmar Serraglio, a Polícia Federal enviou uma equipe para o local para evitar mais conflitos. O ministro também ofereceu apoio à Secretaria Pública. Em outra nota, divulgada mais cedo, o Ministério da Justiça tratou os Gamela como “supostos indígenas”, mas retirou o trecho.

A reportagem da Amazônia Real apurou que uma comitiva do estado do Maranhão vai nesta terça-feira (02) até a área onde ocorreu o ataque contra os indígenas junto com uma equipe da Funai e da Polícia Federal.

Em declaração ao site G1, o presidente da Funai Antônio Toninho Costa disse que o órgão já foi notificado sobre o ataque aos indígenas Gamela e que, a partir desta terça (02), a Procuradoria da fundação será acionada para acompanhar as investigações. Costa afirmou que não é a primeira vez que os Gamela sofrem ataque e que os ânimos na região podem se acirrar.

A coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Sônia Guajajara, que é do Maranhão, considerou o ataque como “abominável”. Segundo ela, o ato é o retrato da intolerância aos indígenas. Na noite desta segunda-feira, a APIB divulgou nota repudiando o ataque (leia aqui)

“Atitudes como esta se dá pela certeza da impunidade e segurança por ter grupos de apoio no poder. A conjuntura política não só permite como incita o ódio e a violência contra todos. É necessário o envolvimento da corte internacional de direitos humanos. Não há como esperar atitudes institucionais num Brasil que vive o estado de exceção produtor de violação de direitos”, disse Sônia Guajajara à Amazônia Real.

Segundo nota do CIMI, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e a 6a Câmara de Coordenação e Revisão, que cuida dos assuntos ligados aos povos indígenas e quilombolas na Procuradoria-Geral da República (PGR), estão analisando formas de intervenção na situação.

O CIMI informou que a Relatora da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, será comunicada sobre o ataque contra os Gamela. Em Nova York (EUA), o Fórum Permanente de Assuntos Indígenas das Nações Unidas está reunido desde a semana passada e conta com uma delegação do Brasil de indígenas Munduruku, Yanomami, Baré e Kanamary, além da Repam, Cimi e Fian.

A organização indigenista diz que não é o primeiro ataque sofrido pelo povo Gamela. “Devido a morosidade quanto a quaisquer encaminhamentos pelo órgão indigenista, os Gamela decidiram recuperar áreas tradicionais reivindicadas. Em 2015, um ataque a tiros foi realizado contra uma destas áreas. Em 26 de agosto de 2016, três homens armados e trajando coletes à prova de bala invadiram outra área e foram expulsos pelos Gamela, que mesmo sob a mira de armas de fogo os afastaram da comunidade”, diz a nota da organização.

 

Quem são os Gamela?

Polícia Civil foi à aldeia Cajueiro Piraí nesta segunda-feira (Foto: Ana Mendes/CIMI)

Polícia Civil foi à aldeia Cajueiro Piraí nesta segunda-feira (Foto: Ana Mendes/CIMI)

Um censo feito pelos próprios Gamela em 2015 estimou uma população de 1.200 pessoas da etnia, segundo Inaldo Kum´tum Akroá Gamela. Eles vivem em áreas de beira de estrada, mas desde 2015, com a retomada de seu território e a ocupação de três fazendas, habitam seis aldeias criadas nesta área: Vila Nova-Tabocal, Taquaritiua, Centro de Antero, Barreiro, Ribeirão e Cajueiro-Piraí. “São áreas de rio, de roça, coleta de frutas. Vivemos em casas comuns”, disse o indígena.

Segundo o CIMI, os Gamela reivindicam o território tradicional que compreende uma área de 14 mil hectares. Essas terras foram foi doadas pelo Estado brasileiro ainda no período colonial, nos anos de 1822 e 1759.

Inaldo Kum´tum Akroá Gamela conta que pesquisas históricas indicam que a população Gamela ocupava, originalmente, áreas que hoje abrangem os estados do Piauí, Tocantins e Maranhão.

Veja mais imagens na galeria abaixo:

 

 

Ataque aos índios Gamela no Maranhão.

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Índios da etnia Gamela sofrem ataque na nova retomada de terra que estavam fazendo no município de Viana no Maranhão. (Foto Ana Mendes/Cimi)

Matéria atualizada às 23h30 do dia 01.05.2017 para acrescentar informações sobre o estado de saúde dos indígenas feridos. 

 

 

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