Meio Ambiente

Governo do Amazonas diz que onça Juma se soltou da corrente e morreu com um tiro na cabeça após evento da tocha

24/06/2016 12:16

O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas, que fiscaliza zoológicos, não sabia que o animal vivia dentro de um quartel do Exército, em Manaus (A foto acima é de autoria de Jair Araújo/AmReal).

 

Em entrevista exclusiva à agência Amazônia Real, o chefe da Gerência de Fauna Silvestre do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Marcelo Garcia, disse que o laudo da necropsia do Zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) do Exército atesta que a onça-pintada Juma foi morta com um tiro na cabeça depois de participar da cerimônia do Revezamento da Tocha Olímpica Rio 2016, em Manaus.

O Ipaam é subordinado à Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Amazonas (SEMA). Segundo Marcelo Garcia, o relatório com o laudo da necropsia chegou ao órgão na quarta-feira (22). O documento confirma que duas onças participaram do evento da Tocha Olímpica na segunda-feira (20) no Zoo do CIGS. Consta do documento que Juma se soltou da corrente presa à coleira peitoral.

“O Simba tinha autorização. O Juma não tinha autorização [para participar da cerimônia]. Ele foi colocado no evento. Na hora que o Juma foi transportado para ser retirado do evento, ele se soltou da corrente. Foram injetados quatro dardos de sedativo e um pegou. Só que demorou um pouco para fazer efeito”, disse o gerente de Fauna Silvestre, Marcelo Garcia.

 

Juma era uma onça-pintada macho de nove anos de idade e mascote do 1º Batalhão de Infantaria de Selva (BIS), que fica ao lado do Zoo do CIGS, localizado na zona oeste de Manaus. O animal é uma das espécies da fauna silvestre ameaçada de extinção. O Ipaam, que licencia jardins zoológicos no estado, desconhecia a existência dele vivendo no quartel do Exército. Sua morte teve repercussão internacional.

Conforme publicou à agência Amazônia Real, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) confirmou a morte da onça-pintada na segunda-feira, 20 de junho. O Exército não tinha autorização para exibí-lo em eventos públicos. 

O Comitê Rio 2016 reconheceu o erro de permitir a exibição do animal na cerimônia em um comunicado oficial em sua rede social e, em resposta à Amazônia Real, disse: “quando o revezamento chegou ao centro ela já estava lá. Como dissemos, erramos ao permitir que a Tocha Olímpica fosse exibida ao lado de um animal selvagem acorrentado”.

Com base no laudo, Marcelo Garcia acredita que a onça Juma pode ter reagido aos dardos injetados contra ele. “Eu acho que ele reagiu até a própria picada da seringa, da zarabatana. Ele investiu contra os tratadores, o veterinário. Foi nessa hora que dispararam o tiro, pegou na cabeça, atravessou”, afirmou.

Segundo Garcia, o relatório do Zoo do CIGS não diz se a onça-pintada foi sedada antes de participar do evento da Tocha Olímpica. Durante o evento, que começou às 8h e terminou por volta das 11 h, o animal ficou a maior parte do tempo deitado, apurou a reportagem.

“Não, isso [sedação] não está explicado. Também porque não faz parte do protocolo da segurança. Tem [numa situação assim] que ter tratadores, pessoas acostumadas com o animal. Tem que ter o responsável técnico, que é o médico veterinário, que está habilitado a sedar o animal. Tem a questão de segurança do equipamento [corrente] para a exposição”, disse Marcelo Garcia.

Questionado se o zoológico descumpriu o protocolo de segurança com a onça Juma, Garcia declarou: “não sei, porque no caso o Juma não tinha autorização. Não sabíamos da existência dele [vivendo dentro do quartel do BIS]”, afirmou Garcia.

O chefe da Gerência de Fauna Silvestre disse que na terça-feira (21) esteve no laboratório do zoológico, onde permaneceu os restos mortais da onça-pintada naquele dia. Sem precisar uma data, Garcia contou que “o corpo foi enterrado nas dependências do CIGS”. “Foi lamentável. Como biólogo e como estudante da vida, o objetivo é preservar a vida [do animal] a todo custo”, lamentou o biólogo.

Marcelo Garcia explicou que, devido à realização da necropsia, não foi possível destinar os restos mortais da onça Juma à pesquisa científica. “Já trabalhei em coleções de corpos de animais. Há meios para receber animais e critérios para uma coleção receber animais. Já destinamos muitos animais para o Inpa quando estão em condições. Mas, neste caso, acho que não pode ser possível.” O Inpa é o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

A onça Juma ficou a maior parte do tempo deitada no evento da tocha (Foto: Jair Araújo/AmReal)

A onça Juma ficou a maior parte do tempo deitada no evento da tocha (Foto: Jair Araújo/AmReal)

Indagado se o Zoo do CIGS pode ser penalizado pela decisão de atirar no animal, o gerente de Fauna Silvestre disse que “caso seja comprovada” a infração, ela está prevista pelo Decreto Nº 6.514, de 22 de julho de 2008.

O artigo 24 do decreto diz que é proibido “matar, perseguir, caçar, apanhar, coletar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida”. A punição é de R$ 5 mil para abate de animais em risco de extinção.

“Estamos levantando toda a história para ver que tipo de providência vamos tomar. O importante é que isso não pode acontecer de novo”, disse Marcelo Garcia, explicando que o Exército já foi notificado pelo fato do animal ser deslocado para o evento da Tocha sem autorização do Ipaam. A Amazônia Real solicitou uma cópia do laudo e do relatório do CIGS, mas o Ipaam não autorizou.

Segundo a Gerência de Fauna Silvestre, há sete onças nas instalações do Exército Brasileiro em Manaus. Os animais estão em diferentes categorias. No Comando Militar da Amazônia (CMA) há duas onças que ficam em recintos próprios e não podem ser expostas. O CMA é considerado “mantenedor”.

No Zoológico do CIGS estão mais cinco. Elas são expostas aos visitantes, uma delas é o mascote Simba. Ele participa de eventos públicos, como desfiles e cerimônias de formaturas militares.

Desde que a gestão de fauna passou a ser feita por órgãos estaduais em 2014, o Ipaam diz que o Zoo do CIGS deve comunicar e pedir autorização para todas as atividades referentes aos animais.  Segundo o gerente, o zoológico está “em fase de licenciamento”.

Apesar das críticas à morte de Juma, Marcelo Garcia destaca a importância do Zoo do CIGS como instituição mantenedora, que recebe animais resgatados que não podem retornar à natureza. “No Brasil, todos os animais que estão em zoológicos são frutos de apreensões, entregas voluntárias e resgates. O zoológico tem um papel importante”, afirmou o gerente de Fauna Silvestre do Ipaam.

 

 Exército silencia

Ao menos dez militares faziam a segurança de Juma, mas ela conseguiu se soltar da corrente ao ser transportada. (Foto: Jair Araújo/D24)

Ao menos dez militares faziam a segurança de Juma, mas ela conseguiu se soltar da corrente ao ser transportada. (Foto: Jair Araújo/D24)

A reportagem da Amazônia Real procurou o Comando Militar da Amazônia (CMA), em Manaus, para que comentasse sobre as circunstâncias da necropsia da onça Juma e seu enterro. A Seção de Comunicação Social, porém, informou que não emitirá mais declarações sobre o caso. O Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEx) em Brasília também foi procurado, mas também não respondeu às perguntas enviadas até a publicação desta reportagem.

Em nota divulgada na segunda-feira (20), o CMA disse que, após o evento da Tocha Olímpica, a onça-pintada fugiu no momento em que era deslocada para a jaula. “O procedimento de captura foi realizado com disparo de tranquilizantes. O animal, mesmo atingido, deslocou-se na direção de um militar que estava no local. Como procedimento de segurança, visando a proteger a integridade física do militar e da equipe de tratadores, foi realizado um tiro de pistola no animal, que veio a falecer. ”

Em entrevista à reportagem na quarta-feira (22), o chefe da 5ª Seção de Comunicação Social, coronel Luiz Gustavo Evelyn, tentou minimizar o caso. Ele disse que a participação da onça Juma na cerimônia do Revezamento da Tocha Olímpica Rio 2016 dentro do Zoológico do CGS foi uma “coincidência”. “Ela estava no evento. Se você observar tinha dois animais lá, duas onças. A Simba, mascote do CIGS, que efetivamente participou, e ela [Juma] estava no interior do zoológico e, por uma coincidência, ela estava no percurso da tocha. Então ela participou e você tem até fotos dela lá que foram tiradas durante o evento”, afirmou o militar.

 

Inpa tem coleção de mamíferos

O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) possui uma Coleção de Mamíferos com um acervo de restos de animais utilizados para estudos genético e taxonômico das espécies.

Wilson Spironello, ecólogo da Coordenação da Biodiversidade do instituto, disse que seria bem-vindo o Comando Militar da Amazônia ter enviado o corpo da onça Juma para o acervo de pesquisas.

“O Inpa tem um setor de coleção e aceitaria o animal. Não fizemos o pedido formal. Mas não sabemos se essa onça foi enterrada. Se ela foi congelada e ainda não foi dado um destino ao corpo, poderia ser recebida pelo Inpa. Mas isso é uma coisa que depende do Exército”, disse Spironello.

Segundo o ecólogo, a coleção mantém o acervo para estudos da pele, da cabeça, de mostras da carne e dos tecidos e dos ossos. Mais informações aqui.

Wilson Spironello trabalha com animais mamíferos em pesquisa, monitoramento e levantamento de espécies e suas relações com as presas. Uma das espécies é a onça-pintada. Ele criticou o uso da onça Juma no evento da Tocha.

“Minha primeira crítica é ao Comitê Olímpico, que utilizou animais selvagens, mesmo que estejam acostumados em zoológicos, ou mesmo no caso do boto. A gente vê despreparo, uma falta de conhecimento, e uma falta de um bom assessoramento. O Brasil é rico em diversidade. Temos que exaltar isso, mas não com animais amarrados e enjaulados. Essa não é a forma correta de divulgar a diversidade da região”, afirmou Spironello.

 

Sobre a exibição de onças em eventos públicos e acorrentados, ele analisa que se trata de uma “falha que precisa ser abolida” por uma questão de “bom-senso”, mesmo que órgãos ambientais deem licença.

“Nós temos um predador que, embora viva em cativeiro, é um animal forte, tem uma mordida forte, e não podemos ficar exibindo um animal desses em situações públicas. Há risco de escapar, de causar acidente. Uma pessoa dizer que a onça estava tranquila, só se ela não conhece comportamento animal. O Exército precisa rever essa forma de exibir a onça como mascote. Eu acho que isso tem que ser banido.”

Para o ecólogo, atirar em um animal deve ser a “última ação” a ser tomada. “Isso fica caracterizado que a equipe não estava preparada para esse tipo de situação. Acho que, no fundo, além dessas práticas que não têm sentido, eles deveriam estar mais preparados. Aí não precisava matar. Deveria ter alternativa para evitar esse acidente”, disse Wilson Spironello, do Inpa.

 Leia também: MPF recebeu oito pedidos para investigar a morte da onça Juma   

Uma onça em seu habitat natural na Reserva Mamirauá (Amanda Lelis)

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