23/03/2017 10:00

 

O equilíbrio e a harmonia que a natureza construiu ao longo de muitos milênios, até oferecer ao homem um organismo único na Terra, foram substituídos por extremos de escassez e excesso de chuvas, secas e enchentes nos rios. (Foto da seca no Rio Negro em 2010/Alberto César Araújo)

 

Qual deve ser o impacto da mudança climática nas populações tradicionais da Amazônia? É a pergunta feita pela exposição fotográfica itinerante Amazônia | Os Extremos, aberta como parte do Dia Mundia da Água, na Galeria de Artes do Icbeu, em Manaus. A agência de jornalismo independente Amazônia Real, responsável por este site, promove a mostra, que pode ser visitada pelo público até o dia 6 de abril. O próprio título dado às imagens, produzidas por fotógrafos residentes na região ou que a visitam frequentemente, já aponta para a resposta. O equilíbrio e a harmonia que a natureza construiu ao longo de muitos milênios, até oferecer ao homem um organismo único na Terra, foram substituídos por extremos de escassez e excesso de chuvas, secas e enchentes nos rios.

A penetração do homem em áreas até então indevassadas, através de queimadas e desmatamentos, com a tecnologia mais primitiva, o fogo, ou mais sofisticada, a motosserra, por abordagem empírica ou orientação proporcionada por máquinas, está documentada em 40 fotografias de 12 autores.

Um roteiro de imagens em vídeo apresenta aos desavisados a seca do lago do Puraquequara, em Presidente Figueiredo, na região metropolitana de Manaus. Há outro documentário com os depoimentos de ribeirinhos que sofreram com a seca na Floresta Nacional do Tapajós e na Reserva Extrativista do Arapiuns, em Santarém, no Pará. E uma entrevista em vídeo do curador Alberto César Araújo concedida à Magdalena Gutierrez e Pablo La Rosa do Centro de Fotografia de Montevidéu, do Uruguai.

Quem patrocina a exposição é a Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil. Dão-lhe apoio instituições americanas, como a Fundação Ford, o Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos e o WCS Brasil, além do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), onde a mostra será inaugurada no dia  9 de abril, em Manaus.

A morte da castanheira pelo fogo não vai calar a floresta (Foto: Paulo Santos/AcervoH)

A morte da castanheira pelo fogo não vai calar a floresta (Foto: Paulo Santos/AcervoH)

Crianças brincam no lago seco de Balbina em Presidente Figueiredo, Amazonas em 2015. ( Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Crianças brincam no lago seco de Balbina em Presidente Figueiredo, Amazonas em 2015. ( Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

É significativo que, em pleno governo Trump, ainda iniciante, mas já marcado por sua hostilidade às questões ambientais, a presença de representação do governo americano e de agência como a Ford deem sua contribuição para que seja destacada uma repercussão geralmente esquecida ou deliberadamente omitida nas discussões sobre a agressão à natureza pelo homem: a posição do nativo, do habitante tradicional da região.

Ele não é cliente da ação pública, sobretudo daquela que mais profundamente penetra no organismo amazônico, promovida pelo governo federal, geralmente em associação com grandes empresas, nacionais ou internacionais. Não apenas o amazônida não é o destinatário dos maiores investimentos feitos na região. Ele simplesmente é ignorado, como se não existisse, fosse invisível à vista de Brasília, avalista da grande transformação que ocorre na maior fronteira de recursos naturais do planeta.

A concepção estratégica dessas frentes avançadas da economia ainda é a mesma diretriz da doutrina de segurança nacional, que os militares formularam a partir do golpe de 1964. A Amazônia é considerada um anecúmeno, um vazio demográfico. A falta de gente representa uma ameaça à soberania do país sobre um território grande demais. Os dois elementos servem de estímulo à cobiça imperialista internacional.

Para evitá-la, a palavra de ordem dos generais foi “integrar para não entregar”. Indução de fluxos migratórios de gente, capital e tecnologia para levar o homem aos extremos da região. O que devia fazer? Substituir a floresta por pasto, cultivos agrícolas, estradas, cidades, garimpos, hidrelétricas. Acabando, dessa forma, por romper e, em seguida, destruir o habitat dos nativos. Não importa. O que interessa é criar produtos de exportação, que gerem divisas para o país no mais curto prazo.

Como não haveria gente (nem inteligência) suficiente na região, foi como se a sua história tivesse começado com as estradas pioneiras e sua miríade de penduricalhos. Para essa lenda se estabelecer, evitou-se considerar os milhares de anos de presença humana anterior na vastidão continental da Amazônia. O conhecimento acumulado na relação desses habitantes com o meio foi descartado. Mais do que isso: o nativo foi submetido a condições adversas à sua subsistência. Era para desistir e desaparecer. No entanto, ele resiste.

Felizmente, com a simpatia, a solidariedade e as imagens dos fotógrafos reunidos nessa oportuna exposição. Talvez imitando o que aconteceu em 1998, na exposição sobre outras imagens, produzidas dois séculos e meio antes pelos integrantes da “viagem filosófica” do naturalista baiano Alexandre Rodrigues Ferreira.

As peças do acervo da expedição foram trazidas de Portugal, pela primeira vez, Índios do rio Negro foram trazidos para ver os desenhos e objetos, como urnas funerárias. Contemplando com os próprios olhos o que sabiam pela tradição oral dos antepassados, foi uma catarse. Incorporaram os elementos perdidos da sua história e os levaram na memória de volta às suas terras.

Pode-se fazer o mesmo com ribeirinhos e varzeiros. Talvez se consiga ajudá-los a escrever uma outra história da Amazônia, capaz de preservá-la como é, não transformada no que o colonizador quer que ela seja.

Seca extrema no Rio Negro em 2010 (Foto: Alberto César Araújo)

Seca extrema no Rio Negro em 2010 (Foto: Alberto César Araújo)

Banho de Jorge- Comunidade quilombola Vila Bela da Santíssima, MT. (Foto Marcela Bonfim/Amazônia Real)

Banho de Jorge- Comunidade quilombola Vila Bela da Santíssima, MT. (Foto Marcela Bonfim/Amazônia Real)

 

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Leia mais aqui. Veja outros artigos do autor.

Notícias relacionadas

Deixe seu comentário

Leitores e leitoras, seus comentários são importantes para o debate livre e democrático sobre os temas publicados na agência Amazônia Real. Comunicamos, contudo, que as opiniões são de responsabilidade de vocês. Há moderação e não serão aprovados comentários com links externos ao site, ofensas pessoais, preconceituosas e racistas. Agradecemos.

Translate »