Meio Ambiente

MPF recebeu oito pedidos para investigar a morte da onça Juma

24/06/2016 12:16

A entidade de defesa dos animais Pata organiza para sábado (25) um protesto contra a morte da onça Juma em frente ao Zoo do CIGS. (A foto acima é de autoria de Jair Araújo/AmReal)

 

Devido à repercussão internacional causada pela morte da onça-pintada Juma, membros de organizações não governamentais, parlamentares e cidadãos de Manaus ingressaram com ao menos oito representações no Ministério Público Federal (MPF) no Amazonas até a tarde desta quinta-feira (23). Os pedidos continuam chegando. Todos querem uma investigação, o que abre a possibilidade da Polícia Federal apurar o caso. 

Segundo a assessoria de imprensa do MPF, o procurador da República que atua no ofício de proteção ao Meio Ambiente, Rafael da Silva Rocha, irá analisar todas as representações com a devida atenção para, então, decidir quais providências iniciais serão adotadas. Ele preferiu não dar declarações sobre o caso à Amazônia Real.

O Ministério Público do Amazonas não informou se recebeu representação, mas disse que um representante esteve nas dependências do Zoológico do CIGS, onde Juma morreu por um disparo de pistola na cabeça na segunda-feira (20/06). Um procedimento deverá ser aberto pela Promotoria Especializada de Meio Ambiente, diz o órgão.

Uma onça-pintada (Panthera onca) macho, Juma era mascote do 1° Batalhão de Infantaria de Selva (BIS), unidade subordinada ao Comando Militar da Amazônia (CMA) do Exército. O animal, que tinha nove anos de idade, foi morto depois de participar da cerimônia do Revezamento da Tocha Olímpica Rio 2016 no Zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), localizado na zona oeste de Manaus.

Diz o CMA que a onça-pintada Juma escapou do interior do Zoo do CIGS. “O procedimento de captura foi realizado com disparo de tranquilizantes. O animal, mesmo atingido, deslocou-se na direção de um militar que estava no local. Como procedimento de segurança, visando a proteger a integridade física do militar e da equipe de tratadores, foi realizado um tiro de pistola no animal, que veio a falecer.”

À Amazônia Real, o presidente da comissão, Vanylton dos Santos, disse que iria solicitar na quarta-feira (22) ao Comando Militar da Amazônia esclarecimento sobre as circunstâncias da morte da onça-pintada Juma. O pedido, no entanto, ainda não foi protocolado oficialmente na unidade do Exército. 

ONG Pata confirma protesto

A presidente da ONG Pata (Proteção, Atenção e Tratamento Animal), Joana D’arc Oliveira, defende que o Exército precisa ser mais transparente nas investigações sobre a morte da onça-pintada Juma e admitir possíveis falhas. A ativista diz que, além da morte em si do felino, a falta de respostas e informações coerentes por parte dos militares também aumentam a sensação de indignação por parte de quem acompanha o caso.

“Se erraram, eles devem admitir e tomar as providências necessárias para que não aconteça mais”, analisa ela. Joana D’arc afirma que o movimento não é contra o Exército nem sua política de tratar animais silvestres que lhe são entregues pelos órgãos ambientais.

Nesta quinta-feira (23), a Pata protocolou requerimento junto ao Comando Militar da Amazônia (CMA) pedindo informações sobre o que de fato aconteceu no interior do CIGS após o encerramento da solenidade olímpica. “O Exército como instituição pública tem o dever legal de dar publicidade aos seus atos. Nós estamos pedindo apenas aquilo que a gente entende que é direito nosso”, pondera.

A presidente da Pata afirma que o Comitê Olímpico Rio 2016 também deve ter uma parte de responsabilidade no caso Juma. “Eu acho que eles [organizadores] deveriam ter tomado as precauções de saber quais seriam as autorizações legais e a estrutura a ser usada.”

“Queremos que parem de expor os animais selvagens em eventos de entretenimento”, defende ela.

A ONG vai pedir esclarecimentos ao Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) para saber se a participação de um boto, também no evento do Revezamento da Tocha, estava devidamente licenciada. “Nós também queremos saber a história do boto. Na verdade, nós queremos que parem de usar animais na passagem da Tocha, não há necessidade disso”, diz.

A Pata prepara para sábado (25) um protesto contra a morte da onça Juma em frente ao Zoológico do CIGS no bairro São Jorge, zona oeste de Manaus. De acordo com a presidente da ONG, o objetivo é mobilizar a sociedade para cobrar do Exército explicações sobre a morte do animal e pedir o fim da exposição dos bichos para fins de diversão.  Joana afirma esperar a participação de até 400 pessoas no ato.

“Nós estamos convidando quem se indignou, quem é protetor de animais, para que possamos chegar a um consenso entre a sociedade, a ONG e o CMA para adotarmos medidas para que os animais não sejam expostos da forma como aconteceu, e que isso não se repita.”

 

Como é o Zoo do CIGS?

Nas instações do Zoo vivem cinco onças (Foto: Fabio Pontes/AmReal)

Nas instações do Zoo vivem cinco onças (Foto: Fabio Pontes/AmReal)

Uma onça-pintada esculpida em madeira sobre um toco de árvore dá as boas-vindas a quem visita ao Zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS). O zoológico é mantido pelo Exército brasileiro.

A agência Amazônia Real visitou o zoológico nesta quarta-feira (22), dois dias após a morte de Juma. O Zoo do CIGS  é vizinho ao 1º Batalhão de Infantaria de Selva (BIS), onde Juma vivia. As duas unidades são classificadas como “uníssonas” pelo Exército.

O ingresso para visitação custa R$ 5. No zoológico o visitante encontra as principais espécies da fauna amazônica –das terrestres até as aquáticas. Logo no começo é possível encontrar um pouco da diversidade de aves e macacos, alguns ameaçados de extinção como Juma.

As jaulas mais procuradas pelos turistas são as das onças. Algumas tentam reproduzir o ambiente natural dos felinos na floresta. Outras são pequenas. Uma das onças vistas pela reportagem apresentava sinal de agitação, andando de um lado para o outro da jaula e emitindo seu rugido tão temido pelos moradores da floresta –e sobretudo pelos turistas. Veja o vídeo:

A onça-pintada da espécie Panthera onca é o maior felino das Américas, podendo chegar a 80 cm de altura e comprimento em média de 1,80 m (macho) e 1,40 m  (fêmea), além do peso de até 150kg.  Espécie ameaçada de extinção, no Brasil o habitat natural é nas florestas da Amazônia e a Mata Atlântica, mas há ocorrências também no Pantanal e o Cerrado.

No Zoo do CIGS há uma passarela suspensa com vista panorâmica do espaço dedicado as onças. A reportagem conseguiu observar três delas no momento da visita: duas pintadas e uma pantera. O Exército afirma possuir sete onças sob sua responsabilidade, em Manaus. Duas delas (Jiquitaia e Aru) estão na sede do CMA, que é mantenedor dos animais.

Mesmo com toda  a repercussão negativa ocasionada pela morte de Juma –classificada como “fatalidade” pelo Exérciro – no zoológico a rotina segue normal, sendo alterada apenas quando os soldados em treinamento bradam “Selva!”.

Atualizado às 19h.

 

Leia também: “Amor Bandido“, artigo da jornalista Leyla Leong. Ela diz que  “Juma não morreu em vão. O seu sacrifício sacudiu a consciência do mundo inteiro para a questão dos animais que vivem em cativeiro”. 

 

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Comentários

  1. cleyton medeiros disse:

    e um apena que isso tenha acontecido e uma vergonha. espero justiça pra ela. que quem deu este tira seja preso. ja tinha uma ideia que isso ia acontecer com o corpo..nesta sindicância. e por que quem atirou foi um oficial se fosse um soldado ou cabo ja tava ferrado . tinha que ser independente. e uma pena…4 tiros de 9 mililitros.

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