Colunas

O conhecimento dos Yepamahsã sobre a mudança climática

05/04/2017 11:55

O antropólogo João Paulo Barreto foi um dos palestrantes do debate “Mudança climática e seu impacto nas populações tradicionais da Amazônia. O que esperar?” organizado pela agência Amazônia Real no mês de março na Galeria do Instituto Cultural Brasil – Estados Unidos (ICBEU), em Manaus. Ele falou sobre a visão dos kumuã, os especialistas do povo Yepamahsã (que em português significa Tukano), do Alto Rio Negro (AM). Kumuã ou kumu são chamados de pajé por outras etnias indígenas. Devido à repercussão da palestra no debate, João Paulo disponibilizou o texto que ele apresentou durante o evento, o qual publicamos abaixo: 

 

Por João Paulo Barreto

“Inicialmente agradeço pelo convite feito pela agência de jornalismo independente Amazônia Real. É uma honra estar na mesa e partilhar as ideias com esse seleto grupo de indígenas, como o Embaixador do Povo Yanomami, Davi Kopenawa.

Para vocês que são cientistas: biólogos, climatologistas, engenheiros, sociólogos, e tantos outros… tudo que nós indígenas estamos falando aqui, pode parecer como algo surreal.

Quero dizer a vocês que nós estamos lidando com epistemologias distintas, de modo que uma não é melhor que outra, certa ou errada, racional e irracional, selvagem e desenvolvida, mitologias e ciências.

O que nós estamos falando aqui é nossa epistemologia, nossa forma de ver, de pensar e de controlar e manipular os fenômenos da natureza.

Para nós Yepamahsã (Tukano) a noção de Mudança Climática perpassa por outras vias, por outra concepção, ou seja, pelo rompimento de interação e comunicação com os responsáveis do controle das coisas e dos animais.

Então, a epistemologia yepamahsã organiza o cosmo em três grandes espaços: terra/floresta, aquático e aéreo.

Cada espaço subdivide em espaços menores, por exemplo: aquático – igarapés, lagos e rios. Que por sua vez divide em espaços menores, que posso chamar de ambientes. Esses espaços/ambientes são as moradas, casas, bahsakawi dos waimahsã

Dessa forma todos os ambientes são as casas dos waimahsã, com os quais os humanos devem necessariamente interagir e comunicar para usufruir os recursos naturais. Assim, destruir os ambientes, significa para nós yepamahsã, destruir as casas dos waimhsã.

Como reação e vingança os waimahsã lançam doenças, feitiçarias: conflitos, nascimentos de crianças deficientes, etc.

Transportando essa concepção para aquecimento, assim como no universo aquático, existe os waimahsã, responsáveis pelo controle da temperatura, da chuva e renovação do ar do cosmo.

O aquecimento, excesso de chuva e calor acontecem porque não há mais interação com os waimahsã responsáveis. Distraídos pelas coisas das ciências e tecnologias, os especialistas pouco se atentam para esta interação cosmopolítica.

As relações entre os humanos e os seres de diferentes domínios do cosmo se fundamentam no intercâmbio recíproco de vitalidade. Um dos ingredientes dessa relação é o conflito. Se o intercâmbio for violado, pode provocar vingança por parte desses seres, causando mortes. Para isso, os xamãs aparecem como o principal meio de comunicação com os diferentes seres de diferentes domínios e espaços.

Mas, os especialistas indígenas são eternos pensadores, refletem sobre o funcionamento da realidade de modo individual e coletivamente, produzem os pensamentos e ensinam as práticas de bem viver com o mundo humanos e não-humanos. Lançam mão de bahsese (benzimentos) para reorganizar o cosmo, para manter o equilíbrio de relacionamentos entre humanos e não-humanos.

Atentos, lamentam o destino da humanidade, que caminham para um fim sem volta, destruindo as casas/ambientes dos waimhasã, sem medir as consequências, avançam sobre a terra como forminhas famintas, devorando tudo o que encontra pela frente somente para satisfazer seu vazio humano.

Como consequência sofrem com surgimentos de novas doenças, conflitos sociais (familiares, entre os grupos e povos), mais guerras acontecem, nascem crianças deficientes. Os recursos naturais ficam cada vez mais escassos, ocorrem grandes temporais, cheias exageradas, verão sem medida, acidentes de trabalhos. Isso tudo, são causadas pela má relação cosmológica e cosmopolítica do ponto de vista dos especialistas.

Tudo o que estamos falando aqui pode parecer surreal para vocês. Vou contar uma história para vocês.

Eu fui a São Paulo primeira vez, especificamente na USP para um seminário. Na hora de folga, os colegas me convidaram para um passeio na cidade. Saímos da USP e fomos pegar o metrô. Entramos num buraco, como formigas e lá descobri que era uma cidade subterrânea. E a cobra grande transportava pessoas embaixo da terra. Num determinado momento, meu colega disse estávamos passando embaixo de um rio, a 30 metro de profundidade. Era demais para minha pequena cabeça entender isso.

Quando voltei, contei ao meu pai sobre a história do metrô e da cidade subterrânea, mostrando fotos e o metrô. Para meu pai, tudo isso era sul real, tipo um mito, uma história pro boi dormir.

Assim são nossos conhecimentos. Para vocês pode ser mitos, para nós é nossa ciência, nossos conhecimentos, nosso pensamento e nossa epistemologia.

Enfim, estamos exterminando os waimahsã desse cosmo e pretendemos exterminar os outros dos outros planetas. SOMOS AUTOSUICIDAS.”

 

João Paulo Barreto é indígena da etnia Tukano, nascido na aldeia São Domingos em São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas. É graduado em Filosofia, mestre e doutorando em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). 

Notícias relacionadas

Deixe seu comentário

Leitores e leitoras, seus comentários são importantes para o debate livre e democrático sobre os temas publicados na agência Amazônia Real. Comunicamos, contudo, que as opiniões são de responsabilidade de vocês. Há moderação e não serão aprovados comentários com links externos ao site, ofensas pessoais, preconceituosas e racistas. Agradecemos.

Translate »