A Amazônia segundo Lúcio Flávio Pinto

O crime organizado na Amazônia

Complexo Penitenciário Anísio Jobim, Compaj, na  BR-174, em Manaus (Foto: Alberto César Araújo)
11/01/2017 16:18

Familiares buscaram informações dos parentes presos no Compaj (Foto: Alberto César Araújo)

 

Durou 17 horas, entre os dia 1 e 2, a rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus. O início e o fim foram definidos sob o comando absoluto dos líderes do movimento. Eles devolveram as instalações sem depredação à administração, terceirizada a uma empresa particular pelo poder público.

Não molestaram nenhum agente prisional, que saíram incólumes, sofrendo algum risco pelo tiroteio desordenado da guarda local ao penetrar no prédio.

O objetivo da sublevação fora alcançado pela facção criminosa Família do Norte (FDN), ligada ao Comando Vermelho: a execução de 56 detentos, a maioria deles integrantes da organização Primeiro Comando da Capital (PCC), sangrados com a maior selvageria já vista em qualquer homicídio. Mais quatro presos foram mortos na Unidade Prisional do Puraquequara (UPP), na zona Leste da cidade, aumentando para 60 o total de mortes no massacre.

Dias depois, outros quatro presos também supostamente ligados ao PCC foram mortos violentamente na Cadeia Pública Desembargador Raimundo Vidal Pessoa, no centro da capital, para onde mais de 200 detentos foram transferidos após o massacre no Compaj.

O vídeo da carnificina circulou pelo mundo. Corpos decapitados eram pisados pelos matadores, que desfiguravam os cadáveres, retirando os corações das vítimas, eviscerando-as ou fazendo gestos obscenos, quando não satíricos, com suas partes expostas. Sempre olhando para as câmeras, sem o menor receio de serem identificados, com cinismo e escárnio.

Quanto pior e mais gratuita a violência documentada, melhor. O propósito era o de mandar um recado: teriam aquele fim os inimigos do Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, que o estavam desafiando e lhe causando prejuízos. No caso, o destinatário da mais sangrenta vingança testemunhada pela humanidade em tempo de paz (ou, pelo menos, de guerra não declarada) era o Primeiro Comando da Capital, sediado em São Paulo.

Há alguns anos, PCC começou a sair da sua base paulista para realizar um projeto de amplitude nacional. Já está presente em vários Estados, em alguns deles como controlador principal do crime organizado, a partir de uma base insuspeita, os presídios, de onde seus líderes capturados mandam ordens e comandam homens com desenvoltura inédita na história mundial das casas de detenção.

O PCC deu um passo audacioso quando deslocou o Comando Vermelho da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Em seguida, montou o monopólio do transporte de droga do Peru, da Colômbia e da Venezuela pelo Amazonas até o mercado internacional, americano e europeu.

A Polícia Federal estima em 1,7 bilhão de reais o valor desse fluxo. É muito dinheiro, mesmo para um negócio da magnitude do tráfico internacional de drogas. O PCC começou a se infiltrar nessa transação, através de enviados da sua base carioca e de agentes locais, sobretudo membros da Família do Norte, o braço amazonense do Comando Vermelho, que mudaram de bando.

Com o agravamento da tensão entre as duas maiores facções criminosas do país, a ordem foi dada do Rio de Janeiro e cumprida com rigor na penitenciária de Manaus: estraçalhar, literalmente, os inimigos. Para estupor geral, inclusive dos órgãos de inteligência do governo, foi o maior massacre desde o do Carandiru, quase um surto de século antes.

Apesar de a matança paulista ter tido o dobro de mortes (111 a 56), pelo menos 77 delas foi obra da Polícia Militar, ao ocupar o presídio para desalojar os rebeldes. Brutalidades e ilegalidades à parte, foi um combate entre as forças públicas e os criminosos, entre o Estado e a marginalidade.

 

Em Manaus, foi uma execução sumária e coletiva de uma facção criminosa por outro agente do crime organizado, em uma dependência do governo, cedida de forma negligente a uma empresa privada.

 

Ao darem seus gritos de ameaça e debocharem de todos que viessem a ver o vídeo gravado por um dos matadores, investidos na condição de magarefes, a estripar corpos de humanos tratados como animais, os sublevados de Manaus estavam desafiando o próprio governo. Declararam guerra tanto ao PC quanto ao órgão estatal.

É, de imediato, uma grave e assustadora questão de segurança pública. PCC e CV têm ao seu dispor dezenas de milhares de integrantes espalhados pelo país, capazes de cometer as maiores insanidades, das quais deram provas em Manaus, as repetindo logo em seguida em Roraima.

De forma quase imediata e com a mesma truculência e audácia, integrantes do PCC no presídio de Boa Vista trucidaram 33 presos, em resposta à matança da capital amazonense, devolvendo depois a instalação pública ao seu administrador. Agindo com a mesma desenvoltura, em seguida liquidaram mais quatro detentos na centenária cadeia pública no centro de Manaus, como a dizer às autoridades, que escolheram o lugar como forma de assegurar a vida dos presos visados, que nenhum lugar é seguro para eles. PCC e CV estão acima da lei, são mais fortes do que seus perseguidores. As vítimas que se acautelem.

Há ainda outra questão, tão ou mais séria. Ela diz respeito à segurança nacional, uma doutrina muito cara aos militares, sobretudo durante os 21 anos em que eles controlaram o poder político. As rotas de escoamento de drogas pelo Amazonas se desenvolveram a ponto de justificarem a guerra aberta entre as duas facções do narcotráfico.

Os órgãos de informações estão convencidos de que elas têm conexões políticas dentro e fora do país, a ponto de as fronteiras nacionais se terem tornado abstrações, quem sabe menos relevantes do que ao sul, na fronteira com o Paraguai e a Bolívia.

O que podem fazer os responsáveis pela garantia da segurança nacional? As forças policiais e militares não só deixaram de fornecer informações adequadas sobre o que iria acontecer como deram respostas tímidas ao desafio do crime organizado. O acompanhamento através de satélites, como o do SIPAM, braço civil da organização militar, que tanta controvérsia provocou, foi deficiente. Todo o aparato oficial se mostra irrelevante diante do poder dos criminosos.

O foco na Amazônia, por isso, vai se tornar mais forte novamente. A sociedade, que acompanha perplexa e impotente os acontecimentos, tem que se antecipar aos fatos consumados. Ou pagará ainda mais caro pela sua inércia.

 

Poder e narcotráfico

Em 2014, revista Veja e o jornal Folha de S. Paulo divulgaram diálogo gravado entre o então subsecretário de Justiça do Amazonas, major Carliomar Barros Brandão, e o traficante José Roberto Fernandes Barbosa, um dos líderes da facção criminosa que controla o tráfico de drogas no Estado, a Família do Norte.

No áudio, o traficante prometia até 100 mil votos a Melo para que ele não os “prejudique”. O representante do governo respondia que “ninguém vai mexer” com os criminosos.

“A mensagem que ele (governador) mandou pra vocês, agradeceu o apoio e que ninguém vai mexer com vocês, não”, disse o major Brandão no áudio.

O governo do Amazonas exonerou o militar do cargo e informou na ocasião que iria apurar “a veracidade do conteúdo da gravação”. Ninguém soube do resultado até hoje.

 

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Leia mais aqui. Veja outros artigos do autor.

 

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