23/05/2017 18:14

 

José Porfírio Fontenele de Carvalho tinha 70 anos no dia 13, quando um câncer o matou. Ele era um sertanista, talvez o último dos grandes sertanistas da Funai. Certamente o derradeiro integrante de uma geração que trocou as cidades pela selva amazônica.

Nos seus confins, esses homens inteligentes, corajosos, destemidos e, na maioria das vezes, cultos, de esquerda, tiveram que participar de uma das maiores guerras internas da história recente do Brasil.

Eles surgiam na vanguarda de frentes humanas que avançavam sobre áreas pioneiras da Amazônia. Sua missão era “pacificar” os índios isolados que fossem alcançados pelas grandes rodovias de penetração.

Por “amansar” entenda-se submeter e, se necessário, expulsar aqueles grupos humanos, que estavam instalados em locais ermos no “sertão” havia centenas de anos. Mas que deviam sair dali para serem substituídos por núcleos urbanos, estradas, hidrelétricas, fazendas, mineradoras – o “progresso”, enfim.

José Porfírio Fontenele de Carvalho  (Foto: Alberto César Araújo)

José Porfírio Fontenele de Carvalho (Foto: Alberto César Araújo)

A história desse avanço é trágica e sangrenta. Provocou crises de consciência, ira e revolta de sertanistas. Eles imaginavam poder conciliar o mundo primitivo ao novo universo dominante. Vários deles se desiludiram e abandonaram seus ofícios.

Outros acabaram se sujeitando a tentar remediar o mal, fazendo o que era possível e se encharcando de álcool para anestesiar seus conflitos pessoais.

Um dos poucos que conseguiu resultado significativo foi Porfírio Carvalho. Dentro da FUNAI e, depois, de fora da fundação, conseguiu ajudar dois grupos indígenas a sobreviver. Mais do que isso, a se expandir – diante de duas hidrelétricas e outras obras agressivas.

Na divisa de Roraima com o Amazonas, ao lado dos Waimiri Atroari, que enfrentavam a BR-174, de Manaus a Boa Vista, a mineradora de cassiterita Paranapanema, na mina do Pitinga, e a hidrelétrica de Balbina, no rio deles, o Uatumã. No Pará, com os Parakanã, deslocados de sua área tradicional pela quarta maior hidrelétrica do mundo, a de Tucuruí, no rio Tocantins.

Porfírio introduziu formas de organização dos índios, que lhes permitiu dialogar no mesmo nível dos brancos, sem perder sua própria identidade, de tal modo a não ser um estorvo para as obras, mas se precavendo contra os seus efeitos destruidores.

Tão eficientemente que suas populações, reduzidas pelas chacinas dos pioneiros e sua presença desarticuladora, cresceram muito, atingindo um tamanho expressivo. Os Waimiri, de menos de 400 indivíduos, para os quase dois mil atuais.

Acompanhei Porfírio Carvalho em vários momentos pela Amazônia. Depois perdemos o contato. Certa vez, eu participava de um seminário sobre Tucuruí em Belém, enfrentando a Eletronorte, minha algoz constante.

Eu estava na mesa de debates quando o sertanista foi chamado para apresentar o projeto da estatal dedicado aos Parakanã. Porfírio se levantou e veio andando meio sem jeito, encabulado. Ele ia ficar do “outro lado”. Eu me levantei e lhe dei um forte abraço. Ele descontraiu, se livrando de qualquer culpa por estar ao lado da empresa que eu tanto criticava, e apresentou seu notável projeto.

Depois almoçamos e fomos relaxar num sebo. No meio dos livros. Velhos e valiosos, pudemos conversar à vontade até escurecer e a loja fechar. Ele se foi e nunca mais o vi. Vejo-o agora, nesta notícia, com sua dignidade, humildade e amor aos índios. Personagem de um passado que vai se desfazendo à sombra da amnésia coletiva.

 

A fotografia  que ilustra esse artigo é de autoria de Alberto César Araújo.

 

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Leia mais aqui. Veja outros artigos do autor.

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