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O que o passado tem a ver com o presente da Amazônia?

21/10/2013 08:55

EDUARDO G. NEVES

Há pouco mais de um mês, na segunda semana de setembro de 2013, realizou-se em Quito, no Equador, o III Encontro Internacional de Arqueologia Amazônica, organizado pelo arqueólogo francês Stéphen Rostain. Do encontro participaram cerca de 300 pessoas vindas de todos os países amazônicos e também Europa e Estados Unidos.

O EIAA III foi uma excelente sequência aos primeiros encontros, que ocorreram no Brasil, em Belém em 2008 e Manaus em 2010. O próximo está previsto para Iquitos, em 2016. O modelo é simples, mas funciona bem: não há seções paralelas e todos assistem a todas as apresentações. Ao final da maratona de cinco dias saem os participantes exauridos, mas inspirados pela qualidade dos trabalhos e os avanços que têm sido feitos.

No encontro de Quito o destaque foi a alta Amazônia e os achados impressionantes de centros cerimoniais de mais de quatro mil anos feitos no Peru e Equador e também para os dados maravilhosos que têm sido produzidos na Bolívia. Escreverei sobre esses temas em outras colunas.

Na viagem ao Equador, tive a chance, com alguns colegas, de visitar a cidade de Francisco de Orellana, que fica na junção dos rios Coca e Napo, na alta Amazônia equatoriana. No curto voo de Quito a Coca, o nome pelo qual Francisco de Orellana é popularmente conhecida, viajei em uma ponte aérea lotada de petroleiros.

De Coca partem esses petroleiros para os inúmeros campos de exploração espalhados por aquela parte da Amazônia equatoriana, perto da fronteira com a Colômbia, uma região ocupada por diferentes povos indígenas, alguns dos quais com pouco contato regular com a sociedade nacional.

Os problemas relacionados à exploração de petróleo na Amazônia equatoriana são antigos: há mais de vinte e cinco anos, em 1987, o bispo de Coca, Alejandro Labaka, e a freira Inés Arango morreram atingidos por lanças feitas do tronco da pupunha (Bactris gasipaes) enquanto tentavam mediar as tensões cada vez maiores entre petroleiros e indígenas.

Recentemente, em um movimento surpreendente e polêmico, o governo de Rafael Correa decidiu autorizar a retomada das atividades de exploração petrolífera na região de Yasuní, também na Amazônia equatoriana. Para que a área se mantivesse intacta, o Equador tentou levantar 3,6 bilhões de dólares de doações internacionais, o que corresponderia à metade do lucro estimado com a exploração do petróleo ao longo de 10 anos.

A quantia levantada pelo Equador foi de apenas 13 milhões de dólares.
As tensões entre os interesses de indígenas e não indígenas não são novas na região de Coca: foi dali, em 1541, que partiu a primeira expedição de europeus rumo ao rio Amazonas.

Essa expedição, chefiada pelo mesmo Francisco de Orellana que nomeia a cidade, percorreu em alguns meses um percurso de milhares de quilômetros desde os Andes até a foz do rio Amazonas, abaixo de Macapá. Foi o cronista dessa viagem, frei Gaspar de Carvajal, que fez a descrição mais antiga da qual se tem notícia sobre a Amazônia e seus povos. Foi Carvajal que fez também referência à tribo das Amazonas, pela qual o rio e depois toda a região vieram a ser conhecidos.

A história da tribo das Amazonas é uma espécie de mito fundador da história das ideias sobre a Amazônia e seus povos. Trata-se de uma sequencia de narrativas construídas com expetativas e premissas que nem sempre corresponderam às condições dessa Amazônia real: El Dorado, lago Manoa, Inferno Verde, Mundo Perdido, Pulmão do Planeta, Paraíso Ilusório foram alguns dos epítetos criados por cientistas e leigos para definir a Amazônia ao longo dos séculos.

A Amazônia é, no entanto, complexa, múltipla e diversa e por isso desconfio daqueles que dizem conhecê-la bem.

Recebi com alegria o convite feito por Elaíze Farias, Kátia Brasil e Liège Albuquerque para colaborar com esta Amazônia Real. Procurarei trazer uma contribuição particular, feita a partir da Arqueologia, para o entendimento da rica história dos povos indígenas que ocupam há pelo menos 15.000 anos a região e da relação que estabeleceram com a natureza ao longo desses milênios.

A ideia básica que é que, na Amazônia, exemplo acabado de natureza intocada, a presença humana antiga se faz sentir por toda parte. Sinais do passado são disseminados por toda a Amazônia contemporânea. Para lê-los é preciso um ajuste de foco. Espero que esses textos sirvam de lente.

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