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O “roubo de sombra” na visão dos amazônidas

29/11/2016 16:26

RENAN ALBUQUERQUE

Saberes locais são conhecimentos populares de alto valor, partilhados por grupos sociais e acessados via relato de pessoas que, por observação sistemática repassada entre gerações pela oralidade, desenvolveram práticas e habilidades relacionadas aos locais onde se situam. São saberes que impulsionam modos de vida por sabedoria compartilhada. Especificamente no caso da sabedoria local acerca de “roubo de sombra”, entende-se que se trata de mal psicofísico somatizado a partir de feitiço dirigido por “bichos do fundo”(1) a pessoas que se encontram suscetíveis de serem cooptadas. Considera-se, nativamente, a expressão de acordo com seu uso por comunidades tradicionais da Amazônia e se referem a estados de sofrimento mental a partir de seu imaginário, traduzindo a referência segundo linguagem com suporte em saberes locais. O roubo de sombra é, portanto, um tipo de sofrimento mental.

Pode-se crer que as comunidades tradicionais entendem roubo de sombra, a seu termo, como algo similar àquilo que Gustav Jung descreveu como mal psíquico sujeito a modificações e que, se reprimido e isolado da consciência, seria de difícil correção e irromperia em momentos de inconsciência. “Todo mundo carrega uma sombra, e quanto menos ela está incorporada na vida consciente do indivíduo, mais negra e densa ela é” (Id., 1976, p. 250). Os bichos do fundo, aqueles que roubam a sombra, são seres encantados que moram nos rios. Quando eles se “agradam” de uma pessoa, vão buscar a sombra dela para morar “na casa deles”. Episódios de roubo de sombra em geral acontecem quando crianças ou mulheres adultas (homens são menos suscetíveis) passeiam por margens fluviais ou banham-se em águas de paranás, furos, rios e igarapés do bioma.

O roubo se dá principalmente quando a pessoa está sozinha nos locais. No momento em que o bicho do fundo – boto, cobra-grande, sereia, iara e grandes bagres do tipo piraíba, pirarara e piramutaba – olha para a criança ou o adulto, acontece o “agrado”. O termo é usado para nominar o desejo incontrolável que o encantado sente de tomar para si a pessoa, como um títere, tirando-lhe livre arbítrio e vontade autônoma. A partir do momento em que é lançado o agrado, ele atinge a pessoa e a sombra é roubada. A pessoa acometida passa a sentir cansaço profundo, sono e largo “esmurecimento”. Em variedades linguísticas registradas, o termo deriva do verbo esmorecer, usado para classificar tristeza profunda que acomete pessoas, impedindo-as de realizar atividades cotidianas e, às vezes, causando concreta perda de interesse pela vida.

O mal, notadamente aproximado ao que a biomedicina classifica de síndrome depressiva maior, pode ser entendido na gênese de saberes tradicionais como do tipo illness – que se refere ao que é construído culturalmente ou socioculturalmente e diz respeito à vivência individual da doença, à percepção de uma perturbação pelo sujeito, à experiência de algo anormal (dor, sofrimento, mal estar, perturbação). Em estados de esmorecimento causados por roubo de sombra a percepção dos sinais fisiológicos do corpo, sua experiência individual e social encerra dimensão subjetiva que pode ou não se articular com a dimensão biológica proposta pela categorização biomédica.

Sintomas de roubo de sombra são percebidos não só pela pessoa, mas pela família, por entes afetivos e colegas próximos a adoentados. Dentro da perspectiva amazônica, o processo de tratamento e cura, tendo em vista retorno ao estado de equilíbrio corporal e mental, perpassa pelo reconhecimento do problema a partir do(a) próprio(a) acometido(a). O tratamento contra roubo de sombra é a consulta a um curandeiro. O mais indicado é aquele reconhecido como “sacaca”. Sacaca é uma pessoa com espiritualidade especial, que nasceu com dom de curar doenças e que para isso recebe ajuda dos encantados dos rios. São pessoas conhecidas na Amazônia por serem curadoras poderosas, dotadas de sensibilidade e percepção extraterrena. Há diferentes níveis de poderes de cura que podem ser acessados pelos sacacas, o que faz do vocábulo um termo com sentido variante a partir de uma mesma denominação.

A partir da evocação, a cura é proposta, mas pode ou não ser alcançada. Se o roubo de sombra tiver ocorrido por causa de transgressão a regras de modos de vida, incluindo territorialidades e simbologias, o doente não deixa totalmente sua condição, mantendo-se em estado de sofrimento mental leve. Sobre as regras, elas são associadas a normas ancestrais de conduta moral. São definidas também segundo cosmologia e parentesco. Quando o esmorecimento se dá não por transgressão de regras, mas pelo deslumbramento que a pessoa provocou no encantado do fundo do rio, a negociação da cura tende a ser profícua, e as possibilidades de se livrar totalmente do mal são objetivas. Este, porém, é outro tipo de tratamento tradicional. Por ele, é exercitada a regra da diplomacia entre encantado e sacaca. O embaixador é a pessoa curandeira que em espírito pede licença para descer até o local onde está a sombra do sujeito adoentado, no fundo do rio, e ali inicia uma dinâmica de negociação, por vezes longa, para que o bicho do fundo encerre o ato de manter a sombra presa sob as águas.

Conclui-se que a interpretação tradicional acerca do roubo de sombra perpassa pelo entendimento de que o(a) acometido(a) está servindo de alimento em uma predação canibal de agentes não-humanos. Essa construção de conhecimento, orientada pelo mito de fundação da vida, explica pela tradição amazônica as dores do viver. Não se trata de interpretação mais ou menos eficiente que a especificada por procedimentos biomédicos, mas sim de uma construção crivada pela ideia de que importa menos a materialidade da doença e mais a subjetividade.

 

A foto que ilustra este artigo é de autoria de Gabriel Uchida

 

NOTA

(1) A expressão “bichos do fundo” é uma construção sociocultural que diz respeito ao entendimento local sobre seres encantados, tais como boto, cobra-grande, sereia e iara.

 

Renan Albuquerque é professor e pesquisador do colegiado de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e desenvolve estudos relacionados a conflitos e impactos socioambientais entre índios Waimiri-Atroari, Sateré-Mawé, Hixkaryana, junto a atingidos pela barragem de Balbina e com assentados da reforma agrária.

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