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Os Wai-Wai e suas conexões com o evangelismo: Parte 1- A Cerimônia

FOTO PARA DEESTAQUE -  Formandos Wai-Wai do curso da doutrina Batista 
- Foto Renan Albuquerque
08/02/2017 15:42

RENAN ALBUQUERQUE 

 

Os Wai-Wai são falantes da família linguística Karib. Historicamente, a etnia ocupou regiões das Guianas, do Amazonas e do Pará, sendo que a maior porção populacional concentra-se, hoje, na confluência desses dois Estados brasileiros, no Médio Amazonas, exatamente nos rios Jatapu e Nhamundá (AM) e Mapuera (PA), com mais de 2,2 mil pessoas.

Com religiosidade específica, nativa, ancorada em relações anímicas, tradicionais e cosmológicas, os Wai-Wai nos últimos 25 anos têm construído redes relacionais não-correlatas às suas espiritualidades amazônicas – o que de maneira alguma tende a representar algo diretamente negativo, creio eu. Pelo contrário, penso que se trata de uma situação diferenciada, iniciada há mais de duas décadas, com implicações intensas, perceptíveis dessa pós-modernidade.

E aqui não nos remetemos à pós-modernidade de David Harvey ou de Zygmunt Bauman, mas sim a uma ideia antropológica do moderno na Amazônia, que engloba as hibridizações da vida em contraposição à estagnação de conceitos e categorias.

Considerando o exposto, e trazendo a problemática para uma exemplificação de campo, destaco que recentemente tive a oportunidade de acompanhar apenas em parte a semana de preparativos para a certificação dos Wai-Wai, do Baixo Amazonas, formados em curso específico da doutrina Cristã-Protestante, de viés Batista, ocorrido em Parintins, no mês de janeiro deste ano.

Para mim, dentro dessa conjuntura, tentando assimilar em que medida esses ameríndios estiveram a interpretar escrituras bíblicas ocidentalistas, ficou manifesta ao menos uma questão ao fim das atividades: como a hibridização religiosa impacta hoje e impactará no futuro a sociocultura da etnia?

Uma pergunta curta que possui extensivas implicações e não raro gera discussões aprofundadas inclusive fora dos âmbitos antropológicos – a saber em vieses disciplinares ainda inseridos em função de uma questão psicológica e ética – dado que se tratam de escolhas e liberdades individuais e coletivas, dos próprios Wai-Wai, porém mescladas a tradições, reinvenções sociais e angulações morais e cosmológicas.

Os indígenas destacaram diferentes e importantes falas na cerimônia de certificação, ocorrida em uma das sedes da Igreja Batista no município de Parintins, em relação ao aprendizado que conseguiram nessa troca ou intercâmbio de posições espirituais. Troca que, diga-se por fortuidade, vem sendo operada pela Igreja desde fins da década de 1980 e início da década de 1990.

Por conseguinte, ao acompanhar essa cerimônia, a perspectiva foi tentar observar com clareza qual o real trabalho que a doutrina opera junto aos étnicos. E segundo eles – em informação que ficou marcada –, o mais importante foi o contato com as lideranças protestantes da Ilha Tupinambarana e o que se pode guardar disso, principalmente para projetar possíveis mudanças de comportamento em aldeias no tocante a novos costumes adquiridos e reconformados.

Sobre tais tradicionalismos implicados, cabe informar que mesmo em razão da hibridização religiosa, sempre em fins de ano os Wai-Wai mantêm a realização de boa parte de seus tradicionalismos, como os ritos de competição (arco e flecha) e a diversão coletiva entre parentelas, mas em outros casos, em outras épocas, como o preparativo para o enamoramento e a junção de entrecruzamento familiar, eu não tenho certeza acerca das mudanças a longo prazo e do quanto poderá haver ou já houve de possíveis influências da religião, nascida na Reforma, na Europa, junto à etnia. Além disso, é difícil apontar quais as áreas que poderão vir a ser mais afetadas ou já estão sendo.

Mas, por outro lado, fazendo o caminho inverso, cabe uma pergunta: será que posicionamentos religiosos tais como os operados pela Igreja Batista não serviriam como tática de subsistência das etnias em meio a turbilhões de contravenções dos brancos juntos às suas terras? Ora, megaempreiteiras que operam Grandes Projetos de Investimento (GPIs) na Amazônia não poderiam tender a vislumbrar com outras proposituras esses povos em razão das escolhas espirituais do presente?

Realmente, a problemática é complexa. Estudos de média e longa duração devem ser mais bem elaborados para indicar o aprofundamento da hibridização dos Wai-Wai do Baixo Amazonas, da calha do rio Mapuera, a norte do município de Nhamundá, dentro do Estado do Amazonas e do Pará. Por enquanto, importa reverberar a problemática, que pode ter pontos negativos, controversos, positivos, relevadores… enfim, pode ser crivada de diferentes lugares de avaliação.

E o pretendemos fazer em uma série de três artigos, sendo este o inicial. Os dois seguintes tenderão a tratar sobre a sociocultura e os modos de vida dos Wai-Wai, em associação aos dias atuais, em que mudanças espirituais são fortemente notadas, e carregam consigo traços positivos e negativos, aliás, como grande parte das mudanças nessa pós-modernidade confusa em que vivemos.

 

A foto é de autoria de Renan Albuquerque e mostra o momento de formatura dos indígenas Wai-Wai na doutrina Batista

 

 

Renan Albuquerque é professor e pesquisador do colegiado de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e desenvolve estudos relacionados a conflitos e impactos socioambientais entre índios Waimiri-Atroari, Sateré-Mawé, Hixkaryana, junto a atingidos pela barragem de Balbina e com assentados da reforma agrária.

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