Economia e Negócios

Profissão jornalista: a greve nas empresas da família Barbalho que mudou o jornalismo no Pará

13/05/2016 17:51

O setembro de 2013 marcou a história do jornalismo no Pará. Um grupo de profissionais fez a maior greve de que se tem notícia contra os baixos salários e a jornada de trabalho excessiva. Aquele movimento conseguiu paralisar as redações do jornal Diário do Pará e Diário Online, empresas pertencentes ao grupo Rede Brasil Amazônia (RBA) de Comunicação, de propriedade do senador Jader Barbalho (PMDB-PA). O grupo também é dono da RBA TV (afiliada da Bandeirantes) e da TV Record local.

Barbalho é um dos políticos mais influentes do Norte do país, mas também alvo de investigações em vários escândalos de desvios de recursos públicos como o da Sudam. Recentemente foi citado nas investigações da Operação Lava Jato, que apura o esquema de pagamentos de propina a políticos com recursos da Petrobras.

A greve dos jornalistas da RBA durou de 20 a 28 de setembro de 2013. Eles ganharam o Acordo Coletivo de Trabalho na Justiça, que assegurou um aumento do piso salarial de R$ 1 mil para R$ 1.300,00. Na Convenção Coletiva, em 2014, o piso dos jornalistas do Diário do Pará passou para R$ 1.500,00.

A presidente do Sindicato dos Jornalistas do Pará (Sindjor-PA), Roberta Vilanova, diz que esses profissionais não tiveram medo de lutar por melhores salários e condições de trabalho, mas, segundo ela, houve retaliações por parte da RBA de Jader Barbalho: 16 jornalistas foram demitidos, a partir de novembro 2014. As demissões aconteceram 45 dias após terminar o prazo do acordo de estabilidade, que não permitia cortes para profissionais que participaram da greve.

Os protestos dos jornalistas nas ruas de Belém (Foto: Sindjor-PA)

Os protestos dos jornalistas nas ruas de Belém (Foto: Sindjor-PA)

“O trabalhador tem direito de fazer greve e a empresa também tem o direito de demitir quem ela quiser e quando quiser. Entretanto, no caso do Diário do Pará, ficou claro para o sindicato que todas as demissões ocorreram como retaliação pela participação na greve de 2013 porque há indícios”, afirma a sindicalista, destacando:

“Ninguém é demitido na porta da empresa na hora em que chega para trabalhar como ocorreu no Diário do Pará. Por isso, há algumas ações tramitando na Justiça do Trabalho pedindo reintegração dos demitidos e indenização por danos morais”, completa Roberta Vilanova.

Também em 2015, o sindicato registrou demissões em massa, os passaralhos, nas redações do jornal O Liberal e na Rede Liberal (afiliada da Rede Globo), empresas administradas pelas Organizações Rômulo Maiorana (ORM), pertencente à outra família influente da região, os Maiorana.

“No caso das ORM, o sindicato denunciou como demissão em massa ao Ministério Público do Trabalho (MPT), mas a instituição não considerou como tal. Mas temos muitas ações judiciais contra as ORM, inclusive por danos morais”, disse Roberta Vilanova. “Foram 45 demissões de jornalistas, as ORM esvaziaram as redações do jornal O Liberal, da TV Liberal e do portal ORM”, afirma.

Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Pará, Roberta Vilanova (Foto: Sindjor-PA)

Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Pará, Roberta Vilanova (Foto: Sindjor-PA)

Com relação aos salários, em 2015 o Sindjor fez um acordo salarial com as ORM, que na reposição aumentou o salário de R$ 1.900,00 para R$ 2.178, mas as empresas atrasam o pagamento de férias, o repasse das mensalidades sindicais e as rescisões contratuais. No G1 Pará (site de notícia pertencente à Rede Liberal), por exemplo, os funcionários estão sem o repasse do FGTS. “O que é um absurdo, uma vez que, além de demitir o jornalista sem justa causa, ainda atrasa esse pagamento e a liberação do FGTS, causando um sério dano social”, diz a presidente do Sindjor-PA, Roberta Vilanova.

Conforme levantamento da Amazônia Real junto ao Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho [com o novo governo do presidente interino de Michel Temer a Previdência Social foi para a pasta da Fazenda], entre os anos de 2013 e 2015 foram demitidos das redações do Pará 457 jornalistas. Nesse período, o número de admitidos ficou em 486 profissionais, o que significa que houve rotatividade e o saldo positivo de para 29 vagas em aberto. Veja abaixo:

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O Caged não informa os nomes das empresas que demitiram os jornalistas, apesar de elaborar a estatística com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), que é um instrumento de coleta de dados da atividade trabalhista a partir do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ) e da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Então, só é possível checar as demissões em massa por empresa pela estatística do sindicato, que homologa as rescisões contratuais para funcionários com mais de um ano de carteira assinada. O Sindjor-PA disponibilizou para a Amazônia Real apenas os dados do ano de 2015, em que registrou um total de 79 desligamentos. No quadro apareceram os 16 cortes na RBA, e 45 nas empresas das Organizações Romulo Maiorana. Veja abaixo:

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Desde abril de 2015, quando foi demitido o primeiro grupo de jornalistas das ORM, a diretoria do sindicato diz que tenta conversar com a empresa. “O problema é que a postura intransigente impede o debate direto com a família Maiorana. Todas as reuniões foram feitas, no máximo, com representantes do Departamento de Recursos Humanos ou assessoria jurídica. O diálogo continua muito difícil, o grupo não dialoga com os seus trabalhadores, que poderiam até ajudar a decidir o melhor caminho para o grupo sair da crise que alega estar enfrentando”, afirma Roberta Vilanova.

 

O que dizem as empresas?

Procurada pela reportagem, a gerente de Recursos Humanos da Rede Brasil Amazônia (RBA) Cléia Mende disse que o Sindicato dos Jornalistas do Pará tinha que provar que as 16 demissões no jornal Diário do Pará e no Diário Online foram uma retaliação. “Não é verdade, tem que provar, minha filha. Essa questão das demissões nos jornais está acontecendo em todo o Brasil. Estamos vivendo uma crise econômica no país, sem saber o que vai acontecer. Temos que acreditar em Deus”, diz.

A chefe de Recursos Humanos das Organizações Romulo Maiorana, Vera Vizeu de Amorim afirma que desconhece demissões em massa de jornalistas nas empresas: jornal O Liberal, site G1 Pará, e na emissora TV Liberal. “Não existe fundamentação, não houve demissão de 45 jornalistas. Durante um período de quatro a cinco anos fizemos uma reestruturação em todos os setores da empresa, onde reduzimos funções das áreas comercial, administrativo e até motoristas”, afirma.

Sobre atrasos nos pagamentos dos salários dos jornalistas, inclusive, do benefício do FGTS, como denuncia o Sindjor-PA, Vera Amorim disse também que desconhecia o fato. “Até onde eu sei está tudo normal [os pagamentos dos salários]. Estamos caminhando sem planejar demissões”, diz.

 

Quebrando o silêncio

A redação vazia durante a greve no Diário do Pará (Foto: Sindjor-PA)

A redação vazia durante a greve no Diário do Pará (Foto: Sindjor-PA)

Apoiar o movimento grevista de 2013 mudou a realidade de muitos jornalistas paraenses. Mas poucos, até hoje, se arriscam a falar sobre o que aconteceu naquela semana de 20 a 26 de setembro. F.R. – que prefere não se identificar – tem 37 anos, sendo 11 deles de atuação como jornalista profissional. Formada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), ela pediu demissão devido às condições às quais era submetida depois de ter apoiado o movimento de greve no jornal Diário do Pará. Atualmente, vive de trabalhos freelances, dedica-se a estudar para concurso público e conta com a ajuda financeira da mãe.

A jornalista tinha oito anos de RBA e alguns benefícios, como, por exemplo, enviar matérias redigidas em casa e não precisar bater ponto. Assim como ela, outros profissionais de longa data no grupo tinham o mesmo privilégio.

”Eles começaram a cobrar que eu cumprisse a carga horária. Isso seria certo, se fosse cobrado de todos, mas quem não apoiou a greve não teve essa cobrança”, lembra F.R.

Além da exigência de horário, ela também diz que foi trocada de editoria, e que por conta de acumular outro emprego – como a maioria dos jornalistas no Pará – nem sempre conseguia garantir a pontualidade. Assim, ela passou a chegar à redação no fim da tarde e permanecia trabalhando até às 22h.

“Nessa época, minha filha, que havia feito um ano e ainda era amamentada, ficou doente. Mesmo eu avisando que estava passando por essa situação, quando voltei ao trabalho levei o atestado ao Recurso Humano e descobri que haviam mandado me dar falta. O pessoal aceitou o atestado, mas decidi que minha filha era mais importante. Deixei passar uns dias e pedi demissão”, conta.

Ao tomar a atitude, a jornalista não teve muito a receber, e o que conseguiu foi pago com o apoio do Sindicato dos Jornalistas. Atualmente, ela não pensa em voltar para a redação, mesmo declarando que “ama ser repórter”.

”Os baixos salários e as más condições de trabalho afastaram-me da reportagem. Tentei assessoria, mas em empresas privadas é necessário passar o dia inteiro, contrariando a legislação que diz que a jornada do jornalista é de cinco horas por dia. Há empresas que cobram 44 horas semanais, ou seja, muitos jornalistas trabalham nove horas por dia durante cinco dias da semana, para não trabalhar nos fins de semana. Mas isso é ilusório porque, às vezes, você tem que produzir notas nos fins de semana também”, diz F.

Assim, o setor público se tornou a opção mais viável dentro do que ela busca hoje. ”Já nem importa se vai ser na minha área, só quero um salário que pague minhas contas e ter tempo para as pessoas que amo”, comenta.

Sobre as demissões, ela vê tudo apenas como um recado para se manter longe do mercado que, em suas palavras, “descarta” bons profissionais. ”O nosso jornalismo é profundamente marcado pela política partidária. A cada eleição os interesses mudam e os cenários são reconfigurados. Resultado: há bons profissionais que se firmaram apenas com o seu trabalho e há muitos medíocres que se firmaram e até ganharam notoriedade atendendo aos interesses comerciais da empresa e aos pessoais da diretoria. Quando se fala mais precisamente da imprensa, sabemos que há um jogo e há regras; alguns profissionais pagam o preço, outros não. Eu saí da mesa, quem sabe um dia eu volte se mudarem as regras, os cenários e/ou os jogadores”, avalia a profissional.

Os jornalistas durante a greve de 2013, em Belém. (Foto: Sindjor-PA)

Os jornalistas durante a greve de 2013, em Belém. (Foto: Sindjor-PA)

 

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Comentários

  1. Ruben Martínez disse:

    Es un buen reportaje es una situación global que esta viviendo la mayoría de los periodistas , por ejemplo en Colombia hace aproximadamente 15 días se presento un caso parecido : ” Renunció todo el equipo de periodistas del Diario del Huila” LINK http://www.elespectador.com/noticias/nacional/renuncio-todo-el-equipo-de-periodistas-del-diario-del-h-articulo-629986

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