A Amazônia segundo Lúcio Flávio Pinto

Quanto o Frankenstein custará?

Obra de Belo Monte (Foto: Fábio Nascimento/Greenpeace)
16/11/2016 16:00

 

Sete das 24 turbinas da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará, entraram em operação apenas nove meses depois que a primeira começou a funcionar. Foi menos de seis anos depois que as obras da usina foram iniciadas. É uma façanha da engenharia. Mas é também um feito político.

Belo Monte foi projetada para ser a quarta maior do mundo, substituindo nessa posição outra hidrelétrica brasileira, a de Tucuruí, no rio Tocantins, também no Pará. Sua viabilidade foi definida no final da ditadura, pelo último governo do regime militar, comandado pelo general João Figueiredo. Tinha o mesmo perfil autoritário da usina de Tucuruí, que começou a ser construída em 1975, no auge dos “anos de chumbo”.

Quando o consórcio Norte Energia venceu a licitação de Belo Monte, em 2010 (pagando propina a políticos para ficar com a concessão, como hoje se sabe através da Operação Lava-Jato), o Brasil completava um quarto de século de democracia. Nada mais natural que a obra concebida pela ditadura, a partir do mando verticalizado do poder central e da falta de liberdades públicas, enfrentasse resistências.

O Ministério Público Federal propôs 25 ações na justiça para paralisar a frente de obra, a maior no âmbito do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), símbolo do desenvolvimentismo petista, ao custo de 33 bilhões de reais. Houve paralisações promovidas por indígenas, nativos e grupos de pressão de bandeira ambientalista. Ainda assim, o tempo que transcorreu entre a licitação e a entrada em operação da primeira turbina (menos de seis anos) foi menor do que a de Tucuruí (quase 10 anos) que começou a se consolidou sob a ditadura.

Em parte porque o PT (por convicção ou em função da corrupção no sistema elétrico nacional, tão grave – ou mais – quanto na Petrobrás) encontrou um mecanismo mais eficiente de financiamento da obra. Na ditadura, era investimento direto da Eletronorte, a subsidiária da Eletrobrás para o norte do país. Com Lula e Dilma, a transação foi garantida pelo BNDES, utilizando recursos do tesouro nacional para fornir o caixa e cobrir a diferença entre os juros mais caros com os quais o banco estatal remunera o aplicador e a taxa inferior concedida ao financiado. Um grande buraco que o contribuinte, naturalmente, deverá ser convocado (já está sendo) a tapar.

Para enfrentar ou contornar os aguerridos adversários da usina, os engenheiros de Belo Monte tiveram que mudar a concepção original do projeto, que executariam se o Brasil não tivesse “caído”, mais uma vez, na (a)ventura democrática. A opinião pública não ia aceitar que o barramento do Xingu, um dos maiores e mais belos rios do mundo, provocasse alagamento como nas represas da ditadura, com Tucuruí (três mil quilômetros quadrados, o segundo maior lago artificial do Brasil) e Balbina (2,6 mil km2).

Para conter esse clamor, os “barragistas” cancelaram os represamentos rio acima, que iriam armazenar água para atender o voraz consumo das 18 imensas turbinas da casa de força principal e as seis, muito menores, da casa de força secundária. Sobreviveu apenas um reservatório, ainda assim reduzido a menos da metade da concepção inicial, seis vezes inferior ao de Tucuruí.

Os índios do Xingu fizeram protesto contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte,  no Rio Xingu (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Índio do  Xingu faz protesto contra a construção da Hidrelétrica de Belo Monte em Brasília. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

A conclusão óbvia era de que, sem água suficiente, a usina ficaria sem funcionar – ou com baixíssima geração – por três, quatro ou até mais meses do ano. Logo, não atingiria uma produção constante suficiente para ser rentável comercialmente. Iria ter prejuízo certo, decorrente de uma equação sem fecho certo: hidrelétrica de alta potência funcionando a fio d’água, com vazão corrente do rio, sem estocagem no inverno para uso no verão.

A nova engenharia fez com que a casa de força principal, na qual estarão as 18 turbinas convencionais, cada uma delas gerando energia suficiente para suprir Belém, a capital do Pará, com seus 1,5 milhão de habitantes, ficou distante 100 quilômetros do vertedouro principal. Em Tucuruí, as duas unidades foram acopladas à mesma estrutura de concreto, como em todas as hidrelétricas.

Como o reservatório jamais acumulará água suficiente para o funcionamento das turbinas, um canal com maior profundidade e largura do que o canal do Panamá, usando mais concreto, foi construído para desviar água da calha do rio para outras acumulações de água, que descerão por gravidade por um declive de 90 quilômetros para ter a velocidade e o volume necessários para acionar as pesadas estruturas de aço das máquinas. Esse canal tem profundidade equivalente a um prédio de sete andares e largura de 200 metros, exclusivamente para escoar água para a usina.

Os engenheiros encontraram uma solução muito engenhosa – e inédita – para colocar Belo Monte em funcionamento, em tempo recorde, a despeito de tanta reação contra a usina. Mas qual o custo dessa obra sem igual na história, como um Frankenstein que abriga no seu corpo a ditadura e a democracia?

Em debates sobre o efeito da obra sobre os índios, os nativos em geral e a natureza, esse “detalhe” foi deixado de lado. Agora que a hidrelétrica já está gerando energia para o Brasil (em 2019, quando a motorização se completará, estará atendendo 60 milhões de consumidores), a conta está sendo apresentada.

 

A fotografia que ilustra esse artigo é de autoria de Fábio Nascimento/Greenpeace. 

 

 

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Leia mais aqui.

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