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Quem vai preservar nossos arquivos?

Loja de eletrônicos na Zona Franca de Manaus.
24/12/2015 00:00

O ano de 2015, apesar da crise econômica, teve momentos preciosos para a fotografia em três capitais da região amazônica. Focarei em dois deles:  “Seminários 3×3 – Fotografia Contemporânea Amazônia”, criado por Sávio Stoco (mestre pela Unicamp/doutorando ECA-USP) e contemplado com o edital Pró Arte da Secretaria de Cultura do Amazonas; e o “1º. Fest Foto Amazônia”, uma iniciativa do empresário Antônio Bentes, da professora Conceição de Sant’Ana Barros Escobar (mestre da UFRR) e dos fotógrafos J. Pavani e Marcelo Camacho, encontro patrocinado e apoiado por órgãos públicos e pela iniciativa privada.

Vou me abster de falar sobre Belém, pois o movimento fotográfico no Pará, muito mais consolidado, é um caso à parte e vive anos luz à frente do resto da região.

Os “Seminários 3×3 – Fotografia Contemporânea Amazônica”, de Sávio Stoco, aconteceram entre os meses de agosto e setembro. Em Boa Vista (RR) participaram do evento Luciana Magno (mestre pela UFPA), Alexandre Sequeira (mestre pela UFMG e professor da UFPA), Rodrigo Braga (artista amazonense e residente no Rio de Janeiro) e o professor Anderson Paiva, do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Roraima. Na edição do mesmo evento ocorrido em Belém (PA), estiveram presentes Alex Pazuello (artista/AM), Anderson Paiva (doutorando pela Universidade de Coimbra), Cristóvão Coutinho (curador/AM) e Raphael Alves (mestre pela London College of Communication). Em Manaus, onde acompanhei a programação, participaram Mariano Klautau (doutor pela USP) e Orlando Maneschy (pós-doutor pela Universidade de Lisboa), ambos artistas e curadores com obras consagradas.

No ano em que se completou 150 anos da viagem do alemão Albert Frisch (pioneiro na fotografia dos indígenas em seu habitat) ao Amazonas, 2015, o 1º. Fest Foto Amazônia reuniu em Boa Vista os fotógrafos Egberto Nogueira, Alexandre Sequeira, Paulo Whitaker, João Roberto Ripper, Álvaro Severo, Mike Bueno, com os professores Maurício Zouein (também pesquisador da UFRR), Linoberg de Almeida (UFRR), Moacir Barros (UFMT) e a lenda viva do fotojornalismo brasileiro, Sussumo Shirata, que após o evento, aos 79 anos, comemorou seu aniversário escalando mais uma vez o Monte Roraima.

O evento contou com exposições muito bem montadas como a “Abstrato Amazônico”, de Wank Carmo, no Centro Cultural Orla do Taumanan, e “Jardins de Macunaima II”, de Jorge Macedo, na Galeria do Sesc Mecejana, e de tantas outras reunindo os mais experientes (Adilson Brilhante)  com a ousadia da juventude (Inaê Brandão). Assim, temos a nítida impressão que a cena da fotografia de Roraima vai crescer cada vez mais, um belo exemplo unindo os artistas com a academia, para fortalecer e se consolidar por seus próprios méritos.

Ações coletivas como a criação destes festivais formam o público pensante em torno de questões essenciais para a divulgação e maior compreensão da produção atual da fotografia na Amazônia. Como a questão da preservação e conservação dos acervos e arquivos dos fotógrafos contemporâneos.

Um dos temas que mais me marcou nas conversas dos dois eventos foi a questão da preservação e conservação dos acervos e arquivos dos fotógrafos contemporâneos.

Orlando Maneschy, um cavaleiro solitário nessa jornada, criou a coleção “Amazonianas”, que abrange grande parte dos artistas do Pará. Tudo, segundo ele, armazenado em HDs. Lá o  creme de la creme da fotografia feita no Pará está preservado. A coleção, que foi acolhida pelo Museu da UFPA (MUFPA), é uma iniciativa que difunde reflexões e diálogos sobre a Amazônia.

Em entrevista ao jornalista Pedro Fernandes, do Jornal Beira do Rio (da Universidade Federal do Pará), publicada em março de 2013, Maneschy refere-se à coleção: “Constitui-se em uma coleção de obras de artistas brasileiros, principalmente, da Amazônia, os quais se envolvem com as particularidades da região e materializam as experiências nas mais variadas expressões das artes visuais”.

Maneschy conclui: “por meio de ações que vêm ocorrendo ao longo do projeto, a proposta é fomentar e difundir o conhecimento artístico a partir da coleção de arte contemporânea”.

Em Manaus, a única coleção de um fotógrafo contemporâneo vivo que está preservada por uma instituição é de Leonide Principe. O acervo está no Centro Cultural dos Povos da Amazônia da Secretaria Estadual de Cultura. Os arquivos importantes de jornais de Manaus simplesmente sumiram ou foram jogados no lixo. Foi o caso do arquivo fotográfico do jornal Amazonas Em Tempo, quando adquirido pelo empresário Otávio Raman Neves. O restante do acervo do jornal está com os próprios profissionais ou em bancos de imagens na grande rede. Mas, em instituições ligadas à cultura, sejam privadas ou públicas, pelo menos desconheço. O certo é que não tem nada sistematizado para a preservação da memória imagética dos artistas contemporâneos no Estado do Amazonas.

No Brasil, há muitas instituições que se dedicam a preservação e conservação dos acervos fotográficos. Mas, dos contemporâneos restringem-se aos trabalhos dos mestres consagrados como no Instituto Moreira Salles, onde está parte do acervo da fotógrafa Claudia Andujar, que dedicou tantos anos aos Yanomami.

Mas, quem se preocupa com a preservação do acervo de Jorge Macedo? Fotógrafo cearense radicado a mais de 30 anos em Roraima e dono de um acervo fantástico, desde a criação do estado, nos anos 80 até o presente momento. Na terra dos indígenas Macuxi tive um papo com o próprio Macedo, quando participei do 1º. Fest Foto Amazônia, em novembro passado. E lá realmente não tem nenhuma indicação a curto ou médio prazo que alguma instituição venha a cumprir esta função.

O que vem ocorrendo é que a grande parte da preservação dos acervos iconográficos e fotográficos contemporâneos realizados na Amazônia acaba ficando com museus, arquivos, ou institutos dos grandes centros ou mesmo fora do país.

O Arquivo Público de São Paulo este ano lançou o projeto do acevo do jornal Última Hora. Com a criação de um fundo que disponibilizou a preservação do acervo. O Fundo Última Hora, onde parte do acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo, é composto por 166 mil fotografias, 600 mil negativos, 2.223 ilustrações e uma coleção de edições da Ultima Hora do Rio de Janeiro entre os anos de 1951 e 1970, em papel ou microfilme. A documentação foi acumulada ao longo da trajetória da edição carioca do jornal. O valor desse fundo é inestimável, pois as peculiaridades e riquezas da UH permitem que seja fonte para diversos tipos de estudo, tanto técnicos sobre design, jornalismo, ciências políticas e história.

Na rede criaram um site temático para abarcar a diversidade tipológica do Fundo Última Hora, trazendo a público a coleção da edição carioca digitalizada, as ilustrações originais que compõem o Fundo e parte das reproduções fotográficas – neste momento, representadas pela coleção de negativos.  Pesquisando sobre as fotos da Amazônia que compõem este acervo, deparei com imagens da exploração de petróleo no município de Nova Olinda do Norte, no Amazonas nos anos de 1950. Imagens do então governador do Amazonas Plínio Coelho com o então deputado federal de São Paulo, Ademar de Barros.

Em tempos de “petrolão”, uma escavação neste e em outros arquivos que estão disponibilizados na internet é sempre interessante. Mas, é muito melhor começarmos a nos preocupar com o futuro dos nossos acervos. Cobrar mesmo do poder público, ou por meio de editais, viabilizar projetos neste sentido. A memória de um povo também se constrói pela fotografia.

Para refletirmos sobre tudo isso deixo aqui uma pequena entrevista que fiz com o fotógrafo Wank Carmo. Profissional há 37 anos, nas áreas de publicidade, cinema e editorial, radicado em Roraima, Carmo tem um trabalho consistente e é representado pela Imã Foto Galeria de São Paulo.

 

Olha Já! – Qual sua motivação para fotografar?

Wank Carmo –  Sou louco pela natureza intacta. Vislumbrei a possibilidade de fracionar o universo que sobrevoava, em cima de uma reflexão sobre a obra de Susan Sontag, “Ensaio Sobre a Fotografia”. No início do primeiro capítulo, ela me sai com uma [frase] fantástica: “A humanidade permanece irremediavelmente presa dentro da caverna de Platão, regalando-se ainda, como é seu velho hábito, com meras imagens da realidade”. O que ocorreu, foi o surgimento da oportunidade de mostrar nosso mundo aquático, ainda sem a lama da ganância programada. Abstrato Amazônico é uma exposição que revela nossas águas puras, diferente do podre Tietê, assassinado pela razão cínica.

 

Olha Já! – O abstracionismo está muito presente nesta série. Já teve referências em outros trabalhos seus?

Wank Carmo – Não! Sou filho do fotojornalismo, do documentarismo. Só tem um detalhe: eu sempre vasculhei e vasculho tudo; penso tudo; durmo quatro da manhã, todo dia e não chego atrasado ao duelo. É assim que funciona. Abstrato Amazônico foi gestada, numa fração de segundos, quando já estava voando…Mudei os planos, a minha pauta, dentro do avião, sem porta.

 

Olha Já! – Como analisa a cena da fotografia em Boa Vista?

Wank Carmo  – Não comento mercado enfrentado pelos outros e nem a “cena da fotografia em Boa Vista”. Não conheço a realidade alheia. Eu tenho certeza de que tem gente se esforçando muito para continuar pedalando muito bem nessa área; e outros mais novos, lutando para emergir, pois a fotografia é uma ciência com inúmeros afluentes, fantásticos.

 

Olha Já! – Após o Fest Foto, acredita que melhores dias virão?

Wank Carmo – Em que aspecto? Se o festival despertou olhares, interesses pela fotografia? Isso eu acredito. A mensagem que os participantes dividiram com o público, foi muito revigorante. Quem perdeu por algum motivo justificável ou esnobou o evento por este ou aquele motivo, perdeu uma grande oportunidade de viver! Estudar fotografia, não se resume ao manual da máquina, mas escutar também os mais experientes e contemplar o trabalho dos fotógrafos mais experientes. Isso não diminui ninguém, mas, pelo contrário, é vitamina para quem já começa a dar braçadas para alcançar a praia. Sob o aspecto econômico, que envolva interesse de alguém comprar algo de algum expositor, não posso afirmar nada pelos outros. Posso falar por mim. Da minha parte, posso garantir, que dificilmente alguém irá ter recursos agora, para comprar uma de minhas obras (muito elogiadas pelos visitantes e palestrantes de fora e daqui e, pelo fotógrafo e meu amigo Bob Wolfenson, editor da Revista S/N, que publicou Abstrato Amazônico, hoje exposto no Espaço Multicultural na Orla Taumanan), porque o país está atolado numa crise econômica gravíssima. A Microsoft demitiu 1.200 funcionários no parque industrial de Manaus; o estado de Roraima não tem a robustez econômica do Amazonas, logo, o caos bate à porta com mais impacto, de quem vive de arte, num período de desastre econômico. Creio que produzir obras de arte e vender sim, bananas ao mesmo tempo, para depois viajar e vender fine art em outro país bem mais saudável economicamente, seria uma opção a ser analisada com muita seriedade. Você não acha?

 

Olha Já! – Quem você poderia destacar da nova geração?

Wank Carmo  – Procuro não relacionar ninguém, para não causar ciumeiras e fofocas, mas posso afirmar que, tem gente nova pegando excelente musculatura intelectual nesta área, são corajosos, e, futuros bons fotógrafos já nasceram, e, poderão continuar vivos fotografando muito bem, se estudarem fotografia, madrugada adentro, como eu faço. Não acho justo, fazer relações. Sua pergunta me lembrou Jorge Ben: “….os alquimistas estão chegando…” Eles já chegaram… Eu preciso revelar como bom exemplo, um conselho do meu mestre Ansel Adams (autor de três livros fantásticos: The Camera, The Negative e The Print):  “Uma fotografia não se faz somente com uma câmera, mas com os livros que lemos, os filmes que vimos, as músicas que escutamos, as viagens que fizemos e as pessoas que amamos.”

 

Olha Já! Quais os maiores desafios para quem trabalha como você, quase que exclusivamente com o mercado de fine art e que, pelo menos geograficamente, está distante dos galeristas e curadores do grande eixo?

Wank Carmo  – Isso é negócio! E negócio, é uma área muito complexa e que está em estudo. Vender banana poderá entrar na pauta. Qual o problema que não se possa revolver com alguns telefonemas? Quem vive sem banana, açaí, pupunha? Eu, amazônida, não vivo! Não estou tirando sarro. Sou realista e não tenho pressa… Tira-se da banana e investe-se no fine art e depois viaja-se para abrir espaço num mercado extremamente complexo. Ninguém vai me convidar, se não conhecerem meu trabalho. Viajar é preciso. O que não pode existir é derrotismo, fraqueza, se preocupar com a vida alheia. O foco é a fotografia.

 

Olha Já! – Tem projetos para o futuro?

Wank Carmo – Vários! Vender banana poderá entrar na lista de opção. Vender tudo e fazer dinheiro é um outro método antigo e operacional fantástico. Entendeu? É assim que os norte-americanos agem. Eles ralam. Os verdadeiros empreendedores, não se apegam ao rami-rami, à vidinha medíocre, ao comodismo, ao barraco. O barraco que se dane! Vai render? Ótimo! Dane-se! O cara já vendeu e já está tirando lucro. Já montou a fabriqueta, já produz, já edificou o estúdio, a exposição, já está editando o filme etc. Fotografia é empreendedorismo. Eu vejo fine art verso mercado, dessa forma. E dormir pouco e amar bastante também, faz muito bem para a mente… É assim que eu vejo e vivo a vida.

 

Galeria do Arquivo Público de São Paulo

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Devastacao; Rio Amazonas. Foto: Joao Musa/Jornal O Movimento

 

Alberto César Araújo é editor e repórter fotográfico desde 1991. Seu trabalho enfoca a vida nos rios e as questões dos impactos ambientais, entre elas, o desmatamento na Amazônia. Trabalhou em jornais de Manaus, entre eles, A Crítica, Jornal do Norte, Correio Amazonense, Diário do Amazonas e Em Tempo. Tem trabalhos publicados na mídia nacional e internacional, incluindo O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, National Geographic Brasil, New York Times, Newsweek, The Independent. Na Amazônia, documentou projetos socioambientais de várias organizações como o WWF e Greenpeace Brasil. Entre os prêmios que ganhou estão o Esso de Fotografia (2001) E O  Carolina Hidalgo Vivar no POY LATAM (2013). Em 1999, o poeta Thiago de Mello em entrevista ao jornal A Crítica descreveu Alberto César como o “artista da luz”.

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Comentários

  1. Marcelo Camacho disse:

    Ótima matéria com uma abordagem que traduz bem a nossa leitura da cena da fotografia em 2015! Parabéns!

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