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“Semióticas-poéticas”, fábulas, pinholes e a fotografia contemporânea na Amazônia

Loja de eletrônicos na Zona Franca de Manaus.
07/06/2016 19:27

Na última coluna que escrevi, o grande Izan Petterle comentou em uma rede social sobre a entrevista que fiz com o Wank Carmo: “Ótima entrevista, um degrau acima das tentativas ‘semióticas-poéticas’ para justificar o injustificável”. Isso me despertou a vontade de escrever sobre a atual produção da tal fotografia contemporânea feita na Amazônia. Vou fazer um recorte a partir de um fato ocorrido em 2013, durante a premiação do Picture of Year Latam, o POY Latam.

Na ocasião, os jurados reunidos em Fortaleza, entre eles os consagrados Pascal Maitre, Luis Weinstein, Santiago Harker, Alexandre Belém, as míticas Cristina García Rodero, Nair Benedicto, Mary Ellen Mark, estavam votando na categoria “Paisagem Humana”, e os coordenadores Tiago Santana, Loup Langton presentes, quando Pablo Corral Veja (organizador do POY) avisou a todos que um ensaio do coletivo peruano SupayFotos continha imagens de um ensaio multimídia premiado, anteriormente, na edição de 2011, e por isso deveria ser desclassificado, como o foi. Para minha sorte, acabei vencendo nesta categoria, já que este conjunto de imagens estava liderando a votação. O ensaio em questão é “Borde”, que foi feito na selva amazônica peruana, nas proximidades de Iquitos. De uma liberdade estética incrível, na qual a paleta de cores, os enquadramentos, ou “desenquadramentos”, o imponderável, o ruído, seguem um fio condutor na linha narrativa na qual o coletivo se propôs, onde, a meu ver, sua “poética semiótica” é justificável.

Fotografia  da série Borde do Supay Fotos

Fotografia da série Borde do Supay Fotos

Um par de ano antes escapei de conhecer alguns membros do coletivo que participaram de uma oficina de fotojornalismo multimídia com Stephen Ferry, promovido pela Fundação Novo Periodismo, FNPI em Letícia, Colômbia. Acho que foi a partir desta oficina que o multimídia do Supay conseguiu um fôlego e amadureceu. Ensaio premiado em vários editais e festivais mundo a fora. Disso escapei de conhecer, porque na última hora desisti da viagem, pois o jornal em que eu trabalhava, naquela semana, demitiu uns cinco fotógrafos. Na ocasião, achei muito inadequado ausentar-me.

Ensaios podem dialogar.  E “Borde” conversa muito com “Wonderland”, de Alvaro Laiz, espanhol que retrata o cotidiano de indígenas do povo Warao no Delta do Orinoco, no leste da Venezuela. Apesar de Laiz falar que estava fora da região amazônica, acho que houve um equívoco geográfico por parte dele; é impossível negar as semelhanças culturais, étnicas e também das paisagens e a conexão do Orinoco com o rio Negro. Quanto a estes quesitos, poderia muito bem ser no Amapá ou no Pará, onde grandes rios também encontram o mar.

A semelhança entre os ensaios não se dá pelo tema, ou pela paleta de cores apenas, mas por um corpo narrativo e estético que utiliza certas estratégias da fotografia contemporânea para ser construído. Com a foto encenada, a desconstrução da paisagem clássica, a repetição de temas, a busca por novos enquadramentos que rompem com a regra dos terços e a releitura do retrato clássico.

Os dois ensaios acima mencionados também dialogam com os outros dois: o do Supay com  “Contos Amazônicos”, do paulistano Rafael Milani, inspirado nos romances de Inglês de Souza também premiado com um Poy Latam, mas na edição do ano passado e o de Alvaro Laiz com Dislocaciones Interiores, de Liliana Merizalde, fotógrafa colombiana que recentemente fez o still do filme latino mais premiado dos últimos anos, “O Abraço da Serpente”, de Ciro Guerra.

 

Dislocaciones Interiores

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Fotos de Liliana Merizalde feitas em 2015 na região do rio Walpés na Colômbia.

Em Dislocaciones Interiores, é importante ter em conta que não são fotos documentárias, ou seja, elas começam a partir da vida pessoal de cada uma dessas mulheres e, consequentemente, um começar da cena ficcional é feito através do que visa discutir a sua situação doméstica.

Eloida é Kubea e Maria Magdalena são indígenas da etnia Dessana, e moram na selva. É um projeto com as mulheres indígenas de diferentes comunidades e os grupos étnicos, no departamento de Vaupés, na Colômbia. Através de uma abordagem íntima com cada uma delas, a fotógrafa esmiuçou suas biografias para construir em cada caso uma prótese ou objeto que se estende os limites, capas, saias ou realçar o corpo ou alguma de suas partes. Assim, converter objetos em símbolos de dor ou perda e materialização de seus sofrimentos e suas forças.

“Neste ensaio há cinco mulheres que viveram uma dura realidade, por diversas razões, entre as quais são desenraizadas das suas tradições, o deslocamento de seus territórios, a violência dos grupos armados e várias vicissitudes da própria vida, e que transformaram essas situações em sementes de reinvenção”, disse Liliana, que, a meu ver, remetem à fábula, aqui não como uma apropriação de mitos, mas do próprio cotidiano.

As próteses foram construídas em Mitu e áreas adjacentes em diferentes comunidades, nas margens do rio Vaupés, na região do Alto Rio Negro (Amazonas), onde as fotos foram tiradas. Os materiais são principalmente orgânicos ou encontrados exclusivamente na região. A palavra prótese é geralmente utilizada no contexto médico, por se entender como parte ou dispositivo artificial colocados ou implantados no corpo de um ser vivo para substituir uma outra parte, órgão ou membro. No entanto, também é possível entender esse conceito em outros contextos, como na linguagem artística, como às vezes o que nos falta não é algo físico ou material, e esses objetos também podem complementar ou simbolizam tais deficiências. A construção e o desenvolvimento da prótese foram feitos pela artista e designer industrial Cristina Borda.

De certo modo, como Leminski vaticinou em seus versos de Catatau, “ver é uma fábula”, premissa que fez artistas como Cao Guimarães criar uma série de imagens e filmes com o coletivo musical “O Grivo” e representa muito bem esta visualidade que busca sensações além das imagens. Os retratos de Merizalde e Laiz buscam recriar um imaginário de fábula, mas enraizado nos mitos da cultura ancestral e pré-colombiana dos indígenas; no caso de Laiz, o outro no cotidiano.

A equivalência e ambivalência de modelos estéticos podem nortear por onde anda e andará o gosto de editores, curadores, colecionadores e apreciadores da arte fotográfica. Digo isso porque tanto no fotojornalismo, quanto no mercado de arte onde só recentemente o fotojornalismo brasileiro e latino-americano inseriram-se, com o deslocamento de sua função primeira, seja no documentarismo ou no mundo das notícias para seguir outros ares em museus, coleções privadas ou em instituições e nas galerias de arte, há uma apropriação de um pelo outro que extrapola as questões estéticas.

Ainda mais com a inserção de um discurso ora ideológico, no caso de coletivos que documentaram as manifestações a partir de junho de 2013, ora o discurso que incomoda até mesmo grandes nomes da fotografia, como  Izan Petterle ao se referir como “semióticas-poéticas” aos ensaios mais “cabeçudos”, que, para reforçar a inversão dos polos (mercado de arte e fotojornalismo/documentarismo), valem-se até mesmo por embasamentos de teses de doutorado e corroboram para  a reinvenção da fotografia contemporânea. Arlindo Machado bem analisa este fenômeno estético, ao qual entende como artemídia.

O certo é que no atual cenário o simples registro perdeu importância e significado, e se não houver um estudo que desenvolva um discurso em paralelo, as imagens estarão fadadas a ficar na superfície e o vazio de conteúdo possa datá-las de uma forma negativa, ou projetar sua efemeridade.

 

Contos Amazônicos

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Fotografias de Rafael Milani inspiradas pela obra homônima de Inglês de Souza.

 

Leia a entrevista com Rafael Milani sobre “Contos Amazônicos”:

Como define os limites das fronteiras estéticas em seu trabalho? 

Rafael Milani – Eu não me apego muito a definições. Trabalho de forma bem orgânica, testando e experimentando até atingir um resultado que sinta ser adequado. Acho que minhas fotos acabam, às vezes, independente da minha vontade, voltando-se sempre para um lado mais do fantástico, do grotesco. Isso tanto nos temas quanto na forma, com cores carregadas, texturas grosseiras. Explicar o porquê disso é muito difícil, mas mesmo como  observador/espectador/leitor, sempre foi esse tipo de arte que mais me atraiu.

 

Como desenvolve seu corpo narrativo? 

Rafael Milani No caso do “Contos Amazônicos”, eu tinha um livro (homônimo, de 1893, escrito por Inglês de Souza) como ponto de partida. Para mim, isso era inédito, mergulhar numa obra para, a partir dela, produzir outra. A questão é que eu não queria fazer ilustrações para o livro, simplesmente traduzindo em imagem alguma cena ou passagem das histórias (até porque seria impossível, tratando-se de uma obra que se passa no século 19). Por isso não me prendi a um roteiro pré-determinado. O livro tem uma dualidade muito interessante, de explorar, ao mesmo tempo (às vezes num mesmo conto), os aspectos mitológicos e sociais da vida na selva. Tem sempre um pé em cada lado. Fala de lendas, monstros e criaturas fantásticas, mas também sobre o sofrimento do homem, sobre sua relação com os animais e com a paisagem. Essa dualidade foi o que me guiou, mais do que qualquer trecho específico do texto, e foi com ela em mente que fotografei e editei o ensaio. Foi mais um trabalho de desenvolvimento de atmosfera do que de enredo.

 

O que a Amazônia representa no conjunto de sua obra?

Rafael Milani – Acho que nas minhas, e infelizmente breves, visitas à Amazônia eu pude vivenciar em primeira mão questões que sempre me intrigaram, e que eu já explorava, talvez de forma mais tímida, no meu trabalho. Foi como ver ao vivo algumas coisas que se conhece só em teoria. Quando você pensa na relação entre o homem e a natureza, na história da civilização (que nada mais é do que o resultado da luta do homem contra os elementos), não sei, nesse sentido a Amazônia é quase como um front de guerra, um território em ebulição, uma ferida aberta. Foi muito marcante poder estar ali pessoalmente e testemunhar a complexidade infinita da articulação da selva com seus ciclos de nascimento e decomposição, a desarmonia e a violência em tudo. A natureza na Amazônia é hipertrofiada, ao mesmo tempo intimidante e arrebatadora. Com certeza isso tudo ficará para sempre comigo, como artista e como ser humano. Sendo bem sincero, eu diria que a importância da Amazônia no meu trabalho fotográfico só não é maior porque não tive outras oportunidades de voltar para lá. Se eu pudesse, passaria anos ali fotografando. Tenho sonhos recorrentes sobre isso. É quase um chamado.

Com uma outra pegada, está o livro “Cabanagem”,  de André Penteado, que foi incluído na lista de melhores do ano dos sites “Time LightBox” e “Photo-eye” – vencedor, em 2013, do Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger. Sua busca pela simplicidade ao recontar, por meio de imagens, a revolta popular que aconteceu no Pará entre 1835 e 1840, faz com tal empreitada parecer ser fácil, mas há uma sofisticação em sua crueza. Aquela velha máxima de que “menos é mais” cai como que uma luva para André.

Do Pará há sem dúvida uma efeméride de grandes fotógrafos contemporâneos, muitos utilizando-se de recursos de baixa tecnologia, de pinholes, a máquinas amadoras, descartáveis até. Para seguir o recorte no qual propus, onde destaco os mais premiados ou incensados pelo mercado de arte, não posso deixar de citar Dirceu Maués, “pinholeiro” que executa, além de oficinas mundo a fora, um trabalho consagrado. Ele é um grande exemplo de como um repórter-fotográfico consegue se reinventar e alcançar outros patamares. Além de Alexandre Sequeira, que também utiliza baixa tecnologia e executa um trabalho literalmente fabuloso, dialógico, explorando os limites da fotografia. Ou mesmo Roberta Carvalho em symbiosis com projeções de imagens na natureza ou interferindo na cena urbana, um mar sem fim de grandes artistas que dialogam com cena contemporânea e que representam o Brasil em bienais internacionais de arte ou nos festivais de fotografia, como Berna Reale, Luiz Braga, entre outros. Uma tardia descoberta foi a do fotógrafo peruano Roberto Huarcaya e seus  “Amazogramas, 90 metros de Baguaja Sonene”, no qual faz esta megaampliação da floresta que envolve e “engole” o observador. O grande formato para interpretar esta dimensão, que é a Amazônia. Assim como na obra de Claudia Jaguaribe, também feita na selva, Huarcaya desloca e distorce a realidade. Afinal, o que é real?

 

*Pinholes – Câmeras fotográficas artesanais feitas dos mais variados materiais, de caixas de papelão à lata de leite, muito utilizadas em oficinais de fotografia para formação do olhar. O nome deriva do buraco feito por “agulha” para que a luz penetre e sensibilize o papel fotográfico, ou negativo, ou a superfície emulsionada.

 

Alberto César Araújo é editor e repórter fotográfico desde 1991. Jornalista formado pela Uninorte/Laureates em Manaus, atualmente é mestrando do PPGLA na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), com o projeto de pesquisa sobre o fotógrafo Alemão Albert Frisch. Seu trabalho enfoca a vida nos rios e as questões dos impactos ambientais, entre elas, o desmatamento na Amazônia. Na capital amazonense trabalhou nos jornais A Crítica, Jornal do Norte, Correio Amazonense, Diário do Amazonas e Em Tempo. Publicou fotos na mídia nacional e internacional, incluindo O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, National Geographic Brasil, New York Times, Newsweek, The Independent. Na Amazônia, documentou projetos socioambientais de várias organizações como o WWF e Greenpeace Brasil. Entre os prêmios que ganhou estão o Esso de Fotografia (2001) e Carolina Hidalgo Vivar no POY LATAM (2013). Em 1999, o poeta Thiago de Mello em entrevista ao jornal A Crítica descreveu Alberto César como o “artista da luz”.

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