A Amazônia segundo Lúcio Flávio Pinto

Três datas amazônicas (e também americanas)

02/08/2017 17:57

Duas das maiores epopeias da história da Amazônia em todos os tempos, comandadas por dois dos maiores capitalistas da nação mais poderosa do mundo, completam suas marcas históricas em 2017. São os 90 anos da cidade de Henry Ford no vale do rio Tapajós, no Pará, e os 50 anos do projeto de Daniel Ludwig, no Jari, também no Pará, e ainda no Amapá. Ambas fracassaram.

Ford, o homem mais rico e dos mais poderosos da época, nunca chegou a ver o empreendimento que criara no meio da selva, distante 110 quilômetros em linha reta da cidade de apoio, Santarém (e 820 km da capital do Estado, Belém). Se desse certo, garantiria a borracha necessária para a maior indústria do mundo, que fabricava o mais famoso e mais vendido modelo de automóvel do mercado.

O projeto exigiu investimento pesado, mas sua concepção era simples. A principal fonte de látex era a seringueira, nativa da Amazônia. Levada para a Ásia pelos ingleses, ela se adaptou tão bem que rapidamente os países asiáticos superaram a produção amazônica e praticamente a eliminaram. A enriquecida economia amazônica desabou bruscamente, lançando a região numa espécie de Idade Média.

É que os plantios artificiais multiplicaram a densidade de árvores por hectare, incrementando a produtividade da extração da sua seiva. As seringueiras se espalhavam por grandes distâncias no ambiente nativo. Cortá-las era um trabalho penoso e de baixo rendimento. Mas se os seringais fossem transformados em densos plantios homogêneos da espécie, eles também poderiam adquirir a produção asiática e tornar a Ford autossuficiente dessa matéria prima estratégica para os pneus e vários componentes dos veículos.

As sementes que os ingleses obtiveram na mesma região na qual Ford se instalou tinham todas as qualidades do seu ambiente original. Mas não estavam sujeitas ao que estava além as árvores: insetos, fungos, mofo. Esses predadores eram contidos pela inigualável diversidade de espécies florestais que há na Amazônia, que funcionava como tela de proteção.

Derrubada a mata nativa e expostas as seringueiras em ambiente aberto, eles as atacaram letalmente. O enorme seringal que Ford pretendia plantar foi fulminado pelo seu principal inimigo natural, o mal das folhas, favorecido pela supressão da biodiversidade. Em 1945, depois de 18 anos de tentativas, ele entregou os pontos e se retirou da Amazônia vencido – e para sempre.

Quarenta anos depois que ele começou a sua história em torno de uma cidade americana que construiu nos trópicos, Fordlândia, o milionário extravagante (um dos últimos tycoons dos Estados Unidos) Daniel Keith Ludwig, do alto dos seus 70 anos, iria empreender iniciativa bastante semelhante.

Com capital intensivo, tecnologia de ponta e diretriz bem estabelecida, ele comprou uma empresa extrativista paraense que lhe daria acesso a pelo menos 1,6 milhão de hectares no vale do rio Jari, a maior propriedade rural do Brasil. Nela, produziria o bastante para saciar o que previa que viria a se tornar duas das maiores fomes mundiais, por fibras e grãos. Iria bater recordes mundiais de produção e produtividade de duas delas, celulose e arroz.

Para dar o pulo do gato nos concorrentes em matéria de fibras, ele inovaria: processaria uma árvore asiática, a gmelina, nunca antes utilizada como fonte de celulose. Ela permitia o primeiro corte bem cedo e ofereceria ganho maior por unidade. Era o caminho inverso ao da seringueira: da Ásia para a Amazônia, com uma escala de adaptação na Nigéria.

Para o grande investidor capitalista, mesmo o de ponta, ontem como ainda hoje, ao menos na sua face imperial e colonial, tudo sobre os trópicos é igual. Uma vez descoberta na Ásia e aclimatada na África, a “árvore do milagre” daria os mesmos resultados na Amazônia. Ele nem se deu ao trabalho de mandar estudar a qualidade dos solos no Jari.

Não o fogo, como a turma de Ford para destruir milhares de árvores (aquelas que não foram usadas para madeira sólida na mais moderna serraria em atividade no Brasil dos anos 1930). Recorrendo a tratores com potência 100 vezes superior à do seu antecessor, ele de imediato colocou abaixo quatro mil hectares de mata densa por corte mecânico (era o maior comprador de motosserras do continente).

A gmelina plantada, no entanto, não se desenvolveu como na sua origem. Por um fator: exigia solos mais ricos do que a média da terra local. Ao invés de crescer robusta, não formava galhos, era atacada pelo mal do rabo de raposa. Foi preciso então retirar a árvore asiática.

Aí surgiu um problema grave: ela se tornava uma praga, difícil de erradicar. Era preciso de tempo, produtos químicos e mais dinheiro ainda. O pulo do gato de Ludwig foi no vácuo. Ele se desinteressou pelo projeto e obrigou o governo a substituí-lo para que alguém pagasse o pesado financiamento feito no Japão para montar a indústria de transformação.

O arrozal também teve o mesmo destino. O local de plantio devia ficar próximo à sede do empreendimento. Não interessou no primeiro momento que isso o obrigasse a instalá-lo na calha do rio Amazonas, o maior fertilizador natural (e gratuito) de terras do planeta. A adubação seria com produtos químicos, espalhados por aviões. A colheita seria toda mecanizada. A irrigação e drenagem pelos canais seria com bombas. Tudo à base de petróleo.

Quando o primeiro choque do petróleo elevou abusivamente os preços, Ludwig tentou utilizar a fertilização natural do Amazonas. Mas os nutrientes que ele arrasta desde suas nascentes, nos Andes, não podiam chegar até o arrozal. Resultado: os quatro mil hectares plantados acabaram abandonados, O sonho de produzir tanto arroz quanto na Ásia chegara ao fim.

Culpa da selvageria da Amazônia, onde o homem é um intruso em pleno inferno verde? Ford e Ludwig, como outros pioneiros, preferiam acreditar que, acima dessa situação real, havia outra que desafiava a suas vontades: aquela imensa bacia, com um terço do território da América do Sul, podia ser o celeiro do mundo, como previra o sábio alemão Humboldt. O problema está – e continua a estar – no caminho para sair de uma condição de insalubridade e hostilidade para uma situação de fecundidade e abastança, mas que seja perene ou, como se diz, autossustentável.

Henry Ford estava convencido que o sucesso do plantio de seringueira abriria caminho para o estágio seguinte: o cultivo de soja. Em 1929 ele começou a apoiar pesquisas sobre a soja nos Estados Unidos e investiu pesado para transformá-la em plástico, com propósitos industriais, em complementos automotivos, além de fonte de alimentos.

Depois do fracasso dele e de Ludwig, que deixou o Brasil definitivamente em 1982, nem a maior capacidade profética do filósofo do capitalismo concorrencial (tendo no sucessor um grande apóstolo) poderia antever que a soja acabaria por penetrar no território amazônico, expandindo-se a uma taxa anual equivalente à das propriedades dos dois milionários americanos, com uma diferença fundamental: os dois americanos só derrubaram uma fração dela, enquanto os sojeiros põem tudo abaixo.

Não para produzir plásticos ou fomentar a escala de industrialização da matéria prima até o seu bem mais nobre: para exportar commodities de tal maneira que o Brasil superou os Estados Unidos, fazendo com que, para o mesmo vale o Tapajós, fosse atraída a Cargill, a maior empresa privada americana. Desta vez, para ficar. E arrasar. O passo definitivo para o fim do inferno verde, do deserto vermelho, do celeiro do mundo – da Amazônia.

 

A fotografia que ilustra este artigo é de uma comunidade ribeirinha cercada por um campo de soja em Santarém, no Pará, de autoria de Alberto César Araújo.

 

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Leia mais aqui. Veja outros artigos do autor.

 

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