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Um verão típico do El Niño e a ausência de políticas públicas em Manaus

21/09/2015 17:44

“Sentiremos os efeitos do aumento do desmatamento, das queimadas, da poluição do ar e das águas e assim sucessivamente e progressivamente a cada ano”, diz o colunista. (A fotografia acima é de Victor Gouveia)

 

CARLOS DURIGAN

Manaus, 21 de setembro de 2015, 38,9 graus. Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) é a mais alta temperatura registrada na cidade desde 1925. No dia 17 desse mês a marca registrada também foi histórica, 38,6 graus. Nesta data foram registrados 17 incêndios na cidade, principalmente em fragmentos florestais, segundo a mesma fonte. Quem vive em Manaus está sentindo literalmente na pele o que é um verdadeiro verão quente e seco, típico de ano de El Niño.

Mas isso é novidade? E o que todos temos feito para minimizar efeitos de períodos extremos como este? Ligar o ar condicionado, torcer para não faltar energia nem água e ficar esperando o período das chuvas de inverno parecem que têm sido nossas únicas ações concretas, inclusive de nossos governantes, que agora têm a renitente retórica da crise econômica para justificar sua inatividade frente a tantos problemas que vivenciamos e que a cada ano se agravam em nossa região.

Os avanços tecnológicos e científicos que embasam nossa capacidade de entender os processos que regem o clima na Amazônia e no Mundo, deram um salto extraordinário nos últimos anos, a ponto de termos acesso a análises profundas realizadas através de modelos e previsões climáticas de longo prazo que nos alertam sobre possíveis cenários futuros, sejam eles para um futuro distante, sejam eles para amanhã e depois de amanhã, tudo isso à nossa disposição, bastam alguns cliques em nossos computadores ou smartphones. Teríamos assim a capacidade de planejarmos nossa vida cotidiana, nossa produção, nos prepararmos para resistir a momentos extremos, indo além de nossos corriqueiros comentários sobre se está quente, se está frio, se está seco, se vai faltar água, se vai chover, se o rio está cheio ou não.

É inadmissível que ainda, a cada ano, reagimos com surpresa a ciclos de estiagens e chuvas, e continuemos agindo da mesma forma, remediando os estragos e justificando a falta de ações mais enérgicas frente aos extremos climáticos cada vez mais frequentes.

O que sentimos e sentiremos até o final deste verão não são apenas calor e cheiro de fumaça, mas o resultado da ausência de políticas de longo prazo que cumpram à risca o que está determinado em nossa legislação ambiental. Sentiremos os efeitos do aumento do desmatamento, das queimadas, da poluição do ar e das águas e assim sucessivamente e progressivamente a cada ano.

Floresta em Iranduba tomada pela fumaça de queimadas (Foto: Carlos Durigan)

Floresta em Iranduba tomada pela fumaça de queimadas (Foto: Carlos Durigan)

 

Não é demais repetir que nos falta cumprir e respeitar os fragmentos florestais e as áreas protegidas que ainda existem na região metropolitana de Manaus. Mais verde na cidade resulta num clima mais suportável e ainda conservamos a nossa rica e ameaçada biodiversidade. Falta ainda uma política séria de prevenção e combate a incêndios florestais, que a cada ano dizimam nossas florestas, nossa fauna e ainda prejudicam nossa saúde. Faltam ainda políticas eficazes de controle de emissões de gases de efeito estufa, que além de afetarem o clima, afetam também e mais uma vez nossa saúde. Faltam projetos eficazes voltados à diminuição da poluição de nossos rios e igarapés, etc, etc.

Enfim, temos condições sim de melhorarmos nossas vidas e precisamos de ações concretas lideradas por nossos governos eleitos para tal fim, ações individuais ou isoladas são louváveis, mas precisam ser reconhecidas, fortalecidas e ampliadas.

E voltando ao Clima, falta, de fato, planejarmos nossas ações, baseando-as nas mudanças corriqueiras e sazonais dos ciclos de chuvas e secas, assim como nas mudanças estimadas de longo prazo. Temos os recursos e as informações necessárias para isso, precisamos dos velhos conhecidos interesses políticos e ações concretas.

De qualquer forma, ainda devemos seguir com nossas ações cotidianas e buscar minimizar nosso mal-estar, assim como dar nossa contribuição, mesmo que limitada. Assim, medidas simples já bem conhecidas e pouco praticadas podem ser tomadas por cada um de nós, entre elas: não queimar lixo, não queimar a vegetação para limpeza de terrenos, não jogar lixo e entulho em terrenos,  áreas verdes e igarapés, reduzir ou eliminar o uso de materiais plásticos descartáveis, reduzir o consumo de energia elétrica e água na medida do possível, plantar e cuidar de árvores, denunciar ações que degradam nossa qualidade de vida e ainda acompanhar, apoiar e participar das inúmeras iniciativas socioambientais existentes na região, pesquise, você vai encontrar inúmeras com as quais poderá interagir.

 

* Carlos Durigan é geógrafo, mestre em Ecologia, vive e atua na Amazônia há 20 anos. Participa de pesquisas multidisciplinares envolvendo estudos e trabalhos de campo em biodiversidade e sociodiversidade para subsidiar ações em Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Atualmente é Diretor da WCS Brasil (Associação Conservação da Vida Silvestre).

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