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Uma terapia amazônica com muitas caretas previne o estresse

15/05/2017 23:17

A técnica usa também os movimentos dos dedos das mãos para relaxar e harmonizar a atividade nervosa dos pacientes

 

POR ELVIRA ELIZA FRANÇA

Tenho aplicado a terapia amazônica das “Caretas Articuladas com Movimentos das Mãos – CAMM” há anos e registrado os resultados bastante satisfatórios entre as pessoas que passaram a adotar os exercícios como terapia para promoção da saúde em geral. Os resultados são relatados para os casos de déficit de atenção e dificuldades de aprendizagem, depressão, hipertensão, dependência química, entre outros.

Em 1998, atendendo ao edital da Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas para o programa “Em Busca da Identidade Regional”, apresentei um projeto, no qual me propus a escrever histórias de vida de pessoas que realizavam curas em Manaus, por meios não-convencionais. A proposta era procurar pessoas que faziam uso de plantas medicinais, preces, orações, benzimentos, rezas, massagens, “desmentiduras”, “rasgaduras”, florais, partos naturais, aplicação de energia das mãos, uso de mitos, astros e pedras, etc., visando realizar um estudo do processo de aprendizado dos procedimentos e da forma como as pessoas se comunicavam para obter resultados eficientes a quem lhes pedia ajuda.

Com conhecimentos sobre a metodologia da Programação Neurolinguística – PNL, entrevistei 18 pessoas, fazendo a observação dos padrões de linguagem verbal e não-verbal, enquanto elas evocavam três ou mais memórias das experiências de curas bem sucedidas. Fizeram parte do estudo pessoas escolarizadas e não-escolarizadas, sendo que, durante a coleta de dados, observei uma diferença entre esses dois grupos. 

As pessoas não-escolarizadas apresentavam um padrão mais desorganizado de pensamento ao darem as respostas, pois não respeitavam a ordem das perguntas feitas e faziam comentários aleatórios mas muito criativos; as escolarizadas, por outro lado, sequenciavam bem e organizavam melhor a linguagem enquanto respondiam as perguntas e seguiam a ordem da entrevista.

No entanto, me chamou atenção o fato de que as pessoas que realizavam procedimentos de massagem, mesmo com pouca ou nenhuma escolaridade, apresentavam um padrão organizado da linguagem: elas seguiam bem a sequência das perguntas e demonstravam maior riqueza nas expressões faciais, além de mais movimentos dos dedos das mãos. Enquanto falavam, pareciam massagear alguém virtual à sua frente. Além disso, eram as pessoas mais bem humoradas e apresentavam soluções muito criativas para os desafios do ato de curar.

O estudo dos padrões de linguagem das pessoas entrevistadas foi feito com base na metodologia da Programação Neurolinguística – PNL, uma tecnologia americana de comunicação, que é aplicada em várias áreas do conhecimento, dentre elas os processos terapêuticos. Foi assim que a pesquisa “Crenças que promovem a saúde: mapas da intuição e da linguagem de curas não convencionais em Manaus, Amazonas”, apresentou um estudo minucioso dos processos de linguagem verbal e não-verbal das pessoas que curam em Manaus.

Fazendo uso combinado desses padrões, comecei a utilizar novos procedimentos terapêuticos para ajudar outras pessoas que estavam pedindo ajuda para saúde. Esse outro grupo envolveu 60 pessoas que na ocasião foram atendidas em terapia voluntária numa casa da Pastoral da Saúde, num bairro da periferia de Manaus. 

 

Foi com base nesse estudo que criei a técnica terapêutica de baixo custo denominada “Caretas Articuladas com Movimentos das Mãos – CAMM”. Ela era oferecida inicialmente como um momento rápido de caretas e movimentos dos dedos das mãos, para relaxar e harmonizar a atividade nervosa. Contudo, muitas pessoas tinham dificuldades para realizar, ao mesmo tempo, os movimentos da face e dos dedos das mãos. Então, organizei uma sequência, visando treinar as pessoas para obter a excelência do melhor modelo identificado na pesquisa, e que deveria ser executado como se estivesse em alta velocidade. Com isso, elas simulavam um processo catártico intencional, que se assemelha ao que as crianças fazem quando estão liberando as emoções, fazendo uso de caretas.

Assim, foi iniciado um processo terapêutico, no qual eu ensinava as caretas e movimentos dos dedos das mãos para crianças, adolescentes e adultos, com demandas diferentes para problemas emocionais e de aprendizagem. Algumas pessoas se espantavam e rejeitavam a proposta como se fosse “coisa de doido”. Contudo, quando percebiam os resultados favoráveis com grande rapidez, aderiam à proposta terapêutica, que para algumas pessoas ajudava, inclusive, a diminuir o uso de medicamentos.

De 2006 a 2009, a terapia CAMM foi utilizada em um trabalho voluntário na Unidade Básica de Saúde Dr. José Rayol dos Santos, na época dirigida pela enfermeira Aline Albuquerque Nery, que havia constatado a eficiência do procedimento em sua filha. A proposta desse trabalho era ampliar o uso da técnica para pessoas com dependência química e o resultado foi favorável também.

De 2012 até o presente momento, esse trabalho voluntário foi transferido para a Unidade Básica de Saúde da Família S-07, do bairro da Aparecida, sob a coordenação da Dra. Tatiana de Souza Arruda e enfermeira Lusia Prado de Sousa, que atendem no programa Saúde da Família. A Pastoral da Sobriedade também solicitou o apoio do projeto.

A técnica CAMM consiste em realizar movimentos lentos contando quatro tempos, que devem ser alternados na seguinte sequência, por no mínimo cinco vezes cada um: fazer biquinho como se estivesse beijando e abrir bem a boca como se estivesse berrando; mostrar a língua e colocar a língua para dentro da boca; colocar a língua nos cantos da boca sem tocar os lábios; mover os músculos próximos ao nariz para os lados direito e esquerdo; contrair os músculos ao redor da boca e do nariz para cima, como se estivesse cheirando algo ruim e depois esticá-los colocando os lábios para dentro da boca; mover os olhos e a testa para cima e depois para baixo sem mover a cabeça; e finalmente mover os olhos para o lado esquerdo para cima, olhar para frente e depois olhar para cima à direita. 

Depois de praticar esses movimentos repetidamente, a pessoa deve refazer a prática ao mesmo tempo em que move as falanges dos dois polegares das mãos, com as mãos fechadas. Todos os movimentos devem ocorrer em tempo quaternário, isto é, contando 1-2-3-4, para serem diferenciados das expressões das emoções originais, que são rápidas e não têm uma sequência padrão. Então, no final, a pessoa faz todas as caretas possíveis, enquanto move todos os dedos das mãos rapidamente, simulando que “endoidou” por alguns segundos.

Os resultados têm sido surpreendentes para diferentes problemas de saúde física, emocional e social, e vêm sendo acompanhados pela médica Dra. Tatiana e pela enfermeira Lusia, assim como pelas agentes comunitárias de saúde que atuam na unidade básica de saúde da família do bairro da Aparecida, no centro da capital. Esse trabalho terapêutico dá uma característica própria amazônica ao projeto “Mãezinha do Céu: ações preventivas e terapêuticas”, coordenado por mim, cujos resultados são apresentados pelas pessoas que praticam a técnica CAMM desde o ano 2000 até mais recentemente.

Anualmente, no mês de maio, as pessoas se encontram para falar sobre os resultados obtidos, visando incentivar outras pessoas a adotarem esse processo terapêutico eficiente e barato, que pode ser praticado em casa, promovendo a autonomia da pessoa. É uma estratégia muito apropriada para o momento de crise econômica em que vivemos e foi produzida originalmente para beneficiar pessoas mais pobres, que não têm recursos para pagar processos terapêuticos, principalmente quando se tornam longos.

Neste ano de 2017 o encontro será no próximo dia 19 de maio (sexta-feira) das 8h30 às 12h, no Centro Estadual de Convivência do Idoso – CECI, na rua Wilken Matos, s/n, no bairro da Aparecida (antes da ponte do igarapé de São Raimundo). Depois dos depoimentos dos praticantes de CAMM, a Dra. Lênia E.C. Lemos, autora dos livros “Neurofisiologia e psicologia” e “Bases da Neurofisiologia Humana” irá ajudar as pessoas a compreenderem o porquê dos resultados, fornecendo dados científicos sobre as estruturas cerebrais e os processos químicos envolvidos.

 

 

elvira franca pb- divulgacao

Elvira Eliza França é mestre em Educação pela UNICAMP, especialista em Programação Neurolinguística pelo NLP Comprehensive dos EUA e graduada em Comunicação pela Universidade de Mogi das Cruzes (SP).  É autora dos livros: “Crenças que promovem a saúde: mapas da intuição e da linguagem de curas não-convencionais em Manaus, Amazonas” editado pela Valer e Secretaria de Cultura e Turismo do Amazonas (2002); “Corporeidade, linguagem e consciência: escrita para a transformação interior” (1995), “Dimensões interiores da escrita: a voz da criança interior” (1993), “Do silêncio à palavra: uma proposta para o ensino da filosofia da educação” (1988) e “Filosofia da educação: posse da palavra” (1984), publicados pela Editora Unijuí (RS).

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