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A Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós: 10 – A perda de locais sagrados dos Munduruku

19/09/2016 17:57

Um lugar sagrado é  Karosakaybu, nome do ancestral munduruku reverenciado, que era dotado de poderes sobrenaturais e criou o Rio Tapajós. (Foto de Bruno Kelly/Greenpeace)

 

PHILIP M. FEARNSIDE

A perda de meios de subsistência, destruindo o recurso pesqueiro que é a fonte principal do alimento para os Munduruku, é, logicamente, uma grande preocupação para as aldeias hoje ameaçadas pela barragem. No entanto, a perda do rio também significa a perda do centro sagrado da cultura munduruku, e esta função simbólica recebe ainda mais ênfase quando líderes munduruku contam suas preocupações. Entre os locais sagrados previstos de serem perdidos está o lugar onde Karosakaybu (um ancestral munduruku reverenciado, que era dotado de poderes sobrenaturais) criou o Rio Tapajós em um lugar estreito (o “fecho do Rio Tapajós”) conhecido aos Munduruku como a “travessia dos porcos”. A importância do local foi explicada da seguinte maneira pelo cacique Juarez Saw Munduruku, da aldeia de Sawré Muybu:

“Karosakaybu teve seu filho levado por um bando de queixadas (Tayassu pecari), que realmente eram Munduruku que haviam se transformados em suínos. Os porcos têm orelhas furadas, mostrando que tinham sido Munduruku antes. Karosakaybu ouviu os gritos de seu filho, que estava sendo sequestrado pelos porcos. Karosakaybu correu atrás de seu filho, mas os porcos estavam fugindo com a criança. Como um meio de bloquear o caminho dos porcos, Karosakaybu fez colinas íngremes se levantarem, que podem ser vistas perto do local sagrado hoje, mas os porcos, que também tinham poderes sobrenaturais, foram capazes de passar por estas colinas. Então, Karosakaybu jogou quatro sementes de tucumã (Astrocaryum aculeatum) na terra e criou o Rio Tapajós, para servir como uma barreira, bloqueando os porcos. As sementes de tucumã explicam por que a água do Tapajós é doce hoje. Mas os porcos jogaram uma corda com um gancho gigante para o outro lado do rio e puxaram-o para criar o fecho. Os suínos nadaram através do rio no fecho, levando o filho de Karosakaybu com eles, e nunca mais voltaram.”

O cacique Juarez levou os seus filhos para ver o local da Travessia dos Porcos. Uma placa em Munduruku e em Português foi preparada para marcar o local.

Cacique Juarez Saw Munduruku com uma placa preparada para marcar o local sagrado "Travessia dos Porcos".

Cacique Juarez Saw Munduruku com uma placa preparada para marcar o local sagrado “Travessia dos Porcos”. (Foto: Philip Fearnside)

 

Outro local sagrado é a “Garganta do Diabo”, nas corredeiras onde a barragem de São Luiz do Tapajós está prevista para ser construída. Este local é sagrado por causa da abundância de peixes que podem ser capturados lá durante a piracema (a migração anual em massa de peixes ascendendo os afluentes do Rio Amazonas). Os Munduruku acreditam que o desrespeito para o local é a causa de muitos naufrágios de barco que ocorreram lá. De acordo com o cacique Juarez, “os brancos não sabem que o local é sagrado”.

A preocupação com a perda de locais sagrados na área a ser inundada pelo reservatório de São Luiz do Tapajós estende-se até Munduruku que vivem fora desta área. Da mesma forma, os Munduruku na área a ser inundada pela barragem estão preocupados com locais previstos para serem inundados pelas outras barragens planejadas da bacia do Tapajós. O local sagrado de Sete Quedas, que foi inundado no final de 2014 pela barragem de Teles Pires, é de especial preocupação (e.g., [1]). Este local é sagrado porque os espíritos de pessoas que conhecem as lendas e que cantam canções tradicionais e tocam instrumentos musicais munduruku vão lá depois que eles morrem. Só os espíritos destes anciões respeitados vão para Sete Quedas, não os espíritos dos falecidos jovens.

No caso da pesca, o EIA (Estudo de Impacto Ambiental) essencialmente nega que haverá qualquer perda, alegando que os ecossistemas aquáticos permanecerão incólumes. No caso de perdas espirituais, o EIA simplesmente ignora o assunto [2].

 

NOTAS

 

[1] Palmquist, H. 2014. Usina Teles Pires: Justiça ordena parar e governo federal libera operação, com base em suspensão de segurança. Ponte, 27/11/14. http://ponte.org/usina-teles-pires-justica-ordena-parar-e-governo-federal-libera-operacao-com-base-em-suspensao-de-seguranca/

[2] Isto é uma tradução parcial de Fearnside, P.M. 2015. Brazil’s São Luiz do Tapajós Dam: The art of cosmetic environmental impact assessments. Water Alternatives 8(3): 373-396, disponível aqui. As pesquisas do autor são financiadas por: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (processos nº305880/2007-1, nº304020/2010-9, nº573810/2008-7, nº575853/2008-5), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) (processo nº 708565) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) (PRJ13.03). O Greenpeace custeou despesas de viagem no Tapajós [3]. M.A. dos Santos Junior fez os mapas. N. Hamada e P.M.L.A. Graça contribuíram comentários. Agradeço especialmente aos Mundurukus.

[3] Fearnside, P.M. 2015. Impactos nas comunidades indígenas e tradicionais. p. 19-29 In: R. Nitta & L.N. Naka (eds.) Barragens do rio Tapajós: Uma avaliação crítica do Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) do Aproveitamento Hidrelétrico São Luiz do Tapajós. Greenpeace Brasil, São Paulo, SP. 99 p. http://greenpeace.org.br/tapajos/docs/analise-eia-rima.pdf

 

 

Leia os artigos da série:

A Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós: 1 – Resumo da série

A Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós: 2 – O processo de licenciamento na teoria

A Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós: 3 – O processo de licenciamento na prática

A Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós: 4 – O deslocamento de populações indígenas

A Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós: 5 – O direito de “consulta” dos povos indígenas

A Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós: 6 – O bloqueio do reconhecimento da terra indígena

A Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós: 7 – A barragem e o enfraquecimento da FUNAI

A Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós: 8 – Os Munduruku desistem de uma FUNAI inexistente

A Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós: 9 – A perda de pesca

 

Philip M. Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e também coordena o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 500 publicações científicas e mais de 200 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis neste link.

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