25/11/2013 00:00

A diversidade musical das comunidades indígenas do norte do Amazonas e do Estado de Roraima foi reunida em uma inédita e rica coletânea. São quase quatro horas de 80 faixas musicais de grupos indígenas das etnias baniwa, wapichana, macuxi e tauepang, resultado do projeto intitulado “A Música das Cachoeiras” do grupo Cauxi Produtora Cultural. O nome é uma referência às correntezas e cachoeiras da bacia do Alto rio Negro, no Amazonas.

Agenor Vasconcelos, coordenador do projeto, define o projeto como um “registro etnográfico audiovisual”, no qual o principal foco é a música. O acervo completo do projeto para stream e download está disponível no site soundcloud.com/musicadascachoeiras.

Os autores de “A Música das Cachoeiras” empreenderam uma expedição de janeiro a junho deste ano nas comunidades indígenas. Registraram a gaitada do músico Ademarzino Garrido e a embolada do pandeiro de comunidades do Alto Rio Negro, no Amazonas, a incomum mistura forró tradicional com a dança tradicional Parixara, o hip-hop dos índios taurepang, entre outros gêneros musicais indígenas.

Conheceram músicos de cada comunidade, além de compositores já consolidados nas cidades de São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, e em Boa Vista (RR), como Paulo Moura, Eliakim Rufino, Mike Gy Brás, Paulo Fabiano e Rivanildo Fidelis.

O projeto foi integralmente patrocinado pelo programa Natura Musical, no valor de R$ 100 mil, selecionado por meio de edital nacional em 2012, por meio da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura do Governo Federal. O acervo inclui gravação de músicas e vídeos, registros fotográficos, produção de uma cartilha e a criação de um site.

Os realizadores explicam que o projeto nasceu de uma ideia: resgatar a mesma expedição que etnógrafo alemão Theodor Koch-Grünberg (1872-1924) realizou nas comunidades do Alto Rio Negro e na região do Monte Roraima entre 1903 e 1913. Koch-Grünberg foi um pesquisador que morou na região e registrou em suas obras a cultura material e imaterial dos povos ameríndios.

Grupo de dança dos índios wapichanas (RR) se apresentam para equipe. Foto: Divulgação

Grupo de dança dos índios wapichana (RR) se apresenta para equipe. Foto: Divulgação

Agenor Vasconcelos tomou conhecimento sobre a pesquisa do alemão na época em que fazia mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). “O grande desafio após o término do mestrado seria poder viajar e colher as minhas próprias impressões, refazendo o trajeto já esmiuçado por mim diversas vezes mentalmente por meio dos registros de Koch-Grünberg. O que eu não esperava seria a possibilidade de formar um grupo expedicionário para pesquisar em equipe. Isso foi fantástico”, explicou Vasconcelos à agência Amazônia Real.

Após a seleção no projeto Natura Musical, uma equipe de seis pessoas formada por músicos, fotógrafos, produtores e antropólogos iniciou a viagem pelas áreas escolhidas. Envolvidos de tal forma com os músicos de cada região, a equipe acabou também produzindo composições com os integrantes das bandas das comunidades.

“Mas não havia intervenção direta. Sempre estávamos preocupados em possibilitar uma gravação profissional independente das condições de trabalho. Na foz do rio Içana, por exemplo, ponto limítrofe da expedição no alto rio Negro, conseguimos reunir uma banda de teclado, guitarra e vocal. Havíamos levado pré-amplificadores, microfones condensadores, interface de áudio e muitos quilos de equipamentos para montar um estúdio aonde quer que fosse. Gravamos e os resultados são maravilhosos e divertidos”, explica.

Inspiração e aprendizado

Entre as boas surpresas encontradas na viagem, está Ademarzinho Garrido que, segundo Vasconcelos, é descendente de Germano Garrido, anfitrião de Koch-Grünberg na época em que o alemão esteve no Alto Rio Negro. Ademarzinho é líder da banda Maripuriana, onde toca violão e gaita. No registro feito pela equipe, Vasconcelos descreve a participação de Ademarzinho como o autor de “um solo de gaita, que dialoga com a guitarra em vários momentos da canção”.

A equipe também esteve na comunidade baniwa Itacoatiara-mirim, onde conheceu Luiz Laureno, e na comunidade Boa Vista, na foz do rio Içana, onde gravou com a banda Taína Rukena. Nesta mesma comunidade registrou hinos evangélicos cantados na língua nhengatu acompanhados em teclados eletrônicos e em ritmo calipso.

Nas comunidades indígenas de Roraima, o grupo registrou o som parixara, um ritmo “lento que se dança em longas filas e rodas e com cantos variados”, conforme descreve Agenor Vasconcelos, e o tukúi e marik, cantos interpretados pelos índios macuxi e taurepang.

Além do componente etnográfico e audiovisual, a equipe de “A Música das Cachoeiras” espera que o acervo seja uma fonte de pesquisa para futuras gerações e inspiração para os artistas. “Tanto músicos como pintores, literatos, poderão basear novas criações a partir dessa tão rica cultura Amazônica”, diz Vasconcelos.

O coordenador conta que a pesquisa foi também um aprendizado para eles próprios. “Pudemos aprender nuances da língua e da cultura dos povos que tivemos oportunidade de conhecer. Por meio da música figurativa, cantada, também percebemos a língua indígena viva no seio de um Brasil distante”, afirma..

O projeto “A Música das Cachoeiras” estará disponível gratuitamente no site oficial. Ele é composto por faixas, clipes e mini-documentários. Um livro-CD que também foi produzido terá 2/3 de seus exemplares distribuídos gratuitamente.

Luiz Laureano Baniwa, do Alto Rio Negro, que toca instrumentos feitos de casco de tracajá e flautas de paxiúba. Foto: Divulgação.

Luiz Laureano Baniwa, do Alto Rio Negro, que toca instrumentos feitos de casco de tracajá e flautas de paxiúba. Foto: Divulgação.

Participação de comunidades

O indígena do Alto Rio Negro Moisés Luiz da Silva considera o registro e a divulgação da música de seu povo como fundamental para valorização da cultura baniwa. Moisés foi o principal articular entre a equipe do projeto e as lideranças da sua comunidade Itacoatiara-mirim. Entre os que participaram da gravação estão Luiz  Laureano da Silva, mestre da maloca, Mário Felício Joaquim e Luzia Inácia.

“Recebi a notícia sobre o projeto pela professora Deisy Montardo (Ufam). Então o Agenor entrou em contato comigo e conversamos. O segundo plano foi consultar o povo e as lideranças baniwa, que concordaram em participar. Achamos que esse registro de gravações de músicas é uma forma de valorizar nossa cultura e divulgar para outras sociedades indígenas e não-indígenas”, afirmou Moisés.

O grupo baniwa já participou de outros projetos, como o Podáali Valorização das Músicas, patrocinado pela Petrobrás Cultural, e do Museu do Índio, em 2013.

 

* Matéria atualizada no dia 03/11/2015.

 

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Comentários

  1. van dantas disse:

    LINDO TRABALHO! SÓ QUERIA SABER, COMO FAZER PARA OUVIR AS MÚSICAS, POIS NÃO ENCONTREI NENHUM VÍDEO DE NENHUMA DELAS AQUI.

  2. Raysa disse:

    Olá, que lindo trabalho!
    Tenho interesse de adquirir o material, como é possível solicitá-lo?
    Nesse link http://www.caboquesilustrado.com.br/produto/produto-rascunho-2014-06-10-17-40-16.html aparece como indisponível. :(
    Abraço

  3. Eliane Marinho disse:

    Gostaria muito de ter a oportunidade de ouvir essas musicas, um acervo cultural de nossa terra. Será que vou conseguir???? Vcs vão fazer algo a respeito para os interessados! Amo tudo que é indígena, tenho no sangue , minha bisavó! Infelizmente não nos passou conhecimento e experiencia desse povo que respeito….os donos do Brasil!

  4. Ederson disse:

    Olá, na verdade o acervo está no link https://soundcloud.com/musicadascachoeiras/tracks. O link passado na reportagem inclui outras coisas (inclusive Joan Baez).

    • Amazônia Real disse:

      Olá Ederson, obrigada pelo contato. O link que está na matéria (que foi atualizada) foi nos passado pelo coordenador do projeto. Fizemos o teste acessando novamente é o mesmo que você escreveu. Um abraço.

  5. Renata disse:

    Boa noite.Parabéns a equipe pela iniciativa, avante pois a causa é nobre. Gostaria muito de poder escutar este acervo de canções, agradeço desde já. _/\_

  6. Renata disse:

    Olá boa noite..Gostaria muito de poder escutar esse acervo de canções. Parabéns pela iniciativa. agradecida _/\_

  7. Arkhos disse:

    Parabéns pelo trabalho, gostaria muito de adquirir o material sonoro se for possível. Agradeço desde já! Meu email é gabrielq01@hotmail.com

  8. Felipe Sousa Cerqueira disse:

    Boa tarde, pessoal. Tenho muito interesse em adquirir o material sonoro. Como faço para isso acontecer?

  9. maura maria santos moreira disse:

    tem que haver maior divulgação deste trabalho.

  10. Éder Zanatelli Lourenço Barbosa disse:

    Parabéns pelo trabalho! Sou professor de música e vou trabalhar a música indígena. Como faço para adquirir um livro-CD?

  11. Raiane Marra Assunção disse:

    Gostaria de saber onde consigo baixar essa preciosidade, pois não há a opção de download no site, ou como posso comprar o cd. Gratidão!

  12. Nadir Nóbrega Oliveira nadirnobrega@hotmail.com disse:

    SENSACIONAL. MARAVILHOSO. EDUCATIVO.

  13. Eva Seiberlich disse:

    Gostaria de fazer contatos.
    Estou em Roraima, pesquiso o indigena e conheco o poeta Eliakin.

  14. Paulo Ró disse:

    O Brasil estava precisando disso, a cultura indígena é riquíssima e precisa chegar ao conhecimento do povo brasileiro. PARABENS!!!

  15. J Eduardo Dantas disse:

    O projeto é interessantíssimo e vale muito a pena ficar ali no site buscando e descobrindo coisas. Parabéns pela matéria, Lalá!!

  16. giustina zanato disse:

    Sempre me emociono quando vejo o escuto musicas do Alto Rio Negro….é algo que está dentro do coração e da minha vida…

  17. Suelen disse:

    Belo trabalho, só tenho a agradecer por compartilhar isso com a gente!!! Parabéns!!!!!

  18. María José Sommer disse:

    Que alegria saber da realização deste trabalho! Como admiradora da cultura indígena e do trabalho da etnomusicología fico agradecida por esta grande contribuição a sociedade!

  19. Isabelle disse:

    A marca NATURA explora muito o meio ambiente, é importante que faça projetos para VALORIZAR, e MELHORAR a vida ambiental.

  20. Ana Cristina Ues disse:

    Parabéns pelo trabalho,com certeza houve mais aprendizado do que ensinamento,mais uma vez meus parabéns!!

  21. PAULO HENRIQUE ALVES disse:

    TRABALHO GRANDIOSO E LINDO!! PARABÉNS A TODOS!!!

  22. Rosa Tereza Rodrigues disse:

    Sensacional!!!Lindo …lindo…. e isso é realmente BRASIL MUSICAL!

  23. Felipe de Paula disse:

    Que projeto! Não cabe nem adjetivar, fico só na exclamação! Ele me falou disso na época em que estava escrevendo, e parece que já tem outro à vista! Esse moleque é bom! E ainda toca na Alaíde Negão. Arrebenta, Amazônia Real, um choque de realidade na imprensa mundial! Parabéns!

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