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Ahko (água): o cosmo e a terra em equilíbrio

16/03/2015 19:11

JOÃO PAULO BARRETO

No mês de outubro de 2014, encontrei com três lideranças indígenas do Alto Rio Negro, no Amazonas, uma região que localiza no extremo norte do Brasil, denominada de “Cabeça do cachorro”. Retornavam de Brasília, onde participaram de uma reunião no Ministério da Saúde, e honrosamente fui convidado para almoço com eles. Durante o encontro comentavam sobre a saúde indígena, da inoperância da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), dos atrasos de repasse de recursos, da corrupção institucionalizada, da falta de remédio, da morte dos indígenas, etc. Mas o novo assunto na conversa estava a seca que assolava o Estado de São Paulo.

O que a população do Alto Rio Negro conhece sobre São Paulo ou sobre a região sudeste do Brasil é pelos livros didáticos, pelo noticiário da televisão, ou pelos pesquisadores que viajam para a região. São Paulo cidade de grandes prédios, cidade de tecnologia. Estado de grandes fábricas – de carros, aviões, navios, tratores, caminhões, roupa, sapato, cachaça, vinho, uísque. São Paulo, um Estado de agronegócios, um pedaço mais rico do país e mais desenvolvido. De repente, uma seca incomum na região, reservatórios de água em situação crítica e falta de água nas torneiras de casas.

Chocados com a situação que presenciaram e depois de longos comentários, na tentativa de entender a causa principal da seca, uma das lideranças do povo Tukano me direcionou o olhar e disse: “Você, nosso parente que é antropólogo, poderia escrever aos parentes ‘brancos’ para dizer que agora podemos conversar de igual pra igual?”[1].

“Nós temos onze milhões e meio de hectares de terras demarcadas, que foi conquistada com muita luta. Temos cem por cento de floresta preservada, temos fontes de nascentes de rios, temos rios com extensões gigantescas e temos água para dar e vender.”

O líder indígena Tukano continuou sua fala: “Longos anos lutamos contra o Estado brasileiro e com os políticos, pois nossos sábios que já morreram diziam que deveríamos lutar para garantir nossa sobrevivência. Disseram que um dia a floresta e água iam acabar, pois vinham chegando gente ‘branca’ para devorava tudo que encontrava na terra, da mesma forma como as formigas devoram um roçado de mandioca. Alguns anos atrás, quando os conhecedores (pajés) falavam sobre a possibilidade de floresta e água acabar, era quase impossível acreditar. Mas também, nos alertavam para lutar contra os nossos parentes brancos que queriam destruir a floresta para transformar em dinheiro e fazer da terra uma escrava de seus interesses econômicos. Num tom de praga, desabafou, a reação da natureza começou e não vai parar enquanto eles tomarem os recursos naturais como dinheiro, pois a natureza é frágil e cada uma delas tem o seu responsável. Nós devemos necessariamente comunicar com eles antes de usufruir o recurso. A seca no Estado de São Paulo é consequência de não comunicação com os seres, chamados de wai-mahsã, responsáveis das coisas e dos animais”.

Os povos indígenas possuem explicações próprias sobre as origens das coisas, da natureza e o meio ambiente e tem a forma própria de organizar o cosmo e os ambientes. Nós, povo Tukano, organizamos o mundo em quatro grandes espaços – água, terra, floresta e atmosfera. Cada espaço é ordenado em espaços menores. Por exemplo, o espaço água,  é ordenado em igarapés, lagos e rios, das quais são denominados de casas de Wai-mahsã, ou seja, moradas de  humanos invisíveis, responsáveis das coisas e dos animais dos lugares[2].

Os wai-mahsã são seres que possuem as mesmas qualidades e capacidades dos humanos, inclusive sua morfologia, mas que não são visíveis pelas pessoas comuns e/ou na vida cotidiana.  Eles só podem ser vistos por um especialista, isto é, yai ou kumu, conhecidos como pajés. Esses seres são, por fim, a própria extensão humana, devendo sua existência e reprodução ao fenômeno do devir, isto é, a continuidade da vida após a morte, sendo assim a origem e o destino dos humanos, seu início e seu fim.

Existem waimahsã responsáveis pelos principais recursos naturais, por exemplo, Muhipu – é responsável pelo sol e pela chuva. Desuhbari-oãku – é responsável pelos animais e pelos peixes. Bahsebo-oãku – responsável pelas plantações e árvores frutíferas.

É com estes waimahsã responsáveis e habitantes de diferentes ambientes é que os especialistas indígenas (pajés) se comunicam e pedem licença para usufruir recurso que está sob sua responsabilidade. Caso não haja comunicação e pedido de licença, podem ocorrer sérios conflitos entre humanos e wai-mahsã, isto é, os responsáveis podem parar de fornecer os recursos naturais. Portanto, o respeito e a comunicação com tais seres é sempre uma necessidade para os povos indígenas, e único meio de manter o cosmo e a terra equilibrados.

Enfim, chamar de “parente” entre as lideranças e povos indígenas do Brasil é bastante peculiar, isso se deve pelo motivo de lutas comum que se protagonizam ao longo de décadas. Nesse sentido, chamar de “parente” significa convidar para luta, ou seja, um convite para lutar contra nossa própria ambição de riqueza monetário e lucro.

 

[1] O pedido da liderança Tukano, ainda está em fase de esboço

[1] BARRETO, João Paulo Lima, 2014. WaiMahsã: peixes e humanos – Um ensaio de Antropologia Indígena.

 

João Paulo Barreto é indígena da etnia tukano, nascido na aldeia São Domingos em São Gabriel da Cachoeira (AM). É graduado em Filosofia e mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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Comentários

  1. Ariana Silvia Souza de Oliveira disse:

    Antes de qualquer coisa eu gostaria deixar claro todo o meu respeito também pela cultura desses povos. Tenho acompanhado as publicações dos textos de João Paulo Barreto e cheguei a ler quase todos, entre eles, eu lí o artigo dos Wai mahsã, eu adorei, gostei tanto que aproveitei como proposta de uma análise comunicacional para um projeto de iniciação científica e me surpreendo cada vez que acesso o Amazônia Real e vejo um discurso com autonomia e responsabilidade. Acredito também que quando desrespeitamos as regras da natureza, os espíritos protetores tendem a ter alguma reação, mas pena que poucos procuram conhecer ou saber a respeito disso. Parabéns João Paulo Barreto.

  2. Francisca Elizabeth Alexandre disse:

    Todo o meu respeito a cultura dos povos originário, o único povo que mantém uma relação de respeito e harmonia com a natureza, com nossa generosa mãe Terra.

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