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Alumínio e Barragens: 25 – ABAL sobre o efeito estufa

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27/06/2016 17:01

PHILIP M. FEARNSIDE

O presidente da ABAL apoiou sua alegação de que a energia hidrelétrica é energia “limpa” referindo-se aos estudos da companhia de energia hidrelétrica FURNAS indicando “100 vezes menos carbono” sendo emitido por uma barragem com seis a dez anos de idade, em comparação a geração da mesma quantidade de eletricidade a partir de combustíveis fósseis [1]. Vários problemas fazem isto uma imagem enganosa, particularmente para a barragem de Belo Monte que ABAL defende como “energia limpa” [1] (Veja tabela abaixo).

 

Hidrelétricas como energia “limpa” na visão da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) sobre a barragem de Belo Monte.


Alegação de ABAL


Problema


Barragens no estudo de FURNAS têm baixas emissões de carbono.



O estudo de FURNAS refere-se às barragens fora da Amazônia: o estudo foi feito nas barragens de Manso e de Serra da Mesa, ambas no bioma Cerrado, onde barragens têm emissões mais baixas do que em áreas de floresta tropical. Belo Monte e a grande maioria das barragens planejadas estão localizadas na Amazônia ([2], p. 77-78).


 


Barragens de 6-10 anos de idade têm baixa emissão


 


A idade de seis a dez anos mencionada pelo Presidente da ABAL se referindo as barragens do estudo de FURNAS é significativa porque uma hidrelétrica produz um enorme pico de emissão nos primeiros anos – uma dívida que pode levar décadas para ser paga na medida em que a eletricidade gerada gradualmente desloca emissões de usinas termelétricas. A implicação da afirmação da ABAL é que essa dívida é simplesmente perdoada, apenas comparando o equilíbrio instantâneo no sexto ou décimo ano.


 


Emissões de reservatório” são baixas



“Emissões de reservatório” referem-se ao fluxo através da superfície da água represada atrás da barragem. O estudo de FURNAS a qual a ABAL se aludiu usou uma metodologia que não mede a maior parte do metano lançado pela água que passa através das turbinas. Essa água é a principal fonte de emissões de metano (e.g., [3]). O estudo de FURNAS [4. 5] mediu fluxos de metano a jusante usando câmaras flutuando na superfície da água a uma distância abaixo da saída das turbinas (pelo menos 50 m a jusante). Infelizmente, muito do metano sai da água imediatamente à saída ou mesmo no interior das próprias turbinas. A única maneira prática para quantificar as emissões nas turbinas é pela diferença entre a concentração do metano na água acima da barragem (na profundidade das turbinas) e abaixo da barragem.


 


Barragens têm emissões baixas de “carbono” em comparação com a energia térmica



“Carbono” não é a questão, mas sim o impacto sobre o aquecimento global. Uma tonelada de carbono na forma de metano (CH4) emitida por uma barragem tem muito mais impacto do que uma tonelada de carbono na forma de dióxido de carbono (CO2) emitida por combustíveis fósseis. Considerando o potencial de aquecimento global (GWP) de 25 para o gás metano [6] adotado pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo para o período 2013-2017, significando que cada tonelada de gás metano tem o impacto de 25 toneladas de gás de CO2 ao longo de um período de 100 anos, cada tonelada de carbono emitido para a atmosfera na forma de metano tem o impacto de 9,1 toneladas de carbono como CO2. Se considerarmos as retroalimentações, o relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) calcula o GWP de CH4 para 100 anos como sendo 34 [7], ou seja, cada tonelada de carbono em forma de metano tem 12,4 vezes o impacto de uma tonelada de carbono de CO2. O mesmo relatório do IPCC também calcula um GWP de 86 para um horizonte de tempo de 20 anos, que é mais relevante para impedir o aumento da temperatura média global passar do limite de 2°C acordado desde 2009 como o nível “perigoso”, fazendo com que cada tonelada de carbono seja 31,3 vezes mais potente se for emitida na forma de CH4.


 

 

É significativo que a ABAL descarte qualquer informação da notória represa de Balbina, chamando esta barragem que inundou uma vasta área em troca de muito pouca energia, um exemplo de “erros cometidos no passado” que “não refletem a realidade dos lagos tropicais” [1]. Infelizmente, Balbina é muito relevante para Belo Monte e outras barragens planejadas. Os métodos para a estimativa de metano não dependem se a decisão de construir a barragem foi um erro. Balbina foi, de fato, um erro trágico que era óbvio antes daquela represa se tornar um fato consumado; Infelizmente, muitas das características do processo decisório que levou à construção dessa barragem ainda são evidentes hoje [8, 9].

Outros aspectos da experiência de Balbina são relevantes: a montante de Belo Monte a represa que é conhecida como “Babaquara” (embora tenha sido oficialmente renomeada “Altamira”, aparentemente em uma tentativa de minimizar o efeito de anos de críticas dos planos) teria uma área de 6.140 km2, ou mais que o dobro de Balbina. O reservatório teria uma variação vertical de 23 m do nível de água, tornando-se uma enorme “fábrica de metano” [10-12].

O texto da ABAL sugere que altas emissões de gases de efeito estufa em represas amazônicas estão restritas à Balbina (onde as emissões diretamente medidas excedem as de combustíveis fósseis, mesmo décadas depois que a represa foi construída em 1987: [13, 14]. No entanto, emissõe altas também foram diretamente medidas na hidrelétrica de Petit Saut, na Guiana Francesa, (e.g., [3, 15]) e foram calculadas com base nos dados disponíveis das barragens de Tucuruí, Samuel e Curuá-Una no Brasil [16-18]. Embora haja uma variação substancial entre barragens nas suas emissões e na quantidade de energia que produzem, o padrão de barragens da Amazônia produzem emissões mais elevadas do que os combustíveis fósseis durante longos períodos é, na verdade, bastante geral.

No caso de Belo Monte, mais Babaquara, calculou-se o tempo necessário para zerar a dívida em termos de emissões de gases de efeito estufa em 41 anos [11]. Isto é baseado na conversão de CH4 em CO2-equivalentes a partir do segundo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) e usada pelo Protocolo de Quioto. Revisões posteriores aumentaram consideravelmente o impacto de metano quando comparado ao CO2, e, portanto, o impacto das barragens se comparado a combustíveis fósseis (ver Tabela 3).

Os impactos das barragens a montante na inundação de grandes áreas de floresta tropical em terras indígenas, além de produzir metano, fazem Belo Monte, e o alumínio produzido a partir da sua energia, em nada limpa. Deve-se lembrar que a energia para a produção de alumínio não é exclusivamente produzida por barragens. Quando os níveis dos reservatórios são baixos, energia é fornecida às fábricas de alumínio a partir de usinas termelétricas. Essas emitem gases de efeito estufa, entre outros impactos [19].  

 

NOTAS

[1] Política Ambiental nº 7. Disponível em: http://www.conservacao.org/publicacoes/files/politicaambiental7_replica.pdf

[2] Brasil, MME (Ministério das Minas e Energia). 2012. Plano Decenal de Expansão de Energia 2021. MME, Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Brasília, DF. 386 p. Disponível em: http://www.epe.gov.br/PDEE/20120924_1.pdf

[3] Abril, G., Guérin, F., Richard, S., Delmas, R., Galy-Lacaux, C., Gosse, P., Tremblay, A., Varfalvy, L., dos Santos, M.A., Matvienko, B. 2005. Carbon dioxide and methane emissions and the carbon budget of a 10-years old tropical reservoir (Petit-Saut, French Guiana). Global Biogeochemical Cycles 19, GB 4007 doi: 10.1029/2005GB002457

[4] Ometto, J.P., Pacheco, F.S., Cimbleris, A.C.P., Stech, J.L., Lorenzzetti, J.A., Assireu, A., Santos, M.A., Matvienko, B., Rosa, L.P., Galli, C.S., Abe, D.S. Tundisi, J.G., Barros, N.O., Mendonça, R.F., Roland, F. 2011. Carbon dynamic and emissions in Brazilian hydropower reservoirs. In: de Alcantara E.H. (ed.) Energy Resources: Development, Distribution, and Exploitation. Nova Science Publishers, Hauppauge, NY, E.U.A. p. 155-188.

[5] Ometto, J.P., Cimbleris, A.C.P., dos Santos, M.A., Rosa, L.P., Abe, D., Tundisi, J.G., Stech, J.L., Barros, N., Roland, F. 2013. Carbon emission as a function of energy generation in hydroelectric reservoirs in Brazilian dry tropical biome. Energy Policy 58: 109-116. doi:10.1016/j.enpol.2013.02.041

[6] Forster, P. & 50 outros. 2007. Changes in Atmospheric Constituents and Radiative Forcing. In: Solomon, S.; Qin, D.; Manning, M.; Chen, Z.; Marquis. M.; Averyt, K.B.; Tignor, M.; Miller, H.L. (eds.) Climate Change 2007: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group to the Fourth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge University Press, Cambridge, Reino Unido. p. 129-234.

[7] Myhre, G. & 37 outros. 2013. Anthropogenic and natural radiative forcing. In: Stocker, T.F., Qin, D., Plattner, G.-K., Tignor, M., Allen, S.K., Boschung, J., Nauels, A., Xia, Y., Bex, V., Midgley, P.M. (eds.). Climate Change 2013: The Physical Science Basis. Working Group I Contribution to the IPCC Fifth Assessment Report. Cambridge University Press, Cambridge, Reino Unido, p. 661-740. Disponível em: http://www.ipcc.ch/report/ar5/wg1/

[8] Fearnside, P.M. 1989. Brazil’s Balbina Dam: Environment versus the legacy of the pharaohs in Amazonia. Environ Management 13: 401-423. doi: 10.1007/BF01867675

[9] Fearnside, P.M. 2006. Dams in the Amazon: Belo Monte and Brazil’s hydroelectric development of the Xingu River Basin. Environmental Management 38: 16-27 doi: 10.1007/s00267-005-00113-6

[10] Fearnside, P.M. 2008. Hidrelétricas como “fábricas de metano”: O papel dos reservatórios em áreas de floresta tropical na emissão de gases de efeito estufa. Oecologia Brasiliensis 12: 100-115 doi: 10.4257/oeco.2008.1201.11

[11] Fearnside, P.M. 2009. As hidrelétricas de Belo Monte e Altamira (Babaquara) como fontes de gases de efeito estufa. Novos Cadernos NAEA 12: 5-56.

[12] Fearnside, P.M. 2011. Gases de efeito estufa no EIA-RIMA da Hidrelétrica de Belo Monte. Novos Cadernos NAEA 14: 5-19.

[13] Kemenes, A., Forsberg, B.R., Melack, J.M. 2007. Methane release below a tropical hydroelectric dam. Geophysical Research Letters 34: L12809. doi:10.1029/2007GL029479. 55.

[14] Kemenes, A., Forsberg, B.R., Melack, J.M. 2008. As hidrelétricas e o aquecimento global. Ciência Hoje 41(145): 20-25.

[15] Guérin, F., Abril, G., Richard, S., Burban, B., Reynouard, C., Seyler, P., Delmas, R. 2006. Methane and carbon dioxide emissions from tropical reservoirs: Significance of downstream rivers. Geophysical Researh Letters 33: L21407. doi: 10.1029/2006GL027929

[16] Fearnside, P.M. 2002. Greenhouse gas emissions from a hydroelectric reservoir (Brazil’s Tucuruí Dam) and the energy policy implications. Water, Air and Soil Pollution 133: 69-96. doi: 10.1023/A:1012971715668

[17] Fearnside, P.M. 2005a. Brazil’s Samuel Dam: Lessons for hydroelectric development policy and the environment in Amazonia. Environmental Management 35: 1-19. doi: 10.1007/s00267-004-0100-3

[18] Fearnside, P.M. 2005b. Do hydroelectric dams mitigate global warming? The case of Brazil’s Curuá-Una Dam. Mitigation and Adaptation Strategies or Global Change 10: 675-691. doi: 10.1007/s11027-005-7303-7

[19] Isto é uma tradução parcial de Fearnside, P.M. 2016. Environmental and social impacts of hydroelectric dams in Brazilian Amazonia: Implications for the aluminum industry. World Development 77: 48-65. doi: 10.1016/j.worlddev.2015.08.015. As pesquisas do autor são financiadas pelo Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (proc. 304020/2010-9; 573810/2008-7), pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) (proc. 708565) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) (PRJ1).  

 

Leia também os outros artigos da série:

Alumínio e Barragens: 1 – Resumo da série

Alumínio e Barragens: 2 – Decisões sobre barragens na Amazônia

Alumínio e Barragens: 3 – O primeiro passo para revisar a política energética

Alumínio e Barragens: 4 – A “maldição dos recursos naturais”

Alumínio e Barragens: 5 – O alumínio e a construção de hidrelétricas

Alumínio e Barragens: 6 – Exportando energia e importando impactos

Alumínio e Barragens: 7 – A “mão invisível” da economia

Alumínio e Barragens: 8 – Retornos econômicos

Alumínio e Barragens: 9 – O alumínio e o emprego

Alumínio e Barragens: 10 – Empregos indiretos

Alumínio e Barragens: 11 – O que é alumínio “consumido”?

Alumínio e Barragens: 12 – Energia incorporada no comércio

Alumínio e Barragens: 13 – Alumínio nos mercados internacionais

Alumínio e Barragens: 14 – A busca de energia barata

Alumínio e Barragens: 15 – O contexto da política energética

Alumínio e Barragens: 16 – Reforma da política energética

Alumínio e Barragens: 17 – O papel da corrupção

Alumínio e Barragens: 18 – Perdas à inundação

Alumínio e Barragens: 19 – Os impactos a jusante

Alumínio e Barragens: 20 – Impactos a montante

Alumínio e Barragens: 21 – Contaminação por mercúrio

Alumínio e Barragens: 22 -Transformação de Mercúrio em veneno

Alumínio e Barragens: 23 – Cascatas de barragens

Alumínio e Barragens: 24 – Hidrelétricas e o aquecimento global  

 

Philip M. Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e também coordena o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 500 publicações científicas e mais de 200 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis neste link.

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