Cultura

Artista faz instalação com Terra Preta de Índio no Paiol da Cultura do Inpa

14/06/2017 19:39

Chamada de Nem tudo que reluz é ouro, a intervenção da artista plástica Simone Reis destaca a importância dos povos da Amazônia (Foto: Keila Serruya) 

 

A busca frenética pelo ouro nas novas terras americanas descobertas no fim do século 15 levou os europeus a eliminar qualquer tipo de barreira que viesse a travar essa busca. Isso incluía até mesmo dizimar populações indígenas inteiras.

A cegueira pelo minério impedia os invasores de enxergar outras riquezas que o Novo Mundo poderia lhes proporcionar – incluindo a vida destes índios e sua abundância cultural e as ferramentas tecnológicas obtidas a partir da relação com a floresta.  

Essa é a mensagem que a artista plástica Simone Fontana Reis tenta passar na instalação “Nem tudo o que reluz é ouro”, que foi inaugurada no dia 14 de junho e segue temporada até 20 de agosto no Paiol da Cultura do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus.

O trabalho tem como matéria-prima principal a Terra Preta de Índio, solo de grande riqueza orgânica e encontrado nas regiões da Bacia Amazônica.

Foto: Keila Serruya

Foto: Keila Serruya

Simone espalhou compostos da Terra Preta de Índio nas paredes do Paiol da Cultura. Com uso de réplica de cacos cerâmicos de povos pré-colombianos, a artista transformou essas peças em bronze que, em contato com a terra, emitem brilho semelhante ao do ouro cobiçado pelos europeus.

Daí vem o título da exposição “Nem tudo o que reluz é ouro”.  “Sedentos por achar ouro, não enxergaram o verdadeiro Eldorado: um método de cultura e estilo de vida totalmente adaptado ao ambiente, à forma como transformavam a paisagem, enriquecendo o solo, nada desperdiçando”, explica Simone Fontana Reis.

De acordo com ela, a instalação tem como uma de suas mensagens a importância dos povos nativos americanos – em especial os da Amazônia – suas riquezas, além de resgatar as culturas destes povos.

A partir de grafismos feitos nas peças cerâmicas, Simone Reis tenta mostrar a relevância das mulheres nestas sociedades indígenas ancestrais. Na concepção da artista, a tecnologia de “produção” da terra preta era passada de mãe para filha, numa espécie de “herança silenciosa”.

A técnica para que este solo seja organicamente rico estaria na mistura de vários componentes naturais com a terra, o que inclui plantas, restos de alimentos, excrementos e cacos cerâmicos.

Com baixo teor de oxigênio, estes elementos eram submetidos a uma queima filtrada, fazendo com que todos os nutrientes ficassem retidos nessa composição. Essas explicações estão no livro Terra Preta, da socióloga alemã Ute Scheub.

Segundo o Inpa, a instalação “Nem tudo que reluz é ouro é resultado de uma imersão artística no programa Labverde. Simone Reis passou 15 dias na Reserva Florestal Adolpho Ducke do Inpa, que fica na zona de Manaus. Lá, a artista entrou em contato com pesquisador Charles Clement, um dos defensores da teoria da domesticação da Amazônia, e de quem recebeu a inspiração. Ao todo, foram seis meses de pesquisa até a conclusão de sua obra.  

“Sinto-me honrado que a Simone se inspirou em minha apresentação sobre como os povos nativos da Amazônia haviam domesticado plantas, um animal (o pato) e, sobretudo, as florestas de um bioma antes da conquista pelos europeus em 1.500 d.C.”, diz Clement, que participou da inauguração da intervenção. “Sua apresentação oferece uma crítica a nossa sociedade moderna, que não encontra um caminho de desenvolvimento na Amazônia, muito menos um caminho sustentável”, concluiu o pesquisador.

Para um dos visitantes que prestigiou a inauguração da instalação “Nem tudo que reluz é ouro”, o repórter-fotógrafo Alberto Cesar Araújo, o tema tem uma ligação direta e emocional com ele, pois vem de uma família de Urucurituba, município onde há um grande sítio arqueológico. “E essas coisas mexem com minhas lembranças de infância pelos relatos de meus pais e avós que achavam nos quintais de suas casas cerâmicas e artefatos arqueológicos. E isso ficou no meu imaginário”, diz Araújo.

Ele conta ainda que teve a oportunidade de acompanhar, há mais de 15 anos, os arqueólogos Eduardo Góes Neves e Carlos Augusto da Silva (Tijolo) antes de formatarem o projeto de arqueologia Amazônia Central da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Simone Fontana Reis e Charles Clement (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Simone Fontana Reis e Charles Clement (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Na opinião do artista, pintor, professor e escultor Turenko Beça, o trabalho conceitual de Simone Reis é sensacional porque usou a Terra Preta de Índio para fazer a pintura e ocupar o espaço da galeria, além de trazer réplicas de achados arqueológicos, numa preocupação da busca da ancestralidade e dos vestígios da humanidade. “A Amazônia pré-colombiana é muito rica nesses achados, então quando ela ocupa e instala na parede esses achados a impressão que dá é que você está de fato numa escavação arqueológica”.   

Para a arqueóloga Margarete Cerqueira, que também visitou a instalação da artista Simone Reis, o trabalho com réplicas de fragmentos cerâmicos é uma nova forma de se ver e, nesse contexto e na perspectiva das artes visuais, tratar o tema da Terra Preta de Índio junto com os fragmentos cerâmicos, que são vestígios da cultura material do passado, é inédito é muito profícuo. “Comumente nós arqueólogos encontramos esse contexto de cerâmica e de terra preta no solo e no subsolo, e temos aqui uma parede, um perfil e isso é extremamente interessante”.    

De acordo com o Inpa, o estudo da Terra Preta de Índio comprova que a Floresta Amazônica, que por séculos foi idealizada como uma paisagem intocada, inabitada, verde e virgem, é na verdade um imenso jardim cultivado – uma floresta antropogênica que revela valiosos conhecimentos sobre nossos antepassados, seus hábitos, crenças, comportamentos e organização social.

“Os povos nativos estavam terra-formando a Amazônia, quando Pedro Alvares Cabral apareceu e interrompeu o processo. Foi por meio da confecção da Terra Preta e o cultivo sustentável, fruto de observação, inspirações e experiências dos habitantes nativos, que se tornou possível a vida de diversas civilizações sofisticadas e densas na Amazônia nos milênios antes da conquista”, diz o Inpa.

Nem tudo que reluz é ouro”, intervenção da artista plástica Simone Reis (Foto: Keila Serruya)

Nem tudo que reluz é ouro”, intervenção da artista plástica Simone Reis (Foto: Keila Serruya)

O Labverde é um programa voltado para criadores que desejam compreender e refletir sobre a natureza e a paisagem. Uma vivência intensiva, na área natural mais importante do planeta, para estreitar as relações entre a ciência, a arte e o meio ambiente.

Simone Fontana Reis nasceu em São Paulo, 1965. Fez mestrado em Londres, na Central Saint Martins College of Art and Design, graduou-se em 2014. Suas práticas e expressões artísticas navegam entre pinturas, esculturas, instalações e vídeo. Por ser uma apaixonada por florestas, há 20 anos, a artista pesquisa plantas e orquídeas. O interesse pela floresta levou-a a descoberta da comunidade indígena Kadiueu no Brasil Central, povo que ela visita regularmente, deixando-se influenciar por seus desenhos. Participou de diversas exposições em Londres, São Paulo, Nova Iorque e Suécia, onde viveu por oito anos. No seu trabalho de colaboração com cientistas na London School of Tropical Medicine, teve seu trabalho premiado. Foi nominada para New Sensation – 2014 pela Saatchi Art e Hot-One-Hundred – Schwartz Gallery, Londres. Em 2016, participou da residência Labverde, onde entrou em contato com pesquisadores do Inpa. Participa neste momento do 66º Salão Paranaense no Museu Oscar Niemayer – Curitiba (PR).

 

Instalação: Nem tudo que reluz é ouro

Local: Paiol da Cultura – Bosque da Ciência do Inpa

Endereço: rua Bem Te Vi (antiga Rua Otávio Cabral) s/nº – Petrópolis

Visitação: de 14 a 20 de agosto

Dia e horário: terça a sexta-feira, das 9h às 12h e das 14h às 16h30

Sábados e domingos das 9h às 16h30

Entrada:  franca no Paiol

Informações: 92 3643-3192/6343-3293

Manaus, AM 14/06/2017 - Abertura da instalação de arte "Nem tudo que reluz é ouro" de Simone Fontana Reis, uma obra baseada em inquéritos do inpa sobre terra escura (Inpa-Instituto Nacional de pesquisas da Amazônia). Através da arte visual, Simone faz uma interpretação sobre o solo, ampliando a discussão sobre a terra escura e conectando investigação pertinente sobre ecologia, Agronomia, arqueologia e antropologia.A instalação estará em exposição a partir de 15 de junho até 20 de agosto no paiol da cultura no Bosque da Ciência, No INPA.(Foto:Alberto César Araújo/Amazônia Real)

O ambiente da instalação tem pouca luz, o que leva o público descobrir o sentido de “Nem tudo que reluz é ouro” (Foto :Alberto César Araújo/Amazônia Real)

 

Notícias relacionadas

Deixe seu comentário

Leitores e leitoras, seus comentários são importantes para o debate livre e democrático sobre os temas publicados na agência Amazônia Real. Comunicamos, contudo, que as opiniões são de responsabilidade de vocês. Há moderação e não serão aprovados comentários com links externos ao site, ofensas pessoais, preconceituosas e racistas. Agradecemos.

Translate »