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Belo Monte- Atores e argumentos: 2 – A pergunta do por quê

30/08/2017 20:01

O Rio Xingu tem uma das maiores variações anuais na vazão de água de todos os afluentes do Rio Amazonas, com vazões na época da enchente até 60 vezes aquelas da época da vazante. Durante três meses do ano no período de baixa vazão o rio tem água insuficiente para uma única turbina dentre as 20 turbinas na casa de força principal, de 11.000 MW, deixando apenas a casa de força auxiliar de 233 MW em operação.

Belo Monte é uma barragem a fio d´água, não uma barragem de armazenamento, e a sua geração elétrica, portanto, depende inteiramente da vazão diária do rio. Como as turbinas são a parte mais cara de qualquer projeto hidrelétrico, a construção de uma barragem que deixa 11.000 MW inativos por três meses é difícil de explicar como decisão econômica e financeira.

A resposta para como uma barragem nessas condições poderia vir a ser considerada reside nos planos oficialmente negados para construir outras barragens rio acima de Belo Monte, a fim de armazenar água para ser liberada durante o período de baixa vazão. Essas barragens inundariam vastas áreas de terra indígena. As proteções nas leis do Brasil, a Constituição e os acordos internacionais foram ignorados repetidamente na medida em que o projeto de Belo Monte avançou [1].

Os esforços de oposição da população local, organizações ambientalistas e dos direitos humanos, e a comunidade acadêmica foram muito maiores do que nos casos de outras represas amazônicas de alto impacto, tais como aquelas nos Rios Tapajós e Madeira. No entanto, o projeto avançou inexoravelmente até tornar Belo Monte um fato consumado.

O projeto de barragem era imune a todos os argumentos – lógicos, jurídicos e morais – e foi bem sucedido na obtenção de suporte nas agências governamentais que o promoveram, nos bancos que o financiaram e nas empresas que investiram nele. Como isso chegou a acontecer e que lições podem ser aprendidas? [3]

 

Notas

[1] Fearnside, P.M. 2017. Brazil’s Belo Monte Dam: Lessons of an Amazonian resource struggle. Die Erde 148(2-3) doi: 10.12854/erde-148-26 (no prelo).

[2] Fearnside, P.M. 2017. Belo Monte: Actors and arguments in the struggle over Brazil’s most controversial Amazonian dam. Die Erde 148(1): 230-243. doi: 10.12854/erde-147-18.

[3] As pesquisas do autor são finaciadas exclusivamente por fontes acadêmicas: Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq: proc. 305880/2007-1; 5-575853/2008 304020/2010-9; 573810/2008-7), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM: proc. 708565) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA: PRJ15.125). Agradeço a Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça pelos comentários. Esta é uma tradução atualizada de [2].

 

A fotografia que ilustra este artigo é de Vitória do Xingu, no Pará (PR)

 

 

Leia o primeiro artigo da série: Belo Monte – Atores e argumentos: 1 – Resumo da série

 

Philip M. Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e também coordena o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 500 publicações científicas e mais de 200 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis neste link

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