Cultura

Belo Monte: Depois da inundação, uma história contada por Todd Southgate

24/02/2017 11:18

Cineasta relata os impactos socioambientais da construção da usina hidrelétrica para os povos da Volta Grande do Xingu, no Pará.  

 

Todd Southgate, 50 anos, é um cineasta canadense com formação em jornalismo e mestrado em Estudos Ambientais pela York University. Começou sua carreira muito jovem como cinegrafista. Até que Robert Hunt, cofundador da organização ambientalista internacional Greenpeace, cruzou seu caminho. Todd começou a produzir documentários ambientalistas sobre a caça a focas, a pesca predatória e o desmatamento no Canadá. Também trabalhou com o cineasta James Cameron, o ator Arnold Schwarzenegger e inúmeras organizações ambientais como a Amazon Watch, International Rivers, Action Aid e Conservation International. O canadense também documentou uma parte da viagem da Família Schurmann, os primeiros brasileiros a dar a volta ao mundo em um veleiro.

Hoje com mais de 60 produções no currículo, Todd dirige a fotografia de uma nova série do Discovery Channel Animal Planet e acaba de lançar o filme “Belo Monte: Depois da Inundação”. No filme o cineasta faz um paralelo entre o processo de construção da Usina Hidrelétrica Belo Monte, em Altamira, no Pará, com os impactos na vida das populações afetadas pela obra na região da Volta Grande do Xingu. Narrado pelos atores Marcos Palmeira (em português) e Peter Coyote (em inglês), a obra faz um alerta sobre como os megaprojetos do governo brasileiro interferem no cotidiano e na cultura dos povos da floresta, o que Todd chama de “ferramenta” de transformação.

O filme “Belo Monte: Depois da Inundação” começou a ser produzido em 2009. Seu pré-lançamento aconteceu no final de 2016. No Festival Festcine Amazônia, a obra ganhou o Prêmio do Júri Popular. Foi também selecionado para o festival do Colorado, nos Estados Unidos. No Rio de Janeiro, o filme foi apesentado na quinta-feira (23) no evento “Diálogos da Resistência: lideranças do Rio Xingu e do Rio Tapajós”, na Casa Pública.

Todd Southgate produz filmes há pelo menos 25 anos, sempre com o viés ambiental. Ele procura dar voz às comunidades menos representadas pela mídia tradicional. Conheci Todd há pelo menos 10 anos quando trabalhava para o Greenpeace. Nunca tinha estado com um profissional da imagem tão completo. Ele é capaz de produzir um documentário praticamente só. Como no filme “Desculpe Pelo Transtorno: A História do Bar do Chico”, vencedor de vários festivais de cinema, e que narra a história de um bar em Florianópolis (SC), onde Todd mora.

O que impressiona em Todd é sua dedicação e entrega às causas ambientais na Amazônia, respeitado pelas lideranças indígenas, pelos caboclos, e, sem dúvida, desafeto de muitos ruralistas, madeireiros e “autoridades” regionais. Mistura-se e integra-se ao cotidiano caboclo, como quem entrou no Brasil pelo portão Norte.  Leia a seguir a entrevista com o cineasta.

Todd Southgate com crianças do Xingu (Foto Reprodução Facebook).

Todd Southgate com crianças do Xingu (Foto: Reprodução Facebook).

 

Amazônia Real – Como você se envolveu com a questão de Belo Monte?

Todd Southgate – Em 2009 fui convidado por uma ONG a participar de um evento na Aldeia Piaraçu, na Terra Indígena Capoto/Jarina, quando vários grupos indígenas, incluindo os Kayapó e os Juruna, estariam presentes para discutir o projeto de Belo Monte com representantes da mídia e do governo. No entanto, não houve o comparecimento de representantes da mídia ou do governo. Eu já havia ouvido falar sobre Belo Monte, mas não imaginava o nível de desrespeito que os proponentes do projeto impuseram aos povos afetados. Eu fiquei chocado e desde aquele momento passei a querer ajudar e me dedicar a dar visibilidade aos fatos.

 

Amazônia Real – Quantas viagens você fez para realizar o filme? 

Todd – No total, desde 2009, eu fui para aquela região 10 vezes. Às vezes sozinho, ou com outras ONGs. Uma das vezes foi para participar de um projeto com as Nações Unidas, e duas vezes com a equipe do Amazon Watch e James Cameron. Mas o filme foca muito sobre outras três viagens. 

 

Amazônia Real – Qual a viagem que mais marcou e lhe emocionou?

Todd – Foi a canoada de 2015, uma expedição organizada pela Associação Indígena Yudjá Miratu da Volta Grande do Xingu (Aymix) e o ISA (Instituto Socioambiental). Foi uma expedição ativista que percorreu 110 km do rio Xingu a partir da cidade de Altamira de canoa, e a gente montou acampamento todas as noites. Foram dois meses antes da inundação do reservatório de Belo Monte. Foi uma linda aventura, pois, o Xingu é um dos rios mais lindos do mundo, mas também foi super triste porque sabíamos que logo depois tudo mudaria.

 

Amazônia Real – Conte um pouco como foi a fase de documentar também o processo de desintegração social que ocorreu, como em Altamira com a construção da Usina Belo Monte?

Todd – Os efeitos de um projeto dessa magnitude são enormes e afetaram muitas pessoas. Foram feitas muitas promessas sobre o progresso, e como a cidade de Altamira se beneficiaria de empregos e novas infraestruturas. Em 2010, trabalhei com alguém que produziu um programa para as Nações Unidas, e uma grande parte do foco do projeto estava na cidade. Quando voltei em março passado, após o primeiro teste da turbina da barragem, foi natural e até óbvio ir conversar com os grupos que trabalhavam ou viviam na cidade para compreender o que realmente estava acontecendo. Boa parte das muitas promessas não foram cumpridas. Havia uma avaliação antes da construção da represa com aprovação de 80%; agora, essa avaliação de aprovação está abaixo dos 40%. Que absurdo as pessoas não serem informadas sobre tudo que elas iriam passar antes da construção da barragem. Espero que este filme sirva como um aviso sobre outros possíveis projetos.

 

Amazônia Real – Qual sua opinião sobre o aumento da violência, os problemas de falta de infraestrutura e dos impactos socioambientais nas populações atingidas pela obra?

Todd – Trágico, realmente, trágico. Eu moro em uma cidade relativamente segura no Brasil (Florianópolis), não estou diretamente impactado pelo crescimento da violência em Altamira. Dito isso, tenho muita empatia com os que vivem lá e com os amigos que fiz (indígenas e não-indígenas) ao longo dos anos que estão tendo que passar por esta realidade bastante dura. Os problemas com a infraestrutura são horríveis, mas espero que, com o tempo, eles sejam resolvidos. Quando você está falando de violência, você está falando sobre vidas que estão sendo perdidas e que nunca mais voltarão, é uma tristeza imposta às famílias que nunca desaparece. 

Volta Grande do Xingú- Populações afetadas pelas obras de Belo Monte e Belo Sun (Foto: Todd Southgate)

Volta Grande do Xingú- Populações afetadas pelas obras de Belo Monte e Belo Sun (Foto: Todd Southgate)

Amazônia Real – Para a produção do documentário, o que foi mais difícil? Já que você trabalha na direção, edição e captação de imagens. E produção?

Todd – Sim, eu fui um dos produtores e, sim, eu investi uma quantidade significativa do meu próprio tempo pessoal e algum dinheiro também. Nós simplesmente não tínhamos os recursos para contratar uma equipe maior, mas era uma história que tinha que ser contada, e fizemos o nosso melhor com o pouco que tínhamos. Com a ajuda de grupos como International Rivers, Cultures of Resistance, UmVerteilen na Alemanha e Amazon Watch, conseguimos recursos suficientes para eu viajar até lá e cobrir os custos externos que estavam fora do meu controle- a narração, estúdios, trilhas sonoras e muito mais. Foi, como acontece com a maioria dos projetos de vídeo, um esforço de um grupo de pessoas. Não foi somente meu. Embora eu seja creditado por fazer quase toda a parte técnica, houve realmente apoio significativo ao longo de todo o processo. Brent Millikan, por exemplo. O filme simplesmente não teria sido possível se não fosse por ele. Outros ajudaram muito, Maria Paula Fernandes de Gota no Oceano, por exemplo. E Christian Poirier e o pessoal da Amazon Watch.

 

Amazônia Real – E da parte técnica? Você prefere trabalhar com equipes reduzidas, sozinho ou grande produção?

Todd – Eu não gosto de trabalhar com equipes muito grandes, mas eu também prefiro não trabalhar sozinho. Eu acho que uma equipe de três a cinco pessoas é perfeito. Não só para a assistência técnica, mas você tem outros olhares e ouvidos te acompanhando. Você pode trocar ideias. Acho que os projetos são mais ricos dessa forma. No entanto, quando o orçamento é apertado, você faz o que você tem que fazer para terminar o filme.

 

Amazônia Real – O documentário registra um espaço de tempo de quanto? Sete anos? Seis anos?  Nesse período, como jornalista que você também é, qual sua opinião sobre a cobertura da imprensa nacional e estrangeira sobre o tema Belo Monte?

Todd – Acho que a cobertura internacional foi péssima. Belo Monte deveria ter sido encarada como um assunto mundial a ser discutido muito seriamente, como o Dakota Pipeline foi nos EUA. Na verdade, se não fosse por James Cameron, eu acho que ninguém lá fora teria conhecimento sobre Belo Monte. Isso não é para minimizar o grande esforço e trabalho de grupos não-governamentais internacionais, ou para dizer que não há cobertura … O The Guardian [jornal britânico], por exemplo, fez uma grande cobertura, assim como a Al Jazeera. E houve aquele programa de 60 minutos na Austrália que fez um belo trabalho. Mas, por alguma razão, essa história realmente não moveu as pessoas ao redor do mundo de uma forma que eu pensei que deveria ter acontecido (mas isso é sempre uma queixa na mídia e sobre a mídia, não?). Nós também vivemos em um mundo louco, onde há todo o tipo de coisas loucas acontecendo e muita concorrência pela atenção do público. E foi desanimador – às vezes.

Com relação à mídia nacional, penso que a cobertura foi melhor, provavelmente porque era uma polêmica nacional, embora algumas coberturas eu achei tendenciosa e mal informada. Dito isso, ressalto que houve histórias maravilhosas produzidas no Brasil e uma decente cobertura na TV. Grandes documentários e muito mais. Claro, poderia ter sido muito melhor, e quando você está no meio de uma história, você sempre acha que a cobertura deve ser melhor, ou mais completa, ou o foco deveria ser diferente. Mas, pelo menos, todo mundo no Brasil conhece Belo Monte, ou ainda, já ouviu falar sobre o assunto. Agora, se você questionar alguém sobre Teles Pires, ou Jirau, ou os outros projetos e outras barragens na Amazônia, você percebe uma grande diferença.

Inundação na Volta Grande do Xingu, região afetada pela obra de Belo Monte (Foto: Todd Southgate)

Inundação na Volta Grande do Xingu, região afetada pela obra de Belo Monte (Foto: Todd Southgate)

Amazônia Real – O que você sentiu ao voltar e ver a obra construída e depois a grande cheia com a inundação de tantas áreas e atingindo um enorme número de pessoas? Uma tragédia anunciada? 

Todd – Tristeza e indignação. Tristeza pelo fato de tantas pessoas terem sido afetadas e muito do rio Xingu ter mudado. Indignação porque tudo o que foi dito antes da construção da barragem, todas as advertências de ambientalistas, cientistas e outros preocupados com a barragem foram comprovados.

 

Amazônia Real – Como você lida com os sentimentos de frustração quando algo que defende não consegue o êxito? Belo Monte foi construída e o Bar do Chico foi demolido. E os seus filmes fazem grande sucesso em festivais? 

Todd – “Desculpe Pelo Transtorno” foi muito bem nos festivais, embora tenha sido interrompido por causa de uma questão jurídica que está quase resolvida. Este novo filme está apenas começando a entrar nos festivais agora, mas já está indo muito bem na medida em que ganhou o Prêmio de Júri Popular no Fest CineAmazônia, ganhou o “Prêmio Thiago de Mello: Júri Popular – Troféu Esperança” no 14º. Festival CineAmazônia Latino Americano de Cinema Ambiental) e foi selecionado para competir no Colorado Environmental Film Festival nos Estados Unidos. Estamos aguardando notícias sobre mais festivais.

Quanto ao sentimento de ver duas histórias terminarem em tragédia, bem, é um sentimento horrível. Com “Desculpe Pelo Transtorno”, embora o bar tenha sido destruído, a comunidade ainda procura ser atuante e conseguiu alguns grandes feitos na sua batalha contra o município e participa ativamente no plano diretor da cidade. Ainda assim, o momento em que o bar foi destruído foi incrivelmente doloroso. Quando eu vi Belo Monte perto da conclusão, era um momento também bem doloroso. Mas, como um jornalista ou cineasta, você continua trabalhando para que a história seja contada. Ainda assim, embora trágicos, esses filmes servem também para valorizar as lutas nobres de pessoas fantásticas que lutam por um mundo mais justo e sustentável.

As histórias são trágicas, mas a inspiração que você sente conhecendo esses guerreiros e guerreiras tem um valor muito positivo. E também, o filme serve como um aviso! Na verdade, eu chamei “Depois da Inundação” de uma FERRAMENTA e não de um filme, porque este vídeo servirá para mostrar para as outras comunidades, outras cidades, em outros rios da Amazônia, o que acontece quando um projeto como este ameaça o meio de vida deles em meio a tantas promessas vazias.

 

Amazônia Real –  Nesses anos todos na Amazônia e com a experiência de mais de 30 documentários ambientais no seu currículo, o que ainda te motiva? Quais seus novos projetos? Vai fazer ou já está produzindo um filme sobre o rio Tapajós?

Todd – O que me motiva são as pessoas. Pessoas como Antônia Mello, Jailson, Raimunda, grupos como International Rivers, ISA, Movimento Xingu Vivo para Sempre, Greenpeace, Uma, Amazon Watch. Você aprende a nunca desistir, e que o está em jogo é muito importante para não desistir. Sim, você se sente derrotado, às vezes, mas quando você enxerga a Amazônia e conhece as pessoas que lá vivem, você sabe que você não pode jogar a toalha. 

Sobre novos projetos e filmes, acho que é hora de começar a mostrar as soluções. Há uma solução agora que pode nos ajudar a evitar futuras barragens na Amazônia, e as pessoas precisam saber que essas soluções energéticas existem, e a necessidade de exigir que o governo invista mais fortemente nestas soluções e não nas tecnologias antigas, ambientalmente e socialmente desastrosas. Assim, o novo documentário vai abordar este assunto, mas vamos sem dúvida mencionar Belo Monte, o Xingu e o rio Tapajós.

 

Amazônia Real – No momento, você avalia que o tema Amazônia tem menos ou mais interesse na mídia internacional? Por quê?

Todd – Quando eu apresento projetos internacionais para a mídia, ou para jornalistas no Canadá (meu país de origem), parece que há pouco interesse. O The Guardian, é claro, sempre tem uma cobertura ambiental estelar e eu acho que, em termos de mídia internacional, eles fizeram o melhor trabalho para destacar a Amazônia, mas quando se trata de outras redes e jornais, acho que deveria ser muito melhor. Por quê? Eu não sei. Eu acho que há muito acontecimento no mundo (como eu já falei), e a competição por atenção para destacar as novidades é grande. A Amazônia também está muito longe para a maioria das pessoas. Mas, eu estou sempre tentando mudar isto.

Meu sonho é colocar a Amazônia no Oscar e na boca de todo mundo. Precisamos desta floresta, não só para as pessoas que moram lá, mas o resto do mundo precisa da Amazônia. Uma em cada quatro respirações de oxigênio vem dessa floresta, e sem ela o mundo vai sofrer. Então, tem que ter muito mais notícias internacionais sobre a Amazônia. Vou continuar tentando ajudar nisso. 

Todd Southgate com o líder Raoni (Foto reprodução do Facebook)

Todd Southgate com o líder Raoni (Foto reprodução do Facebook)

Veja o trailler do filme: https://vimeo.com/180500655

Conheça a página do filme: http://www.belomonteaftertheflood.com/

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