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Da Sabedoria ao Conhecimento

15/08/2016 16:34

Antigamente, não tinha doutor… A gente se curava com Pajé, com Sacacas, com as rezas, banhos, puxação, plantas, com a terra, com a água, alimentos e com as coisas que a gente tinha. E nós tinha saúde. Na fotografia dona Nilce Aporcino – Benzedeira de Parintins (Foto: Floriano Lins)

 

FÁTIMA GUEDES

 

As trilhas para as memórias tradicionais de saúde orientam-se em vivências e convivências comunitárias das populações originárias. Por essa via, os cultivos aqui desenvolvidos – jeitos diferentes, simples, naturais de autocuidados e de cuidados com o outro e com a vida – fluem da oralidade, de vivências místicas, em princípio, refutadas na maioria de prescritos cientificistas. Em oposição a tais paradigmas instiga-se já a necessidade de rodas dialógicas com acolhimento aos de boa vontade.

A trajetória propõe ainda distinguir significantes e respectivos significados dinamicamente entrelaçados e, às vezes, conflitantes. São universos distintos cujo desbravamento confronta valores, olhares colonizantes e posições ideológicas. Assim entendido, sabedoria e conhecimento, embora congêneres, divergem em natureza semântica. Contribuições do Budismo-Zen interagem com o teçume em construção. Comprovadamente, grande parte dos cuidados de saúde da curandagem dos nativos da Amazônia alude à sabedoria oriental. A propósito, a eficácia terapêutica desafia tempo, espaço e cientificismo. Em O homem que amava as gaivotas, Osho abre o diálogo: O conhecimento é introduzido à mente após o nascimento físico. A sabedoria está sempre presente, como um coração que sabe bater, ou uma semente que sabe germinar, ou uma flor que sabe crescer, ou um peixe que sabe nadar. […] Quanto mais conhecimento alguém adquire, a sabedoria começa desaparecer porque fica encoberta pelo conhecimento. O conhecimento é exatamente como a poeira, e a sabedoria é como um espelho. A sabedoria é a porta para o divino. 

Similarmente, o Taoísmo Confucionista (Simpkins & Simpkins – 2011) defende: A sabedoria não vem da opinião, conhecimento ou aprendizado, e sim da intuição – a natureza mais profunda das coisas.

O misticismo é também relevância na sabedoria antiga. Novamente Osho contribui: O místico ama a vida, e neste amor os mistérios são abertos, véus sobre véus são removidos. Mas o mistério se aprofunda; não acaba. Portas se abrem […] não há fim para a profundidade. 

Adentrando no universo/diverso das afinidades simbólicas, a sabedoria do Pajé Sateré-Mawé, Jurimar, traça o perfil das comunidades tradicionais e a natural reciprocidade: No tempo dos antigos, todos se cuidavam e nada faltava… Todos os parentes tinham saúde e vida com fartura (silencia).  As doenças vêm das maldades, ambições, conflitos e perversidades produzidas pelos humanos entre si e entre as outras espécies – das formigas às castanheiras. Ferir a floresta, as plantas, os frutos, os rios, o ar, os bichos é violentar a nós… A natureza somos todos nós. Ela dá a vida e também a morte.

Resistindo à mercantilização da saúde e da vida, os ecos trazidos pelo Pajé ressoam entre outros grupos também conectados à sabedoria das curas.

 

I – Teçumes de Saúde Tradicional

Dona Nilce Aporcino, benzedeira de Parintins (Foto: Floriano Lins)

Dona Nilce Aporcino, benzedeira de Parintins (Foto: Floriano Lins)

O Município de Parintins, na 9ª sub-região do baixo Amazonas, com uma população estimada de 111. 575 habitantes (IBGE 2015) e uma área territorial de 5.951.200 km², concentra uma diversidade de curadores populares, em maioria, invisibilizados, mas resistindo ao memoricídio.

A história da medicina é milenar e nasce da experiência e observação das populações tradicionais, em diálogo perene com a diversidade biológica. Essas populações curavam as doenças a partir de jeitos naturais, variados e posteriormente foram incorporados e aperfeiçoados pela academia, transformando-se em referência. O termo medicina vem do latim [medicare] = “curar, sarar”. É a ciência da cura ou da prevenção das doenças cujo fundamento é o respeito à vida humana. Embora conceituada em moderna (alopática) e popular (tradicional), é uma só. Difere nos processos terapêuticos.

A medicina tradicional abriga saberes distintos das culturas oriental e ocidental.  Na presente construção dialoga-se com saberes indígena e caboco. Entre os indígenas, a figura do Pajé (médico da tribo) prioriza a prevenção nos cuidados do físico, mente e espírito via utilização de ervas da floresta e ritos espirituais. A curandagem caboca assimila saberes indígenas e acrescenta elementos e rituais diversificados da influência com outras culturas. Em exemplo: ventosa, lavagem/cristel, costurar rasgaduras

Com o surgimento e consolidação da medicina moderna fundamentada nos pensamentos de René Descartes (1596-1650) e Isaac Newton (1642-1727), surge o modelo biomédico. O novo modelo impõe novas formas de cuidados e cura: drogas laboratoriais, procedimentos cirúrgicos, aparelhos, profissionalização do conhecimento clínico, dependência hospitalocêntrica e etc. Nas reflexões do Médico, Eymard Mourão Vasconcelos, da Rede de Educação Popular e Saúde – Na tradição da biomedicina, o importante é estudar o funcionamento de cada parte do corpo humano para atacar as doenças. Seu objeto central de estudo são as doenças que passam a ser catalogadas em entidades patológicas, definidas anatômica e quimicamente.

À hegemonia da modernização científica saberes e práticas popular/tradicionais se retraem.  Menabarreto Segadilha França, médico amazonense, Mestre em Doenças Infecciosas e Parasitárias, pioneiro do Internato Rural de Medicina da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) traça o processo histórico, no Brasil: No início da colonização, a saúde brasileira fazia-se via Medicina de Folk (popular). Era o saber dos pajés para os indígenas, e das tradições de rezadores, raizeiros e religiosas, originárias da Europa, desenvolvidas como atividades filantrópicas.

Adentra no Brasil Império: Na vinda da Família Real, saberes de saúde são silenciados e praticantes perseguidos. Cria-se a Fisicatura Mor (matriz dos Conselhos de Medicina). Força-se a população rejeitar a Medicina Popular, para fortalecer os Médicos da Família Real.

Aporta na República: O País sofre interferência do Capital Internacional via Multinacionais de Medicamentos e Equipamentos. Através do Relatório Flexner, em1910, sob a égide do Grande Capital, das Corporações Médicas e das Universidades norte-americanas, a alopatia dominou a formação, principalmente do médico das universidades norte-americanas. O modelo é introduzido no Brasil a partir de 1950 estabelecendo na formação dos profissionais de saúde, principalmente do médico, o cientificismo, o individualismo, o curativismo, a hospitalização, as residências e a oposição às práticas tradicionais. Estes profissionais são formados, ou deformados, para as demandas do capital industrial de medicamentos e equipamentos, refutando com veemência a Promoção da Saúde e as relações humanas com os elementos da natureza. Atesto o surgimento de vanguardistas e oportunistas na prática utilitarista de plantas ou produtos naturais e a pseudo valorização desses produtos.

Em Pensamento Selvagem, Claude Lévi-Strauss provoca a ciência repensar posições: Em lugar, pois, de opor magia e ciência, melhor seria colocá-las em paralelo, como duas formas de conhecimento, desiguais quanto aos resultados teóricos e práticos (pois sob este ponto de vista, é verdade que a ciência se sai melhor que a magia, se bem que triunfa também algumas vezes), mas não pelo gênero de operações mentais, que ambas supõem, e que diferem menos em natureza que em função dos tipos de fenômenos a que se aplicam. Estas relações decorrem, com efeito, das condições objetivas em que surgiram o conhecimento mágico e o científico. A história deste último é bastante curta para que estejamos bem informados a seu respeito: mas o fato de a origem da ciência moderna montar, há alguns séculos, cria um problema, sobre o qual os etnólogos ainda não refletiram suficientemente.

Em acolhimento aos diálogos, o médico, amazonense, Silvano de Jesus Quintino Baraúna, sintetiza: A saúde tradicional – parte do conjunto de saberes em nossa sociedade tem por finalidade prevenir doenças, manter ou recuperar a saúde e minimizar o sofrimento humano. É preciso trabalhar paralelamente saúde oficial e saúde popular; isso implica em parceria, incorporação, adequação ao invés de confronto com a medicina oriental ou de outra origem.

 

II – Roda de Memórias

Seu Waldemar de Freitas (Foto: Floriano Lins)

Seu Waldemar de Freitas (Foto: Floriano Lins)

Contrapondo-se às trincheiras, nas periferias de Parintins onde a Saúde é ausente, parteiras, benzedores, pegadores de ossos ou consertadores de desmintiduras, costuradores de rasgaduras resistem à morte cultural.

O Pegador de Ossos ou Consertador de Dismintiduras cuida de contusões e deslocamentos de ossos. Tais nomenclaturas associam-se aos elementos constitutivos das práticas – jeitos específicos para ‘pegar o osso e consertar’. Dismintidura vem de desmeter – o osso ou o músculo deslocou, ‘saiu do lugar’. São códigos ignorados na medicina moderna e ausentes na literatura acadêmica. São exclusividades da linguística dos cabocos da região do baixo e médio Amazonas.

Uma das referências, Waldemar de Freitas, parintinense, 64 anos, se reconhece Pegador de Ossos cujo dom para entender o corpo humano e colocar no lugar certo ossos ou músculos doentes recebera ainda jovem: “Foi num jogo de bola quando machuquei um colega. Me senti culpado. Nisso, veio a iluminação. Era hora de me dedicar a esses cuidados. Daí, comecei, querendo sempre a saúde das pessoas”

Fala da indiferença do Sistema de Saúde sobre seu trabalho: “Sei da importância da minha prática para a Saúde do Município, embora não seja reconhecida. O sistema é precário” E conclui: “A doença é consequência da pobreza. Se as pessoas tivessem qualidade de vida boa teriam saúde”.

Costurar Rasgaduras é outra via de cuidado da medicina tradicional caboca.  Altina Oliveira, parintinense, 62 anos, líder da Pastoral da Criança, descobriu-se curadora ainda criança: “Minha mãe sempre me via diferente pelas coisas que eu fazia, não sabia que eu tinha o dom de curar. O que vem de berço somente nós sentimos”.

Além de benzer crianças com quebranto, adultos com depressão, dores de cabeça, costura rasgaduras: “Quando a carne rasga é preciso costurar. Da rasgadura vem a hérnia. Com a ponta dos dedos, na concentração, sentimos o problema. Daí, faço a costura. Uso resina de laranja-da-terra sobre a dor e emplasto com breu. São três dias. E recomendo ao paciente tomar chá de cidreira ou capim santo”.

Comenta sobre outros jeitos de costurar rasgadura: “Há curadores que usam um quadradinho de tecido e agulha com linha. Com orações costuram o tecido em forma de alinhavo sobre a lesão. Também são três dias. Cada dia se costura uma parte do tecido. É o tempo pra sair todo o frio e a carne volta ao normal. O paciente também deve tomar o chá”.

Altina é entusiasta da importância de sua prática no meio popular: “Nosso povo são pessoas humildes e trazem em si a tradição dos antepassados. Os primeiros habitantes de Parintins só se cuidavam com os curandeiros. Acreditavam em seus remédios, nas benzeções e se curavam de males físicos e espirituais. A necessidade faz a gente descobrir jeitos de viver, aprender uns com os outros e melhorar a vida. Saúde é isso, todo mundo se ajudando a viver bem”.

A vez e a voz das parteiras. Na singularidade, as parteiras desenvolvem seus saberes através de vivências, rezas e apoio às mulheres antes, durante e depois do parto. A maioria benze quebrantos, costura rasgaduras, conserta dismintiduras e prepara fórmulas naturais. Afirmam unânimes: “Nosso dom pra salvar vidas vem de Deus”.

Dona Maria Martins de Souza (Foto: Floriano Lins)

Dona Maria Martins de Souza (Foto: Floriano Lins)

Com a ascensão das terapias hospitalocêntricas a cesariana ganhara amplitude. Em contrapartida, as parteiras tradicionais de Parintins entram em extinção. Dentre as mais jovens, Maria Martins de Souza, 50 anos, residente na Rua Nova, 1032, Bairro São Francisco, declara: “Faz tempo não me procuram para acompanhar partos”.

In Memoriam, a Unidade Básica Tia Leó”, Bairro Djard Vieira, empresta o nome de Leonilza Gadelha de Souza. Tia Leó deixara um rico acervo. Elegeu-se parteira em si mesma. Queria viver a experiência para exercer melhor o dom: Entrei em trabalho de parto de madrugada. Não disse nada. Aí, espichei bem a rede pra prender meus braços. Me acocorei no tupé. Na hora certa, veio um puxo bem forte. A menina nasceu. Meu marido acordou com o choro, acendeu a lamparina e veio me ajudar. O resto, minha comadre, a vizinha, terminou.

Memórias de “Tia Leó” sobre cesarianas: Essa gente precisa entender que a criança só nasce na hora certa. Adiantar o parto é coisa pra ganhar dinheiro. Isso pode até prejudicar a criança, de ela não aprender bem as coisas. E sobre o ato de parir: A gente não faz o parto; a gente só ajuda a mulher. Parir é coisa das fêmeas.

Similarmente, Benzedores e Benzedeiras vão desaparecendo sutilmente. O dente de alho, o raminho de pião-roxo e/ou arruda usados nas benzeções – acervo místico da ancestralidade indígena e caboca na cura de tenúias e males psicossomáticos – sucumbem às alopatias antidepressivas. A Benzedeira Nilce Aporcino Campos, 84 anos, Rua Nova, 948, Bairro São Francisco, murmura: Ninguém mais me procura pra benzer quebranto e tirar tenúia… (silencia). Agora é só remédio, hospital e gente morrendo…. Foi só.

Em síntese, o ideário de saúde pública pressupõe o reconhecimento de outras formas de cuidados, respeito a diversidades culturais, a memórias de sabedorias tradicionais e relações sustentáveis com o meio ambiente.

 

III – Na Mira do Inédito Viável

O inédito viável é na realidade uma coisa inédita, ainda não claramente conhecida e vivida, mas sonhada, e quando se torna um “percebido destacado” pelos que pensam utopicamente esses sabem, então, que o problema não é mais um sonho, que ele pode se tornar realidade. Nita Freire

Sobre a medicina popular/tradicional experienciada na cidade de Parintins, resta o desafio – reinventar o SUS, na perspectiva do bem-viver coletivo/universal.

Dispõe a Constituição Federal Brasileira, Art. 196: A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Normatizado pelas Leis 8.080 e 8142 de 1990, o SUS propõe a democracia participativa e a justiça social.

O processo de implantação, porém, esbarra na lógica neoliberal que interfere nos princípios da universalidade, participação, humanização e equidade constantes na Legislação.  Em oposição, forças populares intervêm ao modelo para garantir o diálogo com a sociedade.  De resultado, em dezembro de 2005, a 162ª reunião ordinária do Conselho Nacional de Saúde, aprovara a Política Nacional de Práticas Integrativas e Medicinas Complementares para o Sistema Único de Saúde, através da portaria Nº 971 de 03 de maio de 2006 que reconhece apenas terapias da tradição oriental – homeopatia, acupuntura e antroposofia.

Sobre a aprovação, naquele mesmo ano, os professores Therezinha Luz e Paulo Rosenbaum declaram ao Jornal da UNICAMP: Medicina Integrativa, o nome que veio para corrigir as graves distorções induzidas, ainda que involuntariamente, pelos termos “natural” e “alternativo”. A ideia de uma ação médica integrativa está baseada no conceito desenvolvido por dois autores RESS e WEIL. O primeiro, professor do Royal College of Physicians de Londres; o segundo, fundador de um programa no ensino médico da Faculdade de Medicina do Arizona. Sugeriram um trabalho transdisciplinar que integrasse efetivamente as várias práticas terapêuticas. Tal modelo foi nomeado como medicina integrativa para, de certo modo, fundamentar outra concepção e designação para as práticas médicas comumente chamadas de complementares ou alternativas. Os benefícios de atividades médicas como homeopatia, acupuntura e antroposofia ainda são objeto de controvérsias mais passionais do que científicas.

A Portaria, no entanto, não faz referências às práticas de saúde dos povos da Amazônia. Paralelamente, da parte do Sistema de Saúde local, há acentuada acomodação no avanço do diálogo. Para o Pesquisador de plantas medicinais da Amazônia, Mestre Moacir Biondo, A vida não floresce onde o capital está presente.

Por seu turno, o médico Francisco Tussolini, ex-secretário de Saúde de Parintins, toma posição: A inclusão das práticas populares de saúde nos serviços oficiais representa, além da grande aceitação popular, avanço político, custos baixos e elevação dos níveis de saúde.

Em suma, a certeza da semeadura lateja na teimosia dos/as que não perderam a capacidade de construir inéditos viáveis.

 

Últimas Palavras

Dona Nilce Aporcino (Foto: Floriano Lins)

Dona Nilce Aporcino (Foto: Floriano Lins)

Há um universo de saberes e experiências popular/tradicionais clamando por escuta e reconhecimento. Depoimentos apontam limitações no modelo biomédico e forjam a necessidade do diálogo pela revitalização de memórias de curandagens – um viés para a reinvenção do SUS universal e participativo guiado por mudanças radicais nos modos de organização e produção da vida e do saber.

Só uma coisa é definitiva: o desafio em direção a possibilidades humanas.

 

Curador – Entre os nativos da Amazônia, o termo curador referenda os que curam doenças. O vocábulo é citado no Zen-Budismo: “Um terapeuta real é aquele que está disposto a deixar Deus trabalhar através dele – e esta é a definição de um curador real. Um curador não é um curador, mas apenas uma passagem para as forças curativas de Deus fluírem”. (Osho – Vá com Calma – vol. 2 – 1978, Editora Gente/SP – pág. 195).

Memoricídio – Designativo da ruptura histórica com a sabedoria ancestral considerada irrelevante. (Vítor M. Toledo &Narciso Barrera-Bassols – A Memória Biocultural – 2015, Editora Expressão Popular/SP – p. 12)

Ventosa – Cuidado natural aplicado no tratamento de gases acumulados e inchaço no abdome derivados de gastrite, hemorragia e problemas nervosos. Aplicação: na região afetada, coloca-se uma vela acessa sobre uma moeda e sobre esta um copo. Sem o oxigênio necessário, a vela se apaga e o copo puxa os gases acumulados.

Lavagem/Cristel – Procedimento utilizado para limpeza do intestino em casos de prisão de ventre ou desconforto intestinal. Introduz-se através do ânus um fino tubo de borracha por onde desce um preparado de ervas apropriado para esse fim.

Relatório Flexner – Abraham Flexner, educador americano contratado pelas universidades e entidades médicas para formar profissionais médicos, advogados e teólogos. Esse relatório teve uma repercussão política, institucional e social tão importante, que extrapolou os limites da medicina, com o fechamento de escolas, fusão entre elas e o fechamento de vagas. Acentuou a discriminação entre os profissionais médicos, tornando-os uma categoria reservada às média-alta e altas classes sociais; escolas médicas destinadas a negros foram fechadas e o número de alunos negros matriculados nas escolas remanescentes foi significativamente reduzido. Emília Pessoa Perez – (Coordenadora do Curso Médico – Universidade Federal de Pernambuco. Rev. Bras. Saúde Maternidade Infantil, Recife, 4 (1): 0-13, jan. / mar., 2004).

Costurar rasgaduras – Ritual da medicina tradicional usado para “costurar carne e nervos trilhados”. Rasgadura é o mesmo que hérnia.

Sair todo o frio – Para a sabedoria popular, inflamações e dores nos músculos e nas articulações resultam de frio acumulado. As terapias aplicadas às ‘rasgaduras’ e a dores das articulações  e músculos são apropriadas para ‘retirar o frio’, isto desinflamar.

Quebranto – Mal olhado

Tupé – Esteira tecida com palha de palmeira ou cipó; usado por indígenas e cabocos.

Puxo – Contração uterina do trabalho de parto.

Inédito Viável – Ver Araújo Freire, Dicionário Paulo Freire. Belo Horizonte: Autêntica, 2010, p. 223-226.

Lógica neoliberal – Privatização, liberalização e maximização dos lucros. A esse critério submetem-se as necessidades sociais. No Brasil, os pilares do neoliberalismo se firmam a partir de 1989 (governo Collor).

 

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). É também fundadora da Associação de Mulheres de Parintins e da Articulação Parintins Cidadã.

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Comentários

  1. Querida Fatima,
    questo articolo sulla medicina popolare è un documento molto importante per la cultura Brasileira in generale e Amazonense in particolare. Io credo che resterà come una pietra miliare nel panorama culturale della tua gente e per gli esempi e personaggi che descrivi in questo capitolo della medicina popolare, le risposte che da e puo dare alla gente che ha bisogno di curarsi con metodi naturali come ben descrivi in questa tua puntigliosa e precisa ricerca sul campo. Anche qui da noi, nella evoluta e tecnologica Europa ci si interessa sempre di più a questa medicina popolare-naturale, ma infelicemente si è perso ormai quasi tutto il sapere delle vecchie tradizioni, da noi non trovi quasi ormai più i personaggi che ancora trovi a Parintins e nel resto del Brasile. Io ho avuto una esperienza diretta, quando sono stato da giovane volontario in Parintins, la distorsione ad una caviglia me l’ha curata il Waldir Viana, uomo eccezionale, senza radiografie ecc. ecc. ma solo con la sua sabedoria, massaggi, e pomate. In poche ore mi ha rimesso in piedi e ho camminato quasi normalmente. Qua da noi ormai ci si affida solo a medici laureati che non fanno altro che lavoro seduti dietro ad una scrivania, ma con poco sapere e poca professione. Noi però ci salva l’eccellenza dei nostri ospedali che funzionano bene e hanno personale e reparti all’altezza delle situazioni anche le più difficili.
    Complimenti Fatima, su questo argomento dovresti farne un utile libretto. Grazie anche perchè questo tuo articolo mi ha fatto ripiombare in quei meravigliosi anni giovanili e tu eri una mia alunna alla 4° ginasio nel Colegio Nossa Sinhora do Carmo. Abraços. Mario LOMBARDI cidadào honorario de Parintins.

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