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Discurso de “Trump” brasileiro causou reação de ambientalistas na COP22

Ministro Blairo Maggi durante evento na COP 22 (Foto: MAPA)
21/11/2016 11:50

A organização Observatório do Clima comparou as declarações sobre o clima e morte no campo do ministro Blairo Maggi ao negacionismo climático expresso pelo presidente eleito dos EUA, Donald Trump. (Foto:  Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa))

 

Felipe Sakamoto e Rafaela Diedrich, do Projeto Cásper Na COP 22, para a Amazônia Real

Marrakech – A Conferência Mundial sobre o Clima, a COP22, no Marrocos, terminou à zero hora de sábado (19) quando os líderes presentes assinaram a declaração da Proclamação de Marrakech. No documento político, eles pedem aos países signatários o “grande compromisso político para combater a mudança climática, como questão de prioridade urgente”.

A Proclamação de Marrakech foi uma forma de garantir a futuros governos como de Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unido, solidariedade aos países mais vulneráveis aos impactos da mudança climática e mais compromisso com as metas de redução dos gases do efeito estufa.

Na campanha eleitoral Trump prometeu revogar as ações do presidente Barack Obama para combater o aquecimento global, como a assinatura do Acordo de Paris. O tratado estabeleceu mecanismos para que todos os países limitem o aumento da temperatura no Planeta e fortaleçam a defesa contra os impactos inevitáveis da mudança climática.

Se Trump preocupa o mundo, no Brasil o discurso do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, causou reação de organizações ambientalistas ao falar sobre a agropecuária brasileira, a violência no campo e a minimizar os efeitos das mudanças climáticas. Em eventos da delegação do governo brasileiro dos quais participou, Blairo Maggi defendeu o agronegócio, disse que os produtores mantêm a floresta preservada e ainda foi irônico com o número de ambientalistas assassinados no país.

Uma de suas declarações mais controversas foi dada no lançamento da Plataforma Biofuturo, que aconteceu no dia 16 de novembro na COP22. O ministro afirmou:

“Nós temos uma agricultura que diria, sem nenhum medo de errar, que é a agricultura mais sustentável do mundo (…). Todos os córregos, os rios do Brasil, são protegidos por uma legislação. Mas, mais que a legislação, são protegidos pela consciência dos produtores brasileiros”, disse Blairo Maggi.

 

Segundo o ministro, o custo das ações de redução de emissões previstas para as empresas do agronegócio seria entre “40 a 50 bilhões de dólares” e o setor não tem como pagar a conta.

Por suas declarações polêmicas, o ministro da Agricultura recebeu um colar batizado de “pérolas maggicas” de membros da organização Engajamundo. Ele recebeu o colar ao classificar as mortes de ativistas ambientais como “um problema de relacionamento.”

A organização brasileira que monitora a mudança climática, Observatório do Clima, entregou à delegação brasileira na COP22, chefiada pelo ministro Sarney Filho, uma carta expressando “surpresa e preocupação” com as declarações do ministro da Agricultura”.

Segundo dados do Observatório do Clima, no último ano as emissões de gases do efeito estufa aumentaram 3,5%. O Brasil se comprometeu a cortar suas emissões em 37% até 2025 e 43% até 2030 – ambos em comparação aos níveis de 2005.

O país ainda se comprometeu a zerar o desmatamento da Amazônia Legal (responsável pela maior parte das emissões de gases do efeito estufa) e a restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030.

De acordo o Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre 2004 e 2014 houve uma redução de 82% do desmatamento na Amazônia Legal, mas o crescimento voltou a ser registrado a partir de 2014. Em outubro passado, o Inpe divulgou os dados consolidados de junho de 2014 a agosto de 2015, apresentando uma alta de 24% no desmatamento da Amazônia em relação ao período anterior (junho de 2013 a agosto de 2014).

 

 

Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, que assinou à carta à delegação brasileira na COP22 junto com André Ferretti, Coordenador-Geral do OC, o Brasil está muito longe de ter uma agropecuária sustentável.

“O Brasil poderia ter apresentado os números da taxa de desmatamento anual na Amazônia durante a COP. Os dados já estão prontos e foram produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Infelizmente, são dados que devem trazer uma nova má notícia, indicando que o desmatamento está próximo ou atingiu mais de sete mil quilômetros quadrados por ano”, disse em entrevista a Amazônia Real.

 

Rittl afirmou que para o Brasil acabar com o desmatamento na Amazônia tem que tirar o Código Florestal do papel e implementá-lo. “O Código Florestal foi modificado em 2012 e continua ainda uma peça de papel e um dos instrumentos principais para sua implementação é o CAR (Cadastro Ambiental Rural), que teve os seus prazos estendidos agora para dezembro de 2017 com uma possível nova extensão para dezembro de 2018. Ou seja, aquilo que foi acordado em 2012 não foi respeitado, assim como não foram respeitados os limites de proteção de florestas do código anterior. Então o produtor no campo pode vislumbrar uma nova anistia no futuro, já que muitos estão desmatando com essa anistia, muitos anistiados em 2012 e vão anistiar de novo no futuro”, afirma.

A COP 22 terminou, mas as declarações de Maggi ficaram na história. (Foto: Jeremy Sutton Hibbert/Greenpeace)

A COP 22 terminou, mas as declarações de Maggi ficaram na história. (Foto: Jeremy Sutton Hibbert/Greenpeace)

 

O secretário-executivo do Observatório do Clima também propõe que as florestas sejam valorizadas por meio de mecanismos de pagamento por serviços ambientais. “A agricultura e a pecuária de baixo carbono são mais eficientes que o modelo tradicional e reduz as emissões e dão lucro ao produtor”, avaliou Rittl.

À Amazônia Real, a diretora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Ane Alencar, disse não ver um posicionamento claro do governo brasileiro para o combate ao desmatamento da Floresta Amazônica. Ela aponta que os cortes de recursos na área ambiental dificultam medidas mais eficientes, incluindo as ações de comando e controle, além das de fiscalização.

Outro fator ressaltado pela diretora do Ipam foi o corte de recursos na área ambiental. Ela enfatiza o esforço do Ministério do Meio Ambiente, citando como exemplo o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, criado em 2004, e que tem como objetivo reduzir, de forma contínua, o desmatamento e estabelecer uma alternativa sustentável para a região.

O plano acabou por ganhar um caráter interministerial, engajando, assim, vários setores. “O governo deve abraçar a questão do desmatamento na Amazônia como uma questão de Estado”, disse Ane Alencar.

As principais causas desta retomada da devastação da Floresta Amazônica, segundo Ane Alencar, são o desmatamento em áreas ainda não destinadas, ou seja, territórios que a titulação não é muito clara e também nas áreas privadas, que está disponível para consulta pelo Cadastro Ambiental Rural,  ferramenta que regulariza ambientalmente as propriedades rurais. “Outro ponto é a falta de fiscalização nas áreas conservadas, que estão sendo postas em risco”, destacou.

 

Violência no campo

Os ministro Blairo Maggi e Sarney Filho na COP22. (Foto: Gilberto Soares/MMA)

Os ministro Blairo Maggi e Sarney Filho na COP22. (Foto: Gilberto Soares/MMA)

Em áreas de conflitos agrários as árvores nobres são derrubadas sem trégua. (Foto: Alberto César Araújo)

Em áreas de conflitos, quem denuncia o desmatamento é morto. (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Sobre as mortes de ativistas ambientais, o ministro Blairo Maggi confirmou, durante o painel Global Landscape Forum, em Marrakech, no dia 16 de novembro, que há conflitos no campo, mas tentou minimizar os casos de assassinato.

“Nós temos conflitos, sim, no Brasil, não podemos negar. Mas eles não são dessa forma. Existem muitas brigas, muitas coisas que acontecem que são ditas, que são relacionadas a briga de terra, a briga por posse da terra, a briga por questões ambientais. Mas quando você vai no cerne da questão, você vai ver que tu tem problema de relacionamento de pessoas de determinados lugares e que não pode ser computado nesta questão.”

 

O ministro também se disse “feliz” depois de saber, pelo Observatório do Clima, que o número de mortes de ambientalistas em 2015 foi de 50 e não de 150 como ele tinha ouvido anteriormente.

Segundo o Observatório do Clima, o Brasil é o país onde mais se mata ambientalistas e cota dados da Global Witness, organização estabelecida em 1993.

“Apenas em 2015 foram 50 mortes, um terço do total mundial – em sua maioria na Amazônia brasileira. Ao afirmar [o ministro] que esses óbitos se devem a ‘problemas de relacionamento’ pode ser comparado ao negacionismo climático expresso, por vezes, pelo presidente eleito dos EUA [Donald Trump], como quando disse o aquecimento global é invenção dos chineses para tornar a indústria americana menos competitiva”, disse a carta do OC.

 

Felipe Sakamoto e Rafaela Diedrich são alunos da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero e participam do Projeto Cásper na COP 22, que é a cobertura da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas (ONU) sobre as Mudanças Climáticas no Marrocos. O projeto, que tem a parceria de 15 veículos jornalísticos do Brasil, entre eles, a agência Amazônia Real, visa inserir os estudantes na prática internacional de comunicação e jornalismo envolvendo questões de cunho ambiental e humanitário. Apoiam o projeto a Fundação Cásper Líbero, a Air Royal Maroc e a JHL Agência de Turismo. Conheça o projeto aqui.

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