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Europa, não beba e não coma produtos do apartheid Guarani, Kaiowá e Ñandeva

06/06/2017 00:28

Na fotografia, Tove (de camisa branca), Inayê e Ládio no Parlamento Europeu assistem ao trailer do filme “Martírio” (Foto: Barbara Arisi)

 

Bruxelas, junho de 2017

Há quem critique o boicote como arma contra o apartheid e o genocídio. Mas as barreiras humanitárias demonstraram em diversos momentos históricos que podem fazer a diferença nesse mundo onde cada vez mais comemos, bebemos e vestimos o que é produzido com o suor e sangue de trabalhadoras escravizadas ou sofredoras de condições humilhantes e degradantes, bem longe de nossos lugares metropolitanos. Em Bruxelas, no dia primeiro de junho, um encontro ocorreu em uma das salas do imenso prédio construído com aço, vidro e cimento que abriga o Parlamento da União Europeia e reuniu dois representantes do povo Guarani e Kaiowá com deputadas e deputados europeus e outras pessoas solidárias com a luta por sobrevivência dos povos indígenas no Brasil. Organizado pelo Unrepresented Nations and Peoples Organization (UNPO), o evento tratou sobre as violações de direitos humanos graves a que vivem submetidos os povos Guarani nas regiões do Mato Grosso do Sul e oeste do Paraná.

Diversas vezes, foi aventada a necessidade de criarmos barreiras humanitárias na União Europeia para os produtos do Mercosul, tais como a soja, o milho transgênico, a cana de açúcar e seu biocombustível e também a carne de gado, pois são importados muitas vezes manchados por violações de direitos humanos. São produtos provenientes da Faixa de Gaza brasileira, para usar o termo proposto pelo antropólogo Viveiros de Castro.

Havia me inscrito como ouvinte, mas dois dias antes do evento, Natália Carrusca, da UNPO, convidou-me para que apresentasse algo na reunião. Pedi a meus diversos colegas especialistas em povos Guarani e aos amigos Guarani com quem me comunico virtualmente que me ajudassem com informações relevantes, pedi a Nhanderu que me iluminasse para falar bem e bonito. Preparei uma apresentação sobre cosmologia Guarani, tentei mostrar o que os europeus podem e devem aprender com os povos que vivem pela bacia do rio Paraná, onde hoje se encontram as fronteiras de Paraguai, Argentina, Bolívia e Brasil e se estendem em diversas comunidades até o litoral brasileiro.

Há apenas 136 TIs Guarani demarcadas e muitas são diminutas e insuficientes para roças e vida digna, localizadas no meio do deserto da monocultura e com suas águas pulverizadas por veneno agrotóxico. Procurei explicar algo sobre o respeito Guarani por lugares da mata fechada (kaaguy poruey, em língua guarani) onde apenas os xamãs transitam sem risco de morrer, como registrou Aguirre Neira.

Mostrei mapas e dados que provam como os povos indígenas têm razão quando afirmam que, se terminarem com eles, morreremos todos, pois as TIs apresentam menor índice de desmatamento (1,11%) em relação às Unidades de Conservação federais (1,17%) e estaduais (7,01%), de acordo com dados técnicos da FUNAI (2015). Além dos índios serem os melhores protetores das florestas, ajudaram a cultivar e proliferar a riqueza e a diversidade ecológica, como aprendi com Ballée e os próprios índios. “Não possuímos a terra, é a Terra que nos pertence”, repetem e repetem os índios, mas alguns fingem não compreender.

O povo Guarani possui uma longa história de contato e trocas com os europeus. Entre eles, o violino jesuíta missioneiro que se transformou e virou rabeca, instrumento na casa de reza e é também usado para se comunicar com seus seres divinos. Infelizmente, não há nenhum período na história do Brasil no qual os povos indígenas tenham conseguido viver sem sofrer com assassinatos na luta pela sua terra originária. Tanto Tove Soevndahl Gant (divisão de direitos humanos da European External Action Service) como Emma Achilli (Front Line Defenders) externaram preocupação pelas vidas de Ládio e de Inayê, pois o Brasil é um dos países do mundo onde mais se assassinam defensores do meio ambiente e de movimentos sociais.

Achilli informou que 56 indígenas teriam sido assassinados no Brasil apenas durante 2016 e chega a 370 nos últimos 14 anos. Gant cobra que a União Europeia pressione o Brasil pois é signatária da Declaração da ONU para o direito dos povos indígenas (UNDRIP, na sigla em inglês). O governo brasileiro tem a obrigação de garantir a proteção das vidas de Ládio e Inayê.

Túmulo de Clodiodi Aquiles de Souza morto no dia 14 de junho de 2016 (Foto: Ana Mendes/Amazônia Real)

Túmulo de Clodiodi Aquiles de Souza Guarani-Kaiowá morto no dia 14 de junho de 2016 (Foto: Ana Mendes/Amazônia Real)

 

O ativista Fernando Burgés, da UNPO, tratou da impunidade institucional brasileira que possibilita a violência histórica contra os Guarani, Kaiowá e Ñandeva. E estressou a importância de possibilitar-lhes acesso a mecanismos de justiça, pois nesse momento eles se encontram alijados e distantes até mesmo do direito de lutar por seus direitos.

Por duas vezes, tive a sensação de que repetíamos a época em que as ditaduras na América Latina obrigavam a que lideranças de movimentos sociais e intelectuais de esquerda buscassem apoio no exterior para denunciar as mortes e as prisões. A primeira foi quando ouvi Ládio Veron afirmar: “Estão nos matando à bala e à caneta, estão matando meu povo. Com veneno, com balas”, disse o líder Guarani-Kaiowá cujo pai foi assassinado por pistoleiros em 2003. As palavras da professora de história para jovens de 6a a 8a série Ianyê Lopes vieram acompanhadas de lágrimas, mas ela ressaltou que muitos deles, como ela própria, tinham estudado e circulavam agora em espaços de poder acadêmico e político antes inacessíveis.

Em outro momento, a artista brasileira Inêz Oludê da Silva exilada em Bruxelas abriu sua pergunta dizendo que havia sobrevivido a dor da tortura e a três ditaduras: a do Brasil, a da Argentina e a do Chile. Porém, estava feliz de estar ali presente conosco. Suas palavras me tocaram fundo, pois também sou familiar de preso político, meu padrasto Guillermo Rallo sobreviveu 12 anos preso na Penal Libertad, no Uruguai. Aquele encontro ligava nossas vidas latino-americanas, as de Ládio, Inayê, Fernando, Inêz e a minha às de nossos colegas do Norte, às vidas de Tove, Urmas, Marisa, Xabier e Emma. Juntos, éramos mais.

O encontro me deu força. Espero que tenha dado força também aos eurodeputados dos grupos socialista, ambientalista e de esquerda que ali estiveram presentes, entre eles, Xabier Benito Ziluaga (membro da delegação para relações com o Mercosul), Urmas Paet, Francisco Assis, Marisa, Matias, Estefania Torres Martinez, Ignazio Corrao, Pier Antonio Panzeri, Ramon Tremosa-i-Balcells e Pascal Durand.

Vamos apresentar na Delegação para relações entre Mercosul e União Europeia e onde mais seja necessário a proposta de barreira humanitária, como sugerido pelo documento do evento organizado em 26 de abril pela Comissão de Direitos Humanos da UE quando outros representantes de movimentos sociais brasileiros estiveram em Bruxelas. Quem mora na Europa precisa conhecer melhor as implicações dos interesses das corporações e empresas que se aproveitam do caos político no qual vive atualmente o Brasil, com um governo dominado pela cleptocracia e que favorece a monocultura e a exploração de riquezas naturais. Na Europa e no Brasil, seguimos firmes nos remos, para tocarmos adiante a campanha de boicote e barreira humanitária aos produtos do Mercosul produzidos à custa dos direitos Guarani. Aguyeveté!

 

 

Versão em inglês.

 

Barbara Arisi é jornalista formada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e antropóloga com mestrado e doutorado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Como repórter trabalhou no jornal Zero Hora. Fez estágio doutoral como antropóloga pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. Nasceu em Porto Alegre (RS) e morou em Foz do Iguaçu (PR), Florianópolis (SC), São Paulo (SP) e Manaus (AM), Amsterdam, Maastricht e Hoorn (Holanda) e em Londres, no Reino Unido. É professora concursada pela Universidade Federal da Integração-Latino Americana, em Foz do Iguaçu (PR). É também pesquisadora visitante na Vrije Universiteit Amsterdam, onde   estuda   manejo de resíduos sólidos (plásticos e orgânicos).  Atualmente mora com a filha em Hoorn. No Brasil, trabalhou na campanha do Greenpeace Amazônia pela criação da Reserva Extrativista de Porto de Moz e da Verde para Sempre, no Pará, em 2003. Há 14 anos faz pesquisas na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, sendo que em 2006 e 2009 recebeu financiamento da Capes e do CNPq. Em 2011, produziu um diagnóstico sobre saúde no Vale do Javari para o Instituto Socioambiental (ISA) e o Centro de Trabalho Indigenista (CTI). Com a equipe de Céline Cousteau trabalha para o documentário Tribes on the Edge desde 2012. O filme deve ficar pronto em 2017.

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