Cultura

Exposição Amazônia I Os Extremos, imagens denunciam a destruição da floresta

Queimada na região de Manaquiri no Amazonas em 2015. (Foto Chico Batata/Amazônia Real)
29/03/2017 21:24

A fotografia da queimada na floresta nativa em Manacapuru captada por Chico Batata, em 2016.

 

A exposição itinerante Amazônia | Os Extremos, realizada pela Agência de Jornalismo Independente Amazônia Real, faz um alerta com imagens de fotos e vídeos sobre a destruição da Floresta Amazônica causada pelo desmatamento e pelas queimadas. Aberta ao público até o dia 6 abril na Galeria de Artes do Instituto Cultural Brasil Estados Unidos (ICBEU), no centro de Manaus, a mostra ainda incluí fotografias da escassez de água potável e de inundações nas regiões ribeirinhas, fenômenos estes provocados por eventos climáticos extremos.

A exposição faz parte da programação do debate Mudança climática e seu impacto nas populações tradicionais da Amazônia. O que esperar? realizado na semana passada com apoio do ICBEU e patrocínio da Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil. O encontro reuniu palestrantes indígenas, ribeirinhos e cientistas para dar visibilidade às questões das alterações do clima sobre o cotidiano dos moradores da floresta em situação de vulnerabilidade socioambiental. A abertura da exposição contou com as participações da cantora Djuena Tikuna, do cientista Foster Brown, da Universidade Federal do Acre, e das lideranças indígenas Davi Kopenawa Yanomami, Mayra Wapichana e Sineia Vale, os três de Roraima. 

Abertura da exposição na galeria de artes do ICBEU (Foto: Gedeon Santos Filho)

Abertura da exposição na galeria de artes do ICBEU contou com a presença de Davi Kopenawa (Foto: Gedeon Santos Filho) 

Abertura da exposição no ICBEU (Foto: Gedeon Santos Filho)

Abertura da exposição no ICBEU (Foto: Gedeon Santos Filho)

 

 

Apresentação da cantora Djuena Tikuna e do músico Diego Janatã (Foto: Gedeon Santos Filho)

Apresentação da cantora Djuena Tikuna e do músico Diego Janatã (Foto: Gedeon Santos Filho)

 

Com imagens de vídeos e 40 fotografias nos tamanhos A2 e A3+ padrão fine art, a exposição Amazônia | Os Extremos traz à memória visual estes fenômenos naturais, assim como dos impactos ambientais do desmatamento e das queimadas pelos olhares e lentes de 12 profissionais: Odair Leal (Acre), Alberto César Araújo, Chico Batata, Joel Rosa, Raphael Alves e Orlando Júnior (Amazonas), Jorge Macêdo (Roraima), Marcela Bonfim (Rondônia), Paulo Santos, do Acervo H (Pará), Ana Mendes (Maranhão), Flávio Forner, do InfoAmazônia (São Paulo) e Pablo La Rosa (Uruguai). 

A itinerância da mostra começa no dia 9 de abril, quando ela estreia no Paiol da Cultura do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), também em Manaus. A exposição da Amazônia Real já recebeu convites para estar nas galerias e espaços culturais de Novo Airão (AM), Boa Vista (RR), Curitiba (PR) e na capital paulista.

Além da exposição, o ICBEU está promovendo um bate-papo com os fotógrafos e integrantes da Amazônia Real. Nesta quinta-feira (30), as jornalistas Kátia Brasil e Elaíze Farias falam sobre o novo jornalismo independente, investigativo e empreendedor. A convidada é a jornalista e professora Mirna Feitoza, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). No próximo dia 06 de abril participam do evento os fotógrafos Chico Batata e Joel Rosa. O convidado é o repórter cinematográfico Orlando Júnior, da TV Amazonas.  

 

Galeria de arte ressignifica as imagens

Mayra Wapichana, de Roraima, esteve na abertura da exposição (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Sineia Vale, da etnia Wapichana, de Roraima, esteve na abertura da exposição (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Para o curador da exposição Amazônia| Os Extremos, o repórter-fotográfico Alberto César Araújo, a mostra também reflete o processo de transformação do fotojornalismo na Amazônia. “Ao ganhar espaço em uma galeria de arte, [a exposição] ressignifica as imagens de cada fotógrafo com seus estilos. Do trabalho já nascido autoral, como o de Raphael Alves, Marcela Bonfim, pela documentação mais clássica de Jorge Macêdo, da contundência de Joel Rosa, da perseverança de Chico Batata e Odair Leal, passando pela dedicação e a coerência de Ana Mendes, pelo olhar da experiência de Paulo Santos, da imersão de Flavio Forner e pelo arrojo de Orlando Júnior, todos ávidos por mostrar as mudanças que estamos enfrentando a cada ano com o nosso clima amazônico. Cheias recordes, secas nunca antes vistas, incêndios florestais e tanta fumaça que não conseguimos mais nos enxergar”, diz Alberto César.

“Unir todos esses olhares em um só espaço também foi um desafio. A grande maioria deles, quase todos colaboradores de primeira hora da Agência Amazônia Real, estão documentando a região há mais de duas décadas, em alguns casos há três. Por isso o comprometimento e o engajamento com as causas ambientais e sociais são inerente às suas obras”, completou o curador.

 

A relação do homem com seu ambiente

Foto de Raphael Alves

Foto de Raphael Alves

O fotógrafo Raphael Alves expõe na mostra cinco fotografias da séria “Quando as águas”, que registra o cotidiano nas comunidades ribeirinhas no período da seca no município de Manacapuru (AM), e a enchente em Manaus, em 2015. Alves diz que seu objetivo nas fotografias que faz sobre o meio ambiente na Amazônia não é passar uma mensagem, mas sim de fazer perguntas, isto é, provocar quem as ver.

“Nos últimos [trabalhos] que venho fazendo, as relações entre o ser humano, a natureza e o espaço urbano sempre estão presentes. As fotos de seca e de enchente mostram que tudo o que vai, retorna. É o caso do lixo na capital [Manaus], muitas vezes jogado nas águas, que sempre volta para as ruas e casas em períodos da enchente. Isto é, os transtornos causados à natureza retornam para nós. Mas não por vingança! É que o ser humano não percebe muitas vezes que o espaço em que vive – o espaço urbano – e cada indivíduo é parte da natureza. Ou seja, atingir a natureza é atingir a si mesmo”, disse o fotógrafo Raphael Alves, que é colaborador da agência internacional de jornalismo France-Presse. Em 2014, seu ensaio “Limites Imprecisos” recebeu o primeiro lugar no Leia X Photo Contest.

“Vejo essas relações como dinâmicas, como vias de mão dupla. Nesses extremos de grandes cheias e grandes secas cada vez mais constantes, sempre há um vestígio do ser humano, como uma pegada no leito de um rio seco: o homem deixa sua marca e a resposta é que, na próxima enchente, essa pegada desaparecerá, assim como podemos desaparecer se continuarmos a atuar de forma predatória e não simbiótica com a natureza”, completa Raphael Alves.

 

O olhar das mulheres

Seu Peó no Igarapé do Puca em Alcântara, Maranhão (Foto: Ana Mendes)

Seu Peó no Igarapé do Puca em Alcântara, Maranhão (Foto: Ana Mendes)

Entre os 12 profissionais que expõem na mostra Amazônia | Os Extremos há duas mulheres. Elas têm uma linguagem e narrativa voltadas à visibilidade dos problemas ambientais que afetam as populações tradicionais.

Ana Mendes, fotojornalista multimídia, participa da exposição com registros das populações quilombolas do Parque Indígena Tumucumaque, no rio Trombetas, em Oximiná, no Pará, e de ribeirinhos da Reserva Extrativista Tauá Mirim, em São Luís, no Maranhão. Desde 2015, Ana viaja pelas regiões Norte e Centro-Oeste, inclusive fazendo reportagens para a Amazônia Real. Ela fotografou também os povos quilombolas da região de Alcântara (MA), e foi a única profissional a documentar o conflito em que índios Guarani-Kaiowá foram feridos por arma de fogo de pistoleiros contratados por fazendeiros, em Mato Grosso do Sul, em 2016.

“Eu vivi minha primeira infância às margens do rio Madeira, balançando na canoa de um índio desaldeado que foi viver na cidade. Incipiente Porto Velho onde não nasci, mas onde minhas córneas se fizeram fortes. De lá pra cá, sempre tive a Amazônia no horizonte, é uma fidelidade de criança que carrego. Percorrer esse território e descortinar histórias lindas e por (muitas) vezes tristes é um ofício que elejo diariamente, ao lado de outras tantas pessoas de garra que me inspiram e apontam o rumo certo”, diz Ana Mendes.

Seca no rio Madeira em 2016 (Foto: Marcela Bonfim/Amazônia Real)

Seca no rio Madeira em 2016 (Foto: Marcela Bonfim/Amazônia Real)

 

A fotógrafa Marcela Bonfim dedica parte do seu trabalho em Rondônia e Mato Grosso ao projeto “(Re)conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências negras na floresta”. O trabalho é uma memória da população negra brasileira na região amazônica pouco conhecida no país. Na mostra Amazônia | Os Extremos, Marcela expõe imagens da comunidade quilombola Vila Bela do Santíssimo (MT), além dos ribeirinhos que perderam suas casas na enchente em 2015 no Distrito de Nazaré, e da seca em Porto Velho, em 2016, além dos indígenas Cinta-Larga, da Terra Indígena Roosevelt, em Rondônia, que têm o território invadido por garimpeiros. 

Para Marcela Bomfim, suas fotografias trazem um alerta para a falta de políticas públicas às populações tradicionais. “Esses povos são os maiores prejudicados quando acontecem as catástrofes ambientais. Eles sentem mais impactos do que nós que moramos nas cidades. São populações que estão à margem do contexto social e político e merecem destaque, principalmente as mulheres que ainda sofrem duplamente com o preconceito e machismo”, diz a fotógrafa, que também colabora para a Amazônia Real.

 

Solo racha e falta água

Seca do rio Negro no distrito de Cacau Pirêra, em Iranduba (Foto: Joel Rosa/Amazônia Real)

Seca do rio Negro no distrito de Cacau Pirêra, em Iranduba (Foto: Joel Rosa/Amazônia Real)

De Roraima, a exposição Amazônia | Os Extremos traz as imagens de Jorge Macêdo, que acompanhou a falta de água potável na comunidade indígena do Anzol, em Boa Vista, em 2016. Do Acre, as imagens são do repórter-fotográfico Odair Leal, que registou as populações indígenas Huni Kuin e Yanomami (AM). Do Pará, a mostra expõe a intrigante foto de um tronco queimado de uma castanheira, que nos faz refletir como é a ação devastadora do fogo sobre a Floresta Amazônica. A imagem foi registrada pelo também repórter-fotográfico Paulo Santos, fundador da agência AcervoH, que documenta as questões socioambientais, estando à frente de uma rede de colaboradores de diversas áreas que tem o propósito de documentar e difundir, com tecnologia multimídia, os processos de transformação na Panamazônia –região que abrange todos os países da América do Sul onde este bioma se estende.

O fotógrafo Joel Rosa há mais de dez anos acompanha as mudanças hidrológicas do rio Negro nas comunidades ribeirinhas do Cacau Pirêra, distrito do município amazonense de Iranduba, margeado por lagos e igarapés formados pelo rio Negro.

“Eu vejo como é complicada a situação das pessoas. Eles fazem cacimbas no leito do rio para buscar água. A situação mais séria é a busca pela água durante a seca. Eles dependem da água para beber e comer. O pescado é a fonte de vida, e some tudo nessa época”, diz.

Para fazer as fotos das crianças brincando sobre o leito rachado do rio ou os homens abrindo cacimbas em busca de água, Rosa mete o pé na lama ao ponto de ficar atolado no leito do rio seco, em 2015. “Para fotografar eu entro mesmo no rio seco, rachado, ficou com lama até o pescoço. É como se fosse uma areia movediça. Para sair preciso da ajuda dos outros. Eles me puxam, aí eu saio cheio de lama”, contou Joel Rosa.  

 

Os desmatamentos e queimadas

Castaneira sobrevive em meio a devastação causada por olarias em Cacau Pirera, em Iranduba (Foto: Alberto César Araújo/2007)

Castaneira sobrevive em meio a devastação causada por olarias em Cacau Pirera, em Iranduba (Foto: Alberto César Araújo/2007)

A maior parte das fotografias que mostra o desmatamento da Floresta Amazônica é do acervo do fotógrafo e jornalista Alberto César Araújo, também editor da agência Amazônia Real e curador da exposição. Uma delas, exposta na série “Uma Certa Amazônia”, que aborda o problema dos efeitos das mudanças climáticas, foi premiada pelo POY Latam de 2013.

Chama a atenção a fotografia do desmatamento pelo “correntão” feita em Mato Grosso. Na imagem, dois tratores conectados por grandes correntes e colocados lado a lado, em uma distância de 50 metros, “arrastam” indiscriminadamente as árvores.

“O que posso afirmar é que, em mais de 10 anos fotografando as questões ambientais, pude observar e testemunhar a destruição acelerada da floresta. O sentimento que tive ao retratar a destruição da floresta foi a tristeza, seguida da indignação. Gostaria que minhas imagens servissem como um grito de socorro da Amazônia. Pode parecer pretencioso, tamanha a dimensão, mas ao unirmos os olhares em prol dessa causa, muitos olhares, muitos gritos, acho que uma hora isso ecoa”, avalia Alberto César Araújo.

 

A seca vista pelo drone

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Orlando Júnior no controle do drone. (Foto: Bruno Kelly)

Presente na exposição Amazônia | Os Extremos, o repórter cinematográfico Orlando Júnior, que trabalha na TV Amazonas (Rede Globo), conta com fez imagens inéditas da seca com drone (veículo aéreo não tripulado e controlado remotamente) nos lagos do Piranha, em Manacapuru, e do Aleixo, em Manaus.

“Antigamente, isso só seria possível fazer utilizando um helicóptero, o que encarecia muito o orçamento. Não podemos deixar de lado as novas tecnologias”, diz.

Segundo Orlando, as primeiras imagens com drone foram feitas em outubro de 2015, quando sua equipe de reportagem foi designada para fazer uma matéria para o Jornal Hoje (Rede Globo) sobre a seca que estava acontecendo no Amazonas.

“Fomos primeiro para o Lago do Piranha, em Manacapuru, onde vários peixes estavam morrendo por conta da falta de oxigênio no rio e também pelo baixo volume d’água. Além de Manacapuru, também fomos filmar em Manaus, o Lago do Aleixo, localizado na Colônia Antônio Aleixo. Lá, eu utilizei o Drone Phanton 2 para registrar do alto e poder passar ao telespectador a dimensão da seca”, disse Orlando Júnior.

“Fiquei muito impressionado com o que vi de cima, realmente a imagem chega a comover: canoas encalhadas, casas flutuantes presas no solo rachado e até mesmo um hidroavião preso à terra seca. Detalhe é que, do alto, você consegue ver o rio Solimões passando bem na frente da entrada do lago que estava quase cem por cento seco”, conta o repórter cinematográfico”, completou.

Já na seca de 2016, Orlando Júnior viajou para Presidente Figueiredo (distante 120 km de Manaus) onde registrou, na comunidade Rumo Certo, as imagens mais impactantes em vídeos da exposição.

“Chegamos à comunidade por volta das 9 horas e, de cara, aquela cena me chamou a atenção. Eu já tinha ido outras vezes a Rumo Certo e nunca tinha visto aquilo. Lugares onde antes só era possível andar de canoa ou voadeira, agora era estrada de chão batido e apenas um pequeno córrego cruzava o lugar. Novamente usei o mesmo drone, Phanto 2, para fazer um voo rápido pelo lugar e mostrar o cemitério de árvores mortas, chamado de paliteiros, totalmente fora da água”, disse.

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Orlando Júnior no lago de Balbina. (Foto Bruno Kelly)

Orlando contou que como o lago da hidrelétrica de Balbina ficou seco, os ribeirinhos tinham que andar a pé para chegar a seus destinos. “Alguns, mais corajosos, ainda encaravam passar com as rabetas entre o pequeno córrego cheio de pedras e muitas arraias. Se encalhassem, seria preciso entrar na água e torcer para não pisar em uma delas. Esse material foi exibido no telejornal Bom Dia Brasil”, disse.

A visitação da exposição Amazônia | Os Extremos no ICBEU é de segunda à sexta-feira, das 15h às 19h. Aos sábados das 9h às 12h. A entrada é gratuita. Para escolas e universidades, as visitas guiadas pelo curador podem ser agendadas pela manhã no telefone (92) 9 82075542 (também no whatsapp).

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