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Fêmeas Memórias – Álquia Esquenta o Debate

24/11/2016 16:20

 

FÁTIMA GUEDES

 

 “(…) funciono ao tilintar da lareira a ferro e fogo.

 Até soar outono/inverno as cinzas cobrem o chão e depois do pó que seja poeira,

porque poeira sabe voar”. Joelma Maia*

 

Embora diversificados enredos e versões, as personagens são únicas e ao mesmo tempo subdivididas em múltiplas realidades similares e disfarces existenciais. No tempo certo, liberam flamejantes arquivos entre desafios por superação.  

A Protagonista, em pauta, dialoga com princípios Taoístas que reconhecem a água, a madeira, o metal, a terra e o fogo os fundamentos da vida em renovação permanente e em perfeita simbiose. Por esse olhar, o ‘fogo que lhe queima as entranhas incendeia-a rumo à dialogicidade.  

Ainda, na íntima relação com a Grande Deusa, reconhece-se herdeira da Alquimia – prática antiga dos chineses e hindus na transmutação dos metais e na cura dos males: “Essas culturas tudo faziam na presença do fogo, símbolo sagrado das transformações essenciais. Portanto, sou Álquia, parida na forja da determinação, da ousadia, em fluxo permanente”.

Álquia dá continuidade ao plano universal da existência física numa comunidade rural do Município de Parintins, no Amazonas. Em 64 anos de luta, resistência e superação prossegue determinada em defesa do bem-viver coletivo universal.

Durante nossa conversa, Álquia mantém-se desconfiada… Característica singular observada em todo o tempo de nossas trocas; certamente a zelar por fragmentos de memórias constrangedoras. Após divagar sobre política e outras questões (estratégia para atiçar sua fogueira), libera o ‘arquivo’:

“Não gosto de remexer minhas memórias; são armazenamentos cruéis. Mas, vamos lá… Com 5 anos, começam meus conflitos pelo simples fato de ser mulher, criança, vulnerável entregue aos cuidados de terceiros sem condições estruturais de me oferecer o que precisava para um desenvolvimento saudável e equilibrado. Na época, minha mãe adoecera e aqui não havia tratamento. Ficou em Fortaleza/CE, por um ano e meio. Meu pai trabalhava dobrado para atender aos quatro filhos e manter o tratamento de nossa mãe. Enquanto estava fora, confiava-me aos cuidados de minha irmã mais velha, casada, totalmente submissa ao marido. Experimentei aí o vazio existencial, a solidão de cuidados, de escuta, de colo e, na sequência, a crueldade dos abusos sexuais pelo cunhado… Naquelas circunstâncias, em pleno despertar da infância, passei a conceber o sexo como algo nojento, repulsivo cuja única função era servir aos desejos de homens e sofrer violência. A partir daí, desenvolvi rejeição e ódio por mim mesma. Disfarçava a infelicidade em pequenos gestos de rebeldia (reprimidos severamente pelos mais velhos da família e pelas autoridades da escola), em monólogos sob a luz da lua ou na beira do rio, meus confidentes prediletos. Via-me diferente das outras meninas sempre felizes, brincalhonas, sonhadoras… Sentia inveja. Esse sentimento perdurou até aos 40 anos, quando decidi ‘virar a mesa’, romper com tudo, inclusive com um casamento fodido onde se reproduziram, no leito conjugal,  por dezessete anos, estupros em série.”

(Foto: Floriano Lins/Reprodução)

(Foto: Floriano Lins/Reprodução)

Após silêncio contemplativo, Álquia respira fundo… Uma discreta lágrima se perde num rápido piscar de olhos. Recuperada, encara a interlocução, nossas motivações ideológicas e vomita a brutal violência:

“Meu pai era um cidadão sério e nos cobrava valores compatíveis – honestidade, responsabilidade, solidariedade e disciplina. Era rígido em suas posições: particularidade que dificultava aproximação e abertura. (Apesar dos prejuízos afetivos, era o jeito de demonstrar proteção e nos conduzir dignamente). Aproveitando-se do perfil austero de ‘meu velho’, o abusador alertava-me do perigo punitivo, caso descobrisse as ‘imoralidades que eu fazia com o marido de minha irmã’. Tremia de medo, ao mesmo tempo me recolhia, sujeitando-me ao sadismo do maníaco. Mesmo com o retorno de minha mãe, os abusos continuaram e avançaram até a adolescência, quando o monstro mudou com a família pra Manaus. Minha irmã, submissa e apaixonada, não percebia e eu, por vergonha e medo, silenciei. Ela ficou sabendo bem mais tarde, quando enfrentei o medo e desafiei a opressão atufalhada em minha ingênua femininidade. Talvez envergonhada, silenciou. Através de familiares mais próximos, soube que mudara o comportamento: tornara-se impositiva. Meu pai partira desta vida sem nada saber. Naquele primeiro momento, somando-se às feridas da alma, contraí um corrimento vaginal purulento e fétido que o escondi por muito tempo… Mesmo sem a devida lucidez, ligava uma coisa à outra… Na sequência, mais culpas e autocondenações. Dentre os outros atributos, meu pai zelava por nossa formação escolar: ‘é o patrimônio que posso deixar pra vocês’, insistia. Com esse propósito, com 11 anos, enfrentei um regime de internato, em Manaus, onde cursei a quarta série do antigo curso primário. Era uma realidade totalmente nova, ao mesmo tempo, estranha e adversa”.  

Álquia detalha com precisão o perfil educativo da Instituição Salesiana e os conflitos pessoais na busca de si mesma:

“O educandário abrigava mulheres de classes sociais diversas – crianças, a partir de dez anos, adolescentes e jovens, classificadas em ‘pequenas’, ‘médias’ e ‘grandes’. Cada ‘pequena’ possuía uma ‘cuidadora’ selecionada entre as ‘grandes’ pela madre diretora. Ali, também havia indígenas trazidas do alto Rio Negro que prestavam serviços domésticos (cozinha, lavação de roupas, faxina e jardinagem) em troca da escolarização oferecida pelas religiosas. Fui incluída entre as ‘pequenas’. Mirtes, jovem amável, era minha tutora. Foram difíceis as primeiras semanas de adaptação. Apesar das feridas d’alma, na sua comunidade  rural, por momentos, camuflava os dissabores e usufruía das liberdades do campo, dos banhos de rio, das brincadeiras de manja por entre as árvores, por fim, das viagens de canoa nas madrugadinhas enluaradas de verão em companhia de meu pai, durante a ordenha das vacas Era indecifrável o sabor da espumosa tipuca misturada à farinha baguda degustada em cuia preta, na beira do curral… A nova realidade impunha regras, horários rígidos, rituais religiosos, conceitos morais que, não raro, chicoteavam as chagas de meus traumas. O confinamento do internato, as proibições às manifestações de liberdade individual contribuíam positivamente para a dissolução de classes sociais entre as internas, via pactos de cumplicidades. De minha parte, fazia-me serviçal de todas – da organização de objetos pessoais a atividades escolares. Era uma ávida necessidade de sentir-me incluída e ao mesmo tempo de autopunição por todos os ‘meus pecados’ escondidos. Com o passar dos dias, Mirtes, a cuidadora, conquistara, em parte, minha confiança. A agressividade do corrimento vaginal assava-me o interior das coxas e cujo desconforto precisava esconder. Em meus íntimos diálogos, eram respostas às ‘minhas transgressões’; também era vergonhoso trazer a público tais fatos. Nesse meio tempo, ouvi cochichos entre as ‘pequenas’ sobre a menstruação de uma delas. Nova descoberta. Aí, já no limite da tolerância ao cruel incômodo, menti a Mirtes que havia menstruado. Acompanhado às instruções básicas, deu-me absorventes que, por uma semana, aliviaram as assaduras. Mantive a farsa enquanto fiquei no internato, até o final daquele ano. O incômodo do corrimento em minhas cochas minimizava, enquanto duravam os absorventes. Quando acabavam, desfazia-me de peças de roupa e improvisava forros para a calcinha. Durante as instruções, Mirtes falara das possibilidades de gravidez, caso a mulher fizesse ‘besteiras’ (linguagem dela)… Meu mundo desabou. Ela estranhou a reação… Disfarcei. (Na verdade, aprendi mascarar vergonhas e segredos relacionados à sexualidade). Diante do alerta da ‘cuidadora’ e sem informações precisas, inculquei estar grávida. A meus olhos, via a barriga crescer e meu corpo se transformando… Esse pesadelo durou até o dia em que caiu em minhas mãos um manual de orientações sexuais básicas, de uma das ‘pequenas’, que o mantinha escondido e, quando percebia a guarda religiosa livre, compartilhava com as outras. Foi um alívio indescritível eliminar aquela angústia… Terminado o ano letivo, retorno à minha comunidade, despedindo-me para sempre do internato, dadas às dificuldades financeiras de meu pai”.

              Sem rodeios, Álquia compartilha fatos de seu retorno ao lar. Segundo palavras da Protagonista, ‘pouco ou nada significara meu retorno. Era uma estranha no ninho; não encontrava brechas acolhedoras. Restava-me, revolta e solidão’. Prossegue:

            “Muita coisa havia mudado em minha cabeça. Minha família pouco representava. Além dos dramas e do nojento corrimento suportados em silêncio, cobravam-me responsabilidades domésticas. Cheguei a sentir saudades do internato. Aos treze anos, menstruo pela primeira vez. Apenas comuniquei minha mãe e fingi aceitar suas orientações. Passados uns quinze dias, aproveitei o ensejo e falei do corrimento, porém disse que apareceu depois da menstruação. Um médico que, periodicamente, passava pela comunidade, examinou-me, encarando-me silencioso como se me sondasse… Receitou-me penicilinas injetáveis, um creme vaginal e um elixir de sabor amargo preparados por ele mesmo, que deveria usar por um mês. Apeguei-me à medicação como um náufrago a uma boia perdida em pleno mar. Os dias passavam lentos, vazios de vida e de sentido… O corrimento foi se extinguindo… Só não se extinguiam a tristeza e a infelicidade reprimidas…”

                 Como quem se espelha na própria imagem, a curiosidade militante vai ao encontro de prováveis estratégias de superação desenvolvidas por Álquia após o retorno do internato:

“A Agrovila era minha casa. Nos dois anos após meu retorno, continuei os estudos ali mesmo. A professora, dedicada e competente, instigava-nos à busca do conhecimento, ‘caminho para a realização pessoal’, dizia. Tomava pra mim aquelas palavras. Até parece que conhecia minhas feridas e me oferecia o bálsamo. Dediquei-me incansavelmente aos estudos. Apesar das brigas com a matemática, decodificara sozinha, conteúdos que me servem até hoje. Elegi a Infância Brasileira a companheira inseparável na descoberta de mundos… Ledo Ivo me instigava ver a uva, a rua, o povo, a greve – esta última vi e vivi mais tarde intensamente. Lutava para ser a melhor da turma. As madrugadas eram as melhores companhias para desvendar conhecimentos. Enfim, a tímida centelha latejava despertar. No ano seguinte, meu pai me preparou para o Admissão ao Ginásio e classifique-me em segundo lugar, no Colégio N. Sra. do Carmo. Novo desafio. Deixar a vida no campo e morar na cidade. A princípio, a auto exclusão a que me impunha forçava-me ao recolhimento e a um profundo complexo de inferioridade.  A maioria das colegas advinham de famílias tradicionais abastadas cujos hábitos e vivências contrastavam com minha bagagem rural, afetiva e econômica (pouco ou nada representava naquele espaço elitizado). Na convivência, percebi que meu domínio nos conteúdos superava e esse foi o caminho da conquista de respeitabilidade por parte das ‘filhinhas de papai’. Recorriam a minha ajuda nos trabalhos escolares; disputavam-me na composição de grupos de estudo e ainda rodeavam minha carteira durante as provas. Saboreava uma discreta vaidade… Empenhava-me, cada vez mais, no estudo da Língua Portuguesa. Degustava Olavo Bilac, Machado de Assis, José de Alencar, Fernando Sabino, Érico Veríssimo… Apaixonei-me pelo Vaga-Lume de Fagundes Varela, quando me reconheci no “pobre vivente” cuja luz, embora tênue, desbrava terrores noturnos e aponta direções… Nos ‘voos’ de Fernão Capelo Gaivota, nas ‘profecias’ de Kalil Gibran, nos diálogos com o Cristo Recrucificado, de Nikos Kazantzakis, e nas lutas em defesa dos pequeninos, de Janusz KorczakQuando voltar a ser criançainiciava um processo atrevido de desconstrução biopsíquica… Enfim, tornei-me a ‘melhor da turma’, sem cultivo de vaidades.  Todo esse ‘brilho’, por breves momentos, atravessava o calabouço interior permitindo-me um leve gosto de autoestima… Nesse trajeto, concluí o curso Magistério. Aos 28 anos, casada e mãe de quatro crianças, a duras penas, fiz uma licenciatura que me permitiu ingressar no quadro de docentes do Estado”.

(Foto: Floriano Lins/Reprodução)

(Foto: Floriano Lins/Reprodução)

                Em atenção aos propósitos que me provocam a este resgate, vale perscrutar o arquivo dos amores… Sem demonstrar qualquer entusiasmo, Álquia não se intimida:

              “Sentia-me atraída por homens que me faziam elogios ou me demonstravam carinho… Era uma necessidade enorme de ser olhada, admirada, desejada… Mas, não dei muita sorte. À época, casar, ser mãe, servir ao marido e ser boa dona de casa constituía o destino irrevogável das mulheres; e ainda tinham que ser virgens… ‘Que homem ia me aceitar? Talvez algum em condições inferiores a minha’, pensava… Por essa lógica, casei. Terrível! Não o amava. Suportei a tortura por dezessete anos. A única coisa boa foram meus filhos, mesmo gerados sem amor ou planejamento. Os dogmas cristãos da herança familiar me fizeram aguentar aquele calvário. Cristalizações dogmáticas chicoteavam-me impiedosamente: “mulheres sede submissas a vossos maridos…”; “o que deus uniu o homem não separa…” Cultivei silenciosamente ficções amorosas que logo se desfaziam no realismo das impossibilidades. Porém, farsas duram pouco e a minha durara até o dia em que me apaixonei perdidamente e provei do ‘fruto proibido’. Escândalo geral na cidade! Os templos me fecharam as portas; o conservadorismo institucional condenara-me ao silêncio. Sem mais o que perder, erguera a cabeça, soltei as asas e, pela primeira vez, experimentava uma indecifrável liberdade adicionada ao sabor do primeiro prazer… Os códigos da neoinquisição já não me atingiam. Perdi o medo… Entreguei-me ao ‘escolhido’ qual um cãozinho fiel… Aproveitando-se, certamente, de minhas declaradas, carência, imaturidade e servidão, a ‘alma gêmea’ (mais uma de minhas ficções) apunhala-me dolorosamente celebrando o já anunciado climatério. Os ensaios de superação retrocederam. Senti-me uma mercadoria com tempo de validade se esgotando, haja vista, a ‘outra gozava de plena juventude e vigor… A tirania machista me atingiu de cheio: ‘Se continuar com você estarei me violentando’, argumento de descarte… (Quem sabe, até a partida, o fogo de Álquia transforme tal açoite em vaga-lumes). São cicatrizes da alma transformadas em aprendizados, acúmulos de sabedoria rumo à autonomia e altivez. Passados 64 anos, contemplo não apenas marcas do tempo físico: pontinhos escuros sobre a pele, tênues fios de prata realçando a cabeleira, desconfortos nas articulações… Pacificamente, trago também para o diálogo íntimo as indestrutíveis digitais produzidas em minha afetividade… O arbitrário acervo contribui para me libertar de suportes afetivos, de apegos doentios e de autopiedades (esta é um câncer no processo de libertação das mulheres); ainda me faz entender ‘o pó’ que sou e ao mesmo tempo solidarizar-me às categorias vulnerabilizadas do planeta – crianças, mulheres, bichos, flora, fauna, enfim, as vítimas das perversidades patriarcais e capitalistas. É isso, o fogo que me incendeia é o que me transforma para ‘ser’ e me liberta das algemas”, concluiu.

               O calor das três da tarde somado ao fogo da Personagem nos aponta uma centenária Itaubeira, preservada ali, nos fundos do quintal. Sob a frondosa ramagem, abrigo de aves diversas e bicho-preguiça, prossegue o colóquio. Antecipara a Álquia o próximo assunto… Acolhe-o sorridente. Ajeita-se no mocho, cruza as pernas com discreta elegância, dando a perceber a alegria que o assunto lhe proporciona.  É a hora em que a literatura entra em sua vida:

              “Nos tenros momentos de fuga e autodescoberta, apeguei-me à leitura e a seus personagens mais excêntricos. Depois, alimentei a fornalha nas lutas sociais e na convivência com ‘estrelas de brilho próprio’. Umas influenciaram bem mais; porém, todas muito importantes. Chegou a mim Mestre Paulo Freire com suas Pedagogias Libertadoras – do Oprimido e da Indignação. Na ocasião, era professora no Colégio Nossa Senhora do Carmo e ensaiara efetivar ali os ‘inéditos viáveis freireanos’. Em resposta, fui silenciada e afastada daquela escola pública. Aguçada a rebeldia, sorvi Karl Marx, Eduardo Galeano, José Saramago, Simone de Beauvoir, Rosa Luxemburgo, Leonardo Boff, Pablo Neruda, Gabriela Mistral, Gioconda Belle, Isabel Allende, Clarice Lispector, Cora Coralina, Dostoievsky, Máximo Gorki, Darcy Ribeiro… Ah! Sim, a Mafalda! A pequena rebelde do Argentino, Joaquim Salvador Lavado (Quino); Rita Lee também me oferecera sua ‘ovelha negra’… O movimento social tornou-se meu combustível por excelência: instiga-me perder o medo de tudo, de todos, inclusive, de tocar em minhas cicatrizes. Beauvoir me cutuca incessantemente: ‘Nada te sujeite, nada te reprime, nada te limite; a liberdade seja tua substância’. Com tanto acúmulo valoroso, nomeei a caneta e o papel outros aliados deste processo de libertação, haja vista, subjacências aparentemente esquecidas emergirem vez por outra. Trouxe-as ao debate pessoal e passei a rascunhar ideias ‘lambuzadas nos charcos da vida’ onde o patriarcado literário não se atreve sujar as botas e assumir um mea culpa. Em 2005, conheço a matriz revolucionária do matriarcado mundial onde renovo a cada dia minha chama. E para manter o equilíbrio, alimento a ‘fornalha no fluxo da ‘Sabedoria Suprema’ que a tudo irradia e transforma”.

               Agora, Álquia, é olho no olho; de mulher pra mulher… Adentro o campo das sequelas interiores – impossível negá-las, quando a catástrofe atinge os pilares da vida e espalha destruição. Recolhe-se momentaneamente e encara com tranquilidade o desafio…  

             “Não nego, são cicatrizes profundas, digitais indeléveis… Só a ‘alquimia’ consome e transforma em símbolos libertários. Essas tralhas todas alimentam os debates feministas. Também são ferramentas de acolhimento a outras que se mantêm silenciadas amargando traumas e auto rejeições… Até pouco tempo, perseguia-me complexos de inferioridade, fazia auto comparações… Viva sempre em débito com o mundo, com as pessoas… Uma necessidade incontida de agradá-las para me sentir aceita… Ridículo!… Por outro lado, lateja em mim uma mistura de perfis entrelaçados… A Álquia de 64 anos, às vezes, se descobre com doze, quinze, dezoito… (ri). Isso é gostoso, gente! Não perco a capacidade de sonhar… Velhice é perder essa capacidade. Jamais!… Reinvento-me todos os dias em Marias, Olgas, Minervas, Fridas, Margaridas, Nastácias, Giocondas, Violetas, Sevillas e Wicca, claro. Do rompimento com dogmas, regras, preconceitos, acompanho ativamente as sábias e misteriosas feiticeiras em seus voos mágicos e fogosos… Astúcia, mana! (rimos juntas). Faço minha a sabedoria das Deusas – ‘desejada, mas não possuída’. Só ‘dou’ quando quero. Aprendi a me amar; orgulho-me de mim e do que sou. Narcisismo faz bem, às vezes… Porém, não nego, vou morrer desconfiada…”.

               Tamanha nossa cumplicidade, não percebemos a Superlua... Sem pedir licença, abraça a Itaubeira e nos cumprimenta. Veio testemunhar o diálogo e se oferecer mensageira, mesmo que esperemos 18 anos por seu retorno. Há um grande número de mulheres sedentas de acolhimento, escuta e libertação… Por fim, energizadas pela mágica presença da Fêmea Luz da noite, nada mais justo deixar as despedidas por conta de Álquia:

      “O pior prejuízo ao desenvolvimento humano é a queima de etapas. É como a água que circula em tubo de borracha… Se interrompida, com o tempo, a pressão do líquido forçará ao rompimento. Em se tratando do universo humano constituído de sentimentos, emoções, vontades, razão… tal rompimento configura-se em três situações: surto, suicídio ou libertação… Felizes aquelas e aqueles que optarem pela Última. Álquia partirá Feliz!”.

Sem mais…

               Dialogar é mais que trocar informações. É empatia; importante instrumento problematizador. Nessa condução, nossa teimosia persegue rastros perdidos sobre territórios de silêncio e dor. Olhos são para ver, ouvidos para escutar e coração para acolher. O debate segue em frente.

(Foto: Floriano Lins)

(Foto: Floriano Lins)

 

Notas:

Joelma Maia – Poeta Parintinense

Grande Deusa – Na Mitologia Irlandesa, “a Deusa Mãe Terra, por sua fertilidade gera o alimento de todas as espécies, possibilitando assim a existência da vida; portanto, é a criadora dos povos. Considerando-se que a agricultura e muitas das artes estavam, a princípio, aos cuidados das mulheres, as deusas da fertilidade e das culturas precederam os deuses, e ainda mantiveram sua posição quando os deuses caíram”. (QUINTINO, CROW CLÁUDIO, A Religião da Grande Deusa)

Bem-Viver – Modelo de organização social, política e econômica alicerçado em relações de reciprocidade, convivência fraterna entre os seres vivos e profundo respeito pela Terra.

Brincadeiras de manja – Folguedo infantil; o mesmo que pega-pega.

Tipuca – (Do Tupi) O último leite extraído das tetas da vaca, grosso e gorduroso. No coloquial amazonense, o termo também faz referência ao filho caçula.

Infância Brasileira – Livro didático de conhecimentos gerais, voltado ao ensino primário.

Vaga-Lume – Referência ao personagem da poesia de Fagundes Varela, poeta brasileiro.

Itaubeira – (Do Tupi – ‘pedra-árvore’). Árvore da família das lauráceas (Mezilaurus Itauba). Madeira das mais resistentes da Amazônia, usada em construção naval.

Mocho – banco sem encosto, de assento quadrado ou redondo.

 

Leia o primeiro artigo da série: Fêmeas Memórias: Algemas silenciadas

 

Os artigos de autoria de Fátima Guedes fazem parte do Projeto – Fêmeas Memórias: Trajetórias de Mulheres Violentadas sexualmente, presas da Justiça e ex-presidiárias no município de Parintins, no Amazonas.

 

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), Guararema (SP). Sócia-fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã e atua como Militante da Marcha Mundial das Mulheres. 

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Comentários

  1. Sue Cursino disse:

    Este texto deve chegar ao maior número de mulheres possíveis! De excente qualidade, não poderia ser diferente, pois foi escrito pela Professora Fátima Guedes. Mas dou ênfase a lição reflexiva e libertadora que é compartilhada sobre ser mulher, contrastando com a realidade de quem o comportamento machista precisa ser combatido. Que a revolução seja de ambas as partes, para o bem comum e para todo o meio ambiente. Gratidão, professora.

  2. Joelma Maia disse:

    Cala-me a voz!

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