Meio Ambiente

Fumaça das queimadas provoca decretação da situação de emergência em 12 cidades do Amazonas

12/10/2015 22:12

A decisão do governador José Melo (Pros) abrange Manaus e 11 municipios do Estado. A fumaça está prejudicando os setores de turismo e navegação. O Inpe vem registrando recorde das queimadas no Amazonas desde o dia 1 de oububro. A foto do protesto contra as queimadas é do grupo ambientalista Manaus  + Verde.

 

Doze dias após as populações de Manaus e de mais 11 municípios respirarem fumaça das queimadas de florestas urbanas e rurais, o governador do Amazonas, José Melo (Pros), e o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PDSB), decidiram decretar nesta terça-feira (13/10) a situação de emergência e apresentar as ações emergenciais de prevenção às queimadas e incêndios florestais no Estado.

A medida atrasada sai após o maior especialista no monitoramento de queimadas e incêndios florestais, Alberto Setzer, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), alertar no dia 1 de outubro que a fumaça em Manaus era de queimadas concentradas a leste, ao sul e a oeste da capital e dos municípios amazonenses de Boca do Acre, Careiro, Careiro da Várzea, Manacapuru, Itacoatiara, Presidente Figueiredo e Maués.

O principal órgão ambiental do estado, o Ipaam (Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas) confundiu a população ao afirmar que “a fumaça que encobriu (a cidade) foi por conta dos ventos, a maior parte da mesma viria do oeste do Pará”. Apesar das chuvas, a fumaça persiste até o momento na região.

De acordo com a Defesa Civil Nacional, na saúda da população a fumaça das queimadas provoca reações como tosse, olhos lacrimejantes e doloridos, além de congestionamento das vias orais.

Além de atingir a saúde da população e afetar a qualidade do ar, a fumaça das queimadas está prejudicando o turismo e a visibilidade na navegação nas cidades de  Iranduba, Manacapuru e Novo Airão, região metropolitana da capital. Essas cidades amanhecem o dia sob forte nevoeiro de fumaça, o que impede passeios na floresta amazônica e viagens pelos rios. As aulas das escolas públicas foram suspensas na semana passada.

No domingo (11/10), a população resolveu protestar contra as queimadas e a fumaça, em Manaus. Cerca de 30 representantes dos movimentos ambientalistas “Manaus + Verde” e “Eu Que Plantei” levaram cartazes com a frase “Parem as queimadas” e usaram máscaras cirúrgicas no rosto contra a poluição do ar. O protesto aconteceu na Praia da Ponta Negra, área nobre da zona oeste da capital amazonense.

A resposta do governo para combater as queimadas vem motivada pelos problemas na atividade econômica e saúde.  “As queimadas estão provocando desequilíbrio econômico uma vez que estão prejudicando toda a atividade econômica, mas o grave problema é em relação às doenças recorrentes (…) Precisamos reduzir os focos de incêndio. É hora de lutarmos todos para que possamos ter durante esses três meses uma situação melhor”, afirmou o governador José Melo.

Queimadas registrada em Autazes (Foto: Chico Batata)

Queimadas registrada em Autazes (Foto: Chico Batata)

 

Um recorde histórico de queimadas em 2015

De 1º. de janeiro até esta segunda-feira (12/10), o Inpe registrou 12.013 focos de fogo (queimadas e incêndios florestais) no Amazonas. É um recorde histórico em 17 anos do programa de monitoramento do instituto.

Se o número for comparado a média anual de focos prevista no Estado do Amazonas, de 4.164 de focos, o aumento das queimadas e incêndios foi de 188% na série histórica.

O Amazonas hoje é o 5º. Estado da Amazônia Legal que mais registra focos de fogo, ficando atrás de Rondônia (com 11.358 focos). O campeão de queimadas e incêndios florestais é Mato Grosso (com 24.733), depois vem o Pará (23.665), o Maranhão (17.828) e Tocantins (13.306 focos de fogo), segundo o monitoramento do Inpe.

Conforme nota do governo do Amazonas distribuída nesta segunda-feira à imprensa, a decretação da situação de emergência em Manaus e mais 11 municípios será “em função dos efeitos climáticos, como a baixa pluviosidade (chuvas) e as queimadas”.

Em outro comunicado distribuído nesta terça-feira (13/10), o governo afirma que o decreto da situação de emergência será pelo prazo de 90 dias com abrangência sobre os municípios de Manaus, Autazes, Caapiranga, Careiro, Careiro da Várzea, Iranduba, Itacoatiara, Manacapuru, Manaquiri, Novo Airão, Presidente Figueiredo e Rio Preto da Eva. Com exceção de Caapiranga, todos os municípios alcançados pelo decreto estão na Região Metropolitana de Manaus.

A nota diz que o decreto assinado pelo governador José Melo nesta terça-feira (13/10), diz que a decisão do governo José Melo tem como base o parecer técnico elaborado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas e a Defesa Civil do Estado, considerando, entre outros fatores, “os eventos climatológicos de larga escala que teve como efeito negativo a redução significativa da precipitação pluviométrica na região Amazônica”.

Na ocasião da assinatura do decreto, o governador Melo apresentou o Plano Estratégico e as Ações Emergenciais de Prevenção e Controle às Queimadas e Incêndios Florestais, que contará com o apoio das Forças Armadas, incluindo homens do Exército. Para combater as queimadas, o governo implantou uma Sala de Situação de Controle e Monitoramento Ambiental.

A medida ocorre sete meses depois que o governador José Melo (Pros) cortou 88% do orçamento da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS) (saiba mais aqui), demitiu funcionários de cargos comissionados e extinguiu órgãos importantes que poderiam prever e monitorar as queimadas e incêndios florestais no Amazonas, como o CEUC (Centro Estadual de Unidades de Conservação) e a Unidade Gestora do Centro Estadual de Mudanças Climáticas, a Secretaria Adjunta de Compensação e a Secretaria Adjunta de Floresta.

A decretação da situação de emergência ambiental permitirá que o governo do Amazonas, após publicação do ato no Diário Oficial do Estado, contrate brigadistas, temporariamente, sem necessidade de uma concorrência pública, entre outros atos. Os investimentos previstos para as ações são em torno de R$ 5 milhões.

O Amazonas, com 62 municípios, em pelo menos 30 municípios são registrados focos de fogo. Segundo o major Clóvis Junior, a situação das queimadas se agravou devido a temperatura alta e a estiagem de chuvas. Os ventos espalham o fogo, aumentando a fumaça. “A população tem a cultura de limpar o terreno e tocar fogo nas folhas e lixo, isso provoca os incêndios e a fumaça”, disse o chefe de Operações do Corpo de Bombeiros.

Conforme disse à Amazônia Real, o Comando do Corpo de Bombeiros, na maioria dos municípios não há brigadas de bombeiros. As equipes, com apenas 12 homens, partem de Manaus para combater os incêndios nas cidades do interior.

Em entrevista à Amazônia Real, o meteorologista Gustavo Ribeiro, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) no Amazonas, alertou para o agravamento da estiagem em grande parte da Amazônia por causa do fenômeno climático El Niño, que é o aquecimento anômalo das águas superficiais e sub-superficiais na região Equatorial do Oceano Pacífico.

Ele diz que o fenômeno causa uma modificação da circulação dos ventos, dificultando a formação de nuvens em grande parte da região. “Com isso, mais radiação solar atinge a superfície terrestre e mais elevadas temperaturas do ar são registradas”, afirmou Ribeiro.

Em Manaus, segundo o meteorologista, a previsão de chuvas para o mês de outubro era abaixo da média, de 75 mm a 134 mm. Gustavo Ribeiro, do Inmet, alertou ainda que “as queimadas nas redondezas de Manaus eram a fonte de tanta fumaça na capital amazonense”, disse.

 

Floresta no entorno da BR 319 (Foto: Chico Batata)

Floresta no entorno da BR 319 (Foto: Chico Batata)

 

Estiagem vai interferir na seca dos rios

Segundo o geólogo Marco Antônio Oliveira, superintendente do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), o quadrimestre de julho a outubro de 2015 já é o período menos chuvoso na climatologia da Amazônia. Ele disse com menos chuvas do que o normal começou o processo de descida das águas (ou vazante) dos rios.

“Neste ano houve uma coincidência do período de estiagem com o evento El Niño, que causa na Amazônia um sistema atmosférico de alta pressão que impede a formação de nuvens, acentuando a baixa ocorrência de chuvas. O efeito da falta de chuvas também se refletirá no nível dos rios, cuja vazante continuará até a entrada de águas novas na bacia”, disse o geólogo.

Oliveira afirmou que o nível do rio Purus (afluente do Solimões), que banha municípios amazonenses na fronteira com o Estado do Acre, é baixo para o período. Ele disse que a situação deverá persistir até fim de outubro, início de novembro. A maior seca no rio Purus foi registrada em 1998 quando o nível chegou a 3,40 cm.

O superintendente do Serviço Geológico do Brasil afirmou que o rio Negro, em Manaus, deverá registrar também uma vazante superior a de anos passados. A seca de 2015, provavelmente, se estenderá até os meses de novembro e dezembro, diz.  A seca histórica do rio Negro foi registrada em 2010 com o nível de 13,63 cm.

“O efeito El Niño na vazante deverá atingir a região do Alto rio Negro (na fronteira com a Colômbia) com mais intensidade, pois nesta região o pico da vazante acontece no mês de fevereiro”, prevê o especialista em hidrologia dos rios da Amazônia, Marco Antônia Oliveira.

 

Fumaça encobre pelo 13o. dia a cidade de Manaus (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

Fumaça encobre pelo 13o. dia a cidade de Manaus (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

 

Fumaça encobre pelo 13o. dia a cidade de Manaus (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

Fumaça encobre pelo 13o. dia a cidade de Manaus (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

 *Esta reportagem foi atualizada às 14h30 em 13/10/2015 com a informação de que o decreto governamental de situação de emergência disponibilizará recursos na ordem de R$ 5 milhões para as ações, que receberão apoio das Forças Amadas.

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