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Hidrelétricas e o IPCC: 2 – Barragens nos relatórios e diretrizes

17/01/2017 11:28

 

PHILIP M. FEARNSIDE

O Relatório Especial do IPCC sobre Fontes Renováveis de Energia e a Mitigação da Mudança Climática [1] resumiu as suas conclusões sobre as emissões de hidrelétricas assim: “atualmente não há consenso sobre se os reservatórios são emissores líquidos ou sumidouros líquidos” ([2], p. 84). O relatório classificou as hidrelétricas como tendo metade ou menos impacto por kWh de eletricidade gerada em comparação a qualquer outra fonte, incluindo eólica e solar ([3], p. 982) (Figura 1).

Um fator que pode, em parte, explicar a conclusão do relatório que as hidrelétricas têm emissões muito baixas é a preponderância de locais temperados e boreais entre as barragens existentes. Embora o quadro-resumo indique que três valores foram usados de barragens tropicais, nenhuma das 11 fontes utilizadas no estudo de todas as zonas climáticas ([3], p. 986) parece dizer respeito a represas tropicais (Tabela 1).

 Apenas uma fonte listada diz respeito ao Brasil [4]. Esta é uma análise de ciclo de vida da hidrelétrica de Itaipu, que está localizada na fronteira entre Brasil e Paraguai e não é uma represa tropical. As estimativas de gases de efeito estufa usadas no estudo de Itaipu são os números oficiais que omitem a emissão a partir das turbinas e que subestimam as emissões de superfície do reservatório por um fator de três devido a erros matemáticos ([5]; ver também [6]).  Apenas quatro das 11 fontes utilizadas no relatório especial do IPCC são de literatura publicada com avaliação pelos pares (Tabela 1) [18].

Figura 1: Emissões medianas de ciclo de vida de diferentes fontes de eletricidade, de acordo com o Relatório Especial do IPCC sobre Fontes Renováveis de Energia e Mitigação da Mudança Climática (dados para o percentil 50% de Moomaw et al. [3], p. 982).

 

Emissões de hidrelétricas no IPCC

GRAFICO ARTIGO FEARNSIDE1

NOTAS

[1] IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). 2012. IPCC Special Report on Renewable Energy Sources and Climate Change Mitigation. Edenhofer, O., Pichs-Madruga, R., Sokona, Y., Seyboth, K., Matschoss, P., Kadner, S., Zwickel, T., Eickemeier, P., Hansen, G., Schlömer, S., von Stechow, C. (Eds.). Cambridge University Press, Cambridge, Reino Unido. 1075 p. [Disponível em: http://srren.ipcc-wg3.de/report/].

[2] Arvizu, D. & 40 outros. 2012. Technical summary, In: Edenhofer, O., Madruga, R.P., Sokona, Y., Seyboth, K., Eickemeier, P., Matschoss, P., Hansen, G., Kadner, S., Schlomer, S., Zwickel, T., von Stechow, C. (Eds.), Renewable Energy Sources and Climate Change Mitigation: Special Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change, Cambridge University Press, Cambridge, Reino Unido, p. 27-158. [Disponível em: http://www.ipcc.ch/pdf/special-reports/srren/srren_full_report.pdf].

[3] Moomaw, W., Burgherr, P., Heath, G., Lenzen, M., Nyboer, J., Verbruggen, A. 2012. Annex II: Methodology, In: Edenhofer, O., Pichs-Madruga, R., Sokona, Y., Seyboth, K., Matschoss, P., Kadner, S., Zwickel, T., Eickemeier, P., Hansen, G., Schlomer, S., von Stechow, C. (Eds.), IPCC Special Report on Renewable Energy Sources and Climate Change Mitigation. Cambridge University Press, Cambridge, Reino Unido, p. 973-1000. [Disponível em: http://www.ipcc.ch/pdf/special-reports/srren/srren_full_report.pdf].

[4] Ribeiro, F.M., da Silva, G.A. 2010. Life-cycle inventory for hydroelectric generation: a Brazilian case study. Journal of Cleaner Production 18: 44-54. doi: 10.1016/j.jclepro.2009.09.006.

[5] Pueyo, S., Fearnside, P.M. 2011. Emissões de gases de efeito estufa dos reservatórios de hidrelétricas: Implicações de uma lei de potência. Oecologia Australis 15: 114-127. doi: 10.4257/oeco.2011.1502.02

[6] Fearnside, P.M., Pueyo, S.. 2012. Underestimating greenhouse-gas emissions from tropical dams. Nature Climate Change 2: 382–384. doi: 10.1038/nclimate1540.

[7] Barnthouse, L.W., Cada, G.F., Cheng, M.D., Easterly, C.E., Kroodsma, R.L., Lee, R., Shriner, D.S., Tolbert, V.R., Turner, R.S. 1994. Estimating Externalities of the Hydro Fuel Cycles. Report 6. Oak Ridge National Laboratory, Oak Ridge, Tennessee, E.U.A. 205 p. [Disponível em: http://www.osti.gov/energycitations/servlets/purl/757384-22LKCY/webviewable/757384.pdf].

[8] Denholm, P., Kulcinski, G.L. 2004. Life cycle energy requirements and greenhouse gas emissions from large scale energy storage systems. Energy Conversion and Management 45(13-14): 2153-2172. doi:10.1016/j.enconman.2003.10.014.

[9] Dones, R., Heck, T., Bauer, C,. Hirschberg, S., Bickel, P., Preiss, P., Panis, L.I., De Vlieger, I. 2005. Externalities of Energy: Extension of Accounting Framework and Policy Applications: New Energy Technologies. ENG1-CT-2002-00609, Paul Scherrer Institute (PSI), Villigen, Suiça. 76 p. [Disponível em: http://gabe.web.psi.ch/pdfs/externe_pol/WP6_Technical_Report_Release_2.pdf].

[10] Dones, R., Bauer, C., Bolliger, R., Burger, B., Heck, T., Roder, A., Emenegger, M.F., Frischknecht, R., Jungbluth, N., Tuchschmid, M. 2007. Life Cycle Inventories of Energy Systems: Results for Current Systems in Switzerland and Other UCTE Countries. Ecoinvent Report No. 5, Paul Scherrer Institute (PSI), Swiss Centre for Life Cycle Inventories, Villigen, Suiça. 185 p. [Disponível em: http://www.ecolo.org/documents/documents_in_english/Life-cycle-analysis-PSI-05.pdf].

[11] Horvath, A. 2005. Decision-making in electricity generation based on global warming potential and life-cycle assessment for climate change. University of California Energy Institute, Berkeley, California, E.U.A. 16 p. [Disponível em: http://repositories.cdlib.org/ucei/devtech/EDT-006].

[12] IEA (International Energy Agency). 1998. Benign Energy? The Environmental Implications of Renewables. IEA, Paris, França. 128 p.

[13] Pacca, S., 2007. Impacts from decommissioning of hydroelectric dams: A life cycle perspective. Climatic Change 84: 281-294. doi 10.1007/s10584-007-9261-4.

[14] Rhodes, S., Wazlaw, J., Chaffee, C.,. Kommonen, F., Apfelbaum, S., Brown, L. 2000. A Study of the Lake Chelan Hydroelectric Project Based on Life-cycle Stressor-effects Assessment. Final Report. Scientific Certification Systems, Oakland, California, E.U.A. 193 p. [Disponível em: http://www.chelanpud.org/relicense/study/refer/4841_1.pdf].

[15] Ribeiro, F.M., da Silva, G.A. 2010. Life-cycle inventory for hydroelectric generation: a Brazilian case study. Journal of Cleaner Production 18: 44-54. doi: 10.1016/j.jclepro.2009.09.006.

[16] Vattenfall. 2008. Vattenfall AB Generation Nordic Certified Environmental Product Declaration EPD® of Electricity from Vattenfall´s Nordic Hydropower. Report No. S-P-00088, Vattenfall, Stockholm, Suécia. 50 p. [versão de 2011 disponível em: http://www.environdec.com/en/Detail/?Epd=7468#.VK1Bh5UtF1s].

[17] Zhang, Q., Karney, B., MacLean, H.L., Feng, J. 2007. Life-cycle inventory of energy use and greenhouse gas emissions for two hydropower projects in China. Journal of Infrastructure Systems 13(4): 271-279. doi: 10.1061/_ASCE_1076-0342_2007_13:4_271_.

[18] Isto é uma tradução parcial atualizada de Fearnside, P.M. 2015. Emissions from tropical hydropower and the IPCC. Environmental Science & Policy50: 225-239. http://dx.doi.org/10.1016/j.envsci.2015.03.002. As pesquisas do autor são financiadas por: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (processos nº305880/2007-1, nº304020/2010-9, nº573810/2008-7, nº575853/2008-5), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) (processo nº 708565) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) (PRJ13.03). Simone Athayde forneceu material bibliográfico. M.A. dos Santos Junior elaborou a figura.

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As fotografias que ilustram o texto são de autoria da Itaipu Binacional MD. 

Leia o primeiro artigo da série: Hidrelétricas e o IPCC

 

Philip M. Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e também coordena o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 500 publicações científicas e mais de 200 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis neste link

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