Política

Mulheres indígenas se unem para ter voz e participação em Rondônia

30/08/2017 18:15

Na entrevista, Leonice Tupari, presidente da Agir, conta como foi ocupar o espaço de liderança na tomada de decisão (Foto: Marcela Bonfim/Amazônia Real)

 

Maria Fernanda Ribeiro, especial para a Amazônia Real

Elas sentiam que suas vozes não estavam sendo escutadas. Suas demandas não alcançavam as lideranças. Seus problemas só importavam a elas mesmas. Mas o desejo de ter representatividade nas tomadas de decisões que envolvem as comunidades onde moram, uniu as mulheres indígenas de Rondônia em busca do conhecimento para transformar essa realidade. Assim surgiu, em 2015, a Associação das Mulheres Guerreiras Indígenas de Rondônia (Agir), entidade que reúne atualmente mais de 500 mulheres, de 27 diferentes terras, englobando 54 povos do estado.

Maria Leonice Tupari, 41 anos, é a presidente da Agir e conta que o movimento foi criado para que as mulheres passassem a ter voz não só dentro de suas comunidades, mas também no município, no estado, no Brasil e até internacionalmente. “Não queríamos mais ser deixadas de lado nas tomadas de decisões envolvendo nossos territórios porque as lideranças não convidavam a gente para nada.”

As mulheres ganharam força e a realidade já não é mais a mesma de dois anos atrás. O preconceito masculino ainda existe e elas são, muitas das vezes, encaradas como ameaça – mas os avanços já podem ser contabilizados. “Não somos ameaça. Nós só queremos caminhar juntas”, afirmou Leonice, que atualmente cursa graduação a distância em história pela Universidade Norte do Paraná (Unopar) e divide o seu tempo entre a aldeia onde mora com o marido, Gasodá Paiter Suruí, e a cidade de Cacoal, localizada a 479 quilômetros de Porto Velho, a capital de Rondônia.

Filha de índios da etnia Tupari, da Terra Indígena Rio Branco, no município de Alta Floresta, Leonice conversou com a Amazônia Real e contou as dificuldades e avanços desse trabalho constante que é a luta da mulher indígena para garantir o próprio espaço.

Mulheres reunidas em encontro da Agir (Foto: Agir)

Amazônia Real – Quando vocês perceberam a necessidade de criar uma associação que reunisse as mulheres indígenas de Rondônia?

Leonice Tupari – Antes de criarmos a Agir, existia outra organização, mas com o fim dela, há algum tempo, ficamos sem representatividade no estado de Rondônia. Mas como sempre tivemos mulheres que nunca abandonaram essa luta, mantivemos as articulações e continuamos a participar de encontros nacionais. Só que chegou um momento em que sentimos a necessidade de uma representatividade forte no nosso estado e que trabalhasse com as mulheres indígenas na busca do conhecimento. Isso porque a gente via cada vez mais as mulheres sumindo das reuniões; já quase não havia participação. Elas também não tinham mais interesse em nada. E somente uma organização forte seria capaz de puxar essas mulheres, de chamar a atenção delas. E sabíamos que tinha que ser um movimento que ultrapassasse somente as lideranças e que chegasse até as bases. Então, em 2015, conseguimos enfim realizar essa vontade.

 

Amazônia Real – Qual o objetivo da Agir?

Leonice – Queremos empoderar as mulheres por meio do conhecimento e queremos ter voz dentro das nossas comunidades. Antes da associação ser criada, muitas das vezes éramos deixadas de lado. As decisões sempre foram tomadas pelos homens, e eles não convidavam a gente para participar de nada e queremos não só representatividade nas nossas comunidades. Queremos ser ouvidas no município, no estado, no país e internacionalmente.

 

Amazônia Real –  Quais foram as primeiras ações da Agir?

Leonice – Precisávamos de um diagnóstico para entender o que nossas mulheres queriam. Era necessário fazer uma visita às comunidades para ouvir a base. E conseguimos visitar 16 terras indígenas e identificar os pontos principais, e hoje estamos com um trabalho firme de empoderamento por meio do conhecimento.

 

Amazônia Real – E qual foi o diagnóstico?

Leonice – O ponto principal que as mulheres questionam é o artesanato indígena. Porque, além de fazer parte da cultura, traz também fonte de renda dentro das comunidades e proporciona autonomia para elas.  Mas também há uma preocupação forte com a saúde, que está voltada para a segurança alimentar porque em muitas aldeias a comida já não é mais a tradicional. É industrializada. E elas estão muito preocupadas com isso. E também se preocupam com a gestão do território porque sem terra não é possível lutar por saúde, educação ou por qualquer outra coisa. Podemos estar em locais diferentes, mas a gente sente a mesma coisa que a outra sente.

 

Amazônia Real – Quais as consequências para as mulheres de não estarem inseridas nas tomadas de decisões?

Leonice – Nós todos, homens e mulheres, sofremos muito com os impactos da mineração nas terras indígenas e também com a presença dos madeireiros. Mas nós, mulheres, somos as mais impactadas. Isso porque, na maioria das vezes, são os homens que tomam as decisões e eles nem sempre comunicam a gente sobre o que está acontecendo, e quando vamos perceber o impacto já está lá.

A questão da prostituição dentro das comunidades, por exemplo. Os homens abrem as portas para mulheres prostitutas dentro da nossa comunidade e acontece também a prostituição das mulheres indígenas, e junto chegam as doenças. E muitos maridos largam as mulheres indígenas pelas não-indígenas e a gente fica com as crianças, com dois, quatro, sete, oito filhos para criar enquanto o homem está lá no bem-bom. E o impacto vem também porque as mulheres são artesãs, e quando você destrói o meio ambiente encontramos dificuldades em encontrar material nas áreas desmatadas e derrubadas para fazer o artesanato. Os rios ficam contaminados e somos nós que vamos atrás da água também. A violência também aumentou porque o garimpo leva a bebida, a droga e com isso surgem as violências contra as mulheres.

Leonice Tupari (Foto: Marcela Bonfim/Amazônia Real)

Amazônia Real – Há casos também de arrendamento de terra indígena?

Leonice – Arrendamento de terra também acontece muito em nosso estado, até pelos próprios índios que aprenderam o capitalismo e por pouca coisa arrenda seu pedaço de terra. E é por isso que as mulheres estão se organizando porque nós somos contra tudo isso. Então, agora, com esse empoderamento de conhecimento, mostraremos para o marido que nós vamos defender o nosso território. Essa é a nossa diferença de nós mulheres para eles. Nós mulheres pensamos no coletivo. Claro que não são todos os homens que estão envolvidos com garimpo e desmatamento porque eles também estão preocupados, mas a minoria já é capaz de trazer um grande estrago.

 

Amazônia Real – A minoria, então, é capaz de trazer um grande impacto?

Leonice – Certeza. Veja a questão da mineração, por exemplo. Por mais que seja pouca gente envolvida, os políticos estão aí de olho. E quando tem um indígena defendendo a mineração é claro que eles terão o apoio dos políticos. Enquanto que quem está lá defendendo não conta com esse mesmo apoio porque muitas das vezes o próprio governo não quer que proteja porque o que eles querem mesmo é que as portas sejam abertas para a mineração.

 

Amazônia Real – Vocês recebem apoio dos homens de alguma maneira?

Leonice –  Quando a gente criou a associação, os homens deram apoio para   gente, mas depois de alguns questionamentos nossos em relação a decisões que haviam sido tomadas, algumas lideranças viram que, diferente de antes, agora tem uma mobilização que bate de frente com eles, que diz: “Não, vocês não vão decidir sozinhos. Nós também queremos nossa participação.” Então, alguns estão se sentindo um pouco ameaçados. Não sei por que isso, porque não somos uma ameaça. O que a gente quer é igualdade e essa igualdade também está na tomada de decisões. A gente quer andar lado a lado com eles nessa luta que está aí e não queremos ser deixadas para trás. Queremos a participação das mulheres nas tomadas de decisões, principalmente no que diz respeito ao nosso território. É isso.

 

Amazônia Real –  E você já percebeu algum avanço nesses dois anos da Agir?

Leonice –  Veja você que na primeira assembleia que fizemos, em 2016, havia 40 mulheres presentes. Na assembleia desse ano já eram 100 mulheres. Isso é um grande avanço. E olha que a gente estava com pouco recurso e não conseguimos levar todas que gostariam de ter participado. O que eu sinto é que as mulheres estão começando a entender e a buscar o conhecimento.

 

Amazônia Real – E em relação aos homens nesses dois anos de associação, também houve avanços?

Leonice –  Muitos homens viram que a gente trabalha com compromisso, e passaram a ter muito respeito pela gente e passamos a ser convidadas para participar das discussões para a tomada de decisões. Eles sentem que precisamos estar juntas nessa luta. Hoje em dia é a minoria que tem preconceito com o nosso trabalho. Mas nós não somos ameaça, só pensamos no nosso coletivo. Principalmente no futuro daqueles que se sentem ameaçados. Nós só nos posicionamos contra quando a gente vê que realmente não é para ser daquele jeito. Mas se o homem toma a decisão certa, nós estamos lá para apoiá-los.

Leonice Tupari (Foto: Marcela Bonfim/Amazônia Real)

Amazônia Real –  Quais as principais dificuldades?

Leonice – Nos fortalecer na parte institucional com a capacitação das mulheres, principalmente as da coordenação. Nós mulheres indígenas ainda estamos um pouco atrasadas em relação às tecnologias. Precisamos de capacitação pra gente realmente poder aprender mais e desenvolver um trabalho melhor.

 

Amazônia Real – Ano que vem terá eleição para escolher a próxima presidente da Agir. Qual legado você quer deixar?

Leonice Tupari – Quero deixar muita coisa encaminhada para não haver retrocesso no trabalho. Gostaria de já deixar estrutura de uma sede para a Agir e começar o trabalho para formar uma rede de artesanato no estado. Não quero que o nosso trabalho retroceda nunca. Quero só que ele cresça e que as mulheres estejam cada vez mais fortalecidas para mostrar que nossa opinião é importante. Nós já ganhamos a energia das mulheres para continuar essa luta, que é uma luta que não envolve só nossos problemas locais, mas a gente está com esse retrocesso de direitos pelo governo federal. Então a gente está tentando unir forças para enfrentar esses momentos novos que estão surgindo. Hoje, nossa organização está aí funcionando e tenho muita esperança nas mulheres e confiança de que dias melhores virão, mas precisamos estar bem fortes para isso.

 

 

 Com a entrevista de Leonice Tupari, a jornalista Maria Fernanda Ribeiro começa a publicar, na agência Amazônia Real, uma série de reportagens sobre quem são as atuais lideranças femininas indígenas, ribeirinhas e quilombolas da Amazônia. Se a leitora ou o leitor quiserem sugerir uma liderança para fazer parte da série, podem escrever para o nosso endereço: redacao@amazoniareal.com.br   

 

 

Maria Fernanda Ribeiro  é jornalista, nascida em Bauru (SP), tendo trabalhado em redações de jornais, sites e revistas. Formada pela Universidade Metodista de Piracicaba, ela trabalha entre São Paulo e a Amazônia. Conhecer essa região única do mundo a partir de 2016 a fez entrevistar e compartilhar as histórias dos povos tradicionais que nela vivem. Viajou pelos estados do Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima e Pará, onde conheceu aldeias indígenas, comunidades ribeirinhas e quilombolas. Os textos produzidos durante essa jornada foram publicados no blog Eu na Floresta, do jornal “O Estado de S. Paulo”. 

 

Os textos, fotos e vídeos publicados na Amazônia Real estão licenciados com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional e podem ser republicados na mídia com os créditos dos autores e do site. 

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