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“Peixe não é gente, mas é bom para comer e pensar”

20/10/2013 21:00

JOÃO PAULO BARRETO

Em muitos aspectos, nós indígenas, seja liderança ou estudante somos conduzidos a pensar e analisar nossos conhecimentos com uma “chave” de leitura criada a partir de um conceito ocidental.

Desse modo, comigo, no mestrado não foi diferente. Embebido pela produção de verdades antropológicas construídas ao longo de décadas sobre a população rionegrina, eu acreditava que nós éramos diferentes porque considerávamos que os bichos e as plantas possuíam espírito, alma e atributos sociais. Entretanto, um exercício reflexivo que eu fiz sobre o sistema de saberes e práticas Tukano levou-me a uma conclusão um pouco diferente.

Para isso tomei o peixe como ponto de partida, na medida em que nas últimas décadas, a literatura antropológica rionegrina e, mais ainda, as informações e depoimentos dos próprios informantes dos antropólogos, asseguraram que, nas concepções tukano, “peixe é gente”, isto é, que possui status de pessoa, de humanidade.

Depois de muito investigar essa verdade, cheguei a uma conclusão muito simples e oposta a esta – que nas cosmologias Tukano, peixe não é gente. Posso dizer que houve uma compreensão bastante difusa sobre a diferença entre as categorias de wai-mahsã e wai, ou seja, numa tradução ao pé da letra, wai: peixe; mahsã: gente, assim, wai-mahsã seria “gente-peixe”.

Como se pode notar, aparentemente, a distinção parece ser autoevidente ou autoexplicativa no que diz respeito aos termos, mas tal diferença é, antes, muito mais complexa do que parece. Wai-mahsã é uma categoria de humanos tal e qual os seres humanos, mas habitam nos domínios das águas, terra, floresta e céu.

Por outro lado, para nós Tukano (e quase todos os povos do Alto Rio Negro), o peixe não é apenas um bom alimento, ele é antes “bom para pensar” (como diria Lévi-Strauss, 1962), isto é, o peixe é um elemento do “mundo natural” a partir do qual elaboramos nossas explicações sobre a origem dos humanos, além de tomá-lo como uma fonte inesgotável de doenças que deve, necessariamente passar por assepsia antes de ser alimento.

Minha experiência acadêmica, têm me dado subsídios para compreender que existe uma diferença fundamental entre os modelos de construção de conhecimento, tanto a ciência quanto o conhecimento indígena operam a partir de determinados conceitos sobre a mesma realidade.

Lançando mão da Antropologia, em termo reflexivo sobre as narrativas míticas é possível “revelar” o “Estatuto da Diferença” entre os dois modelos de conhecimentos, e o “espaço mestrado” é um bom lugar para isso.

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