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Polícia Federal pede inclusão de líder indígena Davi Yanomami em programa de proteção

O líder yanomami, Davi Kopenawa. (Foto: Hutukara)
30/07/2014 20:35

A Polícia Federal de Roraima informou nesta quarta-feira (30) que instaurou inquérito para apurar os autores de ameaças de morte contra o principal líder da etnia yanomami e que tomou medidas preventivas. Uma delas é o pedido enviado pelo órgão central da PF à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República para que Davi Kopenawa Yanomami seja incluído no Programa de Proteção de Defensores dos Direitos Humanos.

Segundo a PF, foi solicitado ao Secretário de Segurança Pública do Estado de Roraima reforço de policiamento na área da sede do Instituto Socioambiental (ISA), onde em junho passado ocorreu um assalto. A sede do ISA fica nas proximidades da sede da Hutukara Associação Yanomami (HAY), da qual Davi Kopenawa é presidente, ambas localizadas em Boa Vista, capital de Roraima.

Na segunda-feira (28) a Hutukara Associação Yanomami  divulgou nota informando que o líder indígena e outros funcionários da organização sofreram ameaças de morte e que o clima de insegurança aumentou nos últimos meses. Na nota, a Hutukara também informa a ocorrência de um assalto na sede do ISA. Um dos assaltantes, após ser preso, afirmou que ação havia sido encomendada por um garimpeiro. Fontes ouvidas pela agência Amazônia Real afirmam que após o assalto, membros da Hutukara e do ISA receberam sete avisos de que Davi Kopenawa seria assassinado.

Na nota enviada à agência Amazônia Real, a superintendência da PF em Roraima informa que considerou os “fatos narrados no ofício da HAY muito graves” e diz que o assunto foi discutido nesta quarta-feira durante reunião entre sua superintendência regional, o procurador da República Gustavo Kenner Alcântara e o secretário de Segurança Pública, Amadeu Soares. Este, segundo a nota, se comprometeu em providenciar rondas periódicas no local para garantir a segurança dos indígenas.

No documento divulgado no último dia 28, a HAY atribui as ameaças contra Davi Kopenawa à atuação do líder indígena no combate ao garimpo em território yanomami. “Este trabalho tem exposto o presidente da Hutukara, Davi Kopenawa, que nos últimos 30 anos tem  se dedicado de maneira excepcional para conseguir a demarcação da TI Yanomami, a retirada dos garimpeiros que dizimou parte significativa do seu povo no final dos anos 1990, a construção do primeiro Distrito de Saúde Indígena (DSEI) em 1992, que depois serviu de modelo para a criação dos demais 33 DSEIs no país todo, a criação de um projeto pedagógico específico para o povo Yanomami, a criação da Hutukara Associação Yanomami e a sustentabilidade da TI Yanomami”, relata a nota.

A Hutukara também diz que continua cobrando da Polícia Federal a investigação da “cadeia do ouro” no território yanomami, para que se descubra quem financia, quem compra e o destino final da atividade de garimpo.

“Infelizmente os financiadores da exploração mineral ilegal raramente são identificados e os garimpeiros presos são rapidamente soltos e retornam à atividade ilegal dentro da TI Yanomami. A Hutukara cobra do Estado Brasileiro não apenas a proteção e a vigilância do território e do povo Yanomami,  mas a integridade física do presidente da Hutukara, Davi Kopenawa”, diz o documento da HAY.

O pedido de inclusão de Davi Kopenawa no programa de proteção também deverá ser feito pela Funai (Fundação Nacional do Índio), informou a assessoria de imprensa do órgão à Amazônia Real.

Contudo, segundo a assessoria, é preciso que Davi concorde com esta demanda. “A Ouvidoria da Funai entrou em contato com a Hutukara e foi informada que o cacique Davi encontra-se em viagem. No retorno dele, a Ouvidoria da Funai vai entrar em contato para disponibilizar ao cacique informações sobre o Programa e saber se tem interesse em ser participar”, disse a assessoria.

Em sua nota enviada nesta quarta-feira, a PF afirma que o órgão, em parceria com o MPF de Roraima, sempre realizou “operações estratégicas com a finalidade de prevenção e repressão a diversos ilícitos na Terra Indígena Yanomami”.  A PF cita como exemplos as operações Baixo Rio Branco, Curaretinga, Escudo Dourado I e II e Xawara deflagradas ao longo dos últimos seis anos.

“Em todas estas operações houve prisão em flagrante de garimpeiros, destruição de balsas, apreensão de munições, armas, mercúrio, balança de precisão, rádio comunicador, gêneros alimentícios, moto-bomba, gerador, bem como, a destruição de diversos acampamentos utilizados pelos garimpeiros”, afirma a PF, destacando que o objetivo destas operações de campo é a desarticulação da atividade garimpeira dentro das reservas indígenas.

Davi Kopenawa é um dos convidados da Festa Literária de Paraty (FLIP) deste ano, no Rio de Janeiro. A FLIP começou nesta quarta-feira. A participação de Davi será nesta sexta-feira (1º).

Explosão de garimpo durante operação realizada em território yanomami. Foto: Divulgação/Funai.

Explosão de garimpo durante operação realizada em território yanomami. Foto: Divulgação/Funai.

Empresários de joalheria mantêm garimpo

A Polícia Federal também informou que no decorrer de suas investigações foram identificados cinco grupos criminosos que atuavam para manter o garimpo ilegal. Eles são formados por aviadores, empresários ligados ao ramo de joalheria e proprietários de balsas e motores para a extração do ouro.

Segundo a PF, vários aviões foram utilizados para o transporte com o fim de levar pessoas, maquinário, alimentação, mercúrio e munição para arma de fogo. Na nota, a PF cita alguns links de matérias jornalísticas com “repercussão” de suas operações e elenca uma série de objetos apreendidos na Operação Xawara, ocorrida em 2012.

“A Terra Indígena Yanomami/Ye’kuana sofre com a pressão decorrente da expansão dos assentamentos, incluindo grilagem em área de fronteira, garimpo, desmatamento, pesca e caça ilegal, além de atividades madeireiras. Ilícitos que trazem grande prejuízo às comunidades indígenas, tais como doenças, contaminação dos rios e nascentes, alcoolismo, mão de obra análoga a escrava e conflitos internos”, afirma a nota da PF.

A PF diz que as missões possuem o intuito de proteger a área de demarcação da Terra Indígena Yanomami da invasão de garimpeiros, coibir a prática de ilícitos, bem como garantir o usufruto ao meio ambiente sadio e a dignidade dos povos indígenas.

A agência Amazônia Real entrou em contato com a Funai (Fundação Nacional do Índio) para saber de que forma o órgão acompanha o assunto e que providências estaria tomando. Até a publicação desta matéria, o órgão não se pronunciou.

 

 

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