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Por que os índios migrantes escolhem entrar para tribos urbanas?

19/10/2015 14:11

RENAN ALBUQUERQUE

É menos plausível ser por autocomiseração que o migrante indígena escolhe entrar para uma tribo urbana. Parece se tratar mais de um tipo de compulsão orientada para ser aceito na cidade e pela cidade. O problema dessa estratégia de enfrentamento ao complexo de autoridade é que, a partir do instante em que o migrante étnico vê-se enredado pela insegurança crônica devido a pressões sobre sua constituição identitária, a expectativa angustiante de que algo de ruim possa acontecer a todo momento torna-se constituída em seu inconsciente. Em Inibições, Sintoma e Angústia(1) foi definida a matriz desse tipo de transtorno.

Raiz de inúmeros pavores cotidianos, a violência psicossocial experimentada no conflito com o outro urbano tende a reforçar processos desencadeadores de sofrimento mental no migrante indígena. De modo que a procura por tribos do asfalto passa a ser nada mais que a vontade de viver sendo manifesta por meio de uma rede de acolhimento e proteção. Aos indígenas, pode ser a garantia de poder estar no espaço da cidade em meio a altas turbulências relacionadas a personificação mediada pela migração aldeia-urbe.

A escolha em fazer parte de uma tribo urbana parece ser mais um sintoma oriundo de algum tipo de insalubridade corpórea e mental do que o inverso. Inicia-se primeiro o distúrbio, em grau leve, e depois o migrante tende a refletir isso nas ações cotidianas, enquanto sintoma. O complexo de autoridade dos não-indígenas ante populações étnicas é o que funciona como mecanismo desencadeador da necessidade de pertencimento a tribos. Quando s urbanos recusam o acesso do migrante étnico a seu mundo, principiam-se confrontos internos nos povos tradicionais.

O complexo de autoridade parece ser algo herdado dentre resquícios da colonização europeia na Amazônia, que hoje infelizmente compõe a essência da pessoa não apenas urbana, mas rural também no bioma. Trata-se de um mecanismo de negação à multiplicidade sociocultural, que funciona como meio indireto de se proteger frente a uma realidade tida como inaceitável e que serve de instrumental para o exercício de violência.

Descendentes de índios misturados com brancos nutrem, em graus diversos, desprezo e aversão à indianidade, tanto por não se reconhecem nela e porque pouco procuram saber sobre suas raízes consanguíneas. Na composição da realidade, o migrante indígena toma como parâmetro os objetos da cidade, os outros e as referências dos outros sobre os objetos da cidade; posteriormente, a relação do outro consigo mesmo é levada em consideração.

Ao avaliar a estranheza que possui ante os objetos de uso da cidade e a repulsa dos outros em relação a si, ele nota como os mundos material e imaterial o oprimem. Não somente as coisas lhe são estranhas e o açoitam, as pessoas também. Motivações mentais para reconhecimento e atribuição de valor a objetos e pessoas transpassam e engendram culturas e comportamentos, e vice-versa, em uma relação que pode ser objetivada ou não por indivíduos ou coletividades. No tocante a essa interface, processa-se a constituição do sujeito. Um sujeito duro, indiferente, que engole seco a cada dia acerca das coisas que lhe dizem respeito.

 

NOTAS

(1) FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e angústia. In: Obras psicológicas completas: Edição

Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

 

* Renan Albuquerque é professor e pesquisador do colegiado de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e desenvolve estudos relacionados a conflitos e impactos socioambientais entre índios waimiri-atroari, sateré-mawé, hixkaryana, junto a atingidos pela barragem de Balbina e com assentados da reforma agrária.

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