Cultura

Povos Indígenas Contemporâneos do Rio Negro, no Amazonas

12/09/2016 17:47

 

POR JUSTINO SARMENTO REZENDE  

 

Abrindo a conversa

O presente artigo apresenta algumas observações sobre manifestações e processos de construção das culturas dos povos indígenas da região do alto rio Negro, são misturas das culturas originárias, culturais ocidentais e demais culturas contemporâneas. 

Os conteúdos enraízam-se das culturas dos vinte e três povos indígenas que na atualidade organizam a vida seguindo modelos de vida originários, ocidentais e não ocidentais.

A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), fundada no dia 30 de abril de 1987, com sede na cidade de São Gabriel da Cachoeira, para buscar a união dos povos, fortalecer as políticas indígenas e lutar pela demarcação das terras, na atualmente está organizada em cinco coordenadorias[1], que reúne oitenta e sete (87) organizações de base em toda bacia do rio Negro. São cerca de 750 comunidades, onde habitam mais de quarenta mil indígenas de famílias linguísticas Tukano, Aruak, Maku e Yanomami:

  1. Coordenaria das Associações Indígenas Baniwa e Coripaco – CABC:abrange a Calha do Rio Içana e seus afluentes, habitam povos Baniwa, Coripaco, Baré, Werekena e Tariana. Cada povo fala sua língua e também Nheengatu.

 

  1. Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauareté – COIDI: abrange Calha do médio, alto Uaupés, Papuri e afluentes, habitam os povos Tukano, Kubeo, Tariano, Piratapuia, Wanano, Karapanã, Siriano, Hupda, Arapaso, Miriti-Tapuia, Tuyuka, Desana e etc. Cada povo fala sua língua e a mais falada é a Tukano.  

 

  1. Coordenadoria das Associações Indígenas do alto Rio Negro e Xié – CAIARNX:abrange Calha do alto rio Negro e Xié, habitam os povos Baré e Werekena, falam a língua Werekena e Nheengatu.

 

  1. Coordenadoria das Organizações Indígenas do Tiquié, Uaupés e Afluentes – COITUA:abrange Calha do baixo Uaupés, Tiquié e afluentes, habitam os povos Tukano, Tuyuka, Desano, Makuna, Hupda, Bará, Miriti-tapuia, Barasana e etc. Cada povo fala sua língua. A língua mais comum entre todos é a Tukano. 

 

  1. Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro – CAIMBRN:abrange as regiões dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos. Os povos que habitam a região são: Baré, Baniwa, Tukano, Werekena, Desana, Dow, Nadëb, Tuyuka, Pira-tapuia, Wanano e etc.

Além dessas cinco coordenadorias existem duas regiões que ficam à margem dessa política indígena e sua organização na região do rio Negro, Maturacá e Marauiá, do povo Yanomami. Maturacá com sua organização – AYRCA (Associação Yanomami do Rio Cauburis e afluentes) está mais ligada a HUTUKARA, Associação Yanomami de Roraima. Outra Associação Yanomami é KURIKAMA, que atinge as comunidades do rio Marauiá, rio Preto, Águas Vivas. É uma associação nova e busca estar ligada a FOIRN e em outros momentos com HUTUKARA.

Povos do Rio Negro (Foto: Ray Baniwa/Foirn)

Povos do Rio Negro (Foto: Ray Baniwa/Foirn)

 

Como descrever as culturas indígenas hoje?

 Alguns dados são de conhecimento de todos aqueles que estudam os povos dessa região. Na região do região do rio Negro habitam vinte e três povos, das quatro famílias linguísticas: Tukano, Aruak, Yanomami, Maku, como citado acima. Os povos indígenas são construtores dinâmicos das histórias, mas ao mesmo tempo participam das histórias construídas para eles por outros agentes e instituições.

 

Famílias indígenas em movimento contínuo?

É leitura muito pessoal quando eu digo que existem povos em movimento contínuo. Algumas famílias de diferentes famílias linguísticas, não permanecem por muitos anos num determinado lugar. Continuamente buscam ambientes naturais, espaços geográficos, territórios novos que lhes garantam a sustentabilidade temporária.

Tudo se torna provisório, material de trabalho, casa não tão estruturada, poucas roças, costuma-se aproximar de alguma família conhecida, parente que lhe garante mínima condição de permanência.

Quando enxergam a escassez de caça, pesca, coletas de recursos da natureza, seguem seus caminhos, abandonam onde as pessoas acreditavam que tal família fixaria sua moradia e se tornar mais uma moradora, com seus filhos para colocar na escola, etc.

Com sua mobilidade contínua está sempre recomeçando, dependendo de outras pessoas, solidariedade dos outros, roças, farinha, casa, canoa, pedaço de terra. Esses modos de vida lhes dificultam a criar uma estabilidade comunitária, de compromisso social, facilitação dos estudos dos filhos, atendimento da saúde, etc. Enfim, tornam-se pessoas conhecidas, pela forma de vida, sem compromisso continuado com a comunidade.

 

Famílias estabilizadas e as comunidades?

Muitas famílias possuem suas moradias fixas. Formam comunidades, seguem as tradições dos povos da região. Em geral vivem pessoas de um mesmo povo e em outras comunidades há mais de um povo. Vivem como irmãos maiores e menores, cunhados, primos, etc. São considerações de parentesco construções ao longo da história de cada povo.

São pessoas que vivem em seus territórios tradicionais e/ou estão dentro da compreensão de “seus territórios”, ou seja, não é forasteiro, invasor. Por isso, consideram como propriedades próprias os lugares de trabalho, matas virgens, capoeiras, regiões de pescaria, da caçaria, coleta de frutas, etc. Estando em seus territórios têm o poder de falar, discursar, tomar atitudes como donos dos espaços onde habitam e trabalham.

Muitas famílias são possuidoras de mais de uma casa, em diferentes lugares, conforme as exigências dos tempos. Possuem novos instrumentos de trabalho: raladores de mandioca, motosserras; rabetas e motores de popa para as viagens.

São pessoas que se organizam socialmente em associações ao redor de objetivos comuns, desenvolvem trabalhos que possam lhes dar um benefício individual e comunitário: criação de animais, artes, piscicultura, etc. Em geral, as comunidades são muito dependentes dos financiamentos que chegam pela participação de Organizações não Governamentais e mesmo do governo federal brasileiro. Constata-se que não há grande durabilidade, dependendo de como quem gerencia os recursos que chegam e a prestação de contas.

As comunidades estáveis facilitam ter suas próprias escolas, professores das comunidades, alunos suficientes para o funcionamento da escola, coordenadores pedagógicos, gestores e demais agentes educacionais. Um dos fatores que dificulta em muitas comunidades o funcionamento das escolas é o número reduzido de alunos.

As comunidades promovem festas próprias de suas culturas, festas que entraram com a chegada da cultura ocidental, são festas civis, sociais e religiosas.

As comunidades são conhecedoras de seus direitos e deveres de cidadãos brasileiros. Com suas lideranças estão conectadas com as lutas maiores nacionais e lutam em diferentes níveis para conquistar mais benefícios.

 

Indígenas que moram nas cidades?

Por diferentes motivações e necessidades muitas famílias indígenas dos vinte e três povos indígenas foram viver nas cidades. Essa passagem da vida de uma pequena comunidade para uma cidade exige dessas famílias necessárias e rápidas adaptações aos novos estilos de vida que os ritmos de vida da cidade lhes exigem.

No início moram com os parentes, enquanto buscam espaços para construir casa própria. Ao mesmo tempo corre atrás do trabalho (emprego) para ganhar algum dinheiro para sustentar a vida familiar.

Todas as famílias quando saem de suas comunidades e vão morar em São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro, Barcelos e Manaus correm obrigatoriamente atrás de terrenos não somente para construir a casa, mas também buscam espaços para fazer sua roça para poder tirar daí seu sustento inicial. Essa última realidade não é tão fácil de ser concretizada em Manaus, mas que é muito mais exigente para quem quer morar na cidade, deve procurar trabalho, algumas pessoas tornam-se artesãs para vender os artesanatos, tornam-se diaristas nas famílias e nas fazendas.

Alguns programas de governo federal como bolsa família e outros, parecem dar mínima condição de sustentar a família, mas ao mesmo tempo tais programas criam uma grande dependência das pessoas. Do interior das comunidades vêm receber o dinheiro na sede dos municípios, como São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro. Os agentes que entregam dinheiro chegam e ficam alguns dias, não inviabilizando o tempo dos moradores chegar em tempo de chegar na data marcada. Muitas famílias não conseguem mais retornar para os seus lugares de origem, pois o dinheiro que recebem não dá condição de adquirir comprar combustível para retorno.

Em São Gabriel da Cachoeira, por exemplo, um dia antes as pessoas formam fila e viram a noite para receber a ficha de atendimento. São humilhações visíveis e públicas. Diversas vezes foi reivindicado para criação de atendimento nos distritos como Pari-Cachoeira, Iauareté, Taracuá, Cucui, etc. Quem conhece a região sabe que é muito longe deslocar-se do rio Tiquié, do Papuri, alto Uaupés, Içana para chegar a São Gabriel da Cachoeira e retornar às suas comunidades.

Nos contextos urbanos aumentam as negações das identidades indígenas e suas culturas por parte de algumas pessoas. É uma realidade constatada que, também, nesses tipos de contextos que se fortalecem as identidades indígenas de muitas pessoas. É nesse momento que elas começam a valorizar as práticas culturais de seu povo: comidas típicas, valorização das danças indígenas, pinturas, etc.

Por exigências históricas são obrigados criar centros de culturas indígenas e escolas indígenas nas periferias das cidades. Essa última realidade acontece mais em Manaus, enquanto que na cidade de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos não existem escolas indígenas. Não de forma gratuita acontece atendimento às necessidades indígenas, são frutos de busca de concretização de políticas públicas voltadas para atendimento das populações indígenas.

 

A foto que ilustra o alto desse artigo é  de autoria de Ray Baniwa/FOIRN

* Este artigo faz parte de uma série que a Amazônia Real vai publicar a partir desta semana. A série, de autoria de Justino Sarmento Rezende, é composta por cinco textos. 

 

Justino Sarmento Rezende é indígena do povo Ʉtãpinopona-Tuyuka, nascido na aldeia Onça-Igarapé, distrito de Pari-Cachoeira, município de São Gabriel da Cachoeira (AM). É padre com formação em Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília; Bacharelado em Teologia pela Faculdade Teológica Nossa Senhora da Assunção (SP) e Mestrado em Educação pela Universidade Católica Dom Bosco (MS). Entre as atividades que atua, estão a de professor da Secretaria de Educação do Amazonas e colaborador de Licenciatura Indígena Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável.

 

 

 

 

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