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Rios voadores e a água de São Paulo 5: As lições a aprender

09/03/2015 16:35
Desmatamento da floresta amazônica em Apuí (AM). Foto: Alberto César Araújo

Desmatamento da floresta amazônica em Apuí (AM). Foto: Alberto César Araújo

amazoniaviva - philip

 

 

 

 

PHILIP M. FEARNSIDE

Fica evidente a necessidade tanto da adaptação quanto da mitigação, ou seja, a luta contra o efeito estufa. O combate às mudanças climáticas precisa acontecer de uma forma muito mais séria do que aconteceu até agora. Hoje a posição brasileira continua sendo aquela que o País propôs em Durban em 2011, ou seja, que o Brasil só aceitaria uma meta sob a Convenção de Clima, limitando as emissões nacionais, se todos os outros países do mundo fossem concordar primeiro em fazer o mesmo. É uma fórmula para não assumir nenhum compromisso vinculante [1].

Espero que os eventos atuais contribuam para estimular uma mudança, assumindo a liderança neste assunto ao invés da estratégia de ser o último para entrar no bonde. Esta mudança de posição seria fortemente de interesse nacional: o Brasil está entre os países que mais sofrerão se uma redução nas emissões globais não acontecer a tempo.

A quantificação exata do transporte de água da Amazônia para áreas como São Paulo ainda exigirá muitas pesquisas, mas o que já se sabe é suficiente para indicar a necessidade de uma mudança radical nas políticas nacionais para a Amazônia. Hoje, os planos de investimentos do governo federal na região privilegiam a infraestrutura, levando à destruição da floresta.

Uma reavaliação das prioridades nacionais levaria à revisão desses projetos considerando o desmatamento que provocam — atualmente, os estudos de impacto ambiental para licenciamento de obras só avaliam os impactos diretos da infraestrutura, omitindo os indiretos, como a atração de pecuaristas e madeireiros às vias de acesso, resultando na derrubada da floresta.

Além da revisão dos planos de investimento, a criação de áreas protegidas e o efetivo cumprimento das leis ambientais também seriam de grande importância para a manutenção dos serviços ambientais da floresta amazônica — como a biodiversidade, o estoque de carbono (que ajuda a evitar o efeito estufa) e a ciclagem de água (que inclui a provisão de água para outras áreas, como São Paulo).

O valor econômico dos serviços ambientais é a chave para que se encare a questão do desmatamento sob uma nova ótica: isso transformaria a economia amazônica, hoje baseada na derrubada da floresta, levando a um novo modelo, fundado em sua manutenção.

Usar a floresta como provedora de serviços ambientais é uma alternativa plenamente sustentável, pois as perdas decorrentes da extinção desses serviços (com o desmatamento) seriam maiores do que os ganhos que o desenvolvimento predatório atual pode trazer [2].

A questão do transporte de água da Amazônia para o centro-sul do país ilustra claramente como manter grandes áreas de floresta amazônica é de maior interesse para o Brasil. É comum ouvir, no Brasil, a opinião de que existe uma conspiração permanente para enganar o país, fazendo com que este não desmate a Amazônia — essa renúncia beneficiaria outras partes do planeta, em detrimento dos interesses brasileiros.

Manter a floresta amazônica de fato beneficiaria o resto do mundo, mas isso não altera o fato de que o maior prejudicado com perda dos serviços ambientais da floresta amazônica é o próprio Brasil. É, portanto, do interesse do Brasil usar todos os mecanismos disponíveis para prevenir a perda de floresta amazônica [3].

 

NOTAS

[1] Fearnside, P.M. 2013. What is at stake for Brazilian Amazonia in the climate negotiations.Climatic Change 118(3): 509-519. doi: 10.1007/s10584-012-0660-9

[2] Fearnside, P. M. 2008. Amazon forest maintenance as a source of environmental services. Anais da Academia Brasileira de Ciências 80(1): 101-114. doi: 10.1590/S0001-37652008000100006

[3] Atualizado e expandido a partir de Fearnside, P. M. 2004. A água de São Paulo e a floresta amazônica. Ciência Hoje 34(203): 63-65; Fearnside, P. M. 2015. A seca e o desmatamento. Ciência Hoje 55(322): 52. As pesquisas do autor são financiadas pelo Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (proc. 304020/2010-9; 573810/2008-7), pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) (proc. 708565) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) (PRJ1).

 

Leia também:

 

Philip M. Fearnside é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências. Também coordena o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia. Em 2007, foi um dos cientistas ganhadores do Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC).

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